Segurança ainda não esclareceu assassinato de Nô Pedrosa.

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O militante político Walfredo Pedrosa de Amorim, 79 anos, conhecido por Nô Pedrosa e José Márcio dos Santos, 39 anos, ambos assassinados no dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, na residência de Nô Pedrosa no bairro de Mangabeira.  

A Polícia Civil passado um mês do duplo assassinato ainda não esclareceu as circunstâncias dos crimes e quem os praticou.

Os amigos e familiares de Nô Pedrosa permanecerão lutando pelos esclarecimentos do duplo homicídio.  

  

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Ronaldo Lessa e Kátia Born são absolvidos pela justiça de acusações de envolvimento em ilícitos administrativos.

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O ex-governador e atual deputado federal Ronaldo Lessa (PDT) e a ex-prefeita de Maceió, Kátia Born (PDT) foram absolvidos de acusações feitas pelo Ministério Público Federal (MPF), no caso do deputado federal e o Ministério Público Estadual (MPE), no caso da ex-prefeita.

Os dois políticos tiveram seus sigilos bancários e fiscais quebrados, por determinação judicial e nada que os desabonasse foi encontrado, o mínimo vestígio foi detectado pelas investigações.

Ronaldo Lessa e Kátia Born foram cerca de dez anos investigado e processado e tendo os seus nomes noticiados pela mídia como se condenados fossem, bens bloqueados, as vidas devassadas.

Absolvidos, nada saiu na mídia informando o resultado dos processos e o principal: a absolvição dos dois políticos.

A sociedade do espetáculo que vivenciamos é o pior mal que podemos apontar no pós-ditadura.

As instituições do Estado brasileiro estão cada vez mais partidarizadas ou politizadas no sentido de que mais vale a versão do fato que a apuração do fato em si e, se for encontrado indícios suficientemente plausíveis que sejam abertos os procedimentos legais. Não é o que presenciamos e nesses caso muito menos isso aconteceu.

  1. A primeira absolve Katia Born de qualquer relação com o escândalo do lixo, ocorrido na gestão do ex-prefeito e atual deputado federal Cícero Almeida. Para a Justiça, não há nada que justifique a inserção de Katia no esquema que se desenrolou na gestão de seu sucessor.
  2. A segunda decisão favorável à Katia Born veio com o reconhecimento do magistrado de total ausência de provas e, principalmente, da constatação de que nada foi descoberto que demonstrasse qualquer benefício recebido por Born quando exercia o cargo de secretária estadual de saúde, no governo Ronaldo Lessa. O processo refere-se à obra de reforma e ampliação do HGE.

Vejamos a nota da ex-prefeita.

A ex-prefeita de Maceió, Katia Born, vem colecionando vitórias na Justiça, contrariando tentativas de alguns procuradores de envolvê-la em ilícitos administrativos. São duas decisões significativas, uma no final do ano passado e outra nessa quarta-feira, 10. A primeira absolve Katia Born de qualquer relação com o escândalo do lixo, ocorrido na gestão do ex-prefeito e atual deputado federal Cícero Almeida. Para a Justiça, não há nada que justifique a inserção de Katia no esquema que se desenrolou na gestão de seu sucessor.

A segunda decisão favorável à Katia Born veio com o reconhecimento do magistrado de total ausência de provas e, principalmente, da constatação de que nada foi descoberto que demonstrasse qualquer benefício recebido por Born quando exercia o cargo de secretária estadual de saúde, no governo Ronaldo Lessa. O processo refere-se à obra de reforma e ampliação do HGE.

“Acontece que inexistem nos autos provas de que a acusada tenha participado ou influenciado na elaboração da planilha do orçamento da obra encaminhada ao Ministério da Saúde para os fins do Convênio nº 46/2006 ou da planilha do orçamento estimativo que integrou o Edital da Concorrência nº 04/2006, ambos os documentos elaborados no âmbito do SERVEAL. Também não existem provas, ou sequer indícios, de que a acusada teria agido no sentido de beneficiar a empresa ARQUITEC no certame licitatório no qual esta se sagrou vencedora, primeiramente, porque não mais era Secretária de Estado ao tempo da licitação e da assinatura do respectivo contrato, depois, porque o referido procedimento teve curso no âmbito da SEINFRA/AL, e não da SESAU/AL (cf. fls. 40-94 do ICP, Apenso 01)”, diz a decisão da Justiça.

O magistrado que julgou o caso é taxativo em relação a Katia Born: “… diante da insuficiência de provas nos autos, até mesmo no que tange à sua evolução patrimonial e movimentações financeiras, conforme documentos angariados a partir da quebra dos seus sigilos fiscal e bancário (cf. fls. 1606-1619 e mídia de fl. 3237, pasta “mídias”, arquivos “AP_913_Volume_07_Fl._1362_CD.iso” e “AP_913_Volume_13_Fl._2821_CD.iso”), nos quais não se verificou qualquer anormalidade passível de registro, ao contrário do que alegado de forma genérica pela acusação ao dizer que tais provas “demonstram movimentação financeira e patrimônio incompatível com a situação financeira dos réus e salários recebidos, sendo mais um elemento a demonstrar as condutas criminosas”.

Katia vem recebendo essas decisões com naturalidade.

“Sempre tive a certeza que a verdade iria prevalecer. Entrei e saí da prefeitura de Maceió e de todas as funções públicas que exerci sem nunca me beneficiar do dinheiro público. Posso andar de cabeça erguida, vivo do meu trabalho, com as mesmas dificuldades em pagar contas que qualquer cidadão honesto deste país”, declarou. Para Born, vasculharam a vida dela para fornecerem, finalmente, um atestado de idoneidade que todo político deve ter.

Nessa época de demonização dos políticos, muitas vezes respaldada por atos inescrupulosos praticados por muitos deles, é necessário reconhecer que há exceções e publicar decisões que inocentam muitos que, à época das denuncias, tiveram seus nomes e carreiras políticas expostas e execradas, mas que ao serem inocentados tenham direito a mesma publicidade.

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As ruas de Maceió

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O cantor e compositor Domingos Annunziato Litrento (1938-2012), conhecido como Roberto Beckér, nasceu em Maceió no dia 13 de outubro de 1938 e morreu em 1º de abril de 2012, em Aracaju. Ao iniciar a carreira como cantor, na década de cinquenta, adotou o nome artístico de Roberto Beckér.

          Beckér compôs e gravou centenas de músicas, fez sucesso em Alagoas e fora do estado. A sua obra musical tem dezenas de composições dedicadas a Maceió, a personagens históricos, mas uma música em particular foi dedicada às ruas de Maceió.

          Os vereadores, durante muitas décadas, se encarregaram de mudar os nomes das ruas, para render homenagens aos barões, conselheiros, senadores, presidentes de província e militares.

          Já o vereador Enio Lins (PCdoB), em 1990, fez o caminho inverso: apresentou um projeto de lei para que fossem devolvidos os nomes originais das ruas de Maceió.

           O projeto foi aprovado pela Câmara e hoje é a Lei nº 3.998, de 7 de agosto de 1990. Desta maneira Enio Lins conseguiu devolver à cidade a beleza e o encanto dos nomes originais das ruas, preservando a memória de cada morador ou de quem um dia visitou ou residiu na cidade.  

           Os nomes com que Roberto Beckér havia feito uma ironia fina na letra da sua canção, “As Ruas de Maceió”, regravada por Eliezer Setton, foram talvez um prenúncio do primeiro projeto de lei do vereador comunista.

            A Rua Barão de Penedo voltou a chamar-se Rua Nova; a Rua João Pessoa, Rua do Sol; a Ladislau Neto, Rua Augusta; a Conselheiro Lourenço de Albuquerque, Rua Boa Vista; a Melo Moraes, Rua do Apolo; a Cincinato Pinto, Rua do Macena; a Senador Mendonça, Rua do Livramento; e a Tibúrcio Valeriano voltou a ser o Beco São José. Já em Jaraguá, a praça General Lavenère Wanderley foi rebatizada como Praça dos Dois Leões.

             O Beco São José liga as ruas do Macena, Boa Vista, do Comércio e do Sol. Naquele corredor residiu a nobreza de Maceió, bem como Salomão Setton Neto, cantor, comerciante e o mais longevo Rei Momo da cidade, pai do cantor e compositor Eliezer Setton.    

             No momento em que esses laços afetivos vão sendo desatados, as perdas simbólicas se acumulam. Os nomes daqueles figurões imperiais ou republicanos não são elos capazes de estabelecer ligação com a memória da cidade e das gerações passadas, com a presente e menos ainda com as futuras.

             O Centro de Maceió merece ser requalificado e restaurado, para que assim as suas histórias possam ser escritas e reescritas, contadas e cantadas com a música do Roberto Beckér.

 

 

Ruas de Maceió

Roberto Becker

  

Cada rua da cidade
Devia ter um nome só
Mas aqui é diferente
São coisas de Maceió

Primeiro de Março é Moreira Lima
Parque Rodolfo Lins é Praça do Pirulito
Eu tenho dito a muita gente boa
Que a Rua do Sol também se chama João Pessoa*

Rua da Alegria é Joaquim Távora
Rua do sopapo é Miguel Omena
Tem gente que tem pena, mas acha correto
A rua Augusta ter o nome de Ladislau Neto

Cada rua da cidade...

Avenida da Paz é Duque de Caxias
Silvestre Péricles é rua formosa
Parece prosa e já é demais
A rua do Apolo ser Melo Morais

Rua do livramento é senador Mendonça
Barão de Penedo é a Rua Nova
Taí a prova veja como é
Tibúrcio Valeriano é o Beco São José.

 

 

 

 

 

 

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Robson Amaral Amorim, música e boemia

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Robson Amaral Amorim (1948), músico e compositor. Nasceu em Recife no dia 13 de novembro de 1948. Filho de Aderson Evaristo Amorim e Diva Amaral Amorim. Estudou no Colégio Marista de Recife. Aos dez anos, acompanhado dos pais e das irmãs, deixou a cidade e foi morar em São Paulo, cidade onde passou a viver com a família.

O pai, Aderson, trabalhava como vendedor da Guararapes Tecidos em Recife. Chegando em São Paulo, continuou trabalhando como atacadista de tecidos. A mãe, dona Diva, trabalhava como cabeleireira.

Robson continuou os estudos em São Paulo no Colégio Mackenzie. Ao sair da adolescência, procurou um trabalho. Deixou, assim, por falta absoluta de tempo, os estudos. Trabalhou em várias empresas, mas foi na Crusoé Discos – época de vinil – onde trabalhou duro por dezoito anos.

Ter trabalhado como vendedor em uma loja de discos influenciou Robson para a música. No entanto, alguns anos depois, reconheceu que sua formação musical e também o gosto pela composição foram moldados no trabalho na loja Crusoé Discos.

As conversas frequentes com clientes, músicos, colecionadores, professores e gente simples que cultuavam bom gosto musical definitivamente abriram um novo horizonte na sua vida, e até mesmo a perspectiva de um dia viver como músico profissional.   

A música sempre esteve presente em sua casa. A mãe e as duas irmãs tocavam piano. O trio musical da família era composto pela mãe Diva e pelas irmãs Rose Mary e Sonia Maria do Amaral Amorim.

Mesmo com a influência musical na família, o verdadeiro interesse pelo violão surgiu por meio dos festivais de músicas da TV Record e da TV Tupi nos anos de 1960, período de efervescência da música popular brasileira.

São aproximadamente 130 composições musicais, compostas desde o tempo em que trabalhou na loja de discos em São Paulo, onde começou a compor e encontrou o seu primeiro parceiro, o músico Paulo Viana. A maioria das composições com letras foi feita com Paulo Viana. A outra parte são músicas instrumentais. Até o ano de 2010 foram gravadas 10 composições deste tipo.

Robson Amorim tem como influência musical o músico Baden Powell, definido como seu “mestre auditivo”. Robson continua, incansavelmente, ouvindo as composições de Baden. Seja dia ou seja noite, na varanda ou no quarto, com ou sem o acompanhamento do inseparável violão.

Em Maceió desde novembro de 2004, encontrou um ambiente musical ricamente favorável, bem como a receptividade dos músicos e compositores locais, o que tem contribuído para enriquecer a sua produção.

Integrado à vida cultural, reaproximou-se do choro, gênero musical pelo qual, desde muito jovem, nutre grande paixão. Durante os últimos seis anos [2004-2010], produziu como nunca havia feito e com vários e diversificados parceiros, como os irmãos Marcos e Marcondes de Farias Costa, Stanley Carvalho, Ubirajara Almeida, Ricardo Cabús e Gustavo Gomes.

A maturidade musical e o crescimento da produção musical o fizeram apresentar seu trabalho em festivais e mostras, tanto em Alagoas como fora do Estado. Participou, em 2006, com a música autoral “Marisol”, da 3ª edição do Palco Aberto, projeto da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).

Outro evento em que também conseguiu classificar músicas autorais foi na Mostra do SESC, nos anos de 2006, 2007 e 2008. Em 2006, a música classificada foi “Pequena Suíte Alagoana”, composta com Marcos de Farias Costa e interpretada pelo cantor alagoano César Rodrigues, com participação de Robson Amorim no violão, Ricardo Lopes na guitarra, Van Silva no baixo, Herbeth Vieira na bateria, Luizito no pandeiro, Ronalso na percussão e Uruba na flauta.

 

Em 2007, foi a vez da música “Chorei”. Composta por Robson em parceria com os irmãos Marcos e Marcondes Costa. Interpretada por Micheline Almeida, acompanhada de Van Silva (baixo), Wilbert Fialho (violões), Everaldo Borges (flauta), Josivaldo Jr. (teclado) e Herberth Vieira (bateria). 

No terceiro ano seguido, 2008, voltou a classificar uma canção no Festival do SESC. “Malicioso”, composta em parceria com Marcos de Farias Costa, interpretada por Micheline Almeida, Robson Amorim (violão), Toni Augusto (guitarra), Van Silva (baixo), Josivaldo Jr. e Juliano Gomes (teclados), Everaldo Borges (flauta), Ronalso (percussão) e Pantaleão (bateria).

Maceió consolidou-se como grande palco para Robson Amorim. Na capital alagoana, vem se apresentando em festivais ou em eventos organizados por órgãos estatais, como ocorreu no 1º Festival de Música do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP).

A música “Chorar Simplesmente”, de sua autoria com Paulo Viana, foi gravada no 1º cd do Choro Alagoano, “Chorano”. Participou da trilha sonora do filme “Lá vem Juvenal”, curta-metragem produzido e dirigido pelo cineasta Hermano Figueiredo.

Robson Amaral é autor da vinheta da Secretaria de Estado da Saúde (SESAU) veiculada em rádios e televisões, campanha de combate a hanseníase.

Tem se apresentado semanalmente em casas noturnas e também em encontros vesperais dos sábados e domingos. O repertório é composto de músicas instrumentais e das suas composições e de autores alagoanos.

Em 2010, Robson classificou-se para o projeto “Quinta instrumental”. A apresentação aconteceu em 7 de outubro, no Teatro de Arena Sérgio Cardoso. Na oportunidade, foram mostradas músicas de sua autoria e choros de consagrados músicos brasileiros. Nessa apresentação, esteve acompanhado de Zailton Sarmento, Mikla, Wagner e Wilbert Fialho.

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Comemorando a vida, “eu canto samba, porque só assim eu me sinto contente”

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O ano de 2017 passou e não terei saudades, já foi tarde. No balanço que fiz, o saldo é negativo, as perdas foram maiores e os ganhos, mesmo tendo sido bons, não cobriram as perdas. Em geral não sou pessimista nem cultuo o negativo como filosofia de vida.

Em poucos meses perdi duas pessoas, a minha irmã, Rosa, consumida por um câncer bravo, e um amigo querido, Nô Pedrosa, assassinado no dia 23 de dezembro. Essas duas perdas desequilibraram o balanço de 2017. 

        Hoje, dia 2 de janeiro, completo 57 anos de vida. Confesso que as minhas reclamações são poucas e quase que triviais.

        Quando a barra pesa eu me socorro dos amigos(as) e do samba; e no samba é Paulinho da Viola quem me levanta, ou melhor, é quem não me deixa cair, ir à lona, como boxeador nocauteado. É por isso que “eu canto samba, porque só assim eu me sinto contente”.  

        Andar pela cidade, por avenidas, ruas e becos é outro modo de que lanço mão há muito tempo para me reencontrar e seguir em frente. A boemia não é mais a minha companheira; a bebida não é capaz de despertar alegria em mim.

        Maceió é de uma beleza estonteante. O mar no verão reflete várias tonalidades de azuis que contrastam quando olhamos em volta, pois enxergamos a pobreza da gente anfíbia excluída que ganha a vida nos manguezais, nos trabalhos miúdos, nos ofícios e ou fazendo bicos ‒ trabalhos intermitentes, a palavra da moda.

        A paisagem de opulência e miséria corta a carne e perfura a alma, mesmo dos que são desalmados. Viver e sobreviver em Maceió são uma obra de arte ou vida de malabares.

        Diante de realidade tão cruel e perversa, o que salva, ou me salva, é a arte. Procuro ir onde estão os bambas: “eu vou ao samba, porque longe dele eu não posso viver, com ele eu tenho de fato uma velha intimidade”.

        É possível imaginar a vida em Maceió, muitas vezes, como se fosse uma prisão sem grades ou o exílio sob o sol escaldante do verão, diante das águas mornas do mar, da lagoa Mundaú e dos rios.

        E qual a explicação para brotarem tantos músicos, artistas, poetas e escritores numa terra calcinada? Arrisco dizer que é a força da natureza que não foi domada, nem será.

        Há uma geração de violonistas e cantores(as) que estão se apresentando nos bares, restaurantes e teatros. É um dado a ser observado de como a qualidade sai da quantidade com uma simplicidade inimaginável, pelo menos para mim. Os grupos de samba da periferia passaram a ter visibilidade e fizeram a ligação com os outros grupos da cidade.

A arte, diferentemente da política, multiplica-se para fazer o bem e alegrar os corações de uma cidade partida e repartida, como diz o samba: “o samba é alegria, falando coisas da gente, se você anda tristonho, no samba fica contente”.

 

Alagoas não é um estado para amador. Por isso em 2018, depois das festas, devemos retomar a realidade e procurar alternar a vida com sambas e focar nas lutas que nos esperam para superarmos as noites de trevas que têm durado mais que o imaginado e têm causado tristeza e desilusão nos que são do batente e que perderam seus postos de trabalho e agora estão na iminência de perder o direito de se aposentar.

É por isso que eu luto e canto samba.

 

Eu canto Samba

 

Paulinho da Viola

Eu canto samba
Por que só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver
Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade
Se fico sozinho ele vem me socorrer
Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou

 

O samba é alegria
Falando coisas da gente
Se você anda tristonho
No samba fica contente
Segure o choro criança
Vou te fazer um carinho
Levando um samba de leve
Nas cordas do meu cavaquinho.

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Poeta, compositor e boêmio

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Paulo Renault Braga Villas Boas [1958-2003], poeta, compositor, funcionário público, trabalhou na Fundação Cultural Cidade de Maceió e Fundação Teatro Deodoro – Funted. Antes havia trabalhado como vendedor da Brahma. Nasceu em Maceió no dia 29/10/1958 e faleceu em Maceió no 19/11/2003. Filho de Renault Paranhos Villas Boas e Leda Braga Vilas Boas. Cursou até o 3º período de administração de empresas no Centro de Estudos Superiores de Maceió - CESMAC. Casou-se com a professora Márcia Maria Lima Villas Boas; o casal teve dois filhos, Rodrigo e Sergio Lima Villas Boas.

        A política foi um dos assuntos que mais atraiu Paulo Renault, além da poesia e da boemia. Tinha nas veias o sangue do histórico militante comunista Júlio de Almeida Braga, seu avô e um dos fundadores em Alagoas do Partido Comunista Brasileiro – PCB, razão fundamental de tanto falar do avó e de relatar em segunda mão as proezas do velho comunista nas prisões e durante a vida de operário e inventor de instrumentos mecânicos.

         Paulo Renault ousou na juventude entrar para a militância política no antigo PCB, mas logo admitiu não ser essa a sua opção de vida. Pediu “baixa” do PCB e seguiu o seu caminho de poeta e compositor. O que de fato estava certo, pois a política partidária não seria o melhor caminho para ele trilhar.    

Paulo Renault foi parceiro de Chico Elpídio, Eliezer Setton, Marcondes Costa e Carlos Moura, dentre outros. Das músicas compostas em parceria com os amigos, algumas foram gravadas. A temática de suas composições foi sempre focada na condição social do ser humano, seus desejos e suas fraquezas, com influências da bossa nova, da música de raiz nordestina e da MPB.

Integrou um dos mais importantes grupos musicais de Alagoas, o Grupo Terra. Esse conjunto musical foi criado no final dos anos 70 e permaneceu até o início dos oitenta. Márcia, sua companheira, diz que ele “possuía aguçado senso musical e uma voz privilegiada, com um agudo incomum, e que a sua relação com o violão – instrumento de sua predileção − era apenas a de um pretenso tocador, pois não se dedicava com a profundidade que gostaria ou deveria”.        

Os músicos que constituíram o Grupo Terra se tornaram uma referência da sua geração. Entraram de corpo e alma na produção de música alagoana, com forte influência do estilo regional. Durante a década de 70 despontavam no cenário artístico nacional grupos musicais como o Quinteto Violado e a Banda de Pau e Corda ambos pernambucanos.  

A motivação dos músicos era também a do compositor Paulo Renault, que tinha como uma das suas características pessoais o entusiasmo e a grandiloquência. Talvez por ser dessa maneira, “mergulhava de cabeça” em tudo que escolhia

A passagem pelos vários órgãos públicos de cultura era, além do seu oficio, um caminho para tentar se expressar politicamente no ambiente artístico e cultural das Alagoas.     

    

Autodidata

 

O temperamento irrequieto o conduziu por toda a vida – curta, é bom que se destaque. Morreu com apenas 45 anos. Era autodidata; sem que nunca houvesse estudado direção teatral, codirigiu com Paulo Déo, em 1995, uma peça do consagrado escritor gaúcho Moacyr Scliar, Introdução à Prática Amorosa.

Três anos depois, em 1998, ajudou a montar o espetáculo Maceió Cidade Aberta, com o seu amigo o cantor e compositor Chico Elpídio. Esse show foi baseado numa de suas obras, e os poemas foram musicados por Chico Elpídio. A direção ficou a cargo do experiente diretor José Márcio Passos.

O trabalho como produtor musical também o atraia e por muitos anos produziu shows de cantores alagoanos como Eliezer Setton, Leureny Barbosa, Nara Cordeiro, Wilma Miranda, entre outros. O envolvimento na produção não era restrito à montagem formal do espetáculo apenas mas acabava se envolvendo muitas vezes na escolha do repertório; opinava sobre os arranjos musicais e até mesmo sobre a apresentação no palco de cada um dos artistas.

 

Livros

 

 

A Saga do Toureiro é o primeiro livro, com 18 poemas inéditos, editado pela FUNTED em 1990. O livro fez parte da coleção Palco e Luz. Os poemas são críticos ao mundo capitalista globalizado, onde a ideologia do individualismo domina o mundo e transforma os seres humanos em objetos e/ou máquinas de consumo.

Quando Paulo Renault morreu, Maceió Cidade Aberta estava sendo produzido. Os 25 poemas que compõem o livro foram ilustrados por Mário Aloísio, arquiteto e seu amigo. Só em 2004 foi publicado pela Editora Catavento.     

Maceió Cidade Aberta é um conjunto de poemas em que a cidade e sua gente são retratadas. A identidade do poeta com a cidade natal rende muito mais que uma ode. É possível se perceber o que liga um poeta marginal aos marginalizados sociais. É a denuncia do cotidiano mais cruento, são os encontros e desencontros ocorridos entre Paulo Renault e Maceió.

A cidade que sucumbe diante da miséria a que sua gente é arrastada é a mesma cidade em que o poeta foi criado e andou pelos becos, ruas, avenidas, cruzou córregos e se banhou na lagoa Mundaú e no mar. O descaso e o sofrimento do povo e da cidade se confundem com a vida do poeta que romanticamente quer vê-la aberta, livre da miséria e feliz.

Renault produzia lentamente. Publicou apenas dois livros com 43 poemas; deixou outros poemas inéditos, letras de músicas e textos esparsos que merecem ser organizados em outro volume, para assim completar a sua obra.

 

 

O boêmio

 

         A boemia era uma das atividades que lhe davam prazer desde a adolescência. O bate-papo em bares, restaurantes e botecos, nas casas mais seletas ou na periferia, não o incomodava e da sua boca ninguém ouviria nenhum comentário ou resmungo. O boteco com três mesinhas à beira do riacho do Salgadinho era um termômetro da sua satisfação.

Agora imaginem os finais de tarde no Largo do Mercado de Jaraguá, no alegre Buraco da Zefinha? Um típico pé-sujo da cidade, mas que durante muitos anos foi frequentado por boêmios de várias extrações sociais. Era o local onde o poeta pontificava com mais assiduidade.

O samba cantado pelo cantor Zé Paulo era o que havia de melhor e diferente nas tardes de sábado em Maceió. O velho cantor de samba, com seus óculos escuros, adorno que o identificava muito mais que o documento de identificação, o RG. 

Os intervalos invariavelmente eram destinados aos recitais dos poemas de sua autoria ou de outros poetas. Os amigos, depois de tomar muitas, insistentemente solicitavam que Paulo Renault declamasse Vou embora pra New York, o seu mais conhecido poema. Era um delírio embebido no álcool. Palmas, assovios, gritos e mais bebidas, sempre.

No entorno do Buraco da Zefinha e do Poeta se formou uma confraria em estilo profundamente anárquico, e até foi criado um bloco de carnaval chamado Família Josefina. O bloco desfilou apenas um ano pelas ruas do bairro. O poeta foi um dos destaques. Fantasiado, desfilou pelas ruas e becos de Jaraguá. O ponto alto foi o momento em que solenemente foi afixada uma placa em homenagem à Rapariga (prostituta) Desconhecida.  

O território mais conhecido das prostitutas em Maceió recebeu em pleno carnaval essa singela homenagem póstuma. Nada mais justo do que se prestar uma homenagem pública às trabalhadoras do sexo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Marcus Vinicius, poeta, jornalista e cantor

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Marcus Vinicius Maciel Mendonça [1937-1976], jornalista, poeta, compositor e desenhista, nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, no dia 14 de fevereiro de 1937. Filho de Aldemar de Mendonça e Zelina Alves Maciel. Estudou inicialmente em Pão de Açúcar. Em 1949, transferiu-se para Maceió, onde continuou os estudos. O seu primeiro emprego foi no extinto Fomento Agrícola, órgão do Ministério da Agricultura, na função de desenhista, em 1955.

Mas foi como jornalista e músico que se tornou uma figura conhecida e querida dos boêmios e da intelectualidade alagoana a partir da segunda metade da década de cinquenta. Em 1959, entra para o Diário de Alagoas, órgão do grupo político do governador Sebastião Marinho Muniz Falcão.

        Foi com o pseudônimo de Ícaro que ficou conhecido na imprensa de Alagoas, tanto no Diário de Alagoas como na Gazeta de Alagoas, para onde se transferiu em 1964, sempre encarregado pela edição do que na época se chamava de “Sociedade”, e que depois passou a ser a coluna social.

        Já conhecido nas rodas sociais de Maceió, figura requisitada para os eventos sociais, festas, reuniões e bailes nos principais clubes da capital alagoana, Ícaro era um dos mais importantes e assíduos frequentadores do Bar Jaqueira. Os seus amigos de boemia e música eram Aldemar Paiva, Nelsinho Almeida, Bercelino Maia, Reinaldo Costa, Juvenal Lopes, Setton Neto, entre outros.

        A sua permanência na imprensa diária durou cerca de quinze anos [1955-1970]. Foi em 1970, ano em o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol, que deixou de trabalhar como jornalista profissional e retornou à antiga função de funcionário público federal como desenhista do Ministério da Agricultura.

        O radialista, compositor, humorista e escritor alagoano Aldemar Paiva, um dos seus melhores amigos, escreveu a respeito, ao saber que Marcus Vinicius havia morrido de câncer na noite do dia 7 de maio de 1976:

 

        “Ícaro, ele se assinava assim, o meu amigo Marcus Vinicius Maciel Mendonça, 39 anos, jornalista, seresteiro das Alagoas.

Meu amigo de Maceió morrendo às 23 horas do dia 7, seu corpo sendo levado para o Parque das Flores. Um lugar lindo, que andei visitando outro dia, em Maceió. Lugar bom para se ficar enterrado. Comércio de flores... Ouvindo orações... Tranquilo, belo, sossegado. Ali está Ícaro, o meu amigo.

Ícaro pegava o violão com o mesmo desembaraço com que usava a máquina de escrever e compunha. Ele não queria ser um profissional. Era o seresteiro anônimo.”

 

        A nota triste foi Marcus Vinicius não ter conseguido deixar registrado em forma de disco a sua voz. Pesou talvez para Marcus e para muitos outros as dificuldades financeiras e práticas em gravar um long-play (LP). Resta-nos a memória dos que conviveram e ouviram a voz desse importante intérprete alagoano.        

 

Fontes: Pão de Açúcar – Cem anos de poesia – Coletânea. Etevaldo Amorim [organizador], Ecos Gráfica e Editora, Maceió, 1999, p. 65/66.             

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Abaixo a burguesia, viva o anarquismo

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Estou republicando esse texto consternado com o assassinato do amigo e companheiro Nô Pedrosa, no dia 23. A memória de Nô Pedrosa será sempre lembrada por todos que o conheceram e conviveram com essa figura histórica do movimento de esquerda de Alagoas.

 

O militante anarquista mais conhecido em Alagoas é Nô Pedrosa. Nasceu em Santa Luzia do Norte (AL), há 75 anos, no dia 7 de setembro de 1940, e foi registrado com o nome de Walfredo Pedrosa de Amorim. Filho de Hermes Calheiros de Amorim e Lidia Pedrosa de Amorim. Por ironia do destino, nasceu no dia em que o Brasil comemora a Independência de Portugal.

        Nô Pedrosa pertence a uma família com tradição e militância política na esquerda alagoana. O irmão mais velho, o escritor e engenheiro Valter Pedrosa de Amorim, foi o primeiro que iniciou a militância política quando se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), na segunda metade da década de 1950. Nô e Waldir Pedrosa de Amorim seguiram o primogênito; dos quatro irmãos, três militaram no PCB.

        O que liga as famílias Calheiros-Amorim a Miranda são os irmãos Hermes, irmão de Hermé Calheiros, que por sua vez casou-se com Manoel Simplício de Miranda e constituíram uma prole com dez filhos, entre eles, os jornalistas Jayme e Nilson Amorim de Miranda, dirigentes do PCB em Alagoas.

        Os primos constituíram um núcleo destacado na estrutura do PCB nas décadas de 1950 e 1960. O ativismo do jovem Nô Pedrosa ajudou a formar vários núcleos de jovens militantes comunistas no movimento estudantil secundarista e universitário.

        O golpe civil-militar de 1964 levou os irmãos Jayme e Wilton Miranda, Nô e Valter Pedrosa para o cárcere, e outros irmãos e primos para a vida incerta na clandestinidade. Nilson, Anivaldo, Waldemir e Clístenes Miranda tiveram de sair de Alagoas e viver em outros estados clandestinamente.

        Nô Pedrosa ao sair da prisão continuou a militância política, voltou a estudar na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a sonhar com uma possível resistência armada, e dessa maneira derrotar a ditadura. O tempo passou, prisões voltaram a acontecer, líderes estudantis foram presos e submetidos a tortura em Alagoas e por todas as partes do país.

        A delegacia de Ordem Política e Social (Dops) anotou na ficha do Nô Pedrosa, após o golpe civil-militar de 1964, o seguinte: “participou de todos os movimentos grevistas nos sindicatos filiados ao CGT, em companhia do comunista Nilson Miranda e outros. Tomou parte ativa nos comícios programados pelo CGT. Desenvolve atividades comunistas no meio dos estudantes. Distribui literatura comunista e boletins subversivos. Preso no movimento revolucionário de 31 de março de 1964”.  

        A militância comunista se esvai, e Nô Pedrosa torna-se cada vez mais um anarquista em franca aliança com os demais grupos de militantes de esquerda. Não deixa de ser curiosa a sua atitude. O que não mudou entre uma fase e outra foi a capacidade de aglutinar jovens seguidores. Fez da porta da biblioteca pública estadual e dos corredores da Ufal o seu palco de proselitismo político-ideológico.     

  

Esse personagem é uma raridade em nossos tempos, despojado de qualquer apego a bens materiais. Para muitos é tido como louco; para outros, é um ser integrado à paisagem urbana de Maceió e umbilicalmente vinculado à Biblioteca Pública Estadual (BPE).

O fato de nunca ter vendido a sua força de trabalho a qualquer patrão o torna um ser livre das amarras da sociedade capitalista. Encantado com os livros, continua a viver como nasceu: livre. De uma coisa ele não pode ser acusado: de que não gosta de livros e de bibliotecas. Fez disso um sacerdócio. Digo isso consciente de que estou proferindo uma heresia, já que o incrédulo anarquista talvez não entenda que o seu modo de viver é um sacerdócio.

Vida longa ao camarada Nô Pedrosa.

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Livro,  Carapeba e Cachaça

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O poeta alagoano Lêdo Ivo faleceu, no dia 23 de dezembro de 2012, é com saudade e carinho que republico: Livro, Carapeba e Cachaça, último texto escrito pelo poeta, prefácio do meu Panorama Cultural de Maceió.

Lêdo Ivo

Os sebos e alfarrábios de minha infância e adolescência sobem agora à minha lembrança, diante deste livro de evocações do historiador e investigador cultural alagoano Geraldo de Majella.

Os que ele registra neste Panorama Cultural de Maceió, não são os mesmos do meu tempo. Situam-se em locais diferentes. Guardam uma multidão de volumes que surgiram após a minha partida, refletem a realidade de uma época vertiginosa marcada pela emergência de tecnologias atrevidas e até agressivas. Mas, apesar de todas as mudanças ocorridas no ar do mundo e do tempo, hão de conservar a mesma atmosfera plácida da cidade antiga e cuja placidez só era interrompida pelo fragor dos tiros sazonais que ceifavam vidas e saciavam rancores, disputas e vinganças.

Lembro-me de alguns deles. Na Rua do Livramento, junto à igreja, era o sebo do Barbosa, que ocupava a sala de visitas de sua casa familiar. Na Rua do Comércio, entre o Beco São José e a Praça dos Martírios, situava-se outro sebo, no qual terei adquirido os meus primeiros livros em francês. Um deles era Notre Coeur desse Maupassant que ainda hoje suscita a minha admiração, e do qual possuo, compradas num alfarrábio insigne de Paris, as obras completas ilustrada e editadas pela Librarie Paul Ollendorf. E havia ainda outro sebo, na esquina da Rua Boa Vista com o Beco São José.

Onde terei encontrado Song-Kay o Pirata, de Emilio Salgari, uma das estrelas bem-amadas da constelação e Coleção Terramarear? Ainda hoje ele está na minha biblioteca, guardado como uma relíquia ou sobra de naufrágio. E, graças a ele e a tantas outras histórias de tesouros e piratas, e ilhas e ventos dos mares do Sul, pude sulcar a vida inteira, confiante na verdade de minha imaginação, o caminho que me indicaram na infância.

Os sebos e alfarrábios ora registrados pelo historiador Geraldo de Majella  — um historiador tão atento à vida cotidiana e provinciana e ao episódio aparentemente irrelevante — são outros, mas conservam o mesmo rito comercial  de antigamente e sustentam iguais intenções. São lugares em que nem sempre se encontra o que se procura ou deseja; mas se encontra sempre o que não se esperava e surpreende. E, entre os vendedores de livros velhos aqui consignados, avulta a figura do ex-carroceiro Biu, que estacionava o seu “burro sem rabo” na Praça Dom Pedro II.

Contém esta obra de Geraldo de Majella muitas informações e reflexões sobre as bibliotecas de Maceió e as livrarias alagoanas. Será que elas existem atualmente ou são ficções graciosas? Ou não será no Recife que se abastecem os alagoanos contagiados pelo que o poeta Logan Pearsall Smith chamou de “a leitura, esse vício impune”?

Recordo-me de que, no meu tempo de colegial desejoso de ser escritor, havia na Rua do Comércio a Casa Ramalho, que chegou até a ser uma editora, publicando autores alagoanos. Durante semanas, ela exibiu na vitrina um exemplar de Angústia de Graciliano Ramos. Ninguém o comprava, embora seu autor (então enclausurado na Ilha Grande, como comunista) retratasse naquele romance uma Maceió noturna, soturna e dostoiewskiana.

Todos os dias eu me detinha diante da vitrina da livraria e namorava o volume solitário. Finalmente juntei sobras das mesadas semanais e o comprei. A sua leitura foi um dos grandes acontecimentos de minha vida de leitor em flor.

Também são diferentes os dispersos bares e restaurantes captados pela pena astuciosa de Geraldo de Majella. No meu tempo, imperavam a Helvética, defronte à Igreja do Livramento, o Ponto Certo na Praça Deodoro, o bar da Casa Colombo, e o Bar Elegante na Rua do Comércio. Destes, o que ainda é mencionado, como local de reuniões literárias, é o Bar do Cupertino. Nele, no início da década de 30, costumavam reunir-se Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, Maceió era então a capital literária do Nordeste e ignorava sua suprema condição.

No livro de Geraldo de Majella são outros os bares, botecos e restaurantes, outros os boêmios gulosos e mulherengos e os literatos ambiciosos e sedentos de notoriedade e glórias. Mas haverão de ser os mesmos os naufrágios e as impiedades do tempo. E também não terão mudado as comezainas e bebezainas; são as mesmas, os peixes, crustáceos e mariscos da Alagoa Australis, “rica em pescado”, como está no nosso brasão ilustre. A novidade é a macarronada.

E sabe a essas iguarias incomparáveis este valioso livro de Geraldo de Majella. Tem um gosto de carapeba, de camorim e de sururu; de caranguejo; de tira-gosto de caju regado a cachaça; de feijão de corda e manteiga de garrafa. É um livro visceralmente alagoano. Lateja nele o mistério de nosso berço, de nossas águas e terras, de nosso passado e presente, das chuvas e das tanajuras, de nosso povo e de nossos sonhos e pesadelos. E o longo mistério de nossa alagoanidade. E nele sopra o vento do mar.

 

 

 

 

 

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Ford julgada na Argentina

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Raul Ellwanger

Ex-diretores da montadora Ford na Argentina começaram a ser julgados nesta terça-feira, por permitir o sequestro de 24 funcionários de uma fábrica da empresa americana em Buenos Aires durante a ditadura (1976-1983). Trata-se de um julgamento emblemático pela cumplicidade do âmbito empresarial nos crimes da ditadura argentina, e que condenou centenas de militares, policiais e civis.

As vítimas eram operários da fábrica da Ford localizada em Pacheco, um subúrbio ao norte de Buenos Aires, alguns deles líderes sindicais. Os funcionários foram presos por forças militares enquanto faziam seu trabalho dentro da fábrica entre 24 de março de 1976, data do golpe de Estado, e agosto desse ano. Foram retidos em um local de descanso para os operários, onde as vítimas apanharam e foram torturadas por 12 horas, segundo testemunhas que do caso. Depois foram levados a delegacias e, mais tarde, alojados em prisões à disposição do Poder Executivo.

Os acusados são o ex-gerente de Manufatura da Ford Pedro Müller, o ex-chefe de Segurança da fábrica em General Pacheco Héctor Francisco Sibilla, e o ex-chefe do Corpo IV do Exército Santiago Omar Riveros. O presidente da empresa na época, Nicolás Enrique Courard, e o gerente de Relações Trabalhistas, Guillermo Galarraga, já faleceram.

Os acusados estão presentes na primeira audiência, realizada em um tribunal federal de San Martín, na periferia norte da capital argentina, e o processo deve durar meses. Alguns dos 24 sequestrados eram líderes sindicais.

 

Dois anos preso

"Militares uniformizados me sequestraram no meu ponto de trabalho. Eu estava pintando. Me torturaram durante 12 horas, das 11h às 23h", conta à AFP Carlos Propato, de 69 anos, que trabalhou na fábrica de 1970 a 1976. Propato era líder sindical. "De lá fomos levados à delegacia. Ficamos lá 40 dias com tortura quase diária, fome, sujeira. Perdi um olho e fraturaram uma vértebra", relembra.

No total, passou dois anos na prisão e quer justiça. "A fábrica da Ford em Pacheco foi um centro de detenção e tortura. Da Ford nunca recebemos nada, nem uma palavra, uma carta. Nada de nada", afirma. Os militares envolvidos foram acusados de sequestro, coerção ilegal e ameaça. Müller, de 86 anos, e Sibilla, de 91 anos, são acusados de cumplicidade por terem facilitado os meios necessários para cometer os crimes. "Os 24 foram presos por ordem da empresa. Quarenta anos depois é importante que haja justiça", disse Propato.

Enquanto estavam sequestrados, suas famílias receberam da Ford telegramas intimidando-os a se apresentar aos seus postos de trabalho, e mais adiante telegramas de demissão. A ação sustenta que os responsáveis da Ford desempenharam um papel-chave na identificação dos funcionários que tinham atividade sindical, colocaram à disposição a fábrica da empresa e permitiram que ali montassem uma sala de tortura, além de facilitar os veículos para transferir as

vítimas à prisão. "Qual era o meu crime? Apenas reclamar os direitos dos trabalhadores", afirma Carlos Propato.

Uma fonte judicial próxima ao caso considera que se os 24 trabalhadores "não foram eliminados, foi porque não representavam um perigo para os critérios militares. Apenas os castigaram por sua ação sindical", considerou. Desde 2005, quando caíram as leis de impunidade, centenas de torturadores e repressores foram julgados, entre eles o ex-hierarca Jorge Rafael Videla, condenado e falecido na prisão em 2013.

 

 

 

                                

 

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