Como me tornei são-paulino

O presidente Juscelino Kubitschek governou com entusiasmo e conduziu o Brasil com o lema “Cinquenta anos em cinco”. As metas definidas foram ao encontro dos anseios da população. O país entra numa nova era, indústrias são instaladas e com isso também são criados empregos em todas as regiões. Havia tantos que era possível escolher.

Levas de nordestinos foram trabalhar em São Paulo, Rio de Janeiro, no norte do Paraná ou foram juntar-se aos milhares de operários e técnicos que estavam entusiasticamente construindo Brasília, a nova capital.

Muitos jovens saíram de Anadia em Alagoas e foram trabalhar nas novas frentes de trabalhos. São Paulo era a cidade que mais atraia mão de obra.

      Os irmãos Ezequias e José Fidelis, o primo Abraão e os amigos José Cláudio e Áureo foram para São Paulo de pau de arara, em cima de um caminhão. Viajaram em condições terríveis, na esperança de encontrar trabalho − o que de fato aconteceu, pois todos logo se empregaram na indústria paulistana.

Áureo, negro forte, trabalhava em Anadia como carregador de sacos e ajudante de caminhão. Em São Paulo não se apertou. Foi trabalhar numa firma como ajudante. Era do pesado, sério, trabalhador.

Houve uma mudança essencial na vida desses jovens. Por muitos anos continuaram morando juntos, mas nem todos desejavam se fixar efetivamente na cidade. Um desejo incontido permaneceu: o de voltar a viver em Anadia.

Os domingos eram destinados ao lazer, bebidas, jogos, mulheres e futebol. Áureo, em meio a santistas, time que estava ganhando tudo, tinha Pelé, Coutinho e Pepe. Era a certeza de vitória. Torcia pelo São Paulo Futebol Clube, o time da elite paulistana, pelo menos era assim considerado.  

As tardes de domingo no Morumbi eram sagradas quando o seu time jogava. Canhoteiro, o maior ponta-esquerda do futebol brasileiro, era o seu ídolo, de quem não se cansava de falar, imitar, reproduzir jogadas. Negro, do Maranhão, nordestino como Áureo.

Em São Paulo tinha trabalho, o salário estava além da expectativa, mas a saudade da terra natal e dos amigos era mais forte. A volta foi se desenhando até se consumar. Retornou para Anadia e voltou a trabalhar como ajudante de caminhão no armazém do “Seu” Antonio.  

Aquela massa compacta de músculo em forma de gente era fascinante para os meus olhos de criança. Falava de um mundo que ninguém conhecia, descrevia jogadas imaginárias, muitas delas prendiam a minha atenção e a das outras crianças.

Realizava movimentos rápidos com as mãos e com o corpo carregando sacos de setenta ou oitenta quilos, subia na prancha para arrumar as cargas dos caminhões, umas vezes de algodão, outras de mamona, e na maioria das vezes couro de animais.

O assunto recorrente era futebol e as proezas do São Paulo Futebol Clube. A escalação de várias formações do time era desfiada em voz alta. Os comentários eram de quem conhecia e, mais que isso, tinha visto os jogos com visão privilegiada: da arquibancada do anel superior do estádio do Morumbi.  

Aquele negro musculoso, um gladiador africano em terra anadiense, era a pessoa a quem eu mais admirava. Nem meu pai tinha tantos argumentos sobre futebol. Aliás, de futebol meu velho pai não entendia nada. Os meus primos, considerados ricos e cheios de pose, também não sabiam nada. O cara era o negro Áureo.

Foi por meio dos seus comentários apaixonados que ouvi pela primeira vez falar de um certo Eder Jofre, campeão mundial de boxe e são-paulino. Áureo era seu admirador. Tudo se encaixava: negro musculoso, são-paulino e apaixonado por boxe.

O círculo de minha admiração infanto-juvenil se fecha quando, alguns anos depois, da porta de minha casa presencio a sua prisão. Morei durante anos em frente à cadeia e presenciei inúmeras cenas de maus-tratos e tortura a presos. Essa seria mais uma.

A Polícia Militar foi chamada para prender o Áureo. O motivo alegado foi arruaça na rua. De fato quando ele bebia ficava muitas vezes agressivo, transtornado com o efeito do álcool.

  A prisão para os policiais era mansa e pacífica até chegar próximo à cadeia. Faltando alguns metros, Áureo resiste e sai no braço com os quatro policiais. O resultado: não houve condições de prendê-lo naquele instante; deixou o destacamento policial no chão e foi-se embora.

O tumulto se formou e houve necessidade de chamar reforço policial. A prisão ocorreu depois, mas em outras condições: sob a mira de armas de fogo e cassetete. 

A minha admiração, que era grande, a partir daquele instante redobrou. O Negro Áureo tornou-se o meu herói dos tempos de infância. Um campeão, um Eder Jofre negro e musculoso de Anadia. Nunca mais saiu da minha lembrança.

Foi assim que me tornei são-paulino.

O time do São Paulo de 1971, bicampeão paulista, também não saiu da minha memória. A linha com Terto, Pedro Rocha, Toninho Guerreiro, Gerson e Paraná. O título mundial dos penas ganho por Eder Jofre, em 1973.

Vinte anos depois, em 1993, quando Isabela – minha filha – nasceu, andando pelo centro velho de São Paulo, entrei numa loja na rua Libero Badaró e comprei uma camisa 10, que simboliza a arte e o craque. Naquele instante, quem vestia a camisa era Raí.

Raí foi um craque, além de símbolo de jogador elegante em campo e fora dele. Isabela é torcedora do tricolor e já teve o seu batismo: foi ao estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, visitar a sala de troféus do clube.

         Salve o tricolor paulista !

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José Inácio Acioli: ourives, relojoeiro e boêmio

Foi registrado no cartório como José Inácio Acioli, mas toda a cidade e até as pedras das ruas, os paralelepípedos, o conheciam pelo segundo nome: Zé da Quininha. Aprendeu dois ofícios, o de ourives e o de relojoeiro. Trabalhou durante muitos anos. Não posso afirmar que tenha se dedicado integralmente, mas por bons anos foi das duas profissões que se manteve.

 

        Quininha era, em geral, bem-humorado. O bom humor e a alegria contagiavam o ambiente onde estava. O pendor pela boemia era maior do que qualquer outra atividade, inclusive as de ourives e relojoeiro.

 

        O silêncio que o trabalho de relojoeiro requer, a precisão na montagem e remontagem de engrenagens de relógios era, pois, incompatível com o seu temperamento. A solidão do trabalho causava-lhe certo desconforto.

 

        Os dois ofícios, aprendeu quando jovem na condição de ajudante de outros profissionais na cidade de Anadia. Era num tempo em que não havia cursos profissionalizantes e a escola pública era restrita.

 

        Autodidata em tudo na vida, também aprendeu a tocar violão e a cantar. Os seus mestres foram os boêmios que conheceu, e de muitos deles tornou-se amigo e, excepcionalmente, rival de alguns poucos. O motivo não foi a música, mas as mulheres.  Não frequentou escolas, seguiu intuitivamente os ensinamentos dos sambistas Noel Rosa e Vadico, que dizem: “batuque é um privilegio/ninguém aprende samba no colégio [...]”

 

        Exerceu cargos públicos. Foi eleito vereador algumas vezes, duas pelo menos. A atividade parlamentar não o atraía nem era encarada como uma labuta que lhe causasse constrangimento em faltar a uma sessão da egrégia Câmara Municipal de vereadores, quando o motivo da ausência fosse plenamente justificável: está se iniciando uma farra ou nela está há tempos embalado com o seu inseparável violão.

 

        Esse tipo de sacrifício os seus eleitores não lhe pedissem tamanha renúncia. O mesmo acontecia se clientes fossem procurá-lo para trabalhar em meio à sagrada boemia. A resposta estava pronta: “Deixe na relojoaria e depois vá buscar”.

 

        No entanto, chegou um tempo em que os ofícios de ourives e relojoeiro foram totalmente abandonados, pois recebera uma oferta irrecusável: um emprego como funcionário público. Agora, sim, teria todo o tempo possível e não haveria incompatibilidade de tempo entre a boemia e o trabalho. Passou a ter um salário pequeno, mas certo ao final do mês. Desta forma gastou os últimos anos de sua longa vida.

 

        O repertório por ele definido era quase imutável. Não adiantava solicitar músicas novas, que estivessem, por exemplo, sendo tocadas nas rádios. Esse tipo de coisa deixava-o injuriado. Fazia que não ouvia. Caso o pedido se repetisse, dizia simplesmente que não sabia.

 

          A marchinha “Lancha Nova” de João de Barros, o Braguinha, e Antonio Almeida foi lançada na década de trinta, ganhou os salões durante os carnavais. Mas, desde muito jovem, Zé da Quininha incorporou-a ao seu repertorio até o final da sua vida.

 

Os amigos de copo e de cruz, os boêmios de Anadia, subiram as duas ladeiras íngremes levando-o para o cemitério, entoando “Lancha Nova” e outras canções de que tanto gostava e cantava nas mesas, salas e no cabaré. Aliás, era no Pernambuco Novo onde melhor cantava, com mais desenvoltura.

 

“Ô, ô, ô, ô,        

Lancha nova no cais apitou

E a danada da saudade

No meu peito já chegou

Adeus, oh! linda morena

Não chores mais, por favor

Partindo, eu morro de pena

Ficando, eu morro de amor.”


 



 

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As candidaturas ideológicas

Eleição se ganha com votos, e a conquista do eleitor é uma tarefa árdua. A possível vitória começa a ser desenhada na formação das chapas, majoritárias e proporcionais.

 

        Os candidatos com inserção social, com capacidade de mobilidade, ou seja, com recursos financeiros mínimos para caminhar, viajar e reunir com milhares de pessoas, além, claro, de uma eficiente campanha visual, de uma boa utilização das mídias sociais e da participação no horário eleitoral gratuito.

 

A campanha e o candidato que estiver ancorado em propostas concretas nas quais o eleitor se sinta representado e, mais que isso, incluído, certamente será bem votado.

 

        Das candidaturas definidas como ideológicas, algumas beiraram a algo sacrossanto, sem nenhuma relação com o mundo real, o que evidentemente as distanciam da população, seja a classe média, o operariado, e mais ainda o mundo rural. 

 

        Há várias pequenas siglas sentindo-se, e com razoável direito, credenciadas a falar pela esquerda. Os partidos de esquerda no Brasil são vários, cada um com suas especificidades. Há alguns poucos marxistas; a maioria é de socialistas, ambientalistas, trabalhistas, como é o caso de PT, PDT, PSB, PV, da Rede Sustentabilidade e do PSol.

 

As propostas veiculadas na propaganda eleitoral pelos pequenos partidos de esquerda não tratavam diretamente de problemas reais da população. Ao utilizarem os programas eleitorais para difundir as propostas de como alcançar o socialismo, perderam uma boa chance de efetivamente se comunicar com os eleitores e de tratar de problemas concretos que afligem a população.

 

Acontece que o socialismo é um sonho desses partidos e não diz absolutamente nada ao eleitor.

 

        O desempenho dessas candidaturas pode ser traduzido em números. O candidato a governador Mário Agra (PSol) obteve 60.816 votos, 4,76% dos votos válidos. Mesmo sendo o mais bem votado, poderia ter obtido bem mais votos caso tivesse tratado de temas mais diretamente ligados a vida cotidiana do eleitor.

 

O candidato Golbery Lessa (PCB) teve apenas 3.950 votos, 0,31% dos votos válidos. O proselitismo político ocupou boa parte dos seus programas eleitorais. Fez uma campanha de divulgação de propostas programáticas do partido.

 

        A candidatura a presidente da República de Luciana Genro (PSol) obteve 15.223 votos, correspondendo a 1,08% dos votos váalidos. Mauro Iasi (PCB) obteve apenas 892 votos, 0,04 % dos votos válidos dos eleitores de Alagoas.

 

        Esses partidos terão todo o tempo possível para repensar as suas atuações no processo eleitoral que virá. A agenda que se apresenta para a esquerda me parece ser a de ampliar a inserção social e preparar candidatos competitivos para disputar as eleições.

 

O PSol de São Paulo e o do Rio de Janeiro podem e devem servir de exemplo de como os candidatos com inserção social disputam mandatos eletivos e obtêm generosas votações. É o caso de Ivan Valente e Carlos Giannazi em São Paulo, e de Marcelo Freixo, Jean Wyllys e Chico Alencar no Rio de Janeiro.  

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O enfant terrible

 

A década de 1980 do século XX no Brasil foi considerada pelos economistas como uma década perdida. O mesmo não se pode dizer de Alagoas quando o assunto é produção cultural. Houve a aparição de um grupo de jovens poetas e escritores estreando e assumindo na cena cultural alagoana um papel de contestação da ordem estabelecida.  

         A liderança de grupos muitas vezes é exercida por escolhas, em geral através de votação; no caso, a geração de poetas e escritores que se apresentou ao público nos anos 80 fugiu à regra. A liderança exercida por Marcos de Farias Costa ocorreu naturalmente, sem nomeação, de forma consensual. Havia entre eles uma concordância no pensamento e em algumas das ações práticas. 

         A insubmissão aos cânones estabelecidos era o combustível que movia a todos, pelo menos nos primeiros momentos, mas a contestação na forma e também no conteúdo do que se produziu, na época foi ressaltada por grandes poetas e escritores da literatura nacional; a prova disso são as inúmeras correspondências trocadas com os poetas alagoanos.

         Ao avalizar os textos desta geração, estimulando-os ou criticando-os, vários intelectuais de peso no cenário nacional serviram de estímulo e também, em certa medida, conferiram o reconhecimento para jovens que produziam poesia, apesar das adversidades expressas na desconfiança de intelectuais conservadores locais.

Essa nova geração se agrupava num estilo anárquico e, talvez por esse motivo, tenha sido tão malvista pelos cânones que entre nós reinavam − alguns vivendo de um passado sem muitas glórias, mas estabelecidos em pontos estratégicos nas instituições de cultura e manejando poderes que se espalhavam em muitas áreas do aparelho estatal.   

A rebeldia juvenil dos poetas era expressa pela imprensa escrita, quando conseguiam.Mantiveram-se sempre diante dos olhos atentos e vetustos daqueles intelectuais de província que também mantinham influência – um quase controle − nos cadernos de cultura dos jornais locais. O cerco havia sido formado, às vezes sem a devida percepção por parte dos rebeldes. Como rompê-lo?

Essa pergunta demorou a ser respondida com acerto e serenidade. E não se pode dizer com certeza se houve resposta. Um outro tipo possível de resposta foi dado e não demorou muito para chegar em verso e prosa.    

         A figura do poeta Jorge Cooper serviu de inspiração para essa nova geração de poetas, seus admiradores, com quem semanalmente se reuniam em torno de uma mesa para comer, discutir literatura e bebericar.

A diferença de idade entre Cooper e os demais era abissal, mas isso jamais os distanciou; ao contrário, aproximava-os cada vez mais, pois os jovens tinham em Cooper um mestre e um cúmplice.     

         A liderança dessa geração foi exercida por dois lideres que, repito, nunca receberam votos ou tiveram algum mandato formal para representá-los. O líder orgânico foi Marcos de Farias Costa, e o espiritual, o velho poeta Jorge Cooper, que “atuava” na retaguarda.  

A influência − há muito reconhecida − não significou necessariamente apoio às ações práticas dos seus seguidores. O estilo de vida pessoal e literário de Cooper foi, creio, muito impactante na formação daqueles jovens poetas.

A concepção de mundo do velho poeta de origem inglesa era o que os atraia, além, claro, da sua produção poética, então quase totalmente inédita. O estilo de viver quase enclausurado o diferenciava dos seus contemporâneos. O fato de existir um poeta tão vigoroso, alagoano, que havia morado em vários estados e por tanto tempo passou a ser uma espécie de talismã, sobretudo sendo um homem de esquerda.

Até aquele momento − a década de 1980 − Jorge Cooper era o que o poeta paulistano José Paulo Paes disse a seu respeito: “O mesmo poeta que ao longo da sua vida não se empenhou em impor sua presença no palco do merchandising literário porque desdenhava ser ator de si mesmo, começa agora, com a maior discrição, a tornar-se um esquecido incomodamente inesquecível.” Ou o que dele disse a filóloga italiana Luciana Stegagno Picchio: “Um cacto solitário da poesia alagoana.”

 O grupo liderado por Marcos de Farias Costa era constituído por Sidney Wanderley, Marcondes Costa, Diógenes Tenório Junior, Elício Murta, Luis Costa Pereira Junior, Susana Souto, Luzia Helena Wittmann, Norton Sarmento Filho. Como todos os grupos ou gerações, não firmaram compromissos nem juras de união eterna. A vida e as discordâncias os separaram. E cada um correu atrás dos seus sonhos e foi ganhar a vida como podia.

A verve afiada do enfant terrible Marcos de Farias Costa é um matraquear contínuo de uma metralhadora que girava em torno da renovação literária, nem sempre conseguindo acertar o alvo. Não é possível se conceber mudanças sem que haja dor, ruptura, lágrimas até. Esse caminho Marcos de Farias percorreu sobre brasas e álcool.

Tudo aconteceu, é justo que se diga, com acentuada dose de impetuosidade, ao verbo transmitida. Passados os anos, hoje com os cabelos dando sinais de que estão discretamente ficando brancos, é possível analisar aquele período de embates lítero-culturais com serenidade. Para tanto não significa negar os fatos, mas podem-se rever posições sem mudar de lado.

A geração de 1980 deixou como saldo dois grandes poetas e esgrimistas: Marcos de Farias Costa e Sidney Wanderley. Se me fosse dada a oportunidade de realizar um balanço, diria que o saldo foi extremamente positivo. Valeu, e muito, a pena ter brigado. 

    

             

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As novidades eleitorais

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Os candidatos mais votados de Alagoas, Rodrigo Cunha (PSDB), deputado estadual com 60.759 votos, e o atual deputado estadual João Henrique Caldas (JHC), eleito deputado federal com 135.929 votos, a maior votação da história, estão sendo tratadas como “pontos fora da curva”. Esse neologismo é utilizado na tentativa de justificar uma determinada situação em que a explicação é pouco comum.

 

A atuação do deputado JHC simbolizou o novo nas eleições. Essa identidade encontrada espontaneamente por milhares de jovens alagoanos é o “ponto fora da curva”, para alguns que resistem a pensar diferentemente e a entender que a população quer mudanças.

 

A destemida atuação de JHC contra a mesa da Assembleia Legislativa o colocou numa condição de deputado destemido, ousado e de quem enfrentou forças poderosas.

 

Rodrigo Cunha também se identificou com as mudanças e os anseios dos jovens, além de ter sido um gestor público que defendeu os milhares de consumidores com ponderação e firmeza.

 

As massas foram às ruas em 2013, exigindo dos governos melhores serviços públicos e concessionários. As multidões gritaram por mudanças nas ruas, nas universidades e na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

 

Em Alagoas, milhares jovens foram às ruas clamar por mudanças − em Maceió e no interior. O nó na garganta permanece, e as mudanças ainda não ocorreram com a intensidade desejada.

 

Esses dois jovens deputados representam, em algum grau, o espírito das mobilizações de junho de 2013.

Mudanças não são por acaso, pois foram o mote das três principais candidaturas presidenciais. Até Dilma Rousseff, candidata à reeleição, se apresenta como mudança para a população.

 

A nota lamentável foi a derrota do deputado Judson Cabral. O petista exerceu o mandato com seriedade, competência e comprometimento com a causa pública. A derrota de Judson Cabral não é dele, do partido, mas da sociedade, que deixa de contar com um parlamentar sério e honesto.

 

O resultado eleitoral surpreendeu aos mais experientes analistas em eleições. Outros casos devem ser observados, como a eleição do ex-prefeito Cícero Almeida, que contava com a maior expectativa entre todos os candidatos à Câmara federal. Apontado como o fenômeno eleitoral, obteve pífio resultado: 64.435 votos. Para quem estimava algo como 150 mil votos, o resumo pode ser este: Cícero Almeida ganhou perdendo.

 

O ex-governador Ronaldo Lessa se elegeu com 88.125 votos, o que lhe confere um novo fôlego político. E o deputado Paulão inaugura uma nova fase na história do PT em Alagoas, ao tornar-se o primeiro deputado federal eleito pela legenda. Paulão assumiu o mandato com a eleição de Joaquim Beltrão para a prefeitura de Coruripe.

 

Desejo um bom mandato, e que cumpram com a função de representar bem o estado de Alagoas e o seu povo.


As novidades eleitorais

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A Alagoas que emergiu das urnas

 

 

O deputado federal Renan Filho (PMDB) venceu as eleições para governador de Alagoas no primeiro turno com 52,16%. O seu oponente, o senador Benedito de Lira (PP), obteve 33,91% dos votos válidos.

 

A vitória do peemedebista confirmou o que as pesquisas indicaram durante a campanha. A Alagoas que Renan Filho vai administrar é conhecida, pelo menos estatisticamente, pois lhe foi apresentada na pré e durante a campanha eleitoral.

 

Os estudos realizados pelos consultores contratados identificaram os problemas e também indicaram os caminhos para superá-los. Os três eixos principais discutidos na campanha eram comuns a todos os candidatos: saúde, educação e segurança pública, acrescidos da renegociação da gigantesca e impagável dívida do estado de Alagoas com a União.  

 

A dívida é um problema a ser resolvido entre o plenário do Senado Federal e a presidência da República, passando pelo Ministério da Fazenda.

 

A crise sistêmica na segurança pública é inegavelmente o pior e mais complexo problema a ser superado. A redução das altíssimas taxas de violência pode parecer algo a ser resolvido com decisão política, como se quer passar para a opinião pública, com pulso forte e colocando mais polícia nas ruas. E coisas do gênero.

 

São necessários mais policiais nas ruas − não se fala o contrário −, mas os policiais terão de ter uma eficiente formação técnica, o que não vem ocorrendo nos últimos anos em Alagoas.

Os governantes em poucos meses percebem – quando querem perceber − que o problema é mais complexo e tem inúmeras variáveis. A reestruturação da segurança pública, a gestão amadora e empírica, tem de ser substituída por mecanismos modernos de gestão de pessoas e eficiência na execução das políticas pública na área.

 

Para que isso se torne factível o governador terá de tratar a questão com absoluta disposição e abertura suficiente para ouvir as comunidades conflagradas, os pesquisadores e instituir mecanismos modernos de controle das polícias. Terá também, óbvio, de ouvir as polícias e os órgãos técnicos vinculados à segurança pública.

 

Não se deixar contaminar com as vozes oriundas das corporações. E não usar as polícias como instrumento político. Esse é um detalhe fundamental. Tratar a segurança pública com profissionalismo, sabendo que um erro nesse campo comprometerá a sua administração. Exemplo histórico não falta em Alagoas.

 

 As polícias têm representação no parlamento, realizam permanentemente lobby político nas diversas instâncias da administração pública e nos três poderes.

 

As duas outras áreas, saúde e educação, são também importantes e complexas na sua efetividade. A melhoria das condições de trabalho dos profissionais é importante. É esperado pela sociedade que a melhoria dos serviços e a remuneração dos funcionários públicos ocorram numa relação direta.

 

Mas como abordar essa questão com tão poucos recursos orçamentários de um lado e a massa de funcionários desestimulados do outro? Tudo isso é parte dos desafios do novo governante.

 

O que emergiu das urnas pode ser traduzido como esperança e pressa no encaminhamento dos problemas.

 

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Não vamos desistir do Brasil

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As pesquisas divulgadas pelo Ibope e Datafolha estão indicando, com algumas diferenças, que haverá segundo turno na eleição para presidente da República.  

Os eleitores de Marina Silva – 40 - a candidata mais atacada pelos adversários - devem aumentar ainda mais os esforços para garantir os votos suficientes para mantê-la na disputa indo para o segundo turno.

O esforço extra é fundamental diante da renhida disputa pelo segundo lugar com Aécio Neves. O segundo turno entre Dilma e Marina Silva, é o cenário ideal para se travar a luta por mudanças no Brasil.

Não vamos desistir do Brasil.

Marina 40.

 

 

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A cidade e as bibliotecas

As cidades surgem em lugares muitas vezes inesperados, à beira-mar, de lagos, restingas. Maceió é um exemplo: bate com os costados no oceano Atlântico, mas não deixou por menos, abriu o seu coração para os canais e manguezais da Mundaú; outras foram construídas em topo de montanhas, depressões vulcânicas, às margens de rios, como Anadia, banhada pelo São Miguel.

Maceió, para o historiador Craveiro Costa, “nasceu espúria (...) no pátio de um engenho colonial, sem ascendência conhecida e assentamento autorizado nas crônicas do período histórico da luta pelo domínio do gentio e conquista da terra”.      

 O sítio histórico tido por Craveiro Costa como sendo o núcleo formador de nossa cidade conserva, apesar de maltratado, um conjunto arquitetônico importante. As construções remanescentes dos séculos XIX e XX localizadas na praça Pedro II resistem, não sabemos como e de que maneira, à fúria da demolição do patrimônio histórico formado ao longo dos séculos.

Abstenho-me de encampar a polêmica versão sustentada por Craveiro Costa, que defendeu a tese de que a cidade surgiu a partir do engenho Massayó, que moeu cana e fabricou açúcar onde hoje se localiza a Assembléia Legislativa e suas adjacências. Décadas depois, essa tese foi contraditada pelo pesquisador Moacir Sant’Ana, que afirma, baseado em documentação, haver Maceió nascido à beira-mar, na enseada de Jaraguá. 

No quadrado onde foram erguidos os prédios da Assembléia Legislativa, a Catedral metropolitana, a sede do Ministério da Fazenda, o Arquivo e a Biblioteca Pública estadual, além da majestosa estátua do imperador Pedro II, que do centro da praça a tudo impávido observa, antes existia um bem cuidado jardim; restaram apenas as árvores centenárias, oitizeiros e palmeiras imperiais que continuam a ornamentá-lo, oferecendo sombra ao cidadão que ao passar pelo antigo logradouro pode livrar-se do sol escaldante do verão alagoano.

As cidades cada vez mais se tornam conhecidas através dos seus símbolos econômicos, intelectuais e culturais. Em Maceió ocorre o oposto: a representação do passado é o canal que a todo instante denuncia a ignorância e o obscurantismo, por não ser preservada. É fácil constatar isso ao caminhar pelas ruas centrais da cidade e com atenção olhar o casario abandonado ou já destruído.

 

Bibliotecas da cidade

 

A Biblioteca Pública estadual é a voz necessária encravada no centro de Maceió. Ao ser transferida da rua do Comércio, na década de 1960, para o atual prédio, ganhou espaço e pompa ao ser instalada no novo edifício, ajudando portanto a manter o clima de efervescência intelectual na cidade. Teve o acervo ampliado e ganhou melhores acomodações.

A criação da Universidade Federal foi decisiva e, daí em diante, outras escolas de ensino superior foram abertas em Maceió. As mudanças no mundo cultural são expressivas, mas um dado é preocupante nesse contexto: a biblioteca estadual continua a ser a única a prestar serviços à comunidade e a preservar um acervo que a cada dia se deteriora pela falta de recursos destinados à manutenção e à modernização desse imprescindível equipamento cultural público. Atualmente, os maiores freqüentadores são os estudantes da rede pública de ensino, moradores de bairros distantes.

Os avanços tecnológicos têm modificado hábitos de pesquisadores e de estudantes: a facilidade de se obter informações através da rede mundial de computadores, a internet, é o diferencial em relação ao que se realizava no passado recente, quando a biblioteca, enquanto instalação física, era determinante. Ao conectar–se, qualquer um entra nas principais bibliotecas do Brasil e do mundo.

Localizado no centro da cidade, rua do Sol, com a ladeira do Brito, o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas - IHGAL, fundado em 1869, mantém extraordinário acervo onde a história, a geografia e a cultura da gente alagoana estão  efetivamente preservadas e postas à disposição dos que têm interesse em pesquisar esses temas. A biblioteca do IHGAL tem milhares de volumes, muitos desses, raros; há ainda coleções de periódicos em sua hemeroteca, que vem sendo formada desde o século XIX até os nossos dias. 

O IHGAL é na atualidade o principal guardião da memória alagoana e certamente, por ser uma instituição privada, é que pôde ao longo de 136 anos manter em excelentes condições de conservação o rico acervo formado essencialmente pelas doações de seus sócios.

A Academia Alagoana de Letras, também localizada no centro da cidade, é outra instituição que tem se preocupando em organizar uma biblioteca e em dar acesso ao público, principalmente aos pesquisadores. E pode-se afirmar que o acervo já catalogado é uma das referências na cidade na área de literatura, muito embora pouco conhecida.

A Fundação Jayme de Altavila – Fejal, mantenedora do Cesmac, tem surpreendido a todos com a organização e com o crescimento do acervo bibliográfico. Há uma nova concepção em prática naquela instituição, na qual a biblioteca central tem recebido investimentos na modernização e na ampliação do seu acervo, inclusive tendo sido incorporada parte considerável da biblioteca do historiador Jayme de Altavila, que empresta seu nome à instituição.

Infelizmente o mesmo não podemos dizer do enorme acervo bibliográfico, patrimônio valioso da Biblioteca Central da UFAL. São milhares de volumes em situação precária, sem falar de outros tantos milhares de livros amontoados em depósitos,  ainda não catalogados e postos à disposição dos alunos e dos pesquisadores. É o sinal do sucateamento da universidade pública brasileira, obra que ardilosamente vem sendo executada durante as últimas décadas. A alegação para tal descaso é a crônica falta de recursos financeiros.

Mas o mundo encantado das bibliotecas pode ser visualizado no bairro do Poço, na biblioteca do Serviço Social do Comércio - SESC, pela movimentação de milhares de jovens,  principalmente, que para ali acorrem. É, creio, a única biblioteca da cidade que empresta livros à população há quase três décadas, contribuindo assim para a formação de leitores daquele bairro popular e de outros que para lá se dirigem com esse fim.

 

O leitor essencial

 

A magia da leitura e o encantamento das bibliotecas atraem milhares de leitores. Desde a década de 1970, consta como usuário assíduo, Walfrido Pedrosa de Amorim – Nô Pedrosa, como é conhecido, personagem tradicional da esquerda alagoana. A carteirinha de usuário da biblioteca é talvez a identidade desse velho e irrequieto leitor.

A figura pública de Nô Pedrosa, ex-militante do PCB na juventude, é sempre associada ao anarquismo, militância que abraçou como opção de vida. De uma coisa ele não pode ser acusado: de que não gosta de livros e de bibliotecas. Fez disso um sacerdócio; digo isso consciente de que estou proferindo uma heresia, já que o incrédulo anarquista talvez não entenda que o seu modo de viver seja um sacerdócio.

Esse personagem é uma raridade em nossos tempos, despojado de qualquer apego a bens materiais. Assim é conhecido, mas para muitos é tido como louco; para outros, é um ser integrado à paisagem urbana de Maceió e umbilicalmente vinculado à Biblioteca estadual. Foi a partir desse local que chegou a formar seguidores durante a década de 1970, quando resistir à ditadura militar era, também, freqüentar o grupo do Nô Pedrosa, em frente à BPE.

O fato de nunca ter vendido a sua força de trabalho a qualquer patrão o torna um ser que vive livre das amarras da sociedade capitalista. Encantado com os livros, continua a viver como nasceu: livre. Devemos manter a luta para que seja criada, em Maceió, uma rede pública de bibliotecas. Assim iniciaremos a grande caminhada em direção ao futuro, quando os livros passarão a ser um bem essencial e disponível a todos.

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Sobreviventes das Alagoas - os sebos de livros

         

        Os sebos em Maceió têm crescido nos últimos anos e vêm se tornando um “mercado promissor”. Fazem-se visíveis as livrarias de usados em um improviso generalizado, funcionando em logradouros públicos. São locais onde se vendem livros, dicionários, almanaques, discos, cd-rom, dvds, revistas e outros produtos culturais. A maioria deles está localizada nas ruas dr. Pontes de Miranda, marechal Roberto Ferreira, do Imperador  e barão de Atalaia. São dezenas de barracas encostadas no gigantesco  paredão da Assembléia Legislativa e alhures. Nessa área concentra-se a maioria dos sebos da cidade, mas há os diferenciados.

 

Um dos primeiros sebos da cidade

      

        O crescimento dessa atividade em Maceió tem contribuído para a difusão da cultura, mas por ironia do destino o aparecimento, da forma descrita por mim, ocorreu de uma maneira não usual - pela singularidade. Um dos primeiros comerciantes nesse tipo de atividade foi uma pessoa simples, do povo, “de poucas letras”, que havia frequentado alguns poucos anos de salas de aula, e que antes de descobrir esse filão exercia uma atividade profissional típica dos excluídos, dos pobres: a de carroceiro.

        Benedito Ferreira Lima, o Biu, como era conhecido, se tornou o primeiro, creio, vendedor de livros usados estabelecido no paredão da Assembléia Legislativa, em meados da década de setenta. O livro, para Biu, não passava de uma mercadoria que ele comercializava a preço baixo em relação aos das livrarias legalmente estabelecidas. Dessa forma o ex-carroceiro sustentou a si e à sua família.

O livro evolui como parte do processo de desenvolvimento das civilizações, até chegar ao que atualmente conhecemos, passando por várias fases: a do papiro, a do pergaminho, chegando ao papel manufaturado, confeccionado a partir de trapos, e alcançar a fase do papel industrializado, feito de pastas de madeira, para hoje tornar-se virtual. O nosso livreiro jamais soube desta longa e difícil trajetória, mesmo que de forma remota ou ilustrativa, mas o fato é que ele conseguiu involuntariamente estimular o que hoje podemos denominar de corredor cultural do “Paredão da Assembléia”.

 

O surpreendente início

 

        No começo, Biu negociava com papel velho, garrafa, lata e outros objetos, hoje em dia denominados “recicláveis”. Um certo dia comprou, a preço módico, uma biblioteca, de uma tradicional família alagoana desejosa de livrar-se finalmente daquele estorvo. Biu iniciou o transporte em sua carroça, por ele próprio puxada – conhecida como “burro sem rabo”. Cansado, parou na praça Dom Pedro II, em frente à estátua do imperador, um belo monumento construído em homenagem a Sua Majestade; ao arriar a carroça, pesada, cheia de livros, os transeuntes, vendo a inusitada cena, foram parando e aglomerando-se em torno da carroça: iniciava-se ali mesmo a venda dos livros, adquiridos inicialmente como papel imprestável, destinado a embrulho.

Ao despertar o interesse dos “clientes” que transitavam apressados pela praça, ato contínuo Biu percebeu sua nova e repentina aptidão, sem sequer saber ao certo como deveria chamá-la, mas o fato inquestionável é que agora ele inaugurara nova atividade comercial.

O destino da carga foi subitamente alterado, e a “montanha” de livros comprados das famílias ilustres de nossa capital teria destino glorioso: a difusão da cultura. Não mais papel para embrulhar mercadorias vendidas no Mercado Público, em bancas fedorentas de peixes, mariscos, verduras, frutas, crustáceos, além dos embrulhos de sabão, prego, material de construção etc.

        Passados mais de 10 anos de sua morte, acontecida quando contava ainda 48 anos de idade, percebemos hoje que ele nos deixou a  perseverança como legado cultural - os sebos do centro de Maceió cresceram e se tornaram referência -, e uma nova geração de livreiros surgiu. Nesse contexto, a segunda geração de sua família deu continuidade, através do seu filho, José Augusto da Silva Lima, que desde os oito anos de idade trabalhava na banquinha do pai, estabelecendo-se posteriormente como proprietário de uma livraria de usados.

        O livro está distante de se tornar um produto essencial à vida da população, que não o considera gênero de primeira necessidade. Os preços proibitivos têm transformado os livros em produtos para poucos. Talvez esse seja o motivo do crescimento de freqüentadores de sebos, o preço relativamente acessível se comparado aos das livrarias estabelecidas.

        Na falta de alfarrábios mais sofisticados, com raridades bibliográficas, os sebos improvisados do “Paredão da Assembleia” e das ruas adjacentes vão sobrevivendo às intempéries: enfrentam sol, chuvas e enchentes, a voracidade dos roedores inimigos declarados dos impressos, esses convivas folgados que transitam pelos logradouros da capital causando enormes prejuízos aos proprietários de lojas e bancas.

        A pouca visibilidade que este comércio tem deve-se talvez a que os seus consumidores são oriundos de classes sociais pauperizadas ou mesmo a baixa classe média, que velozmente se proletariza. Porém, diante da pobreza material da população e das altas taxas de desemprego, os que ainda conseguem manter seus negócios em face de um quadro econômico adverso pela persistência laboriosa e enfrentado as pesadas peculiaridades e preconceitos de toda ordem, merecem nosso respeito e elogio pela dignidade com que exercem o seu ofício.

 

 

 

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O cinéfilo das Alagoas

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Elinaldo Soares Barros [1947], crítico de cinema, cinéfilo, jornalista e professor de educação artística, nasceu em Maceió, dois dias antes do natal de 1947, no dia 23 de dezembro, filho do casal José Soares Filho e Elita Soares Barros. Estudou no Colégio Estadual e na Universidade Federal de Alagoas, onde iniciou as suas atividades político-culturais, sendo eleito segundo secretário do Centro Acadêmico do Instituto de Letras e Artes (ILA), na gestão de Élcio Verçosa, no biênio 1968/69.

Licenciado em Letras pela Ufal em 1970, trabalhou como professor do Colégio Guido de Fontgalland e a partir de 1974 no Curso de Educação Artística do Centro de Estudos Superiores de Maceió (Cesmac).

A segunda metade da década de 1960 foi o período em que a ditadura militar recrudesceu e a censura às manifestações artísticas e políticas atingiu o seu ápice. Nesse momento difícil, um grupo de jovens cinéfilos organiza o Cinema de Artes em Maceió, tendo à frente Radjalma Cavalcanti, Gildo Marçal Brandão e Imanoel Caldas.

Todos esses jovens tinham em comum o gosto pelo cinema e pelas artes, alguns também pela política. Nem todos eram vinculados à política, mas ao movimento estudantil e suas vertentes.

Elinaldo, estudante de Letras e já cinéfilo, frequentava desde a infância os cinema de bairro, que existiam naquela época: o cine Lux, na Ponta Grossa, o Ideal, na Levada, e o Royal, no centro. Integrou essa turma de difusores da sétima arte em Maceió.

O jornalismo na década de 1960 em Alagoas ainda tinha um aspecto romântico e boêmio. Nem todas as seções do jornal eram profissionalizadas; o caderno de cultura era uma dessas áreas do jornalismo que necessitavam de colaboradores, e foi a partir da critica de cinema e até mesmo das crônicas esportivas que intelectuais e jovens universitários passaram a colaborar mais assiduamente.

 

Os primeiros trabalhos publicados de sua autoria foram crônicas esportivas no Diário de Alagoas. Com o fim desse jornal, passou a escrever criticas de cinema no Jornal de Alagoas, que na naquela época era o mais antigo jornal do Estado, órgão de comunicação impressa onde mais publicou, inclusive assinando uma coluna chamada “Cinema”.

Colaborou ainda em outros jornais diários e semanais como: Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, O Jornal e O Diário. Escreveu em 1985, para o jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Voz da Unidade, o artigo “Uma Visão Histórica do Cinema de Alagoas”. Ainda escreveu nos jornais e revistas que foram surgindo e logo em seguida despareciam, em alguns casos sendo obrigados a fechar por força da pressão econômica. Foi o caso da revista Última Palavra. Versátil, também colaborou com o jornal semanal da arquidiocese de Maceió, O Semeador.

A longeva atividade de critico de cinema, toda ela exercida como colaborador nos jornais e nas televisões de Alagoas, o coloca na condição do mais influente intelectual nessa área. Formou várias gerações de professores, jornalistas e de espectadores.  

Foi comentarista de cinema na Tv Gazeta, afiliada da Rede Globo. Atualmente é comentarista da Tv Pajuçara, afiliada da Rede Record em Alagoas. Em companhia do médico e acadêmico Ismar Gatto e de Maria Flora de Melo Soares, sua esposa, produziu um programa que marcou época no rádio alagoano: “Difusão Cultural”, veiculado pela Radio Educativa FM.  

Na década de 1970 o Diretório Central dos Estudantes da Ufal organizou alguns Festivais Estudantis de Música Popular. Imediatamente foi convocado pelas lideranças estudantis para colaborar. 

Na condição de funcionário da Secretaria de Cultura participou da organização de outros eventos importantes, como o Festival de Fotografia, o Salão de Humor, o Festival de Verão de Marechal Deodoro e vários Seminários de Literatura. Ainda foi diretor, por dois anos, do Museu da Imagem e do Som (Misa).

O maior e mais significativo momento do cinema alagoano ocorreu entre 1975 e 1982, período em que foi criado o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo (AL), um evento de excepcional importância para os cineastas locais e também para a produção nacional, com sede na cidade barroca ribeirinha de Alagoas. Os festivais atraíram público, cineastas e produtores de várias partes do país e passou a ser uma das referências do cinema nacional. Em todos os festivais de cinema trabalhou na organização, pois na época era funcionário do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) da Secretaria de Educação do Estado de Alagoas.

É critico de cinema em Alagoas desde 1969. São 42 anos de atividades ininterruptas. Em 2010, foi relançado em segunda edição o livro Panorama do Cinema Alagoano, sob o patrocínio do Cesmac.

Obras de Elinaldo Barros: Panorama do Cinema Alagoano, apresentação de Jorge Barbosa, capa e montagem fotográfica de Esdras Gomes, Maceió, DAC/Senec/Sergasa, 1983; Cine Lux: Recordações de um Cinema de Bairro, Maceió, Edicult/Secult, 1987 (prêmio da AAL em 1988); Rogato: a Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas, com uma Apresentação Quase Desnecessária, de José Maria Tenório Rocha, Maceió, Secult [1994]; O Povo Diante das Lentes, in Arte Popular de Alagoas, de Tânia Pedrosa, p. 105.

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