Inveja e Saber

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Arnaldo Antunes, ex-Titãs, é um dos melhores letristas do país. Sua voz grave e marcante entoa músicas com forte apelo poético e que retratam valores subjetivos do cotidiano humano. Uma delas, em particular, nos interessa para os objetivos desse breve ensaio: invejoso.

Na sua dupla estrofe encontramos uma síntese do comportamento de um individuo que não se contenta com o que tem, ambiciona o que o outro conquistou e demonstra sua total fragilidade de enfrentar a própria incompetência.

Querer o que é dos outros é o seu gozo/E fica remoendo até o osso/Mas sua fruta só lhe dá caroço

Invejoso/O bem alheio é o seu desgosto/Queria um palácio suntuoso/mas acabou no fundo desse poço  [para escutar a canção clique aqui]

Quem não se lembra do personagem Luís da Silva Fabiano em Angústia, clássico da literatura brasileira de Graciliano Ramos (Ed. Record, 2011). Um sujeito que nutre uma ira e inveja de Julião Tavares que beira a irracionalidade, ao ponto de matá-lo por enforcamento. A loucura de Fabiano aumentou e sua impotência revelou-se quando descobriu que Tavares mantinha um caso amoroso com Marina, sua paixão predileta. A inveja e o desgosto do mundo que não conquistava, tornou-lhe um homem ainda mais amargurado, angustiado.

A inveja é um ingrediente que alimenta a traição. Na tradição cristã, ela provocou uma tragédia entre dois irmãos. Caim amava Deus de uma maneira incomum. Entretanto, Deus preferiu o amor de Abel, ensejando em Caim um ser invejoso e vingativo, uma combinação que o levou a assassinar seu próprio irmão.

Recentemente, li um excelente artigo da filósofa e professora Márcia Tiburi, do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da Revista Cult. No texto intitulado “Burrice e inveja: sobre o que vemos, o que pensamos e a política de que somos capazes”, a autora discute que apesar  dos avanços científicos e tecnológicos parte considerável da humanidade tem dificuldades e limitações para se libertar de velhos grilhões morais e atitudes bárbaras. [clique aqui para acessar o texto]

Tiburi argumenta que vivemos momentos tanatológicos, ou seja, um estado de coisas em que somos impotentes para se alcançar a alegria, mesmo com os avanços tecnológicos que nos permitem, através do estreitamento das distâncias, circulação de informações e melhorias em vários aspectos da vida, parecermos mais felizes, realizados. Nesse contexto, a inveja assume protagonismo essencial pelo que a autora designa de “impotência das impotências”.

Para ela, não somos mais desejosos, guiados por motivações naturais que, invariavelmente, se relacionavam com a busca pela verdade, alimento da curiosidade, o ir além das nossas potencialidades construtivas. O momento tanatológico desemboca num “estado de fascistização da sociedade e da mentalidade” provocado pela produção social da burrice (como ignorância prepotente, fechada e autoritária, conforme a autora) e a administração da inveja como um meio para a burrice.

Nesse sentido, os poderosos instrumentos de marketing e publicidade, disseminados, principalmente, pela televisão, têm a poderosa capacidade de influenciar nossas decisões e escolhas. “Se nosso desejo está administrado, é bem provável que tenha se tornado alienado”, sentencia Tiburi. Assim, é muito plausível que exista uma correlação direta entre o desejo administrado e a impotência de nossas próprias vontades, com a incapacidade de agirmos por si mesmos; ao contrário, somos condicionados por forças externas que penetram em nosso inconsciente e nos comandam sutilmente.

Aqui Tiburi alcança um dos pontos fortes de seus argumentos: “assim como a inteligência impotente chama-se burrice, o desejo impotente chama-se inveja”. Enquanto para ela a burrice é uma mutilação cognitiva e moral, uma frustração em não se alcançar o desejo de conhecer, ter êxito nas descobertas, não desvelar as realidades, seja por incapacidade ou pela própria estrutura de administração e poder sobre o conhecimento e suas formas de transmissão, a inveja, por sua vez, é “desejo impotente, é desejo cancelado, mutilado [...] é uma categoria que precisa ser vista como um ponto de vista moral e cognitivo [...] Ela é produzida e manipulada”, assim como a burrice.

A inteligência alimenta o desejo, mas quando a inteligência é impotente ela alimenta a burrice (ignorância prepotente e autoritária). As limitações cognitivas derivadas do aprisionamento da inteligência e limitação do saber, produzem o ser invejoso. “Todo indivíduo cognitivamente impotente é invejoso”. Ou seja, todo indivíduo que está despreparado para reconhecer no outro suas próprias competências, capacidades e condições é, invariavelmente, um invejoso; nega a si próprio, não reúne possibilidades ou condições de se enxergar no outro. “Somos despreparados para o desejo do outro porque somos despreparados para o outro [...] nos contentamos com o mero ver o rosto do outro como um outro e não como um espelho. Eu invejo aquilo que nego como espelho”, afirma Tiburi.

Assim, a inveja pode ser interpretada como a falta de reconhecimento no outro de nossas possibilidades, o desejar do outro, o que não somente espero no outro, mas além dele. A inveja sequer lança mão do artifício da contemplação, pois o individuo invejoso não tem noção dos parâmetros de distância e diferença do outro, porque sua base de comparação é o tempo todo aniquilada pela sua impotência cognitiva.

Pensar é ter a noção da distância com esse rosto, é perceber a diferença. A inveja não possui essa chance de pensamento. Falta-lhe espelho, logo falta distância ou tudo parece distância, o que dá no mesmo. O olho do invejoso esta morto para o outro, parado, destrói no ato mesmo de ver. Ele vê o outro como um morto.

Ao contrário do que pode se imaginar, o outro é sua negação enquanto desejo impotente.

Um dos lugares onde a presença da inveja é mais disseminada trata-se do ambiente de trabalho nas universidades brasileiras. Como colocado logo acima, a inveja não é um sentimento ou tipo de comportamento seletivo, ela pode se manifestar em qualquer indivíduo. Quando Tiburi se referiu a correlação entre burrice e inveja, tratou de definir burrice de uma maneira completamente distinta da compreensão comum. Sendo assim, a inveja também viceja entre aqueles que estão no topo da cadeia de conhecimento da sociedade: a intelectualidade acadêmica.

O sistema produtivista imposto ao mundo acadêmico como forma de avaliação de suas atividades científicas talvez tenha contribuído ainda mais para tornar esse ambiente acadêmico mais hostil. Está cada vez mais difícil perceber a vibração entre professores e pesquisadores quando um deles ou um grupo produziu ou publicou um artigo ou livro, foi(foram) homenageado(s) ou a(s) pesquisa(s) premiada(s). É mais raro, ainda, conferir discussões e debates sobre um texto construído ou pesquisa realizada por colegas. O que tem sobrado muitas vezes é apenas o deboche, críticas panfletárias e a mesquinhez no pensamento reflexivo sobre a produção alheia. Isso é muito comum, por exemplo, nas áreas de ciências sociais aplicadas e humanas

Esses aspectos somente revelam formas de manifestação da inveja, da inteligência impotente, manipulada ou alienada, por uma administração do cotidiano, onde o hoje, o presente e o curto prazo valem muito mais que um projeto de vida, de universidade, de sociedade. Que não estejamos caminhando para o fundo do poço, como alertou Arnaldo Antunes.

Para quem assistiu ao filme Amadeus, deve-se lembrar do personagem Antonio Salieri, a personificação da maldade e fragilidade do caráter humano. Salieri é ofuscado pelo talento e genialidade de um jovem chamado Wolfgang Amadeus Mozart. O sublime da inveja encontra-se no diálogo onde Salieri promete massacrar Mozart, porque Deus tinha lhe trocado pelo jovem e irreverente compositor austríaco na missão de falar aos comuns através da música. A morte de Mozart é a própria derrota de Salieri, sua autonegação. Nesse diálogo com Deus, Salieri expõe todo seu sentimento amargurado

De agora em diante somos inimigos, Você e eu. Porque Você escolheu para o Seu instrumento um garoto arrogante, desregrado, obsceno, infantil, e deu a mim como recompensa a capacidade de reconhecer Sua encarnação. Porque o Senhor é injusto, arbitrário, cruel. Vou negá-lo, eu juro. Vou amaldiçoar e machucar Sua criação na terra tanto quanto possa. Vou arruinar Sua encarnação.

Quantos Salieris não estão do nosso lado no “Templo do Saber", desejosos de nos derrotar, destruir, o tempo todo?

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Política e Economia na Atual Conjuntura

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Os noticiários do país dias atrás veicularam matérias sobre a crise política e financeira do São Paulo Futebol Clube, hexa campeão brasileiro, tricampeão da Copa da Libertadores, bicampeão Intercontinental e campeão da Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Seus novos gestores falam em recuperar a credibilidade do clube, a confiança do torcedor e voltar a ganhar títulos.

Tudo isso depende, também da promessa, de realizar uma reengenharia econômica e redefinir estratégias de planejamento de longo prazo. A dívida total do clube com seus credores, segundo analistas de mercado, chega aos 272 milhões de reais. Pergunta-se: algum torcedor, o mais pessimista, do São Paulo imagina que seu clube irá fechar ou não sairá ainda mais forte dessa crise, que também tem origens políticas muito sérias? Acredito realmente que não!

Evidentemente que as diferenças entre o clube São Paulo e a economia brasileira são imensas, entretanto sobre essa deita um sentimento de pessimismo que a irracionalidade e comete o equívoco de achar que estamos à beira de um precipício. Essa opinião já foi também compartilhada por empresários, como magnata Abílio Diniz [1], e economistas de peso, como Maria da Conceição Tavares [2] e Paulo Nogueira Batista Jr. [3]

Não cansarei o leitor com dados e informações macroeconômicas, mas é necessário reconhecer que nossa crise, de fato, é mais política e o quadro nesse campo cria um grau de incerteza tão elevado que influencia as expectativas dos agentes econômicos. O grau de desconfiança sobre os rumos da economia de um país determina as decisões de investir e consumir no curto prazo, com implicações no horizonte mais longo [4].

Desde a eleição presidencial do ano passado que o clima político vem azedando a cada dia e as investigações de combate à corrupção são importantes ingredientes dessa situação. Com isso os ajustes necessários no campo da economia não são alcançáveis porque, diante do caótico quadro político, a desaceleração macroeconômica impõe a revisão dos critérios e metas, tornando-os ainda mais problemáticos. Ademais, o clima institucional no Congresso impede o avanço da pauta econômica, paralisando os interesses da política fiscal.

Todos os economistas mais sensatos sabiam, já no ano passado, que era preciso redefinir as estratégias de crescimento e diminuir nossa dependência da expansão do consumo e do setor exportador. Quanto ao primeiro, já existia consenso de que o boom do mercado consumidor estava chegando a saturação, pois a demanda puxada pela aquisição de bens duráveis já vinha desaquecendo e o endividamento do consumidor se elevando. Pelo lado das exportações, a dinâmica Internacional tinha arrefecido e nosso principal mercado consumidor, a China, passou a orientar-se por novas estratégias de desenvolvimento, que privilegiam a expansão do consumo interno.

Então, os desafios postos eram continuar com a política de financiamento dos investimentos públicos, expansão do crédito e um ajuste fiscal para acomodar os gastos públicos correntes a uma nova realidade de arrecadação de impostos, compatível com um crescimento econômico menos robusto que o observado no período 2003-2010 [5]. Além disso, as políticas sociais devem continuar sendo prioritárias, pois são fundamentais para atenuar as graves desigualdades de renda no país e colaborar com a dinâmica econômica, principalmente nas regiões mais pobres, como Norte e Nordeste.

Infelizmente, o quadro político se deteriorou muito nos últimos 12 meses e se os impasses institucionais do país não forem resolvidos, dificilmente teremos tranquilidade para avançarmos na estabilidade econômica e no retorno do crescimento.

Notas

[1] Crise no Brasil é política e não econômica, diz Abílio Diniz. Época Negócios, 02/11/2015. Disponível em http://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2015/11/crise-no-brasil-e-politica-e-nao-economica-diz-abilio-diniz.html

[2] Sem pacto, teremos anos sem desenvolvimento, alerta Maria da Conceição. Brasil em Debate, 09/11/2015. Disponível em http://brasildebate.com.br/sem-pacto-social-serao-anos-sem-projeto-de-desenvolvimento-alerta-maria-da-conceicao/. Ver também LEBLON, Saul. Conceição: 'a arma deles é a desesperança. Não Passarão". Carta Maior, 12/11/2015. Em http://cartamaior.com.br/?/Editorial/Conceicao-A-arma-deles-e-a-desesperanca-Nao-passarao-/34971

[3] BATISTA JR. Paulo Nogueira. Conselheiro Acácio: o óbvio também precisa dos seus defensores, dos seus entusiastas. Jornal O Globo. Opinião, 12/11/2015. Disponível em http://oglobo.globo.com/opiniao/conselheiro-acacio-18037556.

[4] Sidney Resende, conhecido jornalista que atuava até recentemente como âncora da Globo News e foi fundador da CBN, antes de ser demitido publicou em seu blog declarações que dizem respeito ao sentimento de ódio que permeia parte da imprensa brasileira, que acaba influenciando o clima de pessimismo no país. No texto ele é direto: "Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo". E mais: "Reconheço a importância dos comentaristas. Tudo bem que escrevam e digam o que pensam. Mas nem por isso devem cultivar a "má vontade" e o "ódio" como princípio do seu trabalho. Tem um grupo grande que, para ser aceito, simplesmente se inscreve na "igrejinha", ganha carteirinha da banda de música e passa a rezar na mesma cartilha. Todos iguaizinhos". Para acessar o texto na íntegra, basta acessar RESENDE, Sidney. Chega de notícias ruins. Blog SRZD, 12/11/2015. Disponível em http://www.sidneyrezende.com/noticia/257037+chega+de+noticias+ruins 

[5] BATISTA JR. Paulo Nogueira. Não há tragédia fiscal, mas crise ameaça democracia. Entrevista a Eleonora de Lucena. Jornal Folha de São Paulo, Caderno Mercado (9), 25/10/2015. Disponível em http://acervo.folha.com.br/fsp/2015/10/25/10/

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"Economia não pode ser uma ciência"

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Quando estudante do curso de graduação em economia, costumava frequentar nas manhãs de sábado, com assiduidade, a Livraria e Papelaria Cultura na Av. Getúlio Vargas, em Campina Grande-PB. A livraria do Juarez, como era conhecida, um professor de matemática da Universidade Federal da Paraíba, apaixonado por livros.

A estante de livros de ciências humanas tomava uma parede inteira de aproximadamente oito metros. A parte reservada aos títulos de economia ocupava quase um terço desse espaço. Nas décadas de 1980 e 1990, a produção nessa área era muito razoável, tanto editoras comerciais como as universitárias apostavam no sucesso dos autores e temas tratados. Essas últimas ainda apostam em livros acadêmicos, o que não é nenhuma novidade pois elas têm essa finalidade. Por outro lado, isso não acontece com frequência e quantidade com as demais editoras.

O produtivismo científico e o pequeno peso e contribuição que os livros emprestam às avaliações da pós-graduação no país, direcionaram os interesses de nossos “cientistas” para a produção em escala de paper’s, com intuito de rechearem seus currículos e fazer valer os critérios que a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior (Capes) utiliza para criar o ranking dos melhores mestrados e doutorados do país.

Se esse movimento ainda não representou um aumento considerável de nossa produção científica no total da produção mundial (13º no ranking), enquanto, também, não significou um milésimo de acréscimo no fator que mede o impacto que nossa ciência pode provocar em diversas áreas do conhecimento, foi responsável pelo encolhimento da produção, na forma de livros, de trabalhos de maior fôlego e perenidade.

Pode ser que nossa colocação esteja equivocada para algumas áreas do conhecimento no campo das ciências humanas, mas não parece haver grandes dúvidas quando nos referimos à disciplina de economia.

O costume de frequentar livrarias, virtualmente e fisicamente, ainda é um hábito que conservo com muito zelo, ainda mais quando todos na minha casa (esposa e filhos) defendem a ideia quando saímos em lazer. Nessas visitas observo como as estantes e prateleiras que se destinavam a exposição de livros sobre economia são cada vez mais menores, e os poucos títulos ficam misturados aos “best-sellers” do mundo dos negócios, da administração manualesca – que tem fórmula para tudo -, da contabilidade e, até, se juntam aos livros de autoajuda.

Recentemente, numa visita à Livraria Cultura no conjunto nacional, em plena Av. Paulista, São Paulo, insisti subir dois vãos de escadas, já sem esperanças, em busca de alguma novidade na área de economia. Encontrei a estante. Passei pelo menos trinta minutos diante dela, em meio aos manuais e títulos de introdução da considerada “ciência triste”. A maioria deles só muda de editora, forma de apresentação, os exemplos e exercícios. O conteúdo é praticamente o mesmo.

Procurando mais um pouco, batendo o olho com mais atenção, reluz na minha frente um livro de cor laranja, com ilustrações na capa em amarelo, muito chamativo. Pelo seu autor, o interesse foi despertado. Ha-Joon Chang, o jovem economista sul-coreano, professor da Universidade de Cambridge, conhecido internacionalmente pelo seu livro Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica (São Paulo: Unesp, 2004), onde retoma a discussão sobre o papel do protecionismo no processo de desenvolvimento econômico, resgatando a tese do alemão Friedrich List, que influenciado pelo norte-americano Alexandre Hamilton, polemizou, no século XIX, com os economistas que defendiam, ardorosamente, o livre comércio como estratégia de desenvolvimento.

Em 1841, List lançou seu livro o Sistema Nacional de Economia Política, realizando uma crítica demolidora aos pressupostos liberais de sua época. Ha-Joon Chang em Chutando a Escada, recuperou essa discussão e demonstrou como as principais economias desenvolvidas do século XX não prescindiram de políticas estratégicas de proteção econômica, bem como não lançaram mão do papel do Estado como eixo indutor do desenvolvimento. Aquele livro rendeu à Chang dois prêmios importantes: Prêmio Gunnar Myrdal, em 2003, e o Prêmio Leontief, em 2005.

Depois de outro texto instigante em que nosso autor denuncia uma “conspiração internacional” em favor dos países mais ricos, que influencia a dinâmica da economia globalizada, através da tríade FMI-OMC-Banco Mundial (Maus Samaritanos: o mito do livre-comércio e a história secreta do capitalismo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009), ele lança em 2014, traduzido agora para o português, Economia: modo de usar – um guia básico dos principais conceitos econômicos (São Paulo: Portfolio-Penguin, 2015).

Em os Maus Samaritanos, o professor de Cambridge já abordava categorias econômicas com muita habilidade, observando, com atenção, sua utilidade na interpretação dos fenômenos do desenvolvimento econômico. Manuseava dados estatísticos competentemente, em busca da objetivação de seus argumentos centrais, quase sempre apresentados de forma muito didática e clara.

No novo livro Chang é muito honesto em seu objetivo, exposto na parte final, no epílogo: “Meu objetivo neste livro tem sido o de mostrar ao leitor como pensar, não o que pensar, sobre economia” (p. 409). Ao terminar a leitura, conferimos que o autor alcançou seu objetivo, principalmente porque faz uma leitura sobre economia numa perspectiva que, infelizmente, tem ficando cada vez mais rara nas salas de aula dos cursos dessa disciplina; apresenta, pelo menos, nove escolas do pensamento econômico e suas variantes, demonstrando que o pensar em economia é muito divergente. Além disso, constrói diálogos entre algumas delas, mostrando as convergências e, principalmente, suas diferenças.

Justamente por ser um campo do conhecimento muito divergente, com dificuldades de se alcançar um mínimo de harmonia conclusiva sobre temas centrais que envolvem, por exemplo, estratégias de desenvolvimento, políticas econômicas (fiscal, monetária e cambial), papel do Estado, funcionamento do mercado, a relação entre economia e mercado etc., o heterodoxo economista sul-coreano é muito enfático em afirmar que a economia não é uma ciência. Os que desejam que assim o fosse e defendem ardorosamente esse status - conferido à física ou matemática, por exemplo - são, justamente, aqueles autores e seus seguidores que tentam embutir na sociedade apenas uma maneira de compreensão econômica do mundo, uma teoria econômica convencional, a teoria liberal-neoclássica.

Nisso concordamos: economia não pode ser uma ciência porque é um campo do conhecimento cercado por valores políticos e morais. Segundo suas próprias palavras, a

“economia é uma disputa política. Ela não é – e nunca pode ser – uma ciência; não há verdades objetivas na economia que possam ser estabelecidas independentemente de julgamentos políticos, e com frequência de julgamentos morais”.

E ainda alerta aos que gostam de discutir economia:

“[...] quando participar de uma discussão sobre economia, você deve fazer a velha pergunta Cui bono? (A quem isso beneficia?), tornada célebre inicialmente pelo estadista e orador romano Marco Túlio Cícero” (p. 409).

Dividido em duas partes e com doze capítulos e diversas subseções, Economia: modo de usar, é de leitura muito fácil, didática, repetindo as características de um professor que tem respeito pelo que faz e responsabilidade pelo que diz.

Outra grande virtude que torna esse “manual” muito útil aos não-especialistas, é a abordagem histórica que Chang adota. Ele sabe combinar muito bem a discussão teórica com o contexto histórico. Ao fazer isso demonstra como os movimentos políticos são influenciados, também, pelo debate econômico e aponta seus "vencedores". Nesse caso, o professor de Cambridge se coloca no espectro heterodoxo da análise econômica, resgatando a tradição da economia política de realizar a crítica às formas dominantes de se pensar e produzir nesse campo.

Teríamos algumas poucas colocações sobre problemas de ordem mais epistemológica encontrados no texto. Sobretudo quando Chang apresenta a resumida perspectiva marxista e conclui afirmando, equivocadamente, que Marx era economista e a questão central de sua teoria era o reconhecimento da importância da inovação tecnológica no processo de desenvolvimento capitalista (p. 126). Nada mais equivocado resumir a teoria da crítica ao capital de Marx a esse aspecto. Outro exagero foi afirmar que Joseph Schumpeter não foi um dos maiores nomes da história da economia (p. 134).

Mas, esses “pequenos” detalhes e outras incorreções não comprometem o novo livro de Ha-Joon Chang, que traz, ainda, uma lista de bibliografias ao final dos capítulos e uma discussão complementar nas notas finais de cada um deles. Enfim, Economia: modo de usar – um guia básico dos principais conceitos econômicos chega em momento muito oportuno, em tempos de crise econômica, em tempos de crise da interpretação dos problemas econômicos, em tempos de crise da produção de trabalhos nessa área. Para os estudantes de economia, uma excelente oportunidade de abrir a mente; para os não iniciados nela, uma alternativa inteligente ao senso-comum; para os “versados”, ditos especialistas, precisa-se de muita humildade intelectual para passar em revista alguns temas e conceitos tratados no livro, para depois adentrar nas novidades, nos argumentos críticos que desmontam argumentos que muitos pensam ser a última palavra sobre economia.

Outra novidade na área felizmente apareceu também em 2015: Dinheiro, dinheiro: inflação, desemprego, crises financeiras e bancos (São Paulo: Portfólio-Penguin, 2015), de João Sayad, professor da FEA-USP. Mas seu tratamento analítico fica para os próximos dias...aguardem.

PS: aos interessados em uma discussão recente sobre a economia como ciência ou não, ver o artigo de Joris Luyendijk, publicado na Folha de São Paulo em 14.10.2015, sob o título Não deixe o Prêmio Nobel enganá-lo: a economia não é uma ciência [clique aqui]

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Uma obra que alcançou maioridade

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No dia 10 de setembro de 2015 chegou às mãos e desfrute da sociedade alagoana e nordestina um livro essencial para a compreensão da evolução histórica, geográfica, social, econômica e política de Alagoas. Não obstante o título ser Formação Histórica de Alagoas, o livro do professor da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Péricles de Carvalho, lançado pela Edufal, passeia por aquelas áreas amarrando temas essenciais que não podem ser negligenciados quando o que verdadeiramente importa é a compreensão das raízes de um tipo tão singular de construção societal.

Apesar de ser a 3ª edição, é um livro completamente novo, porque as duas primeiras foram disponibilizadas no ano de 1980. Esse intervalo de 35 anos tornou o atual texto muito mais desenvolvido, com a inclusão de novos capítulos cobrindo esse longo período. Foram superadas algumas imprecisões, revisada a forma de exposição e incluída uma elegante e moderna apresentação visual.

Quando foi escrito pela primeira vez o prof. Péricles alcançava pouco mais de vinte anos de idade, um ousado e principiante sociólogo. O livro, portanto, carrega em si o amadurecimento de um autor com forte jovialidade laboral e grande preocupação intelectual em continuar contribuindo para a formação da cidadania de seu povo, seu estado. Agora, o sociólogo se mistura ao economista e um atuante militante das causas populares em Alagoas, com experiência suficiente para narrar o passado recente e, principalmente, o que viveu intensamente nessas três décadas e meia que se passaram entre as primeiras versões do livro e a definitiva.

Formação Econômica de Alagoas (a partir daqui FHA) se estrutura seguindo os mesmos passos de clássicos da interpretação brasileira, iniciando pela ocupação territorial e exploração econômica determinadas pela colonização ibérica. Foi assim com Celso Furtado em dois de seus importantes livros, Formação Econômica do Brasil e Economia Latino Americana, e Caio Prado Jr., em Formação do Brasil Contemporâneo. Todos lançados pela prestigiada editora Companhia das Letras em 2007 e 2011, respectivamente  

Na primeira parte de FHA, dois séculos são descritos e analisados em 7 capítulos muito bem distribuídos e didaticamente apresentados. Aliás, essa é uma das maiores virtudes da obra. Ela preenche uma enorme lacuna de textos básicos, de fácil compreensão e que possa ser adotado em escolas de ensino fundamental, principalmente numa região do país com índices tão escandalosos de analfabetismo. Nesse caso, o autor demonstrou grande preocupação em organizar e escrever o texto numa linguagem o mais acessível possível, entretanto sem perder a qualidade no conteúdo e o perfil crítico de quem realmente se preocupa em atingir a essência explicativa. 

Além da primeira parte já referida, o livro se divide em mais quatro: a Comarca (1706-1817); Capitania e Província (1817-1889); República (a velha; 1889-1930); e, República (a nova; 1930-2012). São mais onze capítulos que abordam três séculos de Nordeste e parte do seu coração territorial que se tornou Alagoas.

Evidentemente que não me debrucei na leitura de FHA nesse pouco tempo. Fui agraciado e honrado pelo autor que disponibilizou a versão em desenvolvimento para uma leitura crítica. Minha curiosidade no material foi tamanha que, em pouco tempo, cumpri a tarefa que me foi dada; os pequenos problemas e algumas lacunas interpretativas não significaram nenhum empecilho. Na versão ainda primária percebi que estava diante de um grande texto.

A começar pela bibliografia, acredito que o prof. Péricles esgotou toda a literatura existente que, de uma forma direta e indireta, trata da questão alagoana. Isso já demonstrava a envergadura do projeto reinventado pelo autor.

Da época em que realizei aquela leitura até a versão agora lançada, se passaram em torno de dois anos. Nesse tempo, o autor não descuidou um minuto de seu projeto, mesmo quando a vida lhe tentou pregar uma peça. Aguardou pacientemente o momento ideal para que seu livro ganhasse o mundo. “Lambeu a cria”, como se diz comumente, até o filho intelectual ficar preparado à crítica em geral.

E nessa linha, mesmo compreendendo que o autor evitou uma obra meramente acadêmica e mais densa, pouco compreensível ao cidadão comum, considero ainda a necessidade de uma apresentação e introdução. Não acho que esses elementos tornariam o livro mais “pesado”, pelo contrário contextualizaria o leitor, o familiarizaria com o conhecimento que iria encontrar pela frente. Mas esse aspecto não diminui, em hipótese alguma, a contribuição do seu conteúdo. Ele é mais um sintoma da humildade intelectual do prof. Péricles do que uma falha, algo que escapou de suas preocupações.

Por fim, não gostaria de fechar essa breve e simplória resenha sem mencionar o que significa FHA para seu próprio autor. Quem o conhece bem e acompanha sua trajetória na Universidade Federal de Alagoas, no curso de economia, e também fora da Instituição, reconhece sua modéstia e a mínima inclinação para o autoelogio. No entanto, o lançamento desse livro inscreve, definitivamente, o professor Cícero Péricles entre os grandes autores alagoanos e uma das principais lideranças e referências intelectuais e acadêmicas no campo das ciências sociais e humanas.

Formação Histórica de Alagoas e os demais livros já lançados pelo autor, com destaque para Economia Popular: uma via de modernização para Alagoas (6ª Edição, Edufal, 2014), formam um conjunto reflexivo que há muito tem servido à gerações e gerações de estudantes e estudiosos das questões nordestinas e alagoanas, especialmente no campo da economia heterodoxa, ou seja, sem matizes matematizadas ou extremamente formalizadas, distantes em geral dos problemas reais do homem comum.

Formação Histórica de Alagoas chegou em boa hora, alcançou maioridade e, certamente, terá vida longa, ultrapassando os limites do tempo.

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Ciência, Tecnologia e o Quadro Regional e Local

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Esse é o quinto e último artigo de uma série que analisa aspectos mais gerais da ciência e tecnologia sob o prisma de algumas variáveis que correspondem à produção cientifica e aos nossos recursos humanos.

No artigo anterior a este, observamos que do ponto de vista da evolução dos grupos de pesquisas e número de pesquisadores, o Brasil avançou extraordinariamente. Em 2000 contávamos com 50,6 mil pesquisadores, entre doutores, mestres, especialistas e graduados. Em 2014 passamos para mais de 200 mil. De 29,2 mil pesquisadores doutores naquele ano, contamos agora com 140,2 mil. A evolução da participação do número de doutores no número de pesquisadores, em geral, foi de 57,8% para 68,1% no período considerado.

Somente para efeito de comparação, entre 1990 e 2001 titulamos 37,6 mil doutores, uma taxa de crescimento de 15,9%. Entre 2002 e 2014 foram 110,9 mil novos doutores formados, uma taxa de evolução de 378%. Isso não é de maneira alguma desprezível, demonstrando que nosso sistema de Pós-Graduação avançou e realizou um esforço fundamental para elevar a relação do número de doutores por 100 mil habitantes de 16,2 para 69,2. Não podemos fechar os olhos para isso.

Em termos internacionais esse dinamismo supera o de muitos países, a exemplo da Coréia do Sul, geralmente citado pela literatura especializada como um dos que mais investiram em educação e tecnologia nas últimas décadas (CARNEIRO JR. S. & LOURENÇO, 2003; MARCHELLI, 2005).

É preciso considerar que outros exemplos como Estados Unidos, Alemanha, França e Japão já possuem sistemas de Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I) consolidados, portanto o crescimento do número de pesquisadores não parte de uma base tão baixa de estoque, cresce marginalmente. O que o Brasil realizou entre 2002 e 2014 foi realmente uma pequena revolução nesse aspecto.  

Se, por um lado, essa expansão tem que ser comemorada, por outro traz consigo vários problemas e desafios. Dentre eles, e talvez o principal, é a dificuldade de expandirmos os recursos financeiros e o fomento à pesquisa no país para que se tornem compatíveis com a evolução da massa crítica formada nos últimos anos. Outro fundamental é a deficiente cultura de distribuição dessa massa crítica pelas diversas instituições e segmentos produtivos; ainda resiste a tradição desses pesquisadores de alta qualificação serem absorvidos pelo setor público, Universidades, Institutos de Pesquisas e algumas grandes empresas estatais. Apesar de uma consciência crescente da necessidade de incorporação da ciência, tecnologia e, principalmente, inovação, os setores privados, principalmente produtivos, resistem muito incorporar esse tipo de força de trabalho altamente qualificada, muitas vezes em decorrência das instabilidades e fortes variações dos ciclos econômicos.

Outros problemas fundamentais podem ser lembrados, revelando o tamanho dos nossos desafios em avançarmos na ciência e tecnologia no país. Trata-se, por exemplo, da deficiente, mas importante, expansão da rede universitária pelo interior do país. Esse movimento apesar de estratégico, deixou muito a desejar em termos de infraestrutura de pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, conectividade etc.). Por último, não se pode deixar de ser mencionado os baixos salários pagos aos pesquisadores, principalmente aqueles que estão iniciando sua carreira profissional. De fato, o nível de salários daqueles que terminam o curso de doutorado e estão aptos para começarem uma carreira científica e de pesquisa, não é atrativo de maneira alguma quando comparado a outras carreiras de Estado, importantes por sinal, mas que exigem níveis de qualificação mais simples e executam atividades menos complexas.

Arrematando, o fato é que deve-se comemorar a expansão do número de pesquisadores no Brasil, uma pequena revolução que impõe novos e grandes desafios para a política de C,T&I que, se não for apressada, é grande a ameaça de perdermos jovens talentos e cérebros para os grandes centros de pesquisas mundial.

Também, registramos no último artigo que essa pequena revolução atingiu, em cheio, a estrutura de distribuição de pesquisadores no país. Mesmo assim as desigualdades regionais resistem, mas grandes avanços foram percebidos. O principal deles foi o impacto que isso teve sobre que a região Nordeste, amplamente contemplada com essa expansão. Possuímos agora 20,4% dos 35,4 mil grupos de pesquisas do país cadastrados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), quando tínhamos apenas 14% em 2000. Com essa evolução nos aproximamos dos estados sulistas que têm, juntos, 22,4%, e chegamos a quase metade da região Sudeste, 43,9%, quando em 2000 alcançávamos apenas um quarto disso.

Se em 2000 a relação do número de doutores por 100 mil habitantes era de apenas 7,7, três vezes menor que o Sudeste (23,8), em 2014 essa relação cresceu extraordinários 500%, passando para 47,1, enquanto o Sudeste registrou 78,4. Agora, a diferença é de apenas um e meio em relação ao Sudeste. Movimento muito próximo aconteceu com o Norte do país. São números realmente incontestáveis.

Importa nesse momento fazer algumas indagações: como isso se refletiu internamente no Nordeste? Que lugar ocupa Alagoas nessa pequena revolução? Que desafios a região e o estado enfrentam diante dessas mudanças estruturais no perfil da distribuição do número de pesquisadores no país e elevação dos grupos de pesquisa? O que isso significa para o sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação em Alagoas? Que obstáculos nos aguardam? Qual papel cabe a política pública daqui em diante?

São questões que abordaremos agora e pedimos a paciência do leitor, pois não poderíamos finalizar essa série de artigos nos furtando em responder questões que consideramos relevantes e dão conteúdo a esse artigo.

A região Nordeste conta atualmente com 46 mil pesquisadores no total. De 2000 a 2014 o número de pesquisadores com título de doutor registrados pelo CNPq passou de 3,7 mil para 26,4 mil um incremento nada desprezível de mais de 600%, o que dá uma média de crescimento anual de 40%. O percentual de doutores no número total de pesquisadores chegou a 61,5%, um pouco abaixo da média brasileira de 68,1%.

Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará possuem os maiores estoques de pesquisadores. São centros regionais por excelência em ciência e tecnologia e não é por outra razão que contam com Parques Tecnológicos consolidados, reunindo conhecimento e capacidade científica em diversas áreas, com destaque para engenharia elétrica, computação e saúde. Os seus respectivos sistemas universitários também são bem maiores e contam com várias instituições.

Em todos os estados do Nordeste o crescimento do número de pesquisadores foi muito elevado. Importa observar a relação do número de doutores em relação ao total de pesquisadores e em relação a população. No primeiro caso, excetuando o Maranhão e o Piauí, todos os demais estão muito próximos da média regional (61,5%), destacando-se Pernambuco (68,6%) e a Paraíba (67,5%). Alagoas se posiciona muito bem em relação ao Nordeste, 59,5%. Entretanto, em comparação com, por exemplo, Pernambuco e Paraíba que têm um estoque muito baixo de pesquisadores com mestrado em relação ao total, 25% e 23%, respectivamente, Alagoas tem mais de 30%. Isso revela uma necessidade de uma política estratégica de diplomação de nossos mestres em doutores.

Quando conferimos a relação do número de doutores por 100 mil habitantes em 2014, novamente a Paraíba e Pernambuco se destacam. Certamente em razão de sua enorme população, a Bahia não leva muita vantagem, ao contrário do Rio Grande do Norte e Sergipe.

Entretanto, o que realmente salta aos olhos é a evolução de todos os estados nesse quesito. Alagoas, por exemplo, somente contava com 5 pesquisadores doutores por 100 mil habitantes em 2000, agora tem mais de 40, número ainda abaixo da região, 47,1. O Maranhão passou de 2,7 para 17,2. Isso é muito significativo considerando as condições socioeconômicas ainda prevalecentes nesses territórios, com elevadas taxas de analfabetismo e atraso em vários indicadores. Porém, como foi colocado acima, precisamos em Alagoas tanto atrair como manter e formar pesquisadores com título de doutor. Mais na frente voltaremos a esse assunto.

Uma consequência natural da expansão do número de pesquisadores no país e, especialmente, no Nordeste foi a criação de grupos de pesquisa liderados por doutores e cadastrados no CNPq, objetivando acessar os recursos que são disponibilizados, via editais, para financiar projetos de pesquisas, viagens científicas, editoração de livros e revistas, infraestrutura física e de laboratórios etc.

Em 2000 tínhamos no Brasil 11,7 mil grupos de pesquisas e passamos para mais de 35 mil em 2014. O incremento no Nordeste foi de 1,7 mil para 7,2 mil no mesmo período, portanto multiplicando por quatro a quantidade dos grupos de pesquisa. Novamente, aparecem bem no quadro Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará.

Alagoas ocupa uma posição intermediária e conta, atualmente, com 442 grupos de pesquisa, contra apenas 67 em 2000. Para o padrão regional dos estados que, de fato, desenvolveram um sistema mais robusto e vanguarda na ciência, tecnologia e inovação, é ainda muito tímida nossa posição, mas não podemos desperdiçar essa oportunidade. É preciso avançar com políticas estratégicas que estimulem esses grupos e seus pesquisadores se desenvolverem, a criação de novos e a garantia de fluxos contínuos de fomento à pesquisa que os contemplem.   

São muito fortes os indícios históricos que explicam que alguns países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento científico e tecnológico o fizeram através de investimos maciços, por um longo tempo, em educação básica, preparando seus jovens para o mercado de trabalho e, especialmente, garantindo as possibilidades de formação continuada nos níveis de pós-graduação, dedicando nesses estágios recursos financeiros não-reembolsáveis e instituições capazes de propiciarem o ambiente favorável ao desenvolvimento de pesquisas e a interação entre as mesmas e a própria sociedade que a circunda.

Por essa razão, quando falamos em massa crítica, expressamos nossa preocupação com o número e a qualidade de nossos pesquisadores, principalmente aqueles que detém título de doutor. Isso não é um mero exercício de preciosismo, pelo contrário. Um indivíduo que alcançou esse nível de formação supõe-se está preparado pelo longo processo de aprendizagem e experiência que obteve para caminhar com os próprios pés no mundo da ciência. Trata-se do começo de sua carreira e não o fim, como muitos imaginam e desejam.

Desviando nossa atenção agora para nossa realidade nordestina e, principalmente, alagoana, alguns desafios estão postos. Enfrentá-los é necessário para, concretamente, avançarmos em ciência, tecnologia e inovação. Em que pese já contarmos com um Plano Estadual para essa área, elaborado no final da gestão governamental passada, é preciso aprimorá-lo e incorporar outros aspectos e elementos estratégicos.

Substancialmente precisamos ser urgentes na construção e desenvolvimento de um sistema de informações e dados que nos permitam conhecer melhor o potencial cientifico e tecnológico de Alagoas. Por exemplo, algumas perguntas sem respostas continuam flutuando entre nós: quem são esses nossos pesquisadores? Onde se encontram e como se inserem nesses grupos de pesquisa? O que eles desenvolvem, como funcionam e quais suas demandas? De que maneira o sistema governamental de ciência e tecnologia dá cobertura aos nossos pesquisadores? Como são distribuídos os recursos entre os respectivos grupos de pesquisa? Etc. etc. Ou seja, sem estatísticas e indicadores torna-se difícil construir uma política estratégica de ciência, tecnologia e inovação em Alagoas.

Também, é preciso uma radiografia mais precisa do funcionamento de nossa pós-graduação. Fazer a relação dos grupos de pesquisa existentes no estado e os mestrados e doutorados. Levantar a demanda real atual e futura em relação a quantidade de bolsas de estudo, laboratórios e auxílios a pesquisa etc.

Recentemente 8 propostas de Pós-Graduação foram enviadas à Coordenação de Apoio à Formação de Pessoas do Ensino Superior (Capes), sendo 6 de mestrado e 2 de doutorado, somente entre as públicas (UFAL, UNEAL e UNCISAL). Por sua vez, a perspectiva no curto prazo é de mais 2 pós-graduação em nossos Centros Universitários privados. Somadas essas propostas com o número de pós-graduações que já existem, podemos passar de 40 cursos desse nível em Alagoas. Isso é muito alvissareiro, pois contribui, sumamente, para a expansão do sistema de formação daquela massa crítica a qual nos referimos e desenvolvimento das pesquisas e tecnologias que podem ter vários direcionamentos para as urgências do estado.

Outro aspecto que devemos evitar é a fuga de cérebros do estado, não somente por uma questão óbvia de necessidades, mas porque Alagoas não se pode dá ao luxo, com todos os problemas que reúne e assumindo contornos de prioridade, perder intelligentsia em um momento em que a escassez é elevada e seu poder de transformação é real.

É preciso reverter o fluxo de saída como o que ocorreu somente com a Universidade Federal de Alagoas, campus de Arapiraca, quando, em apenas 6 anos, mais de 60 mestres e doutores evadiram-se. Conter essa “hemorragia de cérebros” deve ser uma prioridade absoluta. Medidas urgentes precisam ser tomadas no sentido de melhorar as condições de trabalho e pesquisa nas instituições do interior, buscando fixar esses pesquisadores de alto nível, possibilitando o acesso aos recursos de fomento à pesquisa, de criação de laboratórios e compra de equipamentos, viabilização de eventos acadêmicos e científicos, conectividade etc.

Por fim, nossos pesquisadores e seus respectivos grupos de trabalho, bem como o sistema de pós-graduação, onde a maioria deles está acomodada, precisam estabelecer relações mais estreitas com os setores público e privados e vice-versa. Sabemos que existe ainda muito preconceito no Brasil sobre esse assunto, mais comum na periferia dos grandes centros de pesquisa.

Construir essas pontes não significa vulnerabilizar nossas instituições de ensino e pesquisa, principalmente as públicas. Esse tipo de preconceito mais atrapalha que ajuda no fortalecimento de nosso sistema de ensino, pesquisa e extensão, com prejuízos tanto para nossas universidades quanto para a sociedade. Especialmente a alagoana que sem essa conexão dificilmente caminhará no sentido do desenvolvimento, trazendo para mais de dois terços de sua população mais dignidade e segurança à vida, oportunidade de trabalho, ocupação e acesso aos bens que possam libertá-los da pobreza estrutural que sempre marcou nossa sociedade.

 

Bibliografia

MARSHELLI, P. S. Formação de doutores no Brasil e no mundo: algumas comparações. Revista Brasileira de Pós-Graduação, v. 2, n. 3, p. 7-29, 2005.

CARNEIRO JR. S.; LOURENÇO, R. Pós-graduação e pesquisa na universidade. In: VIOTTI, E. B.; MACEDO, M. M. (orgs.). Indicadores de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Campinas: Unicamp, 2003. p. 169-227.

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Ciência, Tecnologia e o Quadro Nacional

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No dia 05/05 publiquei nesse espaço um ensaio analisando a inserção brasileira no ranking internacional da produção científica, propriedade intelectual e patentes.

A publicação de artigos e trabalhos científicos é considerada uma variável importante para se avaliar a dinâmica da produção de ciência e tecnologia de um país. Por sua vez, a quantidade de solicitações de propriedade intelectual é um indicador importante para se avaliar o nível e alcance da produção científica e sua inversão em tecnologias, que serão apropriadas pela sociedade em geral, especialmente os diversos segmentos econômicos produtivos.

Vimos naquele ensaio que entre 2002 e 2012 a participação brasileira no total da produção científica mundial cresceu 83%, saindo de 1,2% para 2,2. Mesmo com esse resultado, o país ocupa atualmente a 13ª colocação no ranking da produção científica internacional. A área do conhecimento melhor posicionada é a biologia aplicada à ecologia, 3ª posição.

Em termos de propriedade intelectual e patentes, a situação é desoladora ainda. Ocupamos a 20ª colocação e a quantidade de solicitações de propriedade intelectual, em 2013, alcançou apenas 0,9% do total da China e 1,9% dos EUA.

Portanto, enfatizamos que sem mais recursos financeiros, condições de trabalho e infraestrutura, pesquisadores capacitados e motivados, legislação apropriada ao desenvolvimento de trabalhos de pesquisa e inovação, um sistema mais eficiente para registros de propriedade intelectual e patentes, e maior interação entre a academia e segmentos econômicos e produtivos, dificilmente o Brasil romperá a barreira do subdesenvolvimento tecnológico e científico.

Não obstante essas dificuldades, alguns avanços foram alcançados em uma década e meia. Principalmente relacionados ao crescimento dos números de pesquisadores com títulos de doutorado, na formação de grupos de pesquisas e expansão da política de fomento à pesquisa.

Esses dados são importantes, porque muitas vezes passa-se despercebido que os maiores protagonistas das ciências no país são os pesquisadores, estando eles nas esferas públicas como privadas, mesmo considerando que alguns indivíduos sem formação tradicional e com base na experiência, adquiriram competências em empreender e inovar. Vamos então aos números copilados e trabalhados.

Segundo o Censo de 2014 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Brasil conta com cerca de 200 mil pesquisadores, com titulação de doutor, mestre e especialista. Entre 2000 e 2014, a quantidade de pesquisadores foi multiplicada por 4 e de doutores por quase 5.

A relação proporcional entre pesquisadores com titulação de doutor e a quantidade geral de pesquisadores saiu de 57,8% para 68,1% no mesmo período. É nesse nível de formação que se espera que o indivíduo alcance as condições mínimas suficientes para que inicie sua promissora carreira científica e o desenvolvimento de pesquisas.

Fonte: CNPq. Elaboração própria.

O crescimento do número de pesquisadores doutores foi acompanhado, ao longo de todo período, pelo importante processo de desconcentração espacial. Podemos atribuir como principais razões desses dois movimentos os seguintes aspectos: i) o aumento dos recursos financeiros de fomento às pesquisas e bolsas de estudo; ii) a expansão da rede de pós-graduação no país, com destaque para as cotas definidas para as regiões Norte e Nordeste iii) a interiorização da rede de ensino superior; e, iv) a recomposição do quadro de professores nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFE’s).

Do ponto de vista da distribuição, observamos que em 2000 a região Sudeste contava com mais de 60% dos doutores do país, enquanto o Sul, o Nordeste, o Centro-Oeste e o Norte possuíam, respectivamente, 17,6%, 12,9%, 6,5% e 2,5%. Em 2014 o quadro melhorou substancialmente para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A primeira dobrou sua participação, o Nordeste cresceu 42%, o Centro-Oeste 31% e a região Sul 17,6%.

Considerando que Rio de Janeiro, Minas Gerais e, principalmente, São Paulo, ainda concentram juntos a maior parcela de pesquisadores do país, não podemos ignorar o movimento de desconcentração regional de cientistas brasileiros. Certamente, esse processo decorreu dos aspectos ii, iii e iv mencionados logo acima.  

Fonte: CNPq. Elaboração própria.

Em relação ao financiamento, os dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), principal Instituição responsável pela formação de pesquisadores no país, mostram um quadro de evolução extraordinário. Nas modalidades bolsas de estudos para alunos de pós-graduação e auxílio-pesquisa, a expansão dos recursos entre o 2000 e 2012 foi da ordem de 400%. De pouco mais de R$ 440 milhões investidos, chegamos em 2012 a R$ 2,1 bilhões para a formação e qualificação em níveis elevados de graduação.

Importante destacar que esse crescimento também foi acompanhado pela desconcentração de recursos. Mais uma vez a região nordestina levou vantagem na distribuição, aumentando sua participação de 14% para 17,6% no período.

Fonte: Capes. Elaboração própria.

O resultado do aumento quantitativo de pesquisadores no país e do volume de investimentos, foi naturalmente a expansão da formação de grupos de pesquisas cadastrados no CNPq. De pouco mais de 11.700 grupos em 2000, o país conta com mais de 35.000 atualmente.

Em todas as áreas de conhecimento registrou-se crescimento, mas destaca-se a formação mais intensa de grupos dessa natureza nas áreas de ciências sociais aplicadas, ciências humanas e ciências linguísticas, letras e artes. Nelas, mais que triplicou a quantidade que tínhamos no ano 2000.


Fonte: CNPq. Elaboração própria.

Para corroborar novamente as constatações de que os avanços no quadro geral da ciência e tecnologia foram acompanhados pelo processo de desconcentração espacial dos recursos financeiros e número de pesquisadores, em todas as regiões o percentual do número de grupos de pesquisa avançou, com o Nordeste novamente se destacando e passando a ter 20,4% do total do país.

Fonte: CNPq. Elaboração própria.

Apesar desses importantes avanços, é preciso mencionar que a situação das regiões periféricas em torno dos espaços em que a dinâmica da ciência e tecnologia é mais intensa, era de muito atraso nas décadas de 1980 e 1990. O estoque de pesquisadores com titulação de doutor era muito baixo. Algumas poucas pessoas possuíam o privilégio de gozar das prerrogativas de acessar os parcos recursos destinados à ciência e tecnologia em regiões como o Norte-Nordeste e Centro-Oeste.

A realidade se transformou e a tabela abaixo nos ajuda a perceber isso. Enquanto em 2000 o Nordeste contava com aproximadamente 8 doutores para cada 100 mil habitantes, o Sudeste tinha três vezes isso, 24 por 100 mil. Em 2014 essa situação alterou-se e o Nordeste possuiu agora 60% da quantidade do número de doutores por 100 mil do Sudeste. A expansão dessa relação na região Norte não pode ser desprezada e na região Centro-Oeste a evolução foi muito significativa, certamente pelo crescimento das pesquisas vinculadas às ciências agrárias e biológicas, atendendo as demandas da expansão da fronteira agropecuária.

Não obstante essas mudanças estruturais, os números demonstram que ainda persistem as desigualdades regionais na distribuição dos recursos financeiros e do número de pesquisadores de alta qualificação. O Norte-Nordeste conserva uma baixa relação número de doutores/habitantes quando observamos o cômputo geral. Isso nos leva a concluir que é imprescindível a continuidade das políticas de formação de pessoal nos níveis de mestrado e doutorado, fortalecimento dos Programas de Pós-Graduação nessas regiões e o aumento e garantia dos recursos para bolsas, auxílio pesquisas e manutenção desses Programas.

Preocupa muito a política de austeridade fiscal praticada pela equipe econômica do governo, pois ela atinge diretamente a produção de ciência e tecnologia no país, sobretudo no item correspondente aos recursos destinados ao custeio e manutenção dos Programas de Pós-Graduação.

Em regiões como Norte e Nordeste, onde os Programas de Pós-Graduação dependem, exclusivamente, de recursos públicos das agências de fomento federais, das fundações de amparo à pesquisa (FAP's) e a interação com segmentos produtivos ainda é muito baixa, o corte de 75% no Programa de Apoio a Pós-Graduação (PROAP) é muito preocupante. Por exemplo, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste a elevada densidade de doutores e Programas de Pós-Graduação que interagem entre si, possibilitam novos arranjos adaptativos e viabilizam a formação de bancas de mestrado e doutorado com avaliadores externos aos Programas.

Na periferia da periferia, onde até a interconectividade é precária para realização de videoconferências, os Programas certamente sentirão as consequências de uma política de ajuste fiscal que sacrificará as condições e infraestrutura de pesquisa, ciência e tecnologia, a formação de novos recursos humanos e interromperá a trajetória de avanços que vinha fazendo a diferença há uma década e meia.

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Seis Meses de Desafios na Fapeal

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No dia 13 de janeiro de 2015 fui nomeado pelo Governador Renan Filho Diretor Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas – Fapeal.

Com muito orgulho, aceitei o desafio e desde então tenho mergulhado nos assuntos relativos à Instituição, sua história e protagonismo nos campos da ciência, tecnologia e inovação do estado

A Fapeal completa este ano duas décadas e meia de existência. Fruto de um sonho acalentado por um grupo muito especial de pessoas militantes da causa da educação em Alagoas. Lideradas pelo prof. José Medeiros, a Fundação atravessou, durante esse tempo, por vários ciclos de expansão.

Nossa missão é tão grande quanto a dos nossos antecessores, pois o país, a região Nordeste e, principalmente, Alagoas, estão desafiados constantemente a avançar em várias direções. Para nosso estado é mister solucionar os péssimos indicadores de educação, especialmente erradicar o analfabetismo, elevar a quantidade e qualidade da nossa produção científica e, com isso, alcançar maturidade e experiência suficientes para fazer acontecer, com maior protagonismo, as novas tecnologias e processos inovadores, geralmente absorvidos pelo sistema produtivo e pelas políticas públicas.

Uma das primeiras iniciativas da nossa gestão foi reconhecer a necessidade de uma nova missão e papel estratégico da FAPEAL, redefinindo seu escopo e ampliando seus raios de ação. Assim, chegamos à seguinte filosofia conceitual: 

A FAPEAL como Instituição de Estado e respeitando sua Legislação, deve preocupar-se em prezar pelo aumento e qualidade da produção científica, tecnológica e inovadora no estado, julgando o mérito das propostas e projetos apresentados através de editais públicos, e firmar convênios e acordos de cooperação entre Instituições Acadêmicas (públicas e privadas) e de Pesquisas, Setores Produtivos e Governo do Estado com o propósito de contribuir com o desenvolvimento de Alagoas

Nessa nova visão institucional gostaríamos de destacar três aspectos essenciais: i) os programas e ações da Fundação devem preocupar-se com todos os atores que atuam nas áreas de ciência, tecnologia e inovação; ii) é muito apropriado que o atendimento dos vários interesses que envolvem as ciências, tecnologias e inovações seja mediado pelo instrumento mais democrático, objetivo e eficiente utilizado pelo poder público quando se envolve recursos financeiros da sociedade, ou seja, as chamadas públicas com seus respectivos editais. O maior objetivo é disciplinar e estabelecer, mais claramente, as regras do “jogo”, otimizar os recursos e melhorar os processos de desenvolvimento dos resultados das pesquisas; iii) as estratégias da Fundação devem não somente contribuir com os avanços da comunidade acadêmica e científica tradicional, mas também com o desenvolvimento do setores produtivos que incluem pesquisas e inovação em seus métodos de trabalho, como também fazer avançar os órgãos do Estado de Alagoas, que se valem dos mesmos atributos e detêm potencial para desenvolver tecnologias que subsidiarão a tomada de decisão sobre políticas públicas.

Com base nessa nova visão institucional e preocupados em atender ao inovador sistema de governança instalado pelo Governo Renan Filho, submetemos ao Conselho Superior da Fapeal um conjunto de treze Programas que irão nortear nossas ações no curto e médio prazo.

Aprovado por unanimidade, esse pacote restabelece algumas ações necessárias para fortalecer a aproximação da Instituição com os mais diversos segmentos vinculados às Instituições de Ensino Superior, públicas e privadas, do estado, principais atores que possuem a responsabilidade de desenvolverem pesquisas e ciência. Neste conjunto somam-se mais de vinte e cinco ações com os mais variados objetivos, intencionando contribuir com os principais pilares do atual governo, quais sejam: transparência, acessibilidade, eficiência e responsabilidade.

O conjunto de Programas é composto por : 1) Programa 25 anos da Fapeal; 2) Programa Revista Fapeal; 3) Programa Calendários Temáticos; 4) Programa de Apoio à Participação e Realização de Eventos Científicos, Acadêmicos e Tecnológicos – PAFRE; 5) Programa de Apoio aos Grupos de Pesquisa – PGP; 6) Programa de Apoio à Formação de Jovens Pesquisadores – PAF/Jovem; 7) Programa de Apoio à Pós-Graduação Stricto Sensu – PSS; 8) Programa de Auxílio à Pesquisa – PAP; 9) Programa de Apoio à Formação de Recursos Humanos de Alagoas – PAFRE; 10) Programa de Apoio a Consolidação das Instituições de Ensino Superior do Estado de Alagoas – PAC/IES; 11) Programa de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento das Políticas Públicas em Áreas Estratégicas do Estado de Alagoas – PDPP; 12) Programa de Apoio à Popularização da Ciência – PPC; 13) Programa de Apoio aos Projetos Especiais – PAPE.

Para que esse conjunto de Programas possa ser implantado e colocado em execução, é preciso contar com uma estrutura organizacional e processual adequada e consistente com as necessidades específicas. Para tanto, desde o primeiro dia dessa gestão, estamos em intenso movimento de mudanças internas objetivando qualificar nossos processos, valorizar o servidor público da Instituição, nomeando novos colaboradores com o perfil adequado às áreas administrativas e científicas, e estabelecendo novas rotinas de trabalho, com foco na meritocracia, respeito às hierarquias e reforçando a cultura do trabalho coletivo. Mesmo com as necessárias medidas adotadas de cortes de custos e redução de cargos comissionados em toda a máquina pública do Estado, pudemos avançar nos aspectos mencionados.

Os primeiros resultados foram os lançamentos de alguns editais importantes e a formulação de outros que já se encontram na Procuradoria Geral do Estado – PGE, para análise. Entre os que já foram lançados temos: 1) Edital de seleção de alunos do ensino fundamental para concessão de bolsas de iniciação científica, em parceria com o CNPq e Secretaria de Estado da Educação; 2) Edital de composição das Câmaras Técnicas-Científicas, que visa compor grupos de cientistas que ajudarão nas análises da propostas de pesquisas e trabalho dos pesquisadores alagoanos; 3) Edital de apoio à participação de pesquisadores alagoanos com trabalhos científicos aprovados em eventos nacionais e internacionais; 4) Edital de apoio à organização de eventos científicos, acadêmicos e tecnológicos em nosso estado; 5) Edital de auxílio à pesquisa em geral e outro direcionado ao campo das humanidades. Somente nesses editais a Fapeal já mobilizou em recursos próprios cerca de R$ 2,3 milhões para serem investidos entre 2015-2016.

Por sua vez, em virtude da difícil situação econômica que o país tem enfrentado e a reestruturação orçamentária que os Governos Federal e Estadual estão passando, já abrimos negociações com vários órgãos diretamente ligados à política de desenvolvimento científico e tecnológico, como Capes, CNPq e Finep. Reforçamos nessas reuniões a importância da continuidade de programas, convênios e parcerias.

Entretanto, essas articulações não são suficientes. Tem sido necessário buscar novas e alternativas fontes de recursos para capitalizar a Fundação e proporcionar oportunidades para os pesquisadores e empresários inovadores alagoanos. Foi com esse objetivo que já abrimos canais com a Chesf, Senasp/MJ e outras Instituições estão em nosso horizonte.

Ademais, assumimos em parceria com o Diretor Presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí – Fapepi, a articulação dos Presidentes de FAP’s do Nordeste para, em conjunto, participarmos da próxima reunião dos governadores da região, no dia 17 de julho, em Teresina. O objetivo central será fortalecer a ideia da criação do Fórum Permanente de C,T&I no Nordeste, para discutir, dentre outros assuntos, estratégias comuns de acesso aos principais Fundos Financeiros e Setoriais destinados a essas áreas.

Ainda se tratando dos avanços institucionais importantes, observamos que é necessário dotar as políticas da Fapeal e seus respectivos programas de dados, informações e estudos que possam balizar a tomada de decisão e seu direcionamento baseado em planejamento de médio e longo prazo. Nesse sentido, estamos em fase de elaboração do projeto de criação do Observatório da Ciência e Tecnologia. Esse ambiente é de extrema necessidade para conhecermos mais profundamente o que foi feito e deverá ser realizado pela Instituição, o panorama geral científico e tecnológico alagoano e sua dinâmica, realizar comparações inter-regionais e nacional. Infelizmente, escutamos falar muito sobre o assunto, mas são quase inexistentes os indicadores, estudos e diagnósticos sobre nossa realidade.

Por fim, lançamos o novo site da Fundação em consonância com as demandas da sociedade por espaços virtuais mais dinâmicos, autoexplicativos e modernos. Através dele pretendemos estabelecer uma interatividade muito maior com a comunidade científica e acadêmica do estado, os setores produtivos e órgãos do governo. Nele poderão ser encontradas notícias vinculadas a nossa área de atuação, principais editais públicos e resultados, uma biblioteca com um acervo com mais de oitocentas dissertações de mestrado e teses de doutorado fomentadas pela Instituição, e logo em breve um portal dos bolsistas, que contará com a lista de todos os indivíduos que recebem bolsas pela Fundação, auxílio a pesquisas etc. Com esse instrumento procuramos atender, também, a filosofia do governo estadual de trabalhar com mais transparência, ética, proximidade e acessibilidade.

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Sociedade e Subdesenvolvimento em Alagoas

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O Jornal Extra tem publicado semanalmente análises com alguns dos principais intelectuais e pesquisadores de Alagoas que fazem reflexões sobre nossa formação histórica, social, econômica e política, bem como seus problemas e desafios contemporâneos. Capitaneado pelo jornalista Odilon Rios, esse trabalho tem como finalidade discutir assuntos que convergem para as comemorações dos 200 anos de emancipação de Alagoas, em 2017. No dia 15 de maio, a edição do Jornal saiu com uma entrevista nossa, coloborando com esse belo trabalho. Reproduzimos na íntegra essa reflexão para os leitores que não tiveram a oportunidade de conferir. Boa leitura!

Jornal Extra de Alagoas 15-22 de maio de 2014

Entrevista à Odilon Rios

1. Quando descobriu que a Alagoas dos heróis foi apenas ficção?

Na verdade isso não foi uma descoberta. Nós sabemos desde o ensino fundamental que a história brasileira é contada - e quase sempre aceita - através da vida e realizações de alguns sujeitos que são configurados como heróis. Ou seja, o protagonismo histórico é individualizado e são coroados alguns ilustres personagens que, invariavelmente, foram alçados de famílias importantes e nobres da estrutura social. No caso de Alagoas, isso é muito perceptível, pois muitos nomes de ruas, monumentos e comendas levam o nome de alguns considerados “heróis”. A leitura que fiz do livro do historiador alagoano Dirceu Lindoso, A Utopia Armada: rebeliões de pobres nas matas do tombo real (Maceió: Edufal, 2005), permitiu que conhecesse um pouco mais o processo histórico alagoano pelo lado dos derrotados, que sem eles não existiriam os chamados “heróis”, quando na verdade são as lutas, os conflitos, as contradições políticas, sociais e econômicas que fazem girar a roda da história. Lindoso aponta justamente isso: que existe uma história oficial escrita pelos vencedores e que esconde determinantes históricos relevantes e excluindo, completamente, os protagonistas oriundos das classes subalternas da estrutura social.

2. Desde quando existe relação entre os indicadores sociais de Alagoas e a violência?

Essa relação não é nova. Porém um aspecto desafiou as ciências sociais contemporâneas: mesmo melhorando o perfil de renda dos considerados mais pobres e incluindo-os no mercado de consumo, não fizemos recuar os elevados níveis de violência no Brasil. Em Alagoas isso é ainda mais dramático, porque não é somente a pobreza material que determina a violência exagerada, mas também a falência das políticas públicas, a completa ausência de cidadania e cuidado com a formação das crianças e jovens. A violência em Alagoas, apesar de antiga, explodiu mesmo a partir de 2007 e isso deve ser explicado de forma contextualizada, e não debitar somente a uma pretensa cultura e histórico de violência.

3. O senhor diz que Alagoas já esteve entre as quatro maiores posições do Nordeste em participação do PIB regional e nos últimos 20 anos perdeu este ritmo. Como explicar isso se a aplicação de recursos federais cresce, em especial na era Lula?

A era Lula fez crescer toda a economia nordestina acima da média nacional. Até o momento, a região tem repetido esse dinamismo na era Dilma, como demonstra recentemente boletim regional do Banco Central que registrou 3,6% de crescimento. Então, assim como os demais estados nordestinos, Alagoas se beneficiou da expansão do consumo, do emprego e renda que possibilitaram o crescimento dos setores de comércio, serviços e construção civil. Isso aconteceu também em todos os estados da região. Só que nesses, somados aqueles setores, observou-se também dinamismos em segmentos da indústria e agricultura, com expansão de empregos formais e aumento da massa de salários. Em Alagoas sabemos que a agricultura vem perdendo dinamismo há anos e nossa indústria recuou em seu setor mais significativo, o sucroalcooleiro, avançando apenas no químico-plástico, intensivo em tecnologias e poupador de mão de obra. Ou seja, não obstante os avanços no comércio, serviços e construção civil, não tivemos o mesmo dinamismo apresentado por outros estados nos segmentos industriais e na agricultura. Por essa razão crescemos, mas muito mais lentamente quando observamos uma série histórica mais longa. Na verdade então, involuímos economicamente quando nos comparamos a outros estados do Nordeste

4. Alagoas assistiu ao nascimento e queda dos engenhos para vir as usinas, que enfrentam decadência. O modelo esgotou?

Na verdade ele não é um modelo. Trata-se de uma estrutura específica de produção econômica que acompanha o Nordeste e, especialmente Alagoas, desde sua formação e continuará fazendo parte de nossa história por várias décadas ainda. Açúcar e álcool são dois produtos que ainda serão consumidos por muito tempo e Alagoas é competitiva em várias áreas agricultáveis para esse tipo de produção. Agora, está evidenciado que precisa-se de alternativas econômicas mais dinâmicas que possam não somente gerar empregos e renda em padrões mais elevados, mas também produzir receitas fiscais que o Estado precisa para compensar o nosso histórico de renúncias, que resultaram nas dificuldades com as quais o setor público hoje se defronta.

5. Em torno da cana, há a pobreza material e aquela em que o pobre se autodestina a continuar na miséria. Onde o modelo da cana errou e onde acertou?

Sobre esse assunto existem outros especialistas com mais autoridade para falar. Mas, não podemos deixar de arriscar uma opinião com base em nossa experiência acadêmica. A questão não é de acertar ou errar, porque desde o Brasil Colônia a produção canavieira foi extremamente rentável. Celso Furtado em seu clássico Formação Econômica do Brasil já apontava que essa atividade foi uma das mais prósperas em termos de criação de riquezas nos primeiros 200 anos de ocupação portuguesa. Então esse modo de produção, que passou por várias fases de mutação, foi extremamente alvissareiro para seus empresários. O problema é que na sua genética, ao mesmo tempo em que gera riquezas, promove a absoluta pobreza, porque sua estrutura de funcionamento e distribuição é essencialmente concentradora e atrofiadora do desenvolvimento humano. Do ponto de vista histórico, a sociedade alagoana sendo puxada por esse tipo de “locomotiva” econômica foi a que herdou os piores indicadores sociais e humanos do país. Para se aprofundar mais sobre isso é preciso mais economia política, ou seja, compreender a anatomia desse sistema retardatário.

6. Nós descobrimos a origem do mal estar alagoano?

Quando em nosso livro dedicamos um capítulo com esse título [Ensaios sobre o Subdesenvolvimento e a Economia Política Contemporânea, São Paulo: Hucitec, 2014[, estávamos nos referindo a alguns poucos momentos que o alagoano poderia se encontrar consigo mesmo, gozar de uma relativa felicidade. Quando ele, conduzido por uma forçacoletiva, expressava todas suas potencialidades, julgando-se superior aos seus próprios problemas. Envolto a tantas situações de descasos, violência e escassez de atenção por parte das políticas públicas, apenas alguns momentos lhe traziam a plena felicidade. E um deles era o futebol, principalmente quando os representantes locais enfrentavam os grandes e se saiam bem. O esbanjar de alegrias e o efeito contagiante das vitórias devolviam ao alagoano o forte sentimento de pertencimento e orgulho de ser o que é. Entretanto, esses momentos são apenas lampejos coletivos, porque já estávamos acostumados a vivenciar, no cotidiano, um quadro de elevado mal estar.

7. Quem é o povo e o governo a que o senhor se refere em seus artigos?

Na verdade não gosto muito de usar a expressão povo porque ela significa apenas uma abstração, talvez por essa razão a sua indagação. Mas podemos entender como povo em meus artigos aquela grande parcela da população que se identifica entre si, cultuam os mesmos valores, não comandam mas pelo contrário são subordinados dentro da estrutura de poder. Seus desejos de diferenciação social e econômica não são ambiciosos, somente querem melhorar de vida, já é o suficiente. Talvez esse seja o povo de quem me refiro. Quanto ao Governo depende muito. Porque trata-se de um modelo de gestão e administração política da sociedade em determinado contexto histórico. Pensando assim, podemos dizer que nas últimas quatro décadas esses modelos trataram o grosso da população alagoana de maneira muito deficiente, para dizer o mínimo de alguns.

8. Quem venceu na história de Alagoas? O sangue? Os usineiros? Ou os que conseguiram sair daqui?

Deixo ao leitor a sua própria resposta para seu íntimo.

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Ciência, Tecnologia e o Quadro Internacional

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Um dos parâmetros usuais para aferir o desenvolvimento das ciências e técnicas de uma nação é sua inserção internacional na produção de artigos em revistas científicas respeitadas. Por essa ótica, uma breve análise das principais fontes de dados sobre o assunto revela um quadro de mudanças importantes, demonstrando que não é somente no campo econômico que o eixo de geração de riquezas está se modificando, o plano científico e tecnológico também vem acompanhando esse movimento.

Dados do Observatório da Ciência e Tecnologia, órgão do Conselho Superior de Avaliação do Ensino e Pesquisa da França, e trabalhados no gráfico logo abaixo, confirmam o que já era de conhecimento geral, que os EUA continuam liderando o ranking com a maior participação no total das publicações científicas mundial. Entretanto, essa colocação vem caindo relativamente. Em 2002, eles contribuíam com 29,9% de toda a publicação da produção científica mundial. Dez anos depois recuaram para 22,6%, significando uma queda de 25% em relação aquele ano. Nações como Reino Unido, Alemanha, Japão, França, Itália e Canadá também perderam participação no mesmo período.

Fonte: Observatoire des Sciences et Techniques. Elaboração nossa.

Dos países que participam do chamado grupo dos BRIC’s, três deles aumentaram a produção científica, com excepcional destaque para a China. Em 2002 os chineses contribuíam com apenas 3,8% das publicações internacionais, dez anos depois 12,6%, alcançando o segundo lugar no ranking mundial. Um crescimento nada desprezível de 232%. A Índia ocupa a nona colocação, com 3,1%, e o Brasil a décima terceira, com 2,2%. Entretanto, em termos de crescimento da produção científica e sua contribuição mundial, o Brasil expandiu 83% e a Índia 55%. Se mantermos essa velocidade até 2022, pelo menos, podemos ficar entre os oito países com maior produção científica mundial.

A Rússia, integrante também dos BRIC´s, ocupa hoje a décima sexta colocação. Sua participação recuou de 2,6%, em 2002, para 1,7%, em 2012, uma queda de 36%, portanto. Uma triste realidade para um país que no Pós-Segunda Guerra Mundial rivalizava com os EUA na vanguarda científica, em várias áreas do conhecimento, principalmente nas ciências do universo.     

Mesmo em queda na participação mundial da produção científica e tecnológica, não é de forma alguma desprezível o montante de recursos despendidos pelo governo dos EUA em Pesquisa e Desenvolvimento [P&D]. Em 2013 foram investidos o equivalente a 2,8% do PIB norte-americano, aproximadamente 130 bilhões de dólares. Quase metade desse montante foi executado pelo Departamento de Defesa dos EUA, como aponta estudos de Negri e Squeff [2014]. Somente para efeito de comparação, o governo brasileiro investe em P&D pouco menos de 8% daquele valor em dólar.

Em razão da crise econômica que atingiu os EUA entre 2007 e 2009, o elevado nível da dívida pública e a necessidade de ajustes fiscais para contê-la, o ritmo de crescimento dos investimentos em P&D no país vem desacelerando fortemente, o que tem comprometido a competitividade do país e afetado, diretamente, os avanços científicos e tecnológicos no médio e longo prazo. Por exemplo, o volume dos investimentos em 2013 em P&D é praticamente o mesmo verificado em 2006 [NEGRI e SQUEFF, 2014].

Se esses aspectos têm influenciado diretamente na perda de participação dos EUA no ranking mundial da produção científica, esse movimento é também percebido em todas as áreas do conhecimento, sobretudo quando comparamos com a evolução chinesa. Mesmo liderando ainda em todos os campos, a produção científica norte-americana declina em todos eles. Por outro lado, a produção chinesa cresce extraordinariamente e sua participação mundial já supera a norte-americana nas áreas de química e engenharia, ameaçando ultrapassar, em pouco tempo, também em física e matemática.

A correlação entre produção científica e tecnológica e a expansão da propriedade intelectual de patentes e marcas é muito elevada, principalmente naqueles países onde os sistemas e instituições responsáveis pelos avanços em C&T,I interagem muito fortemente com os sistemas produtivos.

Esse aspecto se evidencia quando se observa que o crescimento da curva da produção cientifica chinesa em termos mundiais é acompanhada pela evolução do número de solicitações de propriedade intelectual [patentes] e seu estoque. Inclusive, os chineses já ultrapassaram os EUA em pedidos de registros.

Conforme dados do World Intellectual Property Organization [WIPO], entre 2002 e 2012 o número de pedidos de registros do país asiático cresceu 1672%, enquanto dos EUA, no mesmo período, foi de 70%. O gráfico abaixo demonstra que, em 2011, a China alcança os EUA e a supera nos anos seguintes, chegando a marca espetacular de 734 mil pedidos de propriedade intelectual na forma de patentes.

Ainda assim, os EUA lideram o ranking mundial no estoque de patentes em vigor, com 2,3 milhões registradas em 2013, seguidos do Japão com 1,8 milhão e a própria China com pouco mais de 1 milhão. No entanto, a velocidade que China vem imprimindo nesse campo é espantosa e se nada alterar o curso dessa tendência, superará em poucas décadas o seu principal rival no campo econômico.

Fonte: World Intellectual Property Organization. Elaboração nossa.

O Brasil “nessa terra de gigantes” é muito tímido. Em número de patentes válidas o país tem oscilado entre a 19ª e 20ª colocação no ranking mundial. O número de solicitações entre 2002 e 2013 obteve, praticamente, mesmo percentual de crescimento norte-americano, 70%, mas em termos relativos o resultado naquele último ano representou apenas 1,3% dos EUA e 0,9% da China.

Em termos de participação na produção científica mundial, o Brasil ocupou, em 2012, a 13ª colocação, com melhor desempenho para área de biologia aplicada a ecologia, alcançando o 3ª no ranking, conforme quadro logo abaixo. Pode-se especular sobre esse resultado em particular a razão de possuirmos uma rede de instituições, governamentais, não-governamentais e privadas, que desenvolvem pesquisas vinculadas a preservação do meio ambiente, sobretudo por possuirmos a maior diversidade ecológica do planeta, com destaque para a Amazônia. Outro fator que também pode influenciar são os avanços científicos, na pesquisa básica e aplicada, nas ciências agrárias decorrente das escolhas que reforçam nossa tradicional vocação primária-exportadora.

Fonte: World Intellectual Property Organization. Elaboração nossa.

 

O crescimento da participação brasileira na produção científica mundial aconteceu em todas as áreas, com exceção da física. Mesmo assim, além do caso já mencionado da biologia aplicada a ecologia, somente as ciências médicas superam nossa participação no geral [13ª], ocupando a 11ª colocação. Destaca-se também a evolução da participação das ciências humanas e sociais.

As taxas de crescimento da nossa participação na produção científica mundial [86%] e evolução do número de solicitações de propriedade intelectual [70%] são muito próximas. Pode ser apenas uma coincidência e para eliminar essa desconfiança seria apropriado um estudo mais profundo. Mas o certo é que sem produção de conhecimento e condições necessárias como fomento, infraestrutura e recursos humanos especializados, dificilmente um país pode superar as barreiras do subdesenvolvimento econômico. Ademais, estudo muito recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [Ipea], aponta vários obstáculos à ciência brasileira que dificultam os avanços tecnológicos, inovação e sua internacionalização.

Entre esses problemas destacam-se a falta de pesquisadores, de laboratórios multidisciplinares, de recursos para manutenção de infraestruturas e equipamentos e maior interação com as políticas públicas e setores produtivos. Com eles as ciências no Brasil não conseguirão aproximar-se sequer da média internacional em termos de produção e avanços no campo da fronteira científica.

O que falaremos a seguir não serve de alento. Não obstante todos os problemas que as ciências no Brasil enfrentam, quando observamos a trajetória histórica no médio prazo percebemos que avançamos em algumas direções. Talvez a principal delas tenha sido justamente o reconhecimento do papel da Ciência, Tecnologia e Inovação [C&T,I] no desenvolvimento econômico e social. Muito ainda deve ser feito e nesse sentido é indispensável para qualquer país que almeje avançar em C&T,I, investir fortemente na formação básica, fomentar desde cedo o incentivo à pesquisa e curiosidade científica, melhorar sensivelmente as condições de trabalho, infraestrutura e remuneração dos professores e pesquisadores e, por fim, considerar a importância vital de pensarmos numa reforma do nosso sistema público universitário, o qual se mostra arcaico, insuficiente em recursos humanos e defasado tecnologicamente.

 

Bibliografia citada:

NEGRI, Fernanda de; SQUEFF, Flávia de Holanda Schmidt. Investimentos em P&D do Governo Norte-Americano: evolução e principais características. In: RADAR, N. 36, Brasília: Ipea, dezembro/2014. Disponível em http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/3317/1/Radar_36_Investimentos.pdf.

NEGRI, Fernanda de; SQUEFF, Flávia de Holanda Schmidt. Infraestrutura científica e tecnológica no Brasil: análises preliminares. Brasília: IPEA, Nota Técnica 21, junho/2014.

DE FRANÇA, Luiz. Estudo evidencia a fragilidade da ciência brasileira. In: Revista Desafios do Desenvolvimento, ano 11, edição 82, dezembro de 2014.

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Ciência, Tecnologia e Nosso Futuro

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Em um dos capítulos de seu magistral livro O Universo numa Casca de Noz [Editora Nova Fronteira, 2009], o físico lucasiano Stephen Hawking, professor da Universidade de Cambridge, Inglaterra, da cátedra já ocupada pelo não menos brilhante Isaac Newton, faz as seguintes perguntas: é possível retornar na história? Uma civilização avançada poderia avançar no tempo e mudar o passado?

Conforme Hawking existe uma remota possibilidade: menos de 1 parte em 10 seguido por um trilhão de trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de zeros. Ou seja, é “quase” impossível, fisicamente, voltarmos ao passado e alterarmos o curso da história. Se o campo das ciências exatas é taxativo sobre esse assunto, por outro lado as ciências sociais nos fornecem os meios necessários para fazermos essa "excursão", descobrir as razões que nos determinaram e influenciam nossas vidas até os dias atuais. Entretanto, para seguir nesse rumo possibilitado pelas ciências não-objetivas é preciso tempo...muito tempo, o que a maioria das pessoas não está predisposta a “perder”, compreender a si mesmas ou o porquê do funcionamento do mundo contemporâneo. Então vem a pergunta natural: com o futuro, estamos preocupados?

Nessa linha Hawking abre o penúltimo capítulo fazendo as perguntas: Nosso Futuro? Jornadas nas Estrelas? Com elas o físico de Cambridge fará algumas reflexões extremamente interessantes sobre como as vidas biológica e eletrônica continuarão evoluindo em complexidade a um ritmo sempre acelerado.

No filme de ficção científica Jornada nas Estrela: a próxima geração, Hawking joga pôquer com Comandante Data e os cientistas Isaac Newton e Albert Einstein [ver parte do video]. No estágio histórico em que se passa o longa-metragem, os avanços nos campos da ciência, tecnologia e sistema sócio-político alcançam a perfeição e estacionam, não sendo possíveis ir mais além.

Entretanto, Hawking questiona se algum dia alcançaremos um estado estacionário na ciência e tecnologia. Olhando para o passado, podemos afirmar também que isso foi impossível, mesmo nos períodos onde os sistemas políticos e o poder da força ideológica impediram grandes avanços. Fiel ao seu Princípio da Incerteza e muitíssimo influenciado pelos avanços da física quântica, Hawking considera o futuro da tecnologia um campo aberto à grandes invenções e aperfeiçoamento do modus operandi do homem em sociedade, com ajuda imprescindível da ciência.

Conforme suas próprias palavras: “Em nenhuma época nos cerca de dez mil anos desde a última Era Glacial, a humanidade esteve em um estado de conhecimento constante e de tecnologias fixa. Houve uns poucos retrocessos, como a Idade das trevas, após a queda do Império Romano. Mas a população mundial, que é uma medida de nossa habilidade tecnológica de preservar a vida e nos alimentar, tem crescido continuamente, com apenas algumas poucas interrupções, como a Peste Negra” [p. 157].

É certo que a população mundial continuará crescendo, mas numa velocidade bem abaixo das décadas anteriores, principalmente do século XX. Em tempos de hoje, com um taxa anual de 1,9%, em quarenta anos ela duplicará, o que nos joga desafios futuros importantes. Um deles é como a ciência e a tecnologia irão auxiliar na preservação dos recursos naturais e o uso racional de elementos vitais à sobrevivência humana no futuro, como a água por exemplo.

É verdade a afirmação do físico lucasiano de que o exponencial crescimento do consumo de energia em escala mundial e o número de artigos científicos publicados são exemplos importantes do desenvolvimento das ciências e técnicas que alcançamos. Entretanto, para ele esses extraordinários avanços alcançarão seus limites. Não obstante alguns aspectos questionáveis dessa sua colocação, ele é um cientista otimista, que não acredita que nos dissolveremos em qualquer tipo de processo de exterminação, como uma guerra nuclear por exemplo. Segundo ele, “não acredito que o gênero humano tenha chegado tão longe só para eliminar a si mesmo quando as coisas estão ficando interessantes” [p. 159].

Mesmo quando diante de nossos olhos o mundo parece estar se desintegrando em calamidades sociais, conflitos étnicos e religiosos, e o planeta reage com virulência ao uso irracional de seus recursos, o que está ficando interessante para Hawking?

Sua afirmação de que estamos chegando ao limite dos avanços científicos em relação ao conhecimento das leis básicas que regem o universo, demonstra o quanto a física e matemática avançaram, em dois séculos, sobre as razões da origem do mundo e suas inter-relações galácticas. Assim, o campo verdadeiramente aberto de exploração científica considerado por Hawking encontra-se em outro sistema bastante complexo: o corpo humano.

Descobrir as razões que determinaram a vida a partir de sua origem oceânica, há quatro bilhões de anos, é o grande desafio das ciências consideradas nobres. A hipótese levantada por Hawking de que as coalisões aleatórias entre átomos formaram macromoléculas capazes de autorreprodução, que resultaram em estruturas mais complexas, como o DNA, ainda está longe de ser comprovada. Entretanto, a ciência já tem como certo que há pelo menos 3,5 bilhões de anos a complexa molécula de DNA já existia.

A evolução do DNA e, portanto, da estrutura humana, tem sido lenta e gradativa durante quase todo esse período. Impulso maior foi dado, há pelo menos oito mil anos, quando a linguagem escrita se desenvolveu, permitindo muito mais rapidamente a comunicação intergeracional, sem “precisar esperar que o processo muito lento de mutações aleatórias e seleção natural a codificasse [a informação] na sequência do DNA [p. 163].

Para Hawking, os grandes avanços científicos nos próximos, pelo menos, cem anos virão dos esforços empreendidos para aumentar a complexidade de nosso registro interno, o DNA, dispensando o lento processo da evolução biológica. No entanto ele adverte sobre os riscos desses avanços se a engenharia genética for usada para fins de poder e controles totalitários. Mas parece que o caminho é irreversível: “Não é minha intenção defender a engenharia genética humana como um desenvolvimento desejável, mas apenas dizer que é provável que ela ocorra, queiramos ou não. Acredito que a humanidade e seu DNA aumentarão em complexidade muito rapidamente. Deveríamos admitir que isso provavelmente vai acontecer e refletir sobre como lidar com essa situação” [p.165].

Decerto que esses avanços possibilitarão aperfeiçoamentos nas qualidades físicas e mentais dos seres humanos. Para que eles aconteçam, Hawking explora nesse momento um interessante debate sobre os limites dos seres humanos e das máquinas, os computadores. A vantagem desses reside na crescente velocidade de processamento das informações e funcionamento de seus sistemas. Entretanto, os computadores não possuem inteligência, ao menos por enquanto. A velocidade e complexidade dos computadores aumentam a cada dezoito meses segundo Hawking. Em um futuro próximo, moléculas químicas que agem sobre o cérebro humano para aumentar os níveis de inteligência, poderão também ser apropriadas pelas máquinas e lhes possibilitar capacidade de raciocínio e discernimento um pouco mais sofisticados.

Portanto, Hawking admite o aumento da complexidade biológica e eletrônica, um campo escancarado para as ciências e tecnologias, onde a multidisciplinaridade é evocada em lugar da ultra-especialização. Quais são os limites e obstáculos a serem superados então?

Metaforicamente, assim como na teoria smithiana os limites à divisão social do trabalho e ao aumento da riqueza das nações são os tamanhos dos mercados, o limite à inteligência humana é o tamanho da caixa craniana. Entretanto, em ambos a ciência pode contornar esses limites. No segundo caso, conforme Hawking, os mensageiros químicos responsáveis pela fluidez da atividade mental, seu processamento, são relativamente lentos. “Aumentos posteriores na complexidade do cérebro se realizarão à custa de sua velocidade. Podemos ser muito espertos ou muito inteligentes, mas não ambas as coisas ao mesmo tempo [...] acredito que podemos nos tornar muito mais inteligentes [p.168].

Os circuitos eletrônicos dos computadores enfrentam o mesmo problema do trade-off da complexidade versus velocidade. Mas os mensageiros que fazem esses circuitos funcionarem não são químicos e sim elétricos, e estão limitados pela velocidade da luz. Essa é uma limitação natural para o aumento da velocidade dos processadores. E como tem sido contornado esse problema nas máquinas? Na diminuição cada vez maior dos tamanhos dos circuitos, o que também esbarra no limite fixado pela natureza atômica da matéria, segundo Hawking [p. 168].

Mas qual é a vantagem do cérebro em relação aos computadores e que pode ser potencializada pelo avanço da ciência? Em quê a superamos, mas não exploramos todo seu potencial? Nosso cérebro não possui apenas uma unidade central de processamento, chamada comumente de CPU, no caso dos computadores. Possuimos milhões deles funcionando ao mesmo tempo. Por essa razão, os avanços tanto biológicos quanto eletrônicos certamente se darão concomitantemente, se amparando um ao outro.

Quando o cérebro humano puder ser explorado em toda sua potencialidade, quando alguns desses processadores forem melhor conhecidos e sabermos como aproveitá-los em conjunto, com suas interconexões, teremos um ser humano melhor? Uma vida em sociedade retratada pelos filmes de ficção científica, com o homem somente administrando as ocorrências sinistras e potencializando suas habilidades? Não saberemos ao certo, mas com certeza serão inevitáveis esses avanços científicos e tecnológicos.

O futuro da ciência não será como a imagem reconfortante retratada em Jornada nas Estrelas – um universo povoado por muitas espécies humanoides, com ciência e tecnologia avançadas, porém essencialmente estáticas. Em vez disso, acredito que estaremos sós [sem companhias de seres vivos inteligente no Universo], mas evoluindo rapidamente em complexidade biológica e eletrônica”, finaliza o gênio Stephen Hawking [p. 171].

Enquanto ainda não chegamos nesse estágio da ciência e tecnologia descrito acima, e observando o que acontece em nossa volta, razão tem outro gênio que de cientista não tinha nada. Com a palavra Raul Seixas em sua clássica letra musical Ouro de Tolo;  

É você olhar no espelho/Se sentir um grandessíssimo idiota/Saber que é humano, ridículo, limitado/Que só usa dez por cento de sua cabeça animal/E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial/Que está contribuindo com sua parte/Para nosso belo quadro social.

 

 

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