Corra daí, Manoel: Rasgue sua CLT

Qualquer leitor da Bíblia terá trabalho para interpretá-la. De fato, Manoel, o Texto Sagrado não é o que se pode chamar exatamente de simples. Consumi-lo exige, por exemplo, dentre outros, um grande esforço de sistematização. Sim, de sistematização. Que os Livros não são caóticos, não senhor. Lucas, por exemplo, há de ser lido bem pertinho de João; João, de Mateus; e daí por diante. Todos eles, afinal, estão inspirados na mesma Pessoa, e não na inteligência de um ou outro apóstolo isoladamente.

Mais dura a tarefa, muito mais, se o exegeta for um relapso, inepto de segunda época em curso de catecismo – feito eu. A dificuldade na Revelação será infinitamente maior. Que não se alcança o segredo de um cofre senão tendo intimidade com o dito antes que sejamos cujos, se é que me entende.

Mesmo sabendo disso tudo, lá vou eu, de maçarico em punho, tentar abrir o pesado para você!

Consta que Jesus peregrinou quarenta dias pelo deserto, tempo suficiente para que o demônio pudesse tentá-lo. Não sei por que o Filho de Deus desatou-se a caminhar pelo meio do nada, nem mesmo sei de que outras artimanhas o capiroto se valeu para provocá-lo. Sabemos – eu, você e toda humanidade – é que não funcionou. Isso se deduz até mesmo pela notoriedade do fim da história. O Homem eternizou-se como o Santo dos santos, não foi? Certo que não iria fracassar diante da primeira sirigaita.

Tome a palavra sirigaita em sentido metafórico. Não tem nada a ver com sua nova colega de trabalho, Mané. Eu juro! Sei que é estranho, mas, falando sobre tentação, nenhum outro exemplo mais ilustrativo me ocorre. Bebi do velho por esses dias, aí ando cheio de ideia sobre como a vida da gente, não podendo ser, desgraçadamente acaba sendo. É só isso. Vá perdoando. Vamos voltar à nossa prosa.

A pergunta é a seguinte: o que aquela passagem bíblica quer dizer? Suponho que queira muita coisa.

Conheço um cidadão de Maceió que, rememorando o trecho, sempre me assegura a redundante necessidade de o bom cristão resistir às tentações. Outro, de Recife, me diz que foge delas, mas bem devagarinho, como quem anda pelo deserto em tempo de ser apanhado por uma caravana cheia de beldades sedentas. São dois tolos: o primeiro, por se limitar à literalidade do Texto, não explicando como danado alguém foge daquilo que, feito imã exibido do lado certo, só lhe faz atrair; o segundo, por interpretar negando que as balizas do hermeneuta - talvez únicas, certamente insuperáveis - são o texto e seu contexto, não se podendo, a pretexto de querer revelá-los, desdizê-los.

Está pronto? Pois, conhecendo a humanidade dos outros, arrisco, então, minha primeira glosa interpretativa: não confie na santidade de quem ainda não foi testado. Santo, santo mesmo, só depois da caminhada no deserto. Antes disso, com o cidadão sentadinho no conforto da própria tenda, degustando umas uvinhas suculentas, ninguém merece o título. Se até Jesus passou pela prova - e só depois a honraria lhe veio -, com você é que a coisa não seria diferente. Estou certo? Amém!

Agora a parte mais dramática, extraída de minha própria humanidade rodrigueana, como costela que nossa amizade permite: não se submeta a tentações por mais de quarenta dias. É fria. Quem aguenta isso? Nem Jesus arriscou! Por que raios você acha que iria conseguir evitar o dano cujo risco que Ele sequer quis correr? Repare bem direitinho. O Homem ficou 40 dias sob prova, e não 41 ou 42, muito menos 43. Que toda carne tem seu limite! A resistência do cidadão tem. Vá por mim. Tem, sim senhor!

O cofre é pesado, visse amigo?! Agora, pesada, pesada mesmo, é a tal da tentação. Cruz-credo! Melhor não ter com ela. Esqueça essa coisa maluca de querer ser testado. Mas, se isso for inevitável, muito inevitável, muito inevitável mesmo, fuja antes de finda a quarentena. Mude de emprego. Rasgue sua CLT. Assine o bolsa-família. Corra daí. Vá a pé ou de camelo, tanto faz. O importante é não ficar parado na tempestade. O guarda-chuva só resolve a chuva, não o raio. Entende, homem de ferro? Bom!

E, ó, nem precisa me agradecer. Depois eu lhe mando meu endereço, peregrino, para seu panetonezinho de Natal. Receba um abraço deste seu amigo autônomo e, felizmente, desempregado.

    

Dia das Mães: "Sim, Princesa! Era esse o nome dela"

Dona Aurita desceu do ônibus em silêncio quase absoluto. Segurava a neta pela mão e, mesmo com ela, não acreditava houvesse razão para o cometimento de muitas palavras. Por que "espantaria" para longe de si "uma das poucas coisas boas" que lhe "restaram"? Aquele imenso som de vazio, de certa maneira, tornara-se seu amigo, adornando de mais sobriedade as roupas pretas que passou a usar desde quando o destino lhe bateu à porta.

Numa sacola de plástico, trazia um pequeno pacote de biscoitos e uma garrafinha d'água; havia também velas, fósforos e flores - um ramalhete colorido, aliás, bem ao gosto da filha, sua maiúscula Princesa!

Sim, Princesa! Era esse o nome dela. Nunca alguém questionou a escolha. Talvez a aceitação geral se devesse à obviedade da motivação. Filhas, afinal, são o que são: invariavelmente princesas. Ricas ou pobres, feias ou lindas, a todas cogita-se o mesmo, e nobre, destino - suceder na realeza do lar, ainda que a mãe não seja exatamente rainha, não disponha de dinheiro ou súditos. Que nada disso importa realmente! Filhas são princesas! E a sua, ostentando uma linda natureza real, apenas tornara "próprio" algo que para todas as filhas já seria, naturalmente, "comum".

Não fosse, enfim, pelo dia das mães, aquele seria um domingo igual aos demais. Era a primeira vez, porém, nos cinco anos de vida da pequena, que Dona Aurita a levaria para conhecer "o parque onde a mamãe dorme". Sentia chegar a hora de a menina saber um pouco mais sobre a vida e o "sono" que, cedo ou tarde, cobre de certezas as pessoas que se vão; e de dúvidas as saudosas que remanescem. Se não imaginava o jeito de dizer, se não sabia como dizer, ao menos intuía que o contato da criança com o "jardim" daria, sozinho, explicações capazes de lhe fazer algum sentido; quando não ali, naquela primeira hora, ao menos depois.

--- Vovó, onde ela está?

--- Aqui! Sua mãe está dormindo. Você não a vê, porque todas as pessoas que dormem neste lugar ficam guardadas, como se estivessem num apartamento secreto ...

--- Esse aí é o nome dela?

--- É!

--- Princesa dos Santos Silva, minha mamãe!

A frase foi pronunciada à boca miúda, em meio a dois ou três sorrisos de reconhecimento, enquanto dedos gordinhos e iletrados exploravam o relevo da fria pedra de mármore.

--- Queria mesmo era ver minha mamãe ...

--- Eu sei que sim, mas não será possível!

Passaram-se, então, alguns segundos de descoberta: a criança admirando a lápide, a avó olhando a criança; a pequena tentando entender como um apartamento secreto poderia ter sido construído naquele lugar, daquele jeito; a velha pedindo a Deus que a imagem fosse suficiente, já que não teria palavras que oferecesse às questões de quem perdeu quase todos os agasalhos -- e justo no dia em que, nascendo, se expôs ao frio polar que grassa no mundo.

--- Minha mãe é uma princesa, vovó! Será que um príncipe não vem acordá-la?

--- Não existem príncipes, Paulinha. Eu já pedi para tirar essa invenção de sua cabeça.

A menina fez que sim, desviando o olhar para outra direção. Pareceu aceitar a resposta, como se princesas pudessem viver num estranho mundo sem príncipes. Teria sido esta a história de sua mãe, certamente, antes de dormir seu "sono" mais profundo.

Exaurida a contemplação, a pequena Paula caminhou até um brevíssimo banco de cimento; por lá, libertou os pezinhos, pendulando-os no ar enquanto cogitava as próprias sandálias de borracha, já largadas sobre a grama. Feliz - encantada e feliz -, repetia o nome da mãe como se, tendo-a finalmente conhecido, a chamasse para junto de si, pacientemente:

--- Princesa dos Santos Silva ... princesa...  minha mãe é uma princesa que dorme ...

Dona Aurita a olhava, amargurando junto à memória da filha o que estava por vir. Sempre algo está por vir, mesmo depois do fim. Que futuro terá alguém sem passado? Qual destino terá uma criança que jamais teve pai, que perdeu a mãe sem sequer tê-la conhecido? E depois que partisse, como ficariam as coisas? Que vizinhos iriam olhar por sua neta, à falta de qualquer parente que pudesse fazê-lo? Quem seria por ela, no fim das contas, quando estivesse largada à própria falta de sorte?

Perguntas não dialogam com o nada. O vazio tem sempre um poder retórico desconcertante. Era preciso mudar de assunto. Acendeu as velas, então, sem pensar mais no amanhã. Estava novamente acompanhada do silêncio-adorno que combinava com seu vestuário preto. Seria preciso fazer orações mudas e, nelas, resumir suas expectativas.

Pediu que Deus, assim, tivesse piedade da alma de Princesa e misericórdia do futuro de Paula. Rogou que a Providência lhe garantisse, como avó, mais alguns anos de vida. Não muitos, que também já sentia a necessidade de "dormir". Mas apenas o suficiente para ensinar à neta, na perspectiva de ser mulher e mãe um dia, a única lição válida na luta pela sobrevivência, e que ela aprendera a muito, muito custo: "príncipes, na verdade, até podem existir, mas a vida não é para princesas que esperam príncipes".

(...)

No fim da tarde, não havia mais velas, fósforos, biscoitos de maisena, água ou lágrimas. O "parque" estava vazio. Os passos da velha, dirigidos ao portão que lhes protegeu do mundo nas últimas horas, eram mais lentos, porque carregava a neta no colo. Aquele tinha sido um dia cansativo. E a pequena já dormia tranquila, como um pedra. Seria assim dali em diante. Até, pelo menos, a manhã seguinte ...

Recife, 08 de maio de 2016.

Ninguém morre apenas uma vez.

Lendo, hoje, as notícias sobre política, lembrei-me dele!

Tonho saiu de casa depois que se envolveu com outra mulher. O troço foi rápido e fulminante. Em menos de meio metro de sonho, no espaçar de duas ou três piscadelas, o homem já estava, como dizem os moços, de quatro.

Casado com Maria, três filhos pequenos, nada disso lhe pareceu bastar; e o cidadão resolveu, naquele ensolarado 1º de janeiro, que seria hora de fazer seu adendo às estatísticas da pós-modernidade, entrando de cabeça na classe de pessoas que, embora um dia tenham passado a ser, já não mais continuariam sendo, conquanto ainda fossem.

Esquisito, não? Mas são assim os maritais casados-e-separados. Seres estranhos, incompreensíveis, frequentadores de um mundo próprio, absolutamente inalcançável aos ordinários de nascença, que casam, vivem e morrem juntos, ainda que isso, claro, não garanta a felicidade de ninguém.

Pois foi redesfrutando daquela condição juvenil, como se exibisse novas espinhas no rosto, que Tonho danou-se a consumar um genuíno cardápio de irresponsabilidades, praticando com sua acompanhante -- diuturna e noturnamente, segundo sugere o idioma oficial da presidência da República -- toda sorte de atentado ao pudor.

Ah, o calor do fogo novamente! Não houve mísero canto da cidade que tivesse sido poupado de um sussurro, um gemido: esquinas se dobraram de vergonha; postes, antes apenas concretos, ficaram também eretos, manifestando detida atenção, digamos, à simetria das formas; manequins perderam a cabeça nas vitrines, decapitados de vergonha:

--- Isso aqui, ó, nem no canal 150!

Eis o que falavam depois de cada nova performance amorosa, entre risos e juras de amor eterno. De fato, desse o que desse, houvesse o que houvesse, lá estavam eles, colados, intrincados, coisando-se à mais unitária das unidades corpóreas.

Sobre a ex-esposa, Tonho pouco dizia. Que não tinha tempo a desperdiçar. Nem vontade. No máximo, permitia-se, a quem perguntasse, balbuciar um brevíssimo "deve estar por aí, não sei". Lembrava-se dos filhos, mas pouco, na exata medida das sobras financeiras que lhe ocorressem, se ocorressem. Sim, senhor! Que o gasto exigido em novas paixões sempre é alto. E seu salário de operário nunca foi exuberante, apesar dos dissídios coletivos já vividos em tantas primaveras sindicais.

Tudo corria - para ele - bem, até que o dinheiro sumiu da praça, drenado aos confins da maior secura. O resto já se imagina. Sem crédito ao povo, diminuíram as vendas do comércio e, por tabela, o faturamento com o qual empresários adimpliam salários e garantiam empregos. Muitos empregos. Dezenas. Centenas. Milhares. Tudo foi se derretendo, compondo um saldo para lá de triste: incontáveis postos de trabalho perdidos, muitos amores de aluguel desfeitos e pelo menos um coração destruído - justamente o dele.

O fato, porém, nem foi a nova separação. Que a finitude das coisas, sobretudo dos amores de ocasião, já andava meio estampada por aí, não chegando a ser surpresa mesmo para inocentes como o Tonho. Danado foi o sujeito pensar em voltar para casa e encontrar seu antigo posto-de-não-trabalho ocupado por outro operário atencioso, grande amigo seu, muito esmerado em dar tratos à terra que ele, por vontade própria, deixara arrasada e abandonada:

--- É como morrer depois da morte!

Repetia isso todos os dias, nos bares em que passou a andar, até morrer novamente, agora de verdade, sob aplausos de bêbados notórios, vários deles consternados na hora do adeus:

--- Tchau, querido!

Não sei, meu caro, se existe vida após a morte. Mas posso lhe garantir algo: ninguém morre apenas uma vez. E venho, cá comigo, ponderando que o partido no governo vai concluir a mesma coisa depois que, largando o poder, quiser voltar ao comando dos sindicatos e das bases que perdeu, justamente por ter preferido viver a luxúria de um amor bandido, reles locatário de seu afeto. Estará fundado, então, oficialmente, o PT, "Partido do Tonho", o bom brasileiro que nos legou a doutrina das muitas mortes.

Recife, 03 de maio de 2016.

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