Rodrigo Cunha apresenta condições para possivelmente dizer não à candidatura ao governo

Assessoria/Arquivo 13acc9dc bc0b 4aaa 8fc9 aecc725f6f35 Rodrigo Cunha

O jornal Tribuna Independente publicou uma excelente entrevista com o deputado estadual Rodrigo Cunha (PSDB). O jornalista Carlos Amaral foi direto ao ponto: o que o parlamentar pensa e quais condições para que dispute o governo do Estado de Alagoas nessas eleições.

Cunha é o nome que resta ao “ninho tucano” após a desistência do prefeito de Maceió Rui Palmeira (PSDB) quanto à participação no pleito. Além de Palmeira, um outro nome do partido – que é o ex-governador Teotonio Vilela Filho – também está fora do tabuleiro do xadrez eleitoral.

Com isso, os tucanos – que eram protagonistas da oposição – passaram a condição de meros coadjuvantes. A situação só mudaria com o nome de Rodrigo Cunha. Porém, o deputado estadual – que tem projeto para uma candidatura à Câmara de Deputados – sabe das dificuldades de disputar o governo do Estado contra o atual chefe do Executivo estadual, Renan Filho (MDB).

Renan Filho tem em suas mãos a máquina pública, inúmeras alianças com prefeitos e deputados e um conjunto de partidos que lhe garante mais tempo de televisão. A eleição de Cunha à Câmara de Deputados é, evidentemente, muito fácil que uma disputa majoritária. Pressionado pelo “ninho tucano”, Cunha pediu tempo para pensar e apresentar uma decisão. Mas, pensar em que?

Rodrigo Cunha está coberto de razão ao afirmar – na entrevista – que não pode ser apenas uma peça no jogo para ocupar um vácuo, como fizeram os tucanos em 2014, quando apresentaram o nome do atual prefeito de Palmeira dos Índios, Júlio Cézar (que hoje se encontra no PSB). Júlio Cézar aceitou o desafio porque mirava na Prefeitura de Palmeira dos Índios e assim se projetaria. Deu certo. As ambições de Cunha são outras. Logo, ele não é um mero soldado do PSDB sendo convocado para a guerra.

Há coisas em jogo: sua candidatura a deputado federal, sua biografia (já que tenta associar seu nome a uma independência em relaçã aos caciques) e possíveis alianças que manchem seu currículo. Cunha não aceita dividir o palanque com qualquer um. Só erra o deputado estadual ao não dizer claramente quem são os nomes que lhe incomodariam ao estarem no mesmo palanque.

Com isso, querendo ou não, Cunha acaba criando as condições perfeitas para dizer não ao PSDB. Afinal, é evidente que o ninho tucano quer um candidato que possa agrupar novamente uma série de legendas, incluindo o PP do senador Benedito de Lira, o Democratas de José Thomaz Nonô, o PROS do deputado estadual Bruno Toledo e outros que puderem chegar. Rodrigo Cunha não terá muito espaço para montar o palanque dos seus sonhos, vetando candidatos ao Senado Federal, por exemplo.

Uma candidatura de Cunha ao governo seria solução, mas também traria outros problemas de relacionamento na chapa. Rodrigo Cunha diz que os que estão hojeaí “ocupam esses espaços há 20 e 30 anos. E, recentemente, Rui Palmeira cotado para ser candidato ao governo, informou que seguiria na Prefeitura”, diz o deputado estaudal. Pois é, se ele for candidato ao governo, ao seu lado estarão esses mesmos que ele critica. Numa proporcional – apesar de estar na chapa tucana – não possui o peso de caminhar ao lado de ninguém no palanque. Vira um “lobo solitário”.  

Cunha diz que ainda analisa as possibilidades. “Não vou entrar numa campanha para beneficiar políticos. Não posso deixar criar um cenário favorável a isso. Sempre lutei por independência e não é agora que vou depender de alguém politicamente. Não quis fechar a porta de imediato porque essa discussão deixou de ser de um partido e passou a ser de um bloco. Fui em busca da sensação da rua, que é a que me interessa”. Eis aí meio-caminho andando para dizer não ao PSDB, que é seu partido.

Indagado sobre as alianças, ele responde: “Rodrigo Cunha não nasceu há quatro anos, nasceu há 36. Eu sei o que passei nessa vida, sei o que os maus políticos fizeram a minha família e o que eles fazem a muitas famílias. Não estou disposto a tudo por um cargo. Se alguém me disser que tenho de me aliar com alguns tipos de forças para ser eleito, prefiro ficar em casa. Não aceito qualquer acordo. Tem pessoas que fazem mal a esse estado”. O que é interessante? Bem, Cunha acaba assumindo que estes que fazem mal também estão em seu partido e em seu arco de alianças. Então, quem são eles, Rodrigo Cunha?

A resposta de Cunha já está praticamente dada: “Pode ter certeza, prefiro estar num cargo menor, não arriscar. Isso é melhor para mim do que o vale-tudo”. Indiretamente, ele criou todas as condições para dizer não. De certa forma, não está errado. O ninho tucano de Alagoas se esfacela em plena luz do dia...

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Quintella e Renan Calheiros: a dobradinha de perfis opostos quando se olha o recente passado...

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A política reserva surpresas. Não quero com esse post dizer que o ex-ministro dos Transportes, Maurício Quintella Lessa (PR) e o senador Renan Calheiros (MDB) sejam inimigos políticos ou rivais. Longe disso, Quintella esteve sim no campo de oposição ao MDB recentemente, mas sempre teve uma boa relação com a bancada federal em Brasília.

Manteve ainda uma relação institucional com o governador Renan Filho (MDB), em que pese duras críticas que já fez, como mostrei nesse blog logo que ele fechou aliança com o Executivo estadual em nome das eleições vindouras.

A surpresa que a política revela no pleito – diante da chapa encabeçada pelo MDB – se dá pela dobradinha dos dois, disputando o Senado Federal juntos, mas com convicções opostas em muitas pautas. É só olhar o histórico recente das posições políticas assumidas.

E aí, pouco importa se aliança de Quintella com o senador Renan Calheiros e o governador Renan Filho se deu em função da desistência do prefeito Rui Palmeira (PSDB) em participar do pleito. Afinal, convicções são convicções e um homem – ainda mais público – pode ser cobrado por elas.

Isso é o mínimo.

O interessante é de um lado termos, por exemplo, um dos mais aguerridos defensores do ex-presidente condenado Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula (PT). Do outro, um recente crítico às posturas petistas, ao ponto de dizer que, no Ministério dos Transportes, estava na hora de trocar a ideologia pela lógica e pela aritimética.

Quintella foi um defensor das reformas de Michel Temer e do próprio governo federal. Renan Calheiros foi um opositor a Temer.

Neste campo, pode se incluir pautas para o futuro onde Quintella e Renan Calheiros – caso cheguem ao Senado Federal em 2019 – terão posições diferentes. Quintella tem aderido a uma agenda mais liberal com o passar do tempo. Renan Calheiros tem amado as teses esquerdistas de Estado forte, ao menos em seus mais recentes discursos. Ilustro aqui com a Reforma Trabalhista e também com a possibilidade futura de se redescutir a Previdência.

Com visões tão distintas, estarão juntos na campanha, um pedindo voto para o outro enquanto pedem votos para si mesmos. Afinal, essa é a dobradinha da chapa que tem Renan Filho na cabeça.

Outra divergência emblemática: Renan Calheiros é praticamente o pai do Estatuto do Desarmamento. Recentemente, o emedebista fez defesa ferrenha das teses desarmamentistas. Maurício Quintella Lessa já deixou claro sua posição pelo direito do cidadão, obedecendo a critérios objetivos, ter acesso ao porte de arma.

Não deixa de ser interessante observar proprietários de declarações tão distintas – ao menos nas visões passadas à imprensa durante entrevistas – no mesmo palanque e em nome de um mesmo projeto. É, no mínimo, curioso.

Repito: tudo isso não produz rivais. Afinal, o diálogo e a divegência sadia é parte da democracia, mas já se foi o tempo em que costuras políticas se davam por afinidades de convicções ou apreços ideológicos. A matemática eleitoral se revela mais importante.

Se pesquisarmos, obviamente, acharemos pontos em comum entre os postulantes ao Senado Federal. Todavia, as diferenças no campo das ideias são visíveis.

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UNCISAL: ex-alunos e voluntários se cotizam para tentar custear obras e universidade não perder status no MEC

Foto: Cortesia / Assessoria De737d24 b8a6 4042 a006 a5bf220d023c Uncisal

Um grupo chamado “SOS Uncisal ex-alunos” foi criado na rede social do Whatsapp para – conforme o próprio objetivo anunciado por lá – tentar salvar a unidade de ensino superior do “risco de perder o status de universidade”.

De acordo com um dos membros do grupo, “haverá uma avaliação do Ministério da Educação (MEC) já em meados de maio. Em princípio estamos precisando levantar dinheiro para obras de acessibilidade, como rampas, banheiros adequados etc”.

O detalhe: a Universidade da Saúde do Estado de Alagoas (Uncisal) é uma instituição pública, ligada ao governo do Estado de Alagoas. É uma vergonha para o Executivo estadual que esse tipo de ação seja necessária para que se evite tal risco para a instituição, sobretudo diante de obras de baixo custo e com a importância que possuem para o status do estabelecimento.

Os membros do grupo criado destacam que tal ação se faz com urgência e às vésperas da avaliação. Onde estão os responsáveis por tais obras? Será que não sabiam de sua necessidade para que a Uncisal pudesse ter avaliação positiva junto ao Ministério? Claro que sabiam.

No grupo é possível ler o seguinte: “Como deve ser de conhecimento de todos, o processo de recredenciamento de uma universidade obedece a um ciclo de, em média, cinco anos. O último recredenciamento da Uncisal foi em 2011 e, como assumimos no final de outubro de 2017, estamos lidando com esse processo em meio a tantos outros que precisam de atenção”.

O grupo destaca as dificuldades para cumprir as exigências do MEC e fazer frente a tantas outras demandas. Para arrecadação dos recursos foi passada uma conta bancária do Itau. Na lista de doadores, as pessoas estão contribuindo com valores de R$ 200 cada. Nos prints que foram passados ao blog já havia 62 doadores.

Repito: tal ação de obras é responsabilidade do poder público. Mas, eis a situação a que chegou o assunto. É grave!

Conversei com um médico e ex-aluno que está no grupo. Ele confirma a existência e que os prints que foram passados ao blog são reais. “A situação é lamentável. Não era para chegar a esse ponto, mas por amor a Uncisal estamos ajudando. Agora, é claro que não é a nossa função fazer isso. Isto deveria ser uma política de governo. Porém, diante da urgência não podemos perder algo que é tão importante para os alagoanos e para as futuras gerações de profissionais de saúde de Alagoas”, explicou.

O médico confirmou que foi um dos doadores. “Doei o recurso pensando no melhor para a Uncisal”, salientou.

O reitor da Uncisal, Henrique Costa, conversou com o blog. De acordo com ele, desde que assumiu a gestão tem apagado incêndio e um deles é a questão do recredenciamento. “A Uncisal já deveria ter entrando nesse processo há um ano e meio. Estava sem o recredenciamento e correndo o risco de perder o status. Nós tivemos que correr para entrar em um processo que pudesse superar o problema do tempo, já que para essas obras – que são pequenas – não havia dotação orçamentária. Não é que o governo não queira fazer, é que lidamos como tempo para resolver esse problema. E aí, a solução encontrada foi buscar ajuda nas pessoas que querem contribuir com a Uncisal, como já estão contribuindo. Temos trabalho voluntário também dentro da instituição. O governo tem do buscado nos ajudar, mas nesse caso – diante do tempo – só tinha essa solução”.

Segundo Costa, no final do ano passado, que se entrou com o pedido necessário de recredenciamento e por isso ele ocorrerá em maio. “Tinha que ser feito para não perdermos. Agora, para a avaliação temos que resolver um monte de coisa e redirecionar recursos. Não há tempo hábil para outra forma”. Ele destacou que uma das ações tem o custo, por exemplo, de R$ 30 mil. “Faremos o que for possível e necessário para garantir o recredenciamento e mostrar que temos projeto para adequar a universidade naquilo que não for possível fazer”.

“Essas doações são um presente para a universidade. Repito: não é que o governo não fosse dar, mas o tempo era, como já disse, um problema”. Henrique Costa não esconde que os incêndios que diz hoje correr para apagar é fruto da ausência de ações no passado. “Tudo isso está sendo feito com uma planilha, para garantir a transparência, e pautando o mais urgente e o que der com o dinheiro que conseguirmos. É tentar dentro do possível encaminhar com o máximo possível”, destacou.

A prioridade tem muito a ver com acessibilidade, como rampas, banheiros e – em outros casos – ar condicionado funcionando etc. “Eu estou há cinco meses apagando incêndio. Esperamos que depois disso, as coisas entrem no eixo. Na manhã de hoje, tive uma reunião com a Secretaria da Fazenda e a pasta foi sensível a nossa situação. É resolver o que é urgente agora e trabalhar para que lá na frente evitemos os mesmos problemas”.

Os prints não estão no post para preservar o nome dos doadores e as quantias doadas por eles. A culpa não é do reitor nem dos doadores, mas sim do poder público e de gestões que deixaram chegar a isso...

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Isolado, o PSL de Bolsonaro aposta no presidenciável para construir via alternativa em Alagoas

Foto: O Povo 40406f2f 3bc8 44a2 ae9f d3868ab02788 Jair Bolsonaro

O PSL do presidenciável e deputado federal Jair Bolsonaro apostou no completo isolamento em Alagoas. A sigla, lá atrás, quando presidida por Henrique Arruda, buscou caminhos de diálogos com outros partidos, com o PSB do deputado federal João Henrique Caldas, o JHC, e o PROS do deputado estadual Bruno Toledo.

A ideia – anteriormente – era formar uma frente que desse até sustentação a candidatura do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, que acabou desistindo de participar do pleito, após várias discussões também com outros partidos. De lá para cá, Henrique Arruda – um dos responsáveis por formar o Livres em Alagoas – acabou deixando o PSL e ingressando no PROS.

Os que ficaram no PSL, hoje conduzido pelo policial federal Flávio Moreno, passaram a apostar no isolamento. A ideia é apostar todas as fichas na associação entre os candidatos locais e o presidenciável Jair Bolsonaro, diante da capilaridade eleitoral que este ganhou. Em outras palavras: a busca por uma transferência de votos que atraia para si os apoiadores de Bolsonaro no Estado.

Alguma transferência há de existir, evidentemente. O quanto? Aí só se saberá com as urnas...

O problema é que o PSL luta contra o tempo, já que os pré-candidatos estaduais são outsiders e desconhecidos da população. Entre os principais nomes, o único que já disputou uma eleição é Josan Leite. Ele foi candidato a vereador pelo PSL em 2016, quando Bolsonaro ainda não fazia parte da legenda.

Agora, Josan Leite é o nome posto para disputar o governo do Estado de Alagoas. É um bom nome, diga-se de passagem.

Outra dificuldade será o tempo de televisão para explanar as propostas. Flávio Moreno e Josan Leite estão apostando nas redes sociais. O resultado a ser alcançado? É imprevisível. Mas, do outro lado, está uma máquina gigantesca que opera no modo mais tradicional da política alagoana, com alianças com deputados, prefeitos, vereadores etc.

Torna-se um partido que fala para um nicho é um problema em uma eleição majoritária, pois por mais que se tenha uma militância – e do outro lado da moeda, o próprio PT é exemplo disso – ela não simboliza vitória. O PT para chegar à presidência e eleger seus candidatos teve que ir para além da sua militância mais fiel, ao longo da recente História da política do Brasil.

Todavia, o PSL promete surpresas na forma de fazer campanha e acredita que pode colher resultados tanto na majoritária quanto nas proporcionais. A luta não é fácil. Será Davi versus Golias. E isto nada tem a ver com ideologias, mas sim com estruturas para as campanhas. Afinal, há o mundo real.

Josan Leite é um bom nome no pleito. Sem radicalismo, dialoga com diversos setores e se apoia em ideias mais liberais. Nada pesa contra ele e, em uma campanha para vereador, ao se levar em consideração que era a primeira vez que lançava seu nome, conseguiu até um bom resultado. Numa campanha modesta, ultrapassou a barreira dos dois mil votos.

Entretanto, um bom começo para o PSL era colocar o pé mais no chão. O discurso excessivamente aguerrido que Moreno tem adotado pode virar contra ele. Prudência, cautela e temperança são valores do conservadorismo filosófico que um candidato de víeis mais conservador não pode desprezar.

A “solidão” do PSL tem vantagens e desvantagens na montagem de um discurso. Estará sem amarras para criticar o atual governo e apontar alternativas. Porém, terá mais dificuldade para levar o discurso adiante no mundo real, que dependem de engrenagens do processo político que, infelizmente, não podem ser desprezadas.

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É preciso conhecer Antonio Gramsci. Há uma coletânea que nos oferta isso fácil...

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No Brasil, a obra O Leitor de Gramsci, organizada pelo professor universitário Carlos Nelson Coutinho, é um livro de é fundamental importância para os dias atuais, para quem quiser saber como pensa e se move a esquerda clássica brasileira.

Não falo aqui do revolucionário de plantão que apenas responde a estímulos de ambiente e segue crente que sabe de alguma coisa, mas apenas distribui chavões para, logo depois, mandar alguém estudar ou xingar de fascistas e outros “istas” completamente dissociados de seus significados.

Por sinal, ressignificação semântica das coisas e das palavras faz parte da práxis gramsciana, ainda que quem a pratique ou já se veja envolvido nela, ao ponto de acreditar que as mentiras que professa são verdades, não tenha nem conhecimento do que seja.

Bem, Carlos Nelson Coutinho está longe de ser alguém de direita. Muito pelo contrário. Pela introdução feita na obra, percebe-se que é próximo ao marxismo. No entanto, a obra é tão didática em relação ao pensamento revolucionário de Antonio Gramsci que, fatalmente, aquele que ainda preserva alguns neurônios, diante das guerras de narrativas, cultural e psicológica que vivemos, vai compreender o que é criar uma “bolha ideológica” a partir dos valores da sociedade que se deseja transformar, criando assim uma revolução cultural em nome do mundo melhor, sem a necessidade imediata de uma revolução armada, como presente nos cânones marxistas.

A “bolha ideológica” sequestra os valores de uma sociedade para que estes sejam subvertidos por uma “intelectualidade orgânica”. São indivíduos a serviço do pensamento revolucionário, mas que aparecem como “isentos” no processo cultural e político para insuflarem demandas por meio de coletivos.

Todas essas demandas são úteis para quebrar a ordem de uma sociedade na exigência de políticas corretivas de Estado. Cria-se um “inconsciente coletivo” para que, lá na frente, surja o partido – o “moderno Príncipe” – a responder a tais demandas e assim alcançar o poder como agente representante de uma hegemonia previamente implantada.

Os sindicados deixam de ser representantes de trabalhadores, por exemplo, para tratarem de temas universais de forma ideológica, o mesmo ocorre com ONGs, conselhos populares, escolas e até a Igreja, que também é citada por Antonio Gramsci. É vendida a falsa ideia do progresso com base nas “leis dinâmicas da História” e quem não concordar é um retrógrado. É empurrado para fora da “bolha ideológica” como um “extremista” a ser combatido, pois é alguém que não fala em nome do povo.

Só que o “povo” – esse conceito abstrato – foi falsificado, pois já não é o povo que fala, mas os coletivos tomados por visões ideológicas. Frauda-se a democracia.

O espectro político só passa a ter representantes de uma mesma ideologia que encontra suporte em grupos previamente infiltrados por aqueles que são vistos como especialistas, intelectuais, inteligentes, donos da verdade. Estão eles em cargos de professores, presidentes de sindicatos, chefes do ONGs, padres, líderes de movimentos, jornalistas e por aí vai...

Quem duvida que leia a obra organizada por Carlos Nelson Coutinho que, repito, de forma didática separa os textos de Gramsci por temas. E assim, vai dos escritos pré-cárcere até o famoso Cadernos do Cárcere. Por isso que Antonio Gramsci afirma de forma tão clara que cabe ao próprio revolucionário criar – de forma antecipada – o ambiente propício, no Ocidente, para se fazer a revolução futura: “os revolucionários criarão as condições necessárias para a realização completa e plena de seu ideal”.

Gramsci percebe que o chamado capitalismo não possui por si só uma base moral, mas – ao contrário – depende de uma base moral que está na cultura do Ocidente, que é formada pela filosofia grega, a evolução do Direito e a visão transcendente, sendo a mais influente o cristianismo. Logo, são essas bases – que eram compreendidas como a superestrutura – que precisam ser atacadas. Assim, é possível usar o chamado capitalismo para implantar o socialismo e o comunismo.

Daí, Gramsci criticar os bolcheviques ao dizer que “a revolução bolchevique se baseia mais em ideologia que em fatos”. Portanto, é preciso antes que os fatos sejam favoráveis e possa se construir um ambiente que aceite o discurso ao invés de se erguer naturalmente contra ele em função da herança ocidental. Para Gramsci, é preciso criar um ambiente onde não existam os “indiferentes”. “Odeio os indiferentes (...) Não podem existir os que são apenas homens, os estranhos à cidade”, diz o filósofo marxista italiano.

Em outras palavras, o ambiente precisa produzir agentes de uma revolução, o novo homem, deve tornar todos num vetor da luta revolucionária. “O que significa que toda revolução foi precedida por um intenso e continuado trabalho de crítica, de penetração cultural, de impregnação de ideias em agregados de homens que eram inicialmente refratários e que só pensavam em resolver por si mesmos, dia a dia, hora a hora, seus próprios problemas econômicos e políticos, sem vínculos com os que se encontravam na mesma situação. O último exemplo, o mais próximo de nós e por isso o menos diferente do nosso, é o da Revolução Francesa”, escreve Gramsci.

Vejam aí: o autor destaca a necessidade de coletivizar o homem transformando necessidades pontuais em problemas maiores, que passam a ser compreendidos como parte de um sistema que precisa ser mudado em seu todo por meio de uma revolução cultural que leve ao socialismo e ao comunismo, ainda que essas pessoas não saibam para onde estão indo no final das contas, pois o objetivo político nunca é plenamente mostrado. Mas sim o discurso superficial ideológico que se apropria até de dores reais do humano, que realmente sofre com injustiças, pois elas fazem parte do mundo.

A função de um partido será a de se apresentar como resposta as demandas criadas por meio desse processo, pois a criação de uma hegemonia - que transforme um partido político em resposta ao que o “povo” - precisa ser feita anteriormente por “grandes intelectuais, jornalistas, revistas etc”, como reconhece Nelson Coutinho.  

Eis que – de uma hora para outra – todo mundo passa a adotar o mesmo discurso. Intelectuais – para Gramsci – não só educam, mas organizam a sociedade para “criar ou consolidar relações de hegemonia, por isso, para ele (Gramsci), são intelectuais todos os membros de um partido político, de um sindicato, de uma organização social”, destaca Coutinho, ao explicar o conceito do “intelectual orgânico”.

Em outras palavras, o intelectual orgânico trabalha para tornar os interesses de um partido em interesses gerais de uma sociedade por meio da infiltração. Assim, com o tempo, eles surgem como uma demanda natural para que o partido, posteriormente, sequestre tal ambiente para si e se venda como o salvador da pátria, mostrando que o caos sentido não foi implantado, mas é fruto do sistema que precisa ser revolucionado. Como cordeirinhos, todos passam a concordar e elegem esse partido acima do governo e acima do Estado.

Para Gramsci, a sociedade civil deve designar o conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão das ideologias, compreendendo esse conjunto os sistemas escolar, parlamentos, Igrejas, sindicatos, meios de comunicação etc. É o cerco ideológico que resulta na bolha.

O politicamente correto se enquadra aí, pois até a linguagem na qual você tem que pensar deve ser estabelecida previamente como mecanismo de controle. Como o objetivo político é escondido, isso é feito em nome de um bem que é o de supostamente corrigir injustiças, quando – na realidade – o que se faz é castrar possibilidades de comunicação entre os homens.

Aqui, trago apenas uma parcela do que é o pensamento de Gramsci. Obviamente, é mais profundo que isso. De fato, é um autor inteligentíssimo. De fato precisa ser lido e estudado com bastante atenção. Afinal, como diz Coutinho: “O marxista italiano Antonio Gramsci é um dos intelectuais estrangeiros mais influentes no atual pensamento social brasileiro. Desde o final dos anos 60, quando sua obra começou a ser publicada no Brasil, Gramsci vem atraindo não só atenção dos acadêmicos situados no amplo espectro das Ciências Sociais, mas também de militantes políticos e de um público culto, interessados nas questões da política e da cultura”. Pois é.

Nelson Coutinho está coberto de razão. É também por isso que vivenciamos o que vivenciamos hoje.

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Marx Beltrão deixa o MDB sem entrar em colisão com Renan e pode dialogar com Collor

Foto: Assessoria/Arquivo 9e199c4b aa6b 4c01 ba2a 1717f53555b1 Deputado federal, Marx Beltrão

O ex-ministro do Turismo, Marx Beltrão (MDB) – que retorna ao cargo de deputado federal – confiou no MDB do senador Renan Calheiros e do governador Renan Filho até onde pode.

Lá atrás, quando Beltrão já ensaiava a mudança de sigla para viabilizar sua candidatura ao Senado Federal, o partido comandado por Renan Calheiros em Alagoas chegou a soltar uma nota dizendo que a vaga de Marx Beltrão no processo eleitoral estava garantida.

Mas, nunca foi assim...

Renan Calheiros sempre organizou o tabuleiro do xadrez ao ponto de não ter ameaças – ou pelo menos tirar de cena as que conseguir – a sua candidatura ao Senado Federal. Marx Beltrão sempre soube disso. Estava em um MDB dividido por diversos motivos. Um deles: Beltrão é um aliado do presidente Michel Temer (MDB). Renan Calheiros passou a ser um crítico ferrenho.

O fato é que, quando o Palácio República dos Palmares fechou aliança com o ex-ministro dos Transportes e deputado federal Maurício Quintella Lessa (PR), não havia mais espaço para Beltrão. O ex-emedebista, que sempre soube da necessidade de um plano B, ingressou em uma sigla que já era comandada por ele sem qualquer segredo: o PSD.

Beltrão, com isso, trabalha para formar um bloco que dê sustentação a sua candidatura ao Senado. Os diálogos já existem e podem incluir até o senador Fernando Collor de Mello (PTC). Marx Beltrão – conforme bastidores – busca uma chapa com PRB, PSC, PHS, Solidariedade, Podemos e o conjunto de partidos ligados a Collor: PTC, PSDC e PEN.

Deste grupo, tirar os nomes para o governo do Estado de Alagoas, deputado federal e deputado estadual.

Oficialmente, ao deixar o MDB, Marx Beltrão – por meio da assessoria de imprensa – encaminhou palavras de agradecimento à antiga legenda, afirmando que construiu toda a sua trajetória política por lá. “Por isso, meu agradecimento é profundo e sincero a todos os pares e companheiros do MDB”, pontua.

“Agora, pré-candidato ao Senado da República, filiado ao PSD para dar sequência a um projeto político voltado para o Estado de Alagoas e para o país, assumindo mais um desafio pela renovação, sigo à disposição de todos, sempre na luta por justiça, inclusão social, geração de emprego e renda, além de melhores oportunidades de vida para todos”, conclui Marx Beltrão.

Beltrão sempre foi cauteloso nas declarações. Mas, há sim arestas com a antiga casa...se superadas ou não, a campanha dirá...

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Rodrigo Cunha: a peça que resta ao PSDB para tentar sobreviver

Ascom ALE/Arquivo 45ce22e4 13a0 49ca b146 4b9f381268a7 Deputado Rodrigo Cunha

O destino do PSDB em Alagoas, não apenas em relação ao pleito desse ano, se encontra nas mãos do deputado estadual Rodrigo Cunha (PSDB). É o único nome do partido com condições de encarar a missão de disputar o governo do Estado de Alagoas, mesmo diante das imensas dificuldades de encarar a tarefa hercúlea.

Cunha vem sendo pressionado para isso dentro do “ninho tucano”. Mas, sabe que aceitar a missão é mudar completamente os planos que tinha traçado para si mesmo, ao querer sair da Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas para tentar um mandato em Brasília, seja como deputado federal ou Senador.

O problema é que Cunha, ao encarar uma disputa pelo Executivo estadual, vai ter ainda que tentar reagrupar uma oposição esfacelada e já sem alguns nomes, como é o caso do ex-ministro dos Transportes e deputado federal Maurício Quintella Lessa (PR).

Quando o prefeito de Maceió, Rui Palmeira (PSDB), desistiu de ser candidato, Quintella foi o primeiro nome da oposição a pular do barco.

Cunha teria ao seu lado o PP do senador Benedito de Lira, o PROS do deputado estadual Bruno Toledo e o Democratas de José Thomas Nonô. Evidentemente que outras siglas poderiam chegar a um trabalho de articulação. No entanto, é uma luta contra o tempo, ainda mais quando Cunha pediu 15 dias para pensar no assunto, como já noticiado pelo CadaMinuto.

O PSDB aposta na imagem de Rodrigo Cunha. É um parlamentar que teve uma boa passagem pelo parlamento estadual, com pronunciamentos que repercutiram. Chegou à Casa de Tavares Bastos como o mais votado e dialoga bem com setores da sociedade civil que são chamados de “votos de opinião”.

Mas Cunha sabe do risco. Sabe que na posição em que se encontra uma eleição para deputado federal é algo mais confortável em função das pesquisas eleitorais já feitas. Sabe que para o Senado aumenta o desafio, mas não é algo tão distante de uma realidade, ainda mais com a desistência do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça.

No entanto, para o governo, vai enfrentar uma verdadeira máquina azeitada, com o apoio de diversos partidos, deputados estaduais e prefeitos.

Estará praticamente sozinho a servir de guarda-chuva para outras siglas que possuem preocupações em eleger deputados estaduais e federais. Cunha teria que ser um soldado do PSDB e ter alguma contrapartida em caso de derrota para não sair de vez da política. A pressão sobre o jovem parlamentar não é fácil. A escolha também não. O PSDB precisa de uma resposta para ontem, para que assim possa trabalhar seus rumos.

É que o PSDB já inicia a eleição como nanico diante da inaptidão de Rui Palmeira ao sair do processo. Não por ter saído, mas pela forma como o fez em que nem foi candidato e ainda abriu mão de ser articulador de um grupo. Todas as atenções voltadas ao que pensa Rodrigo Cunha...

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Mais uma vez a Assembleia Legislativa na mira da PF. Mais uma vez se fala em “fantasmas”...

Foto: Arquivo/Cada Minuto 02f20e26 932f 4748 ab4f 097329e363bb Assembleia Legislativa de Alagoas

Na manhã de hoje, dia 10, mais uma vez a Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas foi alvo de uma operação da Polícia Federal. Mais uma vez, entre as acusações, está a existência de funcionários fantasmas.

A sensação que fica, diante das denúncias que se acumulam ao longo do tempo, é de que a Casa não se emenda...

Apesar de já ter anunciado duas auditorias – em gestões de Mesas Diretoras distintas – mas somente uma ter sido apresentada à sociedade após pressão da imprensa; apesar de um Portal da Transparência, a Casa de Tavares Bastos (que infelizmente leva o nome de um dos maiores políticos intelectuais brasileiros), nunca sai das páginas policiais...

Desde a Operação Taturana (na década passada) até esta data, foram várias ações e denúncias de desvio de recursos públicos por parte de parlamentares. A maioria se reelege ou consegue ainda ocupar outros cargos eletivos em outras esferas dos poderes. Na Taturana, um desvio de mais de R$ 300 milhões. Há condenados, mas não há presos.

Mais recentemente, na legislatura passada, se descobriu – por meio de denúncias do atual deputado federal João Henrique Caldas, o JHC (PSB) – a famosa “lista de ouro”, em que existiam comissionados que recebiam mais de 100 repasses por ano. Um verdadeiro rio de dinheiro que foi alvo de investigação do Ministério Público Estadual (MPE), mas que ninguém sabe ao certo onde desaguou...

O parlamento, na época, se negou até a informar em quais gabinetes os membros da lista de ouro estavam instalados. Como ainda hoje, o parlamento estadual se nega a informar a lista de comissionados por gabinetes. Os deputados estaduais que fizeram, fizeram por conta própria. Apenas três mostraram a relação de seus comissionados: Galba Novaes (MDB), Bruno Toledo (PROS) e Rodrigo Cunha (PSDB).  

A lista de ouro levantou mais uma vez suspeitas de fantasmas.

A auditoria feita pelo parlamento estadual, já nessa legislatura, também mostrou inconsistência de dados e suspeitas, mas a folha de comissionados não foi auditada. Claro que não se trata de todos, pois muitos trabalham honestamente prestando serviços aos gabinetes. Mas, se há suspeitas, nada melhor que a total transparência. É recurso público.

Na manhã de hoje, conforme reportagem do site CadaMinuto, residências de alguns vereadores da cidade de Batalha foram alvos da operação “Malacafa”, que é um desdobramento de uma outra operação que teve como alvo o mesmo parlamento: a Sururgate. Nunca é demais lembrar: dois vereadores em Batalha foram assassinados e parentes de um deles denunciou um esquema de corrupção envolvendo a Mesa Diretora da Casa.

De acordo com o delegado da PF, Agnaldo Mendonça Alves, a PF investiga a existência de funcionários fantasmas no parlamento estadual. “A ação de hoje foi para buscar mais elementos que comprovem isso”, frisou. Até aqui ainda não foram revelados os nomes dos alvos da operação, mas pode haver correlação com o assassinato em Batalha.

A PF acredita que pagamentos realizados pela Assembleia são feitos a pessoas cadastradas em programas sociais do governo federal. Entre 2010 e 2013, pode ter havido um rombo que ultrapassa os R$ 15 milhões.

Ao todo, foram cumpridos 11 mandados em Batalha, um em Maceió e dois em Jacaré dos Homens.

A Assembleia Legislativa de Alagoas e as páginas policiais dos veículos de imprensa local possuem uma relação íntima que perdura na História...

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A dança das cadeiras dos partidos só mostra a completa crise de representatividade na política

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O que revela a dança das cadeiras aberta pela oportunidade da janela partidária em Alagoas e no Brasil? A crise de representatividade da nossa democracia indireta. Os partidos políticos – com raras exceções – não possuem crenças sólidas, assim como a maioria dos políticos abrigados por estes. Diferem apenas – em maior ou menor grau – na forma como pensam intervir no Estado para se manterem vivos no estamento burocrático vigente.

Claro que há exceções. Mas como está embutido no vocábulo “exceções”, elas são raras...

Um ponto importante que é preciso que se diga: nessas mudanças de legendas, um foco maior nos pré-candidatos a deputado federal. Todas as siglas (e a única exceção tem sido o Novo) possuem um interesse particular nos mandatos da Câmara de Deputados. Motivo? É a quantidade de deputados federais eleitos que definem a excrescência chamada fundo partidário, onde o contribuinte paga pelas estruturas partidárias as quais não é filiado, por exemplo.

Fosse algo sério e comprometido com a função nobre da política, partidos representariam ideais e seriam mantidos por seus filiados que nesses acreditassem, buscando assim um “lugar ao sol” para defender suas teses.

Teríamos assim – e por isso o nome é partido, por não constituir um todo! – que abrigaria várias correntes da esquerda à direita, com debates caros ao cidadão como revisão do pacto federativo, intervenção ou não do Estado na economia, garantias de liberdades individuais, descentralização de poder e recursos etc.

Mas nada disso temos. O importante agora para os partidos é a matemática eleitoral. Repito: com raras exceções.

O sistema, portanto, já começa prostituído.

E o que os partidos fazem diante do desgaste promovido pela crise de representatividade: mudam de nome. Demonizam a palavra “partido” e viram Avante, Podemos, Movimento etc. Como se isso dissesse grande coisa ou significasse realmente mudança. É como pintar o muro externo da casa sem muitas vezes reformar o interior.

Até o desgastado PMDB, que é parte do problema de um governo irresponsável do passado, virou o MDB, querendo resgatar sua posição de luta contra o regime militar.

Nos muitos partidos que formam a democracia brasileira, em geral o que temos é 50 tons do mesmo cinza. Logo, o que significa a ida de um pré-candidato da sigla X para a sigla Y? Nada além de encontrar o melhor lugar onde a soma dos votos lhe garanta uma eleição mais fácil.

O eleitor tem sua parcela de culpa? Claro! Na maioria das vezes, ao ver um político investigado por algum fato, terceiriza a responsabilidade para a Justiça. Fica a espera de um milagre para que aquele político perca os privilégios e só então responda pelos seus atos.

É o caso, por exemplo, do que ocorre no Senado Federal. São 23 senadores que poderiam ver seus processos descer à primeira instância, não contando mais com o foro privilegiado, para assim então – respeitando o direito ao contraditório – respondam pelas acusações que são feitas. O que ocorre hoje é que, independente de cor partidária, tais investigações ganham cheiro do mofo no Supremo Tribunal Federal.

Entre esses 23 senadores, dois alagoanos: o senador Renan Calheiros (MDB) e o senador Benedito de Lira (PP). O senador Fernando Collor de Mello (PTC) também é alvo da Lava Jato, mas ainda tem mais quatro anos de mandato pela frente, tanto que tem o luxo de ser pré-candidato à Presidência da República. O tucano Aécio Neves (PSDB) – tão lembrado pelos petistas após a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula (PT) – também faz parte dessa turma.

Regressando ao tema principal que é a mudança de legenda: o que vemos é o circo eleitoral em cena. Tal lógica, por exemplo, permitiu que o deputado federal Cícero Almeida – ao longo de sua trajetória política – trocasse mais de partido do que de sapato. Givaldo Carimbão, que agora está em casa nova, já passou pelo PSB, PROS e PHS, misturando sua visão católica de mundo às intempéries socialistas de siglas onde já esteve. Carimbão desafiou a química em sua vida política e conseguiu misturar água e óleo.

Vivemos uma democracia indireta onde a maioria dos partidos só possui uma identidade: a “ideologia” de superar cláusula de barreira, garantir deputados federais para ter dinheiro público em suas contas e realizar conchavos estamentários que são apelidados de “governabilidade”. Nada de novo no front. Pouco importa quem foi para onde foi...é o lápis na mão e interesses inconfessáveis na cabeça...

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Sobre Renan Calheiros o filósofo Schopenhauer já dizia: “A arte de vencer o debate sem precisar ter razão”

Foto: Paulo Whitaker/Reuters/Arquivo 5c7d051b fb64 4409 94a2 4c876dcd04ec Renan Calheiros e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Penedo

Existem divergências de teses jurídicas em relação à prisão em segunda instância. Um olhar sem paixões de fato permite essa discussão. Como não sou um especialista em Direito, não entro nesse campo. Entendo até onde vai a minha competência. O que tenho questionado – aqui e em outros textos – é o elemento político que mobilizou o Supremo Tribunal Federal (STF) e passou a ganhar relevância em função do réu, quando já havia um entendimento firmado em 2016 por uma Corte que praticamente não mudou sua composição.

A única exceção é o ministro Alexandre de Moraes, no lugar do falecido Teori Zavascki.

Como foi registrado durante o julgamento em alguns momentos, o país precisa ter estabilidade e segurança; e não que os entendimentos fiquem ao sabor da importância ou relevância do réu. Simples assim. Dito isso, compreendo as discussões jurídicas e busco ler atentamente os dois lados, avaliando os argumentos. Conheço juristas que estão longe de serem defensores do ex-presidente condenado Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula (PT), que são contrários ao entendimento consolidado pelo STF. Respeito-os.

Particularmente, acredito que bandido bom é bandido preso. E Lula não será um preso político, mas um político preso. Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula é o responsável por um projeto de poder que se desenvolveu em cima de uma corrupção sistêmica, que – como método – distribuiu benesses dentro de um estamento que um dia o PT disse combater. O PT se apropriou desse estamento, pois de fato não inventou a corrupção, dentro de moldes gramscianos, sendo “protegido” por um discurso ideológico de uma intelectualidade orgânica que acabou por segregar o país na luta do “nós contra eles”.

Além do crime da corrupção material, há os aspectos danosos intangíveis, como a corrupção moral, intelectual e o uso de sindicatos, universidades e outras instituições como peças de uma grande engrenagem de engenharia-social. Lula era a referência de tudo isso. Aliás, era não, ainda é.

Das esquerdas jurássicas às revisionadas (com algumas exceções), Lula virou o símbolo disso. O ex-presidente condenado colheu o que plantou, apesar de ainda ter alguma capilaridade que é superestimada por seus defensores nos discursos inflamados.

Entre esses defensores de Lula, está o senador Renan Calheiros (MDB). Calheiros – em seu mais recente discurso – falou de ataques à Constituição Federal por se permitir a prisão de Lula após o julgamento em segunda instância. Como disse no início do texto, eis uma discussão que pode ser feita do ponto de vista jurídico.

Mas, Renan Calheiros fala do altar de uma paixão lulista simulada. É que o enxadrista-mor da política alagoana, quiçá a brasileira, não dá ponto sem nó. Tornou-se um lulista ferrenho em função de querer aproveitar uma onda diante da capilaridade que Lula ainda tem no Nordeste, por exemplo.

Mas quem é Renan Calheiros para falar de Constituição? Bem, é o homem que, na condição de animal político com expertise, ajudou a salvar os direitos políticos de Dilma Rousseff (PT), quando esta foi alvo do processo de impeachment. Uma vez sofrendo o processo e tendo o resultado proclamado, Dilma além de perder o cargo, deveria perder os direitos políticos. Mas, por sorte, ela contou com Renan Calheiros e outros, que agiram como agiram diante do então presidente do STF, Ricardo Lewandovski.

O problema é que alguns enxergam a nossa Constituição como uma colcha de retalhos cujos retalhos são usados conforme as conveniências e assim ela é retalhada mais ainda.

Renan Calheiros tem o direito ao entendimento pessoal dele, mas não pode estranhar quando alguns senadores o questionam e não o levam a sério neste quesito, pois não possui a estatura devida para apontar o dedo diante do que fez no passado. A briga que Renan Calheiros protagonizou no Senado Federal no dia de ontem remete ao seu protagonismo na época do impeachment, quando era presidente do Senado e tentou dar uma de “isentão”, mesmo tendo posição definida e assim tentou colocar um pé em cada canoa, só endurecendo o discurso para cima do presidente Michel Temer (MDB) bem depois.

É certo que em muitos momentos, nas críticas que fez a Temer, possuía razão. Um desses momentos quando afirmou que o governo era fraco, por exemplo. É claro que é um governo péssimo, cheio de problemas e com suspeitas de atos de corrupção que devem ser investigados, esmiuçados e quem for podre que se quebre. Mas, o que esperar do MDB? Afinal, era uma das peças do estamento burocrático que deu sustentação aos governos do PT.

Não por acaso, Temer era visto como o vice perfeito pela própria Dilma. Aceitou ser vice para agora querer se vender como diferente? Ora, Temer também colhe o que plantou. Não é – e nem pode ser visto – como confiável, em que pese alguns acertos de sua gestão. É o mesmo estamento.

Além disso, erra Renan Calheiros ao usar o argumento de “ataque ao homem” e às ideias, quando tenta descaracterizar um membro do Senado por ele ter sido suplente. Acaso Calheiros não tem suplente? O suplente faz parte da regra do jogo. Se os brasileiros votam sem entender isso, é preciso que entendam. Ou ao escolher o seu suplente, Renan Calheiros buscou um nome que não tivesse condições de representar seus eleitores em caso de impedimento, de licença para ocupar algum cargo e/ou de outras circunstâncias que podem levar um suplente ao Senado Federal.

Este argumento de Renan Calheiros não faz qualquer sentido. É a famosa picuinha de vencer o debate sem precisar ter razão, como já denunciado pelo filósofo Arthur Schopenhauer. É erística pura, Renan Calheiro!

Se Renan Calheiros acha errada a presença de suplentes no Senado que apresente projeto para acabar com a existência deles, assumindo assim – em circunstâncias de ausências – o que ficou menos votado no pleito que elegeu os titulares, como ocorre na Câmara de Deputados e em outros legislativos.

O senador suplente, pelas regras do jogo, é igual a Renan Calheiros dentro do Senado. Tem poder de voz e voto e é a democracia que lhe garante isso, pois a democracia é maior que Renan Calheiros e ainda bem que é assim.

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