Rede Globo, Nossa Senhora e o telejornalismo em Alagoas

Desde os primórdios, o poder da Igreja Católica se confunde com os rumos da vida pública no Brasil. A interferência no cotidiano nacional alcançou níveis que nenhum outro segmento social jamais conheceu. Nos tempos coloniais, no Império e na República, os interesses nada sagrados dos senhores de batina sempre tiveram força de lei. As marcas dessa tradição estão aí.

 

Antes de explicar por que escrevi o óbvio nas linhas anteriores, lembro um dito popular que traduz o poderio católico na formação do país. Você já deve ter lido a frase “vá reclamar com o bispo”. De onde vem isso? O secular conselho, que se popularizou na boca do povo, traduz o longo domínio que os representantes dessa religião tiveram (e ainda têm) sobre as instituições nacionais.

 

Na mesma linha da máxima que se consagrou na fala popular, o leitor também deve conhecer outra verdade esculpida nas ruas: na pequena cidade do interior, quem manda é o delegado, o prefeito e o padre – sendo que o religioso está acima das outras duas autoridades. Ou seja, lidamos com algo cujo alicerce é tão resistente quanto a crença inabalável nas profecias e nos mandamentos.

   

Corta para outubro de 2017. Digamos que você está em casa, por volta de sete da noite, tomando um café e conversando potoca sobre o Fora Temer, por exemplo. Aí começa o telejornal local na afiliada da TV Globo. Para sua surpresa, entre uma dica imperdível sobre qualquer besteira e uma receitinha gourmet, a edição termina com uma reportagem sobre o Vaticano e Nossa Senhora.

 

Você fica imaginando como nasceu essa pauta, e por que estamos assistindo a uma reportagem produzida por uma equipe de São Paulo, que foi até a Itália para emplacar sua historinha aqui, no noticiário de Alagoas. É simples. A decisão editorial passou longe do departamento de jornalismo da afiliada. Os assuntos do lugar em que vivemos são barrados em nome do interesse da Globo.

 

Além de revelar a completa distorção no uso da concessão pública de um canal de TV, a reportagem – anunciada como a primeira de uma série – prova que o poder da Igreja Católica continua praticamente o mesmo da era colonial. O pretexto para essa lamentável iniciativa são as homenagens à padroeira do Brasil. O que temos, na verdade, é uma pauta particular imposta arbitrariamente.

 

Repare que usar o jornalismo para reafirmar valores e princípios específicos, próprios de um segmento com amplos poderes, não é algo irrelevante. É um abuso escandaloso por parte de uma imprensa que se submete, porcamente, aos piores cacoetes da nossa velha elite. Exagero? Garanto que não. Considero que estamos diante de um pecado mortal – e nem uma reza forte dá jeito nisso.

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A Lava Jato, a República das Togas e um discurso que entrou para a História

Já escrevi aqui sobre a República das Togas, esse mundo paralelo também conhecido como Poder Judiciário. Por lá, habitam brasileiros com privilégios inimagináveis para o cidadão comum. Rendimentos abusivos e benesses de toda ordem são apenas um aspecto de uma coleção de hábitos incompatíveis com a realidade da maioria da população. Mudar esse quadro parece até impossível. Poucos têm disposição de enfrentar essa encrenca. 

 

A sociedade precisa de um Judiciário forte, sim. Precisa de um Judiciário independente, também sim. A Justiça é garantia essencial no cumprimento da lei para a normalidade da vida democrática – algo que ninguém deve contestar. O que não pode é um Judiciário intocável, acima das obrigações válidas para todos. E é nesse ponto que as coisas estão (e sempre estiveram) fora dos eixos.

 

Penso no desembargador aposentado Antonio Sapucaia e num capítulo único na trajetória do Judiciário em Alagoas. Em 2003, quando tomou posse como integrante do Tribunal de Justiça, Sapucaia proferiu um discurso que se tornou histórico instantaneamente. É um documento incomparável para se entender esse mundo paralelo a que me referi no começo do texto.

 

Por um desses acasos da vida, o discurso do desembargador rebelde repercutiu diretamente no meu trabalho como jornalista. Eu era então editor de política em O JORNAL. Era uma sexta-feira, se não me engano. No fim da tarde, o editor-chefe naquele período, o experiente Roberto Tavares, que havia deixado Recife para assumir o jornal alagoano, me chamou em sua sala. Era grave.

 

“Célio, dá uma olhada nisso aqui; acho que é uma bomba”, disse o chefe ao me entregar uma papelada que ele acabara de receber por fax. Era o discurso de Sapucaia, que estava tomando posse naquele momento no TJ. Assim que avancei na leitura, concordei empolgado: era uma bomba. Eu mesmo escrevi a matéria sobre a posse do cara mais invocado que o tribunal já teve de engolir.

 

O discurso é uma peça que alia denúncia, coragem, lucidez e ironia. Sapucaia chegou com o pé na porta, sem as mesuras e os salamaleques típicos dessas ocasiões. Conseguiu irritar todos os colegas ainda na posse, antes mesmo do primeiro voto nos julgamentos dos quais participaria no futuro. Mas, além do próprio TJ, o discurso também foi implacável com a OAB e o Ministério Público.

 

Para nossa satisfação adicional, lá em O JORNAL, no dia seguinte verificamos que a concorrência simplesmente silenciara acerca daquela bomba – o assunto sobre o qual produzi uma das reportagens que mais gostei de escrever até hoje. A cúpula da empresa recebeu reclamações da parte dos que se sentiram atingidos pelas palavras de Sapucaia. Fui chamado a dar explicações.

 

Ao conversar com o diretor-executivo, afirmei que não havia o que explicar. Era um fato grave e, além disso, apenas cumpri uma pauta da melhor maneira que sabia fazer. Alegavam que o tom da reportagem tinha sido “um pouco forte”. Disse que havia ressaltado os pontos mais relevantes do documento. Além da chateação, não houve represália. Não havia nada a fazer.

 

Para quem tiver curiosidade, o discurso de Sapucaia pode ser lido na internet. Um dos sites em que você encontra o documento é o Consultor Jurídico. A partir da leitura, passados 14 anos, vejam se o nosso Judiciário avançou muito. (Além do mais, o autor tem estilo. É um texto vibrante).

 

Há quem acredite que a Lava Jato, comandada por juízes, é a salvação do país. Tem feito estrago, é verdade. Muita gente denuncia até que estamos vivendo uma ditadura do Judiciário. Não acho. Mas, até agora, operação nenhuma triscou na República das Togas. O Brasil espera.

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Luiz Vilar e minhas divagações

O jornalista Luiz Vilar, que além de editor assina um influente blog aqui no CADAMINUTO, dedicou seu precioso tempo e sua inteligência para comentar o texto que escrevi sobre liberdade de expressão, esquerda e direita. Antes de tudo, agradeço pela elegância e generosidade de suas palavras.

 

Não faço qualquer reparo a suas observações quanto ao teor das minhas ideias soltas. É claro que certamente discordamos em mais de um assunto. Mas é ótimo que assim seja. Fosse o contrário, não haveria graça nenhuma no livre debate que deve prevalecer no ambiente civilizado.

 

Naturalmente também estamos de acordo sobre variados temas. Pelo que vejo em seus textos, Vilar é um intérprete atento e criterioso dos fatos e das ideias que moldam a realidade contemporânea. E faz isso revelando, com frequência, o embasamento em leituras e autores de peso. Uma rara qualidade.

 

Luiz Vilar sabe que, no clima envenenado pelo duelo ideológico – que toma conta dos nossos dias –, o mais comum é a exclusão da divergência. Nosso espírito democrático vai até o ponto em que somos contestados. A partir daí, o outro não passa de um cretino fascista que precisa ser riscado do mapa.

 

Não estamos nessa, é óbvio. E por isso seus comentários só podem ser recebidos por mim como incentivo à saudável troca de ideias. Na concordância ou na mais profunda diferença, nada mais estimulante do que a crítica – clara e intelectualmente honesta.

 

Para terminar, reitero meu agradecimento por sua atenção às minhas divagações, além do respeito a seus pontos de vista, sempre corajosos e bem fundamentados. Neste espaço, exercemos o que há de melhor na imprensa e na vida em geral: a plena liberdade de dizer o que pensamos, do jeito que queremos.

 

Saudações, meu caro, e até a próxima.

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Papagaiada na sala de aula e na TV

Começou a temporada de reportagens sobre as provas do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. Em todo o país, mais de 6 milhões de candidatos disputam o ingresso em universidades públicas. O número de inscritos caiu em relação aos anos anteriores. As avaliações estão marcadas para os dias 5 e 12 de novembro. (Mas eu comecei o texto falando de reportagens).

 

Acabo de ver na TV uma matéria sobre alunos que estão se preparando para o Enem. Quando o jornalismo entra na seara da educação, de duas uma: ou o professor é um “herói” injustiçado ou é um engraçadinho, adepto de macaquices, para facilitar o ensino de coisas complicadas. Os alunos que vi agora mesmo na televisão se acabavam de rir com as estripulias do mestre.

 

Não sei como tudo começou, nem quando, mas faz muito tempo. Nas escolas e cursinhos que preparam o estudante para entrar na universidade, a credencial de animador de auditório é o requisito mais valorizado no professor. Parece existir algum decreto que instituiu tacitamente a Pedagogia da Papagaiada. Bom professor, idolatrado por mocinhas e mocinhos, é o comediante.

 

Estrelas nesse show de patetice disfarçado de educação, os mestres na arte de ensinar aparecem em outdoors pela cidade. A pose de superstar lembra os anúncios dos grandes nomes da sofrência. No lugar da qualidade pedagógica, os cursinhos vendem a estampa pessoal de seu desinibido time de engraçadinhos. Ao ver a publicidade, dá pra imaginar a seriedade da coisa.

 

Na sala de aula, as piores expectativas se confirmam. Alguns repassam as lições dedilhando violão e cantarolando trocadilhos imbecis. Outros, ainda mais ousados, se apresentam fantasiados de personagens de filmes produzidos para desmiolados. E existem ainda os que levam para o picadeiro, quer dizer, a sala de aula, episódios e experiências de suas intimidades. É o auge.  

 

E os estudantes? Aprovam tudo. Reconhecem nesses charlatões escolares verdadeiros gênios do conhecimento universal. Repetidores de fórmulas, dicas e macetes, esses dublês de professores são tomados até por gurus por uma juventude que celebra qualquer mediocridade. E pagam caro por isso. Porque nessas escolas estão os filhinhos da nossa elite mais endinheirada. Veja o nível.

 

Volto ao jornalismo. A imprensa adora o professor de macaquices. Muito especialmente na TV, a coisa atropela todos os limites em nome da cretinice. Afinal, como sabem os repórteres de televisão em Alagoas, uma boa matéria precisa de um fecho humorístico. O repórter engraçadinho é visto como exemplo a ser seguido. Quando o assunto é uma aula para o Enem, a insanidade está completa.

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Direita e esquerda contra a liberdade

1. Ainda sobre a histeria decorrente daquela controvérsia envolvendo arte e sexo,

Caetano Veloso aparece na TV e na internet indignado com a intolerância. Agora ele defende a liberdade. Até um dia desses, o baiano queria censurar biografias não autorizadas.

 

2. Em seu engajamento pela liberdade de expressão, Caetano tem a seu lado um monte de artistas amigos e Paula Lavigne. Esta senhora também foi uma das vozes mais alucinadas contra biografias que não tivessem a aprovação do biografado. Virou amante do pensamento livre.

 

3. Os artistas da grife Caetano & Cia. anunciam que vão processar todos aqueles que acusaram exposições de arte de promover pedofilia e outras infâmias. Dizem que houve difamação nas redes sociais. Mas, pera aí, e onde fica o respeito à liberdade de expressão? Vale só pra minha turma?

 

4. Os arautos dessa repentina onda de liberdade estão no campo da esquerda. A mesma esquerda que tentou banir o filme O Jardim das Aflições, sobre o filósofo Olavo de Carvalho – aliás, um ótimo documentário. A alegação estúpida: é um filme de direita que alimenta a intolerância.

 

5. É a mesma esquerda que, em nome do politicamente correto, defende a censura a livros que supostamente agridem grupos sociais. O grande Monteiro Lobato é apenas um exemplo da sanha justiceira e analfabeta. E Nelson Rodrigues é boicotado nos cursos de Letras. Um reacionário.

 

6. Vamos falar sério. A causa da liberdade não tem uma história muito bonita nos movimento de esquerda ao longo da história. Pela defesa dos princípios revolucionários, em qualquer tempo e lugar, o pensamento dissidente teve como destino o desterro ou a eliminação sumária. Está nos livros.

 

7. No debate sobre arte supostamente ofensiva aos bons costumes, vamos combinar: pastores, padres, crentes e coroinhas não podem ser levados a sério. Operam suas ideias no campo do fanatismo, com manifestações de acordo com a filosofia resumida na fé cega e na faca amolada.

 

8. De longe, a exposição de Porto Alegre e o homem nu em São Paulo estão mais para oba-oba exibicionista do que para grande arte. Baboseiras como essas, planejadas exclusivamente para chocar, são tão comuns quanto entediantes. Mas arte ruim não é crime previsto no Código Penal.

 

9. Contra a arte ruim e o artista medíocre, ainda que incomodem até doer, não cabe medida de censura ou de agressão. Estou falando o óbvio. Mas, se há ruindade evidente, você tem o direito sagrado de criticar. A depender do seu estilo, pode até mesmo esculhambar. Isso é liberdade. 

 

10. No Brasil, regimes e governos censuraram e perseguiram poetas, dramaturgos, cineastas, pintores, músicos e pensadores em geral. Há casos hediondos, à direita e à esquerda. Por isso, liberdade sempre, sem concessões à militância dos fanáticos, sejam eles de um lado ou de outro.

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A novidade, a velharia e o seu voto

Cansado da velha política, o brasileiro procura a novidade e a renovação a qualquer custo. É o que dizem por aí, a cada vez que olhamos para o lado ou dobramos a próxima esquina. Parece que todo mundo concorda com essa avaliação – só falta combinar com os russos.

 

Se isso é verdade, se o eleitor mata e morre pelo novo, como explicar o resultado na eleição fora de hora para governador do Amazonas? O eleito foi Amazonino Mendes, mais antigo que a floresta amazônica. Nada mais pré-histórico na selvageria da esfera pública.

 

Aliás, o adversário derrotado por Amazonino foi Eduardo Braga, outro exemplar do que há de mais representativo no museu de bestialidades da política. Como se vê, o eleitorado da região Norte não está para brincadeira. Mas não é um caso único. Longe disso.

 

No ano passado, a avançada população paulistana também decidiu que era o momento de banir a velharia do jogo. E para isso elegeu no primeiro turno a melhor coisa que poderia encontrar como exemplo de jovem guarda: João Dória Jr.

 

Com menos de um ano de mandato, o prefeito viajante de São Paulo já envelheceu. Pesquisa Datafolha publicada neste domingo mostra que sua rejeição é cada vez maior. Dória culpa a herança maldita, provando o quanto é um político diferente.

 

São Paulo é um laboratório para se estudar o fenômeno jovem e a obsessão pela juventude. Em 2012, elegeu para prefeito o mauricinho ativista das ciclofaixas Fernando Haddad. Quatro anos depois, a novidade perdeu para Dória – e o resultado se deu, repito, no primeiro turno.

 

Nada mudou e hoje mais do que nunca procuramos uma cara nova pelos quatro cantos do país. No panorama conhecido, as opções se apresentam assustadoras. Pelo comportamento recente do eleitorado, a renovação é tão perigosa quanto o pior da idade medieval. 

 

Pensando bem, além do sucesso incontestável das novinhas – em outro departamento, é verdade –, nenhuma alternativa de candidato parece saudável a ponto de merecer nosso voto de confiança. 2018 tem tudo para eleger novos aventureiros e reafirmar os piores retrocessos.

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Drama e exagero na crise de prefeituras

Vocês certamente viram, no noticiário dos últimos dias, que as prefeituras alagoanas decretaram a crise do fim do mundo em suas finanças. Para tentar soluções, diante de um cenário pintado em cores dramáticas, houve até uma reunião de emergência na sexta-feira (06/10). Mas, além da gritaria geral, do encontro não se soube de nenhuma medida capaz de amenizar o caos.

 

Não quero aqui subestimar a dimensão do buraco nas contas municipais, mas alguns aspectos no conjunto de informações sobre o caso provocam certa estranheza. O primeiro ponto é a recorrência desse tipo de manifestação. Deve ser a quadragésima oitava vez nos últimos tempos que prefeitos se esforçam em bloco para pedir socorro pela quebradeira generalizada.

 

Pense em quantas vezes você já ouviu falar em mais uma Marcha até Brasília – ocasiões em que gestores de todo o país invadem a capital federal para pressionar por mais recursos. Não precisa pensar muito. Tem todo ano. Em cada romaria, o governo federal dá um jeitinho de contemplar os cofres das cidades com repasses, facilidades tributárias e anistia para débitos. E a coisa só piora.

 

Outra variável preocupante é o histórico de muitos prefeitos quando o assunto é probidade e respeito ao patrimônio público. Lamentavelmente, a fotografia, nesse delicado quesito, não é das mais elegantes. A relação de nomes com várias acusações de desvios, e muitos até condenados, é bastante considerável. Tomara que isso não seja fator determinante no baque atual.

 

Agora vou falar de outro aspecto que me parece particularmente crucial na crise das prefeituras. Você pode achar que é irrelevante, mas eu garanto que não é. Vou especular sobre o discurso dos prefeitos, em especial sobre uma única palavra. Porque a escolha das palavras para dizer o que pensamos revela surpresas inimagináveis e esconde mistérios invioláveis. Tentarei ser objetivo.

 

Na reunião mencionada, quem falou em nome dos gestores foi o presidente da Associação dos Municípios Alagoanos, Hugo Wanderley, prefeito de Cacimbinhas. Depois de expor os dados que explicariam o tamanho do problema, resolveu que precisava ser bem convincente. E o que disse ele, além do que sempre dizem políticos em ocasiões semelhantes quando querem dramatizar?

 

Para que ninguém tenha dúvidas quanto à necessidade urgentíssima de salvar as prefeituras, Hugo Wanderley profetizou nada menos que a iminência do “holocausto” nas cidades do interior de Alagoas. É inédito. Jamais soube de apelo retórico que tenha chegado nem perto disso. Suspeito que o empenho desmedido na busca de ajuda imediata traiu o homem público.

 

Para um obcecado pelas palavras, esse holocausto como que faz toda a crise das prefeituras evaporar. É desproporcional. É incabível. É racionalmente inaplicável como quer o prefeito. Não importam as alegações, estamos diante de um deslocamento de sentido inaceitável. O descomunal exagero produz efeito contrário ao que se pretendia na origem de todo o drama.

 

Hugo Wanderley é de família abastada. Pelo que sei, tem formação sólida o suficiente para conhecer a história, o significado e o alcance do holocausto. Sendo assim, sua escolha de vocabulário para justificar o que pretende obter fica ainda mais errada. Crise? Certamente sim. Mas nada que se afaste dos velhos padrões da política. Encenar terra arrasada também é um método.

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O jornalismo e o Dia do Sorvete

Chego à redação para mais um dia de trabalho. Minutos depois, começa a imprevisível reunião de pauta, o momento em que nós jornalistas vamos praticar o delirante exercício de hierarquizar o mundo ao nosso seu redor, ou seja, pretendemos nessa hora – vejam bem – definir o que é e o que não é notícia. No apressado desfile de ideias, que vai da excitação ao absurdo, e vice-versa, a ameaça do fracasso nos assombra.

 

Nas incontáveis reuniões de pauta que coordenei ao longo da vida profissional, nenhum veredito era mais recorrente do que o anúncio de um terrível dilema entre meus colegas: o dia está fraco, sem assunto digno de virar uma reportagem. E agora? Confrontado com esse desconcertante diagnóstico sobre o panorama da vida, um velho espanto me tranquilizava: falta de assunto é ficção científica.

 

Como costuma ocorrer com frequência, em vários momentos de nosso dia a dia, seja qual for sua atividade, lamentar a suposta inexistência de algo que vale nossas melhores apostas é dobrar-se à sedução de um falso dilema. No caso do jornalismo, conformar-se à equivocada convicção de que não está acontecendo nada é abrir as portas para as piores pautas do mundo. Um perigo mortal.

 

Falando assim, pode parecer fácil desmontar o erro de avaliação, mas acredite: agora mesmo, no laboratório de redações, dos jornais à TV, do rádio à internet, a angústia de procurar em vão por um tema arrasa o espírito do jornalista e o arremessa ao mais profundo desalento. De novo, o aparente vazio de matéria-prima com potencial de virar notícia fertiliza o solo para o florescimento de insanidades.

 

Pressionados pelos prazos que avançam implacavelmente, e pelos espaços a preencher com novas histórias, nossa irritação envenena o ambiente – e o clima de desespero anuncia que chegou a hora de apelar a qualquer resquício de salvação. Começam as sugestões que variam entre a repetição de assuntos enfadonhos e as bizarrices do tipo que tal uma reportagem sobre o dia do sorvete?

 

Chegamos à melancolia. O grande público, que nada contribuiu para essa aterrorizante crise de talento e de criatividade, será alvejado pela irrelevância mais tacanha. Reportagem para celebrar o Dia do Sorvete, um marco no calendário do país que eu ignorava até hoje, apareceu recentemente na TV alagoana. É só um exemplo num oceano de atrocidades veiculadas cotidianamente como se fossem o exercício do mais puro e legítimo jornalismo.

 

Mas é o oposto. É a tradução de miséria intelectual, critérios obtusos de escolha, preguiça profissional e nenhum compromisso com a realidade. Entre várias explicações para esse estado de indigência mental, chamo atenção para uma muito peculiar, e que é marca registrada numa imprensa resumida ao diversionismo mais despudorado. Refiro-me ao medo geral de mexer em pautas belicosas.

 

Lançar mão de temas imprestáveis, sem constrangimento pelo ridículo, é confortável para jornalistas que evitam o conflito e se amarram numa conciliação ampla com setores poderosos e influentes, de qualquer segmento da vida pública. É melhor fugir da denúncia, da investigação e do confronto, seja lá com que for. Do futebol à política, tudo é superficial, festivo e bajulatório. Tudo em harmonia, todo mundo sai ganhando. 

 

Então é o seguinte: ao contrário do que se ouve nas reuniões de pauta, tudo pode acabar nessa vida, é verdade, mas assunto para uma reportagem, isso nunca. Mais ou menos como escreveu um poeta certa vez, mal acordamos, os acontecimentos e perplexidades saltam sobre nós – com uma frequência alucinante e enigmas desafiadores.

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A Globo, a Record e o prefeito Crivella

As grandes batalhas entre veículos de imprensa em defesa de causas políticas antagônicas formam um capítulo fascinante na história brasileira. A literatura é vasta e tudo começa mesmo nos primórdios do que se pode considerar, com as devidas ressalvas, a presença do jornalismo entre nós, a partir do século 19. Até 1808, como se sabe, a imprensa era proibida pela Coroa portuguesa.

 

Mas essa é uma história caudalosa. Agora vamos falar apenas de pequenas batalhas em nome de causas igualmente menores. No país conflagrado entre esquerda e direita, conservadores e liberais, reacionários e libertários, eis que a Rede Globo e a Record TV apresentam armas para atacar e defender o prefeito do Rio, Marcelo Bezerra Crivella.

 

O prefeito vetou na capital fluminense aquela mesma exposição que gerou a idiota polêmica a partir de Porto Alegre. Os argumentos do bispo licenciado da Igreja Universal são os mesmos dos que forçaram o cancelamento da exposição na capital gaúcha. Ele alega que as obras ofendem os valores da família, com exaltação da pedofilia e agressão a símbolos religiosos.

 

A decisão do prefeito rendeu cobertura nos telejornais da Globo e da Record – com abordagens absolutamente opostas. A primeira ressaltou o caráter autoritário e discriminatório na postura do político que chefia a cidade. Claro que não houve um ataque direto no texto dos repórteres. É preciso sutileza nessas horas. As duras críticas apareceram nos personagens escolhidos para falar.

 

Do outro lado, a reação veio com a fala do povo. Nas ruas, foi fácil para a Record encontrar depoimentos de apoio à decisão oficial. As famílias cariocas não querem desrespeito a seus filhos e consideram que pornografia não é arte. Além disso, a prefeitura se apoia em pesquisa que atesta o repúdio da população ao evento artístico. Nenhuma referência a qualquer tipo de censura.

 

As duas redes já travaram brigas mais sanguinolentas, num clima de guerra que se instalou há cerca de vinte anos. A emissora de Edir Macedo exibiu recentemente um verdadeiro documentário para acusar a Globo numa operação de sonegação fiscal. Nessas ocasiões, quem dá voz aos ataques são as maiores estrelas do jornalismo nas duas casas. 

 

Para além das motivações do atual confronto, Crivella é apenas um político medíocre no meio do tiroteio. O velho ódio reaparece, de parte a parte, mas o que está em jogo é o que sempre esteve. Naturalmente, você deve saber que ninguém é santo nesse altar de interesses particulares. As duas emissoras se equivalem na manipulação das informações e na distorção dos fatos.

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Censura na internet não passará

No fim do texto anterior, publicado pouco antes de uma hora da manhã desta sexta-feira, fiz uma previsão de alcance nacional – e isso se confirmou por volta de meio-dia. (Confira no post abaixo). Escrevi que o presidente Michel Temer provavelmente vetaria o artigo da reforma política que, na prática, instituía a censura prévia na internet. É o que vai acontecer.

 

Não quero me gabar. Era fácil prever a reação de Brasília. Na situação política em que se encontra, claudicante, Temer não resistiria à pressão universal para derrubar a perigosa ideia encaixada por contrabando na reforma. A grande imprensa foi pra cima dele. Em nota oficial, a Secretaria de Comunicação da Presidência informa a posição do Palácio do Planalto.

 

Claro que não poderia faltar um detalhe humorístico. Segundo a nota, o próprio autor da emenda, deputado federal Áureo (Solidariedade-RJ), pediu ao presidente que vetasse a iniciativa. O parlamentar diz agora que sua intenção foi “mal interpretada”. Segundo ele, o objetivo exclusivo era impedir o uso de perfis falsos nas redes sociais durante a campanha eleitoral.  

 

Melhor assim. Afinal, embora a Constituição assegure com clareza a livre expressão do pensamento, todo santo dia autoridades do Judiciário decidem barrar a publicação de alguma notícia, em algum veículo de comunicação do país. Proibido na forma da lei, na vida real o recurso da mordaça se impõe sobre inúmeros jornalistas pelo Brasil afora.

 

Se poderosos conseguem caçar o nosso direito à informação, atropelando princípios constitucionais, imaginem o que não fariam com a força de uma nova regra autorizando o vale-tudo. Decidiriam pelo banimento do jornalismo.

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