Procuradores querem decidir o seu voto

Voltei. Como vocês sabem, procuradores do Ministério Público Federal deram uma entrevista coletiva nesta segunda-feira para falar sobre combate à corrupção. O encontro reuniu integrantes do MPF do Rio, São Paulo e Curitiba. Na verdade, a patota, mais uma vez, protagonizou um espetáculo de proselitismo político e evidente autoritarismo. Os rapazes e mocinhas da Procuradoria da República pretendem decidir por nós quem devemos eleger no ano que vem.

 

Deltan Dallagnol, sempre ele, o procurador descrito em site de negócios como um profissional “de bochechas rosadas e perfil longilíneo”, foi claro: “2018 será a batalha final da Lava Jato porque as eleições determinarão o futuro da luta contra a corrupção em nosso país”. A afirmação é uma falácia, uma dessas cretinices formuladas com ares solenes para emplacar uma ideia demagógica.

 

Nunca soube que estivesse entre as prerrogativas do MPF decidir em quem o brasileiro deve eleger para mandatos políticos, no Congresso e no Poder Executivo. Aliás, o papel do MP vem sendo reescrito por esse bando de deslumbrados, um pessoal que está no topo da pirâmide, com salários, privilégios e mordomias inimagináveis para a multidão de cidadãos comuns.

 

É necessário renovar a política, diz a tropa da Lava Jato, como se o país dependesse de togados para nos ensinar alguma coisa. A entrevista coletiva de agora não tem um motivo concreto, nada sobre os casos em investigação. É que a cada temporada a turminha inventa alguma marmota como pretexto para fazer política, como ocorre desde que começou a onda dessas operações.

 

O combate à corrupção virou a expressão mágica para justificar todos os abusos cometidos pelo MPF, com o braço armado da Polícia Federal. Como já escrevi aqui, autoridades não têm licença para infringir a lei em nome de qualquer investigação. Isso é coisa típica de regimes autoritários. Mas, como mostram os fatos, esse é o método cada vez mais adotado pelo Ministério Público.

 

Dallagnol, Carlos Fernando e assemelhados devem estar tristes com a decisão de Luciano Huck. Com a desistência do animador de auditório – a lata velha com maquiagem – de disputar a eleição presidencial, perderam uma alternativa de incrível renovação. Mas eles não desistem. A essa altura devem estar avaliando opções. Enquanto isso, já estão de olho no próximo holofote.

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Cadeia neles! E o voto em 2018

Prenderam mais um político. E daqui a pouco será outro. Ontem, hoje, na semana passada – “quase todo dia” é o exagero que parece lógico diante da frequência de casos noticiados pela imprensa. Um prefeito do interior de Alagoas é preso. Um deputado do Rio de Janeiro também vai para a cadeia. E um ex-ministro já está no xilindró há vários meses. Não sabemos, na verdade, quantos políticos foram parar nos presídios nos últimos anos. Como tudo tem um começo, a atual onda de encarceramento não surgiu do nada. Os anos 1990 registram as primeiras vítimas de uma tendência.

 

Uma tendência que se consolidou historicamente, ainda que a sensação de impunidade permaneça como um traço da chamada opinião pública. A imprensa tem papel decisivo nesse fenômeno. São incontáveis os casos de corrupção que resultaram em processos na Justiça após a publicação de informações explosivas por algum veículo. Especulo que, nos últimos 25 anos, reportagens exclusivas revelaram, como jamais ocorrera, um número estratosférico de esquemas de roubalheira espalhados pelo país inteiro. Todas as esferas da vida pública foram alvo. Mas o mundo da política é bombardeado sem trégua.

 

A repetição das notícias pode gerar, entre outros efeitos, um cansaço diante do tema, um desinteresse frente ao que vai se tornando uma banalidade. Todos aplaudimos a prisão do político corrupto, é claro, mas talvez a normalidade do que deveria ser excepcional indique a necessidade de seguir adiante. Prender, somente, não resolve a crise. Nos últimos tempos, a relação direta entre combate à corrupção e vida política em transe ganhou dimensões extraordinárias – mas não inéditas. Foi assim também no suicídio de Getúlio Vargas e no golpe de 1964.

 

A julgar pela quantidade de denúncias com investigação em andamento, as más notícias continuarão chegando à rotina de autoridades no Legislativo e no Executivo. Além do mais, outras prisões vão ocorrer a cada nova operação a ser desencadeada pela Polícia Federal. Pode-se até afirmar que estamos condenados ao exercício permanente de um direito inegociável: o direito à vingança como resposta ao político que prospera pela rapinagem. Para constatar o tamanho, digamos assim, dessa variável, é certo: prender ou não prender – eis uma equação crucial em 2018.

 

Até lá, a velha gritaria contra a corrupção vai se manter nas manchetes e no bate-boca das esquinas. Como antigamente. Até o último corrupto no poder cair numa cela, não faço ideia de quanto tempo será necessário para uma mudança de patamar nos salões (e subsolos) da política. Teje preso, escreviam os jornais do passado ao narrar um acontecimento da crônica policial. A voz de prisão se espalhou. É uma política de Estado. Por isso, todos os virtuais candidatos a presidente no ano que vem homenageiam (ou bajulam) os feitos da Lava Jato. Criticar é suicídio.

 

O voto em 2018 refletirá o peso dessa ideia dominante. Denúncias. Prisões. Delações. É por aí que circulam os interesses e as atenções do imprevisível eleitorado brasileiro. Cadeia nele! Por enquanto é o que se vê no horizonte nevoento.

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Globo, futebol e propina

As suspeitas sobre a TV Globo num esquema com a Fifa, envolvendo os direitos de transmissão de jogos de Copa do Mundo e outros campeonatos, estão na pauta há muitos anos. Já renderam alguns livros. Mas nunca houve o que se vê agora, com as revelações do delator argentino que conta em detalhes o pagamento de propina a dirigentes de futebol por grandes redes de TV, como a Fox, a Televisa e a emissora brasileira. A história é uma gigantesca sucessão de jogadas, algo de uma dimensão que jamais foi esmiuçado pela imprensa nacional.

 

Outro aspecto que chama atenção no esquema é a ausência de investigação pra valer sobre tudo isso no Brasil. Polícia Federal e Ministério Público Federal passaram longe dos escândalos do casamento entre futebol, política e o grupo Globo. A cobertura do caso, nos grandes veículos, segue por enquanto sem o amplo destaque dedicado a denúncias menos graves. É um bom momento para se observar métodos e estilos na produção do jornalismo que temos. Tudo isso às vésperas de mais uma Copa, desta vez na Rússia, que vai ocorrer sob o signo da desconfiança.

 

O caso Globo/Fifa poderia ganhar informações secundárias – mas elucidativas das práticas de gestão nesse balaio – se fossem investigados acordos e contratos entre filiadas da Globo e federações estaduais. Nada se sabe acerca desse negócio, em cada estado do país, com a emissora dos Marinho metida até o pescoço na oficialização das parcerias. Aqui mesmo em Alagoas, os direitos de transmissão do campeonato estadual foram alvo de uma guerra suja entre a TV Gazeta e a TV Pajuçara (Record TV). Os gravíssimos lances desse embate ficaram nos bastidores.

 

(Depois de uma pausa involuntária, o blog volta com atualização diária).

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Palavras soltas

A ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, queria 62 mil reais de salário para sobreviver. No cargo ela recebe apenas a metade desse valor, que é o teto constitucional no serviço público. A ministra chegou a alegar sua condição próxima do trabalho escravo para pleitear o reajuste de cem por cento. Diante da repercussão, desistiu da causa monetária pessoal.

 

O teto salarial é ultrapassado em diversas esferas da vida pública. E ao que parece o problema se dá em escala muito mais alta no Judiciário e no Ministério Público. A ironia é que o drible na lei se concretiza por meio de dispositivos legais. É o que alegam juízes, desembargadores e procuradores quando têm de justificar pagamentos de 500 mil reais num único mês.  

 

Entre um inquérito e outro, ministro do STF e procurador da República distribuem palpites sobre casos sob investigação e opinam sobre os rumos de uma telenovela. São adultos. São autoridades que podem tomar decisões de consequências graves na vida de pessoas. São levadas a sério. Querem até salvar a política com suas próprias candidaturas.

 

Essas palavras soltas não amarram propriamente um tema. É um breve recado depois de três dias ausente. Muita coisa aconteceu pelo mundo, sem dúvida. Nada mais importante, porém, do que a Fátima Bernardes namorando. Ainda não decidi se isso é uma pauta obrigatória. Volto daqui a pouco.

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A maldição da política em sua vida

Ideologia – quem precisa de uma para viver? Trinta anos depois de Cazuza cantar as ilusões perdidas e os sonhos vendidos, parece que todo mundo finalmente encontrou uma causa para defender. E a julgar pela zoada ensurdecedora, o engajamento atual em nome do que se acredita é capaz de tudo – até de enterrar amizades que pareciam eternas. Para quem está do outro lado, tolerância zero.

 

Nos tempos da canção de Cazuza, a reta final da década de 80, o país caminhava sem rumo sob o governo Sarney desmoralizado. Nenhum projeto despertava confiança. Nada mobilizava ninguém. Não havia alternativas capazes de transformação para superar a tragédia social que definia a realidade dos brasileiros. Os versos do poeta do rock, quase simplórios, resumem o abismo.  

 

Era a ressaca da pós-ditadura militar. Nos vinte anos anteriores, a falta de liberdade e a perseguição política alimentaram a resistência e turbinaram, nos ambientes intelectuais e da arte, o saudosismo pela velha ideia – tão cara – de uma utopia. Tudo isso havia acabado. Era mais ou menos o que registrava o desencantado roqueiro, numa espécie de engajamento pelo avesso, quase niilista.

 

Hoje, as palavras de ordem retornaram. A convocação à luta contra o fascismo é um imperativo existencial. Na sala de aula ou na balada, ninguém deseja um bom dia sem antes cobrar nossa assinatura em alguma petição de protesto. Há sempre um famigerado reacionário prestes a mais uma barbaridade – e você não pode ficar aí parado, na sua omissão horripilante.

 

É impossível encontrar um espaço de convivência livre dos debates acirrados sobre todas as coisas que existem no mundo. E isso inclui um atirador numa escola, Nicolás Maduro, a Síria, cultura do estupro e a próstata de Michel Temer. E inclui também todos os temas que você conseguir lembrar. Lamentar esses tempos sombrios virou uma senha de acesso a uma nova dimensão.

 

Não é necessário esperar pela ocasião mais adequada para expor ideias e protestar. Nas universidades, nos coletivos de cinema, nas redações ou nos salões da moda para barbudos, aderir ao discurso militante – à esquerda, à direita ou de cabeça pra baixo – é tão comum quanto fazer uma tatuagem. Aliás, em muitos casos, suspeito que as duas atitudes até se equivalem.

 

Não tente pular fora da raia com essa conversinha de isenção. Ninguém é apolítico. Existe até uma ofensa já consagrada, em tom de piada, para esses casos repulsivos de dissimulação: quem posa de equilibrado são os “isentões”, elementos que na verdade estão escondendo as piores preferências no meio da guerra. Essa postura pode ser mais grave do que cometer um crime na vida real.

 

Tal como se dá entre nós hoje em dia, a fixação na política envenena a cabeça e a alma. É um erro fatal. Nem todas as causas são ideológicas. Aliás, a essência da vida passa longe dessa maldição – uma maldição, sim, que, sendo onipresente, parece a única paisagem diante de nossos olhos. Mas é um delírio. E seja qual for sua ideologia delirante, acredite: os inimigos sempre estarão no poder.

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A violência que desafia o Estado

A redução nos índices de violência foi uma das promessas do então candidato a governador Renan Filho na campanha eleitoral de 2014. Vitorioso na disputa, ele chega à reta final do terceiro ano de mandato com poucos resultados a comemorar nessa área. É verdade que o índice de homicídios caiu em Maceió, mas cresceu nas demais regiões do estado.

 

É o que mostram os novos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados nesta segunda-feira. É claro que não se pode exigir do atual governo o milagre de resolver uma calamidade construída ao longo de duas décadas. A criminalidade encontrou solo fértil para o crescimento descontrolado durante as gestões de Ronaldo Lessa e Teotonio Vilela Filho.

 

Mas não adianta jogar a culpa no passado e minimizar os números dramáticos que estão aí. O governo alega ter feito os investimentos necessários em segurança – o que não parece o suficiente para enfrentar um problema desse tamanho. Onde estariam, então, as soluções para se obter resultados de fato significativos? Não sei. Pelo visto, as autoridades também não sabem.

 

Na política de segurança, um erro fatal continua sendo cometido com afinco. Refiro-me ao discurso do “prendo e arrebento”, tão ao gosto da demagogia populista que embala políticos e gestores da área. É uma atitude que vende facilidades e tenta enganar a sociedade na base do voluntarismo, com ações puramente publicitárias. Rende fotos e imagens para TV. E só.

 

De uma coisa temos certeza. No ano que vem o tema estará no centro de mais uma campanha eleitoral. E isso quer dizer que seremos alvo, de novo, das piores mistificações acerca de um grave problema que requer seriedade e iniciativas avançadas. Tem sido assim desde os tempos em que o criminoso mais perigoso era o famoso ladrão de galinha.

 

Com promessas mirabolantes e ideias que repetem as sandices de um coronel Amaral da vida, Alagoas não vai longe no enfrentamento dos altos índices de assassinato. A violência segue desafiando o poder público, que continua falhando na missão de garantir um cotidiano de paz para os alagoanos. Menos espetáculo e mais inteligência. Uma saudável receita começa por aí.

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Agências e Tribunais de Contas afrontam a lei e abusam do cidadão

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Na engrenagem da burocracia pública, os órgãos de fiscalização formam um capítulo especial no hospício chamado Brasil. São agências reguladoras, tribunais de contas e conselhos de todo tipo. Foram criados para acompanhar, orientar e, principalmente, fiscalizar a lisura dos atos administrativos nas diferentes áreas de gestão pública e privada. Tudo isso na teoria.

 

Na prática, a atuação desses órgãos fiscalizadores tem se mostrado, com frequência, um desastre. E não é de hoje. Nos casos de corrupção envolvendo grandes empresas, é comum vermos, por exemplo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aparecer como suspeito de fraudes em processos que são julgados pelos conselheiros. Os bandoleiros irmãos Batista são a prova disso.

 

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) virou piada faz tempo. Ao invés de combater abusos das companhias aéreas, e de zelar pelo cumprimento de medidas de segurança nos voos, geralmente trabalha como sócia das gigantes do setor, fechando os olhos para crimes a três por quatro. Basta lembrar que em todos os acidentes que resultaram em tragédias, a Anac foi flagrada descumprindo, ela própria, regras básicas.

 

As agências reguladoras de saúde e de telecomunicações, para citar dois setores que azucrinam o nosso cotidiano, seguem à risca o padrão degenerado de desempenho. Operam mais para ajudar os potentados da economia do que em defesa do cidadão. Na saúde, laboratórios e planos de saúde incorrem em crimes com uma compulsão assustadora. E nada acontece.

 

Na telefonia, a mesma safadeza corre em ritmo frenético, sem que as multinacionais sejam incomodas pela entidade fiscalizadora. As regras de mercado são ignoradas por fusões fraudulentas, que burlam a lei que impede monopólio e concorrência desleal. Já o coitado do consumidor, então, vive sob um cerco de arbitrariedades nos seus direitos elementares.

 

E temos o caso dos Tribunais de Contas. Aí, meu amigo, a pilantragem com os verbos fiscalizar e punir atinge o status de arte. Além de descumprir, com determinação, suas obrigações incontornáveis, esses laboratórios de ações suspeitas e ilegalidades escancaradas estão inundados por fraudes até o pescoço. São tantos os escândalos que merecem um estudo acadêmico.

 

Por que um país convive tranquilamente com essa antologia de aberrações? A formação desses órgãos explica quase tudo. Quem integra uma agência ou um TC? É aí que estão a origem e a essência do descalabro. São nomeados para essas entidades os políticos em busca de salários milionários e mordomias vitalícias. Os critérios de nomeação são o compadrio e a cumplicidade.

 

É mais ou menos assim: uma quadrilha tem poder para escolher aqueles que vão fiscalizar suas ações. Exercendo plenamente tal prerrogativa, os quadrilheiros escolhem para fiscal precisamente um de seus comparsas. Fica tudo em casa. Fica todo mundo seguro. Sai todo mundo no lucro. O prejuízo, naturalmente, sobra para o resto da população. Nossas esferas de fiscalização funcionam exatamente assim.

 

Quando um novo escândalo tira da sombra essa estrutura viciada e criminosa, o barulho é forte e algumas vozes se levantam para apontar o mal de origem. Mas logo depois as coisas se acalmam e tudo segue como antes. Interesses espúrios no meio político e a muralha do corporativismo se juntam na defesa de uma anomalia que agride, em tempo integral, a vida dos brasileiros.

 

O que fazer? A solução é tão simples quanto – ao que parece – impossível: esses órgãos teriam de ser dissolvidos. E começar tudo do zero. Não vai acontecer, é claro. Para uma tarefa nessas dimensões, falta um requisito obrigatório na praça: a coragem de combater o que precisa ser combatido. Ao contrário, a leniência e a covardia estão por todos os lados.

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Entre Lula e Bolsonaro

E como tudo passa pelas eleições de 2018, aí está o novo Ibope trazendo números que, mais uma vez, deixam analistas perdidos diante do que para muitos não há explicação. O levantamento confirma o ex-presidente Lula como favorito na corrida pelo Palácio do Planalto. Como isso é possível? Por que uma população escolhe um condenado por corrupção como alternativa para governar o país?

 

A pesquisa revela que Lula tem 35% da preferência do eleitorado. Em segundo lugar, aparece o deputado Jair Bolsonaro – o candidato abominável sob todos os critérios – com 13% das intenções de voto. Atrás deles estão Marina Silva, tucanos, Huck e Ciro Gomes, aquele coronel cearense que tenta em vão vender a imagem de moderno, mas não consegue se livrar de sua truculência provinciana.

  

É um drama inédito na história nacional. O candidato que lidera nas pesquisas, ou seja, que tem a confiança de mais de um terço dos eleitores, não sabe se vai mesmo concorrer. A resposta está nas mãos do Judiciário. Condenado pelo juiz Sergio Moro, Lula aguarda o julgamento de recurso em segunda instância. Caso seja derrotado, fica impedido de disputar a eleição.

 

No caso de condenação pelo Tribunal Regional Federal, Lula pode até ser preso – e isso será decidido a poucos meses da eleição. É um cenário cujo ineditismo pode produzir situações imprevisíveis. Independentemente de nossas posições, fato é que, dos arautos da Lava Jato aos seus maiores inimigos na política, ninguém contava com a incrível resistência da popularidade de Lula.

 

Caso possa concorrer, pelos dados de agora no Ibope Lula faria um segundo turno com Bolsonaro. Então os brasileiros estariam diante dessa escolha elementar. O que lhe parece mais confiável? Já pensou o Brasil governado pelas ideias de um elemento que prega o que há de mais atrasado e obscuro nesse mundo? Esse é o tal Bolsomito, como é chamado por sua turma de fanáticos.

 

Decididamente, não vejo como dispensar alguma simpatia a alguém que estimula todo tipo de preconceito e intolerância – além de argumentar mais pelo cano de um revólver do que pelo pensamento lógico. Bolsonaro é a degradação da vida pública, a personificação dos valores mais perniciosos numa sociedade. Não dá nem para iniciar uma conversa.

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O prefeito com a faca no pescoço

Um dos problemas do Brasil é que vivemos em permanente clima eleitoral. É uma eleição a cada dois anos. E no ano em que não há disputa por voto, como este 2017, o mesmo clima toma conta de tudo a partir do segundo semestre. Ou seja, a expectativa pela eleição do ano seguinte contamina os dias atuais, como se todos fossem às urnas já amanhã.

 

O resultado dessa loucura coletiva no meio político é que gestores passam a agir exclusivamente em função da competição eleitoral – mais de um ano antes da data marcada para as urnas. Vejam o que ocorre com o prefeito de Maceió, Rui Palmeira. O homem está sendo praticamente torturado em praça pública para assumir – agora – a candidatura a governador.

 

O detalhe dramático é que a pressão sobre o prefeito vem dos aliados. Pelo menos em tese. Tem gente dando entrevista todo dia na imprensa, forçando a barra sem limites. Outros, é claro, recorrem às redes sociais e gravam vídeos para fazer a mesma cobrança. É como se fosse uma questão de vida ou morte ter uma decisão de Rui Palmeira, de preferência, para ontem.

 

Com variações de estilo e gradações na ênfase dos apelos, o tom das manifestações tem um padrão. No geral, pode-se dizer que o prefeito é alvo de uma ostensiva chantagem emocional. Virtuais candidatos a cargos no legislativo jogam nas costas de Rui o destino de todo um grupo. Daí porque alguns recorrem a apelos quase desesperados, do tipo “ou decide logo ou partimos pra outra”.

 

Já no governo estadual, que terá Renan Filho em busca da reeleição, a pressão é por reforma no secretariado e mudanças onde for possível mudar. Ou seja, tem-se um frenético carnaval de cadeiras em que a moeda de troca – valiosíssima – são os cargos em todos os escalões. E aí também o governador se torna refém das demandas eleitorais, com uma antecedência absurda.

 

Como já escrevi em texto anterior, penso que Rui Palmeira deveria completar seu mandato na prefeitura, que se encerra em 31 de dezembro de 2020. A disputa pelo governo em 2018 me parece uma aventura com todos os ingredientes para dar errado. Suspeito que o mais racional seria ter um pouco de paciência e esperar 2022 para disputar o comando do Estado.    

 

Mas não será assim, a julgar por tudo o que se fala entre os interessados em ter o prefeito como candidato já em 2018. O certo é que ele está com a faca no pescoço, sendo praticamente obrigado a mergulhar na candidatura a governador. Pode dar certo, sim, mas a perspectiva é de um páreo duríssimo. É uma aposta bem alta – e imprevisível. E o prefeito sabe disso.

 

A situação é tão tensa que, talvez por essa razão, suponho que Rui evite o assunto. Fala o menos possível – e quando não há escapatória. Seja como for, temos aí a máquina estadual e os rumos do município atrelados a uma fixação insana no calendário eleitoral. E tudo isso num ano em que o calendário não prevê eleições. É ou não é uma dessas loucuras tipicamente brasileiras? 

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A morte anunciada da imprensa

Todos os dias alguém decreta a morte da “velha imprensa”. A expressão entre aspas que acabo de usar aparece em debates, mesas redondas, entrevistas e textos de cronistas de variadas cores e tendências. A profecia de morte anunciada, é claro, começou com o surgimento da internet – primeiro com a força dos blogs e, logo em seguida, com a explosão das redes sociais.

 

A vastidão do tema é inquietante. Estamos falando de informação numa era de novidades que o homem jamais imaginou – nem nos filmes e na literatura de ficção científica. Não bastasse a complexidade intrínseca ao assunto, o fator político (ou ideológico) torna uma avaliação sobre o cenário atual praticamente uma guerra de versões. E a velha imprensa virou saco de pancada.

 

Com o turbilhão de contatos e trocas virtuais, instalou-se uma confusão entre conceitos. Coisas distintas são tratadas como se fossem idênticas. Informações isoladas, opinião, militância, engajamento, protesto – isso tudo tem relevância e pode influenciar, hoje em dia, até os rumos de políticas oficiais. Mas jornalismo profissional é outro departamento.

 

No império das falsificações e da pós-verdade, tenta-se subestimar o impacto de uma capa de revista, de uma manchete de jornal ou de uma reportagem na TV. Afinal, quem vai prestar atenção nesse modo obsoleto de noticiar alguma coisa, se tudo está na rede, à disposição de todos, as 24 horas do dia? Eis um raciocínio que reproduz a confusão citada acima.

 

Embora o clima geral seja de irritação com a chamada grande imprensa, se você pensar em qualquer caso de forte repercussão, no Brasil ou no mundo, vai constatar que as revelações mais extraordinárias – os furos de reportagem – vieram dos veículos tradicionais. E isso ocorre porque, entre outras coisas, nesses veículos pratica-se o jornalismo profissional. Como sempre foi.

 

Um fenômeno antigo – que continua firme no universo da informação – parece inexplicável para muita gente, mas tem toda lógica: diante de grandes escândalos ou de tragédias que mobilizam a população em escala incomum, cresce a circulação de jornais e aumenta a audiência dos telejornais. O que explica isso nos dias de hoje? As pessoas buscam a informação confiável.

 

Também na internet é o profissionalismo que garante o jornalismo sério – forte e independente como tem de ser. Produzir notícia tem um custo e requer gente do ramo, treinada e atenta a princípios éticos fundamentais no exercício da profissão. Voluntarismo, falta de rigor e negligência a regras não podem gerar resultado no mesmo nível que se tem na imprensa.

 

Um aspecto para mim bem esquisito é ver jornalistas como que torcendo pela morte da imprensa. Há um discurso generalizado que tenta negar a relevância de uma instituição vital para a vida democrática – seja em que regime de governo for, à direita ou à esquerda. Geralmente é um tipo de postura raivosa, que prega quase que o extermínio de veículos de comunicação.

 

Claro que as disputas políticas contaminam todo esse debate. Quanto a isso, nem adianta argumentar. Mas falo de algo que está além das paixões particulares. O fato de ser jornalista – uma contingência da qual não posso me separar – certamente influencia meu modo de ver o assunto. Seja como for, negar a força da imprensa é loucura.

 

Há bom jornalismo no mundo virtual, sem dúvida, como continua a existir jornalismo de qualidade no papel. Como um dinossauro de passos erráticos, mantenho uma pata em cada suporte: clico em sites, blogs e páginas da internet e, ao mesmo tempo, ainda vou às bancas no centro de Maceió em busca de jornais e revistas. Comigo, aliás, foi assim que tudo começou. Há muito tempo.

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