Gasolina, política e presidente da Petrobras

Depois da greve dos caminhoneiros, cai o presidente da Petrobras. Pedro Parente entregou o cargo na manhã desta sexta-feira, abatido pelo tiroteio decorrente da política de preços dos combustíveis. Ele ficou em situação complicada depois que o país, refém de uma categoria, praticamente parou em alguns setores. Mas o que muda com essa troca de comando na Petrobras? Os valores e os mecanismos de reajuste da gasolina serão outros a partir de agora? Certamente não.

 

Todo mundo pediu a cabeça de Parente, de Ciro Gomes a Jair Bolsonaro, de Guilherme Boulos a Alvaro Dias. E o que essas vozes de destaque na política brasileira argumentavam? Diziam mais ou menos isto: ora, não é possível que a empresa mantenha no cargo esse senhor que provocou todo esse caos, com uma fórmula de gestão que beneficia o mercado e pune os brasileiros. Com essa lógica generalista, quem pediu a demissão de Parente está mais preocupado com eleição.

 

Funcionou. Foi esse tipo de pressão que acabou forçando a troca no comando da empresa. Mas a metodologia na gestão de preços da Petrobras tem tudo para ser mantida. Porque, na verdade, o governo não tem alternativa; não existe mágica para manter lucros e fazer o consumidor pagar bem menos para encher o tanque do carro. Uma guinada pode provocar problemas ainda maiores.

 

Mas política é política. Ainda mais em ano de eleições gerais. Por isso, não se deve levar a sério a gritaria de candidatos contra Pedro Parente e a Petrobras. É quase tudo pilantragem disfarçada de indignação com os preços dos combustíveis. Pilantragem para caçar alguns votinhos na disputa de outubro que vem aí. A mesma lógica, a essa altura, é adotada em qualquer outra área.

 

Os mais celerados pregam congelamento de preços ao consumidor. É incrível. Esse é justamente o caminho mais curto para o desastre de proporções mais perversas. Congelamento só funciona na cabeça de dinossauros que ainda estão por aí na vida pública brasileira. Mais de uma vez na história, experimentamos esse modo de administrar a economia. Os resultados sempre foram trágicos.

 

Portanto, a troca de comando na Petrobras serve apenas para satisfazer a histeria geral, ainda embalada nos bloqueios de estrada e no desabastecimento de produtos essenciais à população. Para o mercado de compra e venda de combustível, pode apostar que não haverá milagre.

 

A primeira reação à queda de Parente, aliás, não é das melhores para a saúde da própria empresa. O temor é que a tentação populista leve a direção a adotar medidas arriscadas – e irresponsáveis. No mais, candidato falando sem parar contra tudo e mais alguma coisa é somente oportunismo.

 

Não existe mágica em economia. Existe a vida real. E matemática.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Jogo rápido no feriado da fé

Candidatos invadem as ruas de São Paulo nesta quinta-feira de feriado. Corpus Christi.

 

Ouço falar em apóstolos... Eles estão no meio do povo. Também estão entre os políticos que pegam carona na Marcha para Jesus.

 

A passeata religiosa virou uma tradição brasileira. Está no calendário do turismo.

 

Tapetes de flores cobrem avenidas.

 

Festa para a família cristã. Adoramos tudo o que é sobrenatural – de santos a orixás.

 

O melhor mesmo é a combinação de orações com pregação eleitoreira. Mãos dadas, olhos fechados, sermões.

 

E olho no voto desse povo iluminado pela fé.

 

O país desce a ladeira, mas todos querem o milagre da redenção.

 

O pecado mora ao lado (do outro). 

 

Somos assim. O Estado é laico, mas a politicalha é ecumênica.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Ódio (e porrada) em cima da imprensa

Jair Bolsonaro e Guilherme Boulos defendem posições antagônicas em política, mas concordam num ponto: a três por quatro eles atiram contra a imprensa. Alexandre Frota e Gregório Duvivier, dois intelectuais em alta no Brasil de hoje, são inimigos mortais sobre todos os assuntos, mas também estão juntinhos na raiva que destilam sobre o famigerado ofício do jornalista profissional.

 

A nova direita que pretende salvar o Brasil odeia o jornalismo. Para os seguidores do movimento, nas redações é tudo um bando de esquerdista que mal disfarça a preferência absoluta pelo PT. O Mídia Ninja e demais coletivos que produzem conteúdo militante (e progressista) desprezam as redações, formadas por um bando de reacionários que reproduzem os valores do neoliberalismo.

 

Na manifestação de coxinhas e nos seminários do MBL, a imprensa não pode entrar. Os repórteres que pretendem acompanhar os eventos certamente vão manipular os discursos e distorcer ideias, tudo para reproduzir preconceitos contra os jovens que não rezam na cartilha revolucionária. Na reunião de blogueiros progressistas, a imprensa é banida, porque nunca retrata a verdade dos fatos.   

 

Nas grandes passeatas, contra e a favor do impeachment de Dilma, sobrou pancada para equipes de reportagem dos mais variados veículos de comunicação. Ninguém suportava mais tanta mentira e manipulação, diziam os revoltados à esquerda e à direita. Protestos de sem-teto ou de policiais militares não têm simpatia nenhuma com jornalistas. O risco de agressão é permanente.

 

Para confirmar esse carinho todo, a greve dos caminhoneiros é o mais recente exemplo de como o brasileiro gosta da imprensa. São inúmeros episódios de hostilidade e até violência física contra profissionais, em diferentes partes do país. Parece haver uma atração fatal entre cidadãos indignados (com qualquer coisa) e um repórter, um fotógrafo, um cinegrafista. Piscou, e lá vem um pontapé.

 

Na Venezuela, Maduro herdou de Hugo Chávez a ojeriza pela imprensa. É o quarto poder a serviço do imperialismo e das forças do mal. Nos Estados Unidos, Trump gostaria de matar boa parte dos jornalistas, que nada fazem a não ser despejar mentiras para jogar a opinião pública contra o presidente americano. Também aqui, os inimigos se abraçam na aversão extrema pelo jornalismo.

 

Mas o meio da rua está longe de ser o único espaço hostil à imprensa. A repulsa a essa atividade também é cultivada, e muito, em ambientes mais sóbrios e até pretensamente requintados, como a universidade, por exemplo. Vá em qualquer debate ou seminário sobre comunicação, e você verá doutores explicando por A + B por que o jornalismo é um mal a ser combatido. O sentimento é geral.

 

Quando estava no primeiro ano do curso de Jornalismo da Ufal (há muito tempo), fui a uma palestra do renomado Muniz Sodré. Ele estava lançando um novo livro e foi à Casa da Comunicação falar para estudantes e profissionais da área. Assim que começou a palestra, o primeiro alvo de suas críticas ao mundo caiu justamente sobre a imprensa. Achei aquilo estranhíssimo.

 

Mas a plateia recebeu o ataque como uma boa piada, uma ironia merecida, e todos reagiram até com gargalhadas. Hoje, aquele episódio se encaixa à perfeição nessa análise pedestre que faço aqui. Professores de jornalismo detestam jornalismo. Vi isso muitas vezes ao longo da minha graduação. Os intelectuais da Ufal não têm o hábito de ler a imprensa. Estão ocupados com suas ideias.

 

Neste espaço critico com frequência escolhas e estilos da nossa imprensa. Porque o que não falta é coisa para criticar. Mas isso jamais será sinônimo de condenação sumária e desprezo pelo papel do jornalismo. Combato essa visão idiota e autoritária. Muito antes de pensar em ser jornalista, fui um leitor fascinado por esse mundo da informação, da notícia, da análise, da divergência, do texto.

 

Imprensa e liberdade são indissociáveis. Sem a primeira, a segunda deixa de existir. Mas parece que isso não passa pela cabeça de quem vive a pregar o extermínio do jornalismo, seja um caminhoneiro ou um PhD em bancas universitárias. A internet turbinou tal sentimento. Há até especialistas por essas bandas que veem mais relevância em memes do que em reportagens.

 

Se, bem ou mal, as democracias triunfaram mundo afora, isso certamente deve ser creditado, em boa medida, ao exercício livre da imprensa. É por isso que todos os regimes autoritários não vacilam em destruir veículos de comunicação e eliminar jornalistas. Agora, atacar voluntariamente esse pilar da civilização é um ato suicida de uma sociedade. É bem a cara de patriotas, à direita e à esquerda.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

O jogo duplo do sindicalista

Em texto publicado aqui no dia 24/05, escrevi que supostas lideranças de caminhoneiros mal conhecem uma boleia de caminhão. Nas imagens da TV, senhores engravatados falam mais como políticos profissionais do que como legítimos representantes da categoria. Uma reportagem publicada pela Folha de S. Paulo nesta quarta-feira combina com as ideias expostas neste blog.

 

José da Fonseca Lopes, presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) é o senhor que mais fala em nome dos grevistas da estrada. Segundo revela a Folha, é um tucano de carteirinha, filiado ao PSDB desde 1995. Atua como militante político há uns trinta anos. Em 1994, foi cabo eleitoral de Mário Covas, organizando caravanas na campanha para governador.  

 

Com a força dos caminhões mobilizados por Fonseca, Covas venceu aquela eleição para o governo de São Paulo. Em 1998, o ex-caminhoneiro disputou um mandato de deputado federal, mas obteve apenas 1851 votos. O fracasso nas urnas não arrefeceu o engajamento partidário do homem que agora se vende como grande líder dos motoristas de caminhão. Continuou ativo na militância.

 

A reportagem também expõe os fortes laços do sindicalista com o patronato. Sempre foi bem acolhido entre os poderosos do setor de transportes. Exemplo disso é que a sede de sua Abcam fica no prédio da CNT, a Confederação Nacional dos Transportes, a entidade dos empresários. Além disso, o homem mantém relação de amizade com “terríveis” donos do capital.

 

Durante as negociações entre governo e caminhoneiros, viu-se que enquanto o líder garantia uma coisa, os grevistas faziam o oposto, radicalizando o movimento. Isso mostra o quanto Fonseca é respeitado como representante de sua categoria. É pura ficção. Se a situação parece finalmente caminhar para a normalidade, o sindicalista tucano nada tem a ver com isso.

 

O jogo duplo do presidente da Abcam é uma realidade consagrada no meio sindical. Não há nada de surpreendente em tal postura. A escola do sindicalismo forma exatamente esse tipo de gente. Seja qual for a categoria, o sindicato acaba sob o controle de uma patota cuja missão principal é fazer política em cima das demandas do trabalhador. Os companheiros sabem do que estou falando.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Na eleição ao Senado, o velho e o novo

Se o panorama da eleição para governador segue em ritmo modorrento, o mesmo não se diga da disputa ao Senado. Como se sabe, Renan Filho, por enquanto, não se preocupa com eventuais adversários. Até agora, a oposição tem apenas nanicos lançados como concorrentes ao Palácio dos Palmares. Para senador, o ambiente parece mais engarrafado numa lista de várias candidaturas.

 

Com duas vagas em jogo, a eleição testará o fôlego de Renan Calheiros e Benedito de Lira. Em lados opostos, os dois encaram o desafio de renovar o mandato. Ocorre que, nesse caso, há nomes de peso que podem ameaçar a reeleição de um dos titulares, talvez até dos dois. Ligados ao governo ou à prefeitura de Maceió, Maurício Quintella, Rodrigo Cunha e Marx Beltrão estão na guerra.

 

A corrupção virou o assunto que mais preocupa o brasileiro, segundo a última pesquisa Datafolha sobre as ideias na cabeça do eleitor. Por aí, pode-se deduzir que terá boas chances o candidato que for capaz de traduzir o discurso da ética e da honestidade. E esse, não há dúvida, é o principal ativo de Rodrigo Cunha diante de adversários encrencados com denúncias de malfeitorias.

 

A questão é saber se isso terá mais peso do que o voto por “realizações”. Assentados em boa estrutura partidária, e com a máquina da gestão pública a favor, Renan e Benedito tentarão emplacar a ideia de “trabalho” realizado por Alagoas. Contam ainda com a velha fidelidade nos rincões do interior do estado – tanto no apoio de prefeitos como na simpatia do eleitor pragmático.

 

Quando a campanha começar oficialmente teremos um cenário mais claro sobre a tendência da opinião pública. Até agora, pesquisas já realizadas confirmam a dianteira dos atuais senadores. Mas essa escolha tem muito da inércia que joga a favor daqueles que já exercem mandato. Com a briga no horário eleitoral na TV, os ventos podem mudar de direção. Ninguém está em posição confortável.

 

Para fechar, uma última observação. Com o desprezo geral à política, além de uma onda por renovação a qualquer custo, o que dizer de um quadro que pode reeleger Renan e Benedito ao Senado? É o que tentam entender onze entre dez analistas do caótico quadro eleitoral brasileiro.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Parlamentarismo numa hora dessa?!

Enquanto o país sofre com uma crise que parece interminável, a presidente do STF, Carmen Lúcia, pautou para 20 de junho o julgamento de uma ação que contesta a prerrogativa do Congresso para instituir o regime parlamentarista por meio de emenda constitucional. Provando, mais uma vez, o ritmo vertiginoso do Judiciário, o caso a ser julgado chegou ao Supremo em 1997. Agora, 21 anos depois, com o Brasil quase paralisado, o STF acha de trazer à tona um tema dos mais controversos.

 

Os ministros devem dizer se uma PEC é um caminho legal para mudar o regime de governo. O entendimento corrente é o de que isso só pode ocorrer pela via da consulta direta à população. Foi justamente assim que, num plebiscito em 1993, os brasileiros rejeitaram o parlamentarismo. É o que prevê a Constituição. Mas, como virou moda, todo dia algum juiz dá uma canetada para atropelar princípios constitucionais. Se prevalecer a lógica, o Supremo vai barrar a proposta no Congresso.

 

No mundo das especulações republicanas, a iniciativa da presidente do STF causou bastante surpresa. Por que isso agora? É o que perguntam analistas, consultores, jornalistas e políticos. Seria esta uma saída emergencial para o drama brasileiro? Não parece ter o menor sentido – a não ser que existam fatores e motivações desconhecidas de todos nós. Com o histórico recente de marmotas na corte máxima da Justiça, um movimento inusitado provoca algum susto.

 

Sem contar que nossa última experiência de parlamentarismo se deu no meio da gigantesca crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros, lá nos primórdios da década de 1960. Foi uma medida de puro casuísmo, fabricada sob encomenda para tirar poderes de João Goulart, o vice que assumiria a cadeira de Jânio. Após a redemocratização, a partir dos anos 1980, o parlamentarismo vai e volta à agenda pública, sempre no rastro de fases de turbulência social. É o caso nos dias que correm.

 

Assim que a notícia do julgamento no STF saiu, começaram as acusações de conspiração para tirar do brasileiro o direito de escolher seus governantes. Não chega a tanto, afinal seria uma maluquice extrema alguma jogada, a essa altura, para suspender as eleições de outubro. De todo modo, o Supremo conseguiu abrir uma nova frente de bate-boca entre as tropas eleitorais em disputa.

 

E tudo isso para responder a uma demanda judicial de 20 anos atrás. Os protagonistas daquela discussão na Câmara dos Deputados nem lembravam mais que ainda haveria julgamento. Em condições normais de civilidade, tamanho despropósito não seria levado a sério. Mas seguimos no padrão nosso de cada dia. A Justiça brasileira tarda, falha e ainda provoca tumultos.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Os presidenciáveis não param de falar

Não será por falta de exposição na imprensa que os candidatos a presidente deixarão de apresentar suas ideias ao eleitorado. Pelo contrário. Há algumas semanas, o que não falta é todo o tipo de entrevista, sabatina, debate e seminário para fazer perguntas aos que disputam o voto na eleição para presidente. No rádio, na TV e na internet, já temos um cardápio de horas e horas de variados programas em que ouvimos os presidenciáveis. Duração e formatos variam, mas não muito.

 

Para citar alguns exemplos, no YouTube você pode ver entrevistas e sabatinas organizadas pelo UOL, Folha de S. Paulo e STB. Podemos também checar as ideias dos concorrentes no Roda Viva, da TV Cultura. O eleitor pode assistir também ao Canal Livre, na Band. E contamos, para que ninguém reclame de escassez de informação, com longas entrevistas em páginas virtuais comandadas por jornalistas profissionais, sem militância partidária. Citei só alguns exemplos do falatório geral.

 

Embora ostensiva, essa presença dos candidatos nos meios de comunicação não significa uma profusão de verdades, clareza absoluta de ideias e projetos detalhados para o país. Falando para um público aparentemente um tanto restrito, muito do que se diz tem vida curta, serve para esse ambiente de debate, mas será descartado como inadequado para o palanque. Ao povo, que decide quem será eleito, não adianta falar de tamanho do Estado, câmbio flutuante, contratos e ajuste fiscal.

 

Mesmo os candidatos nanicos, alguns até estreantes na política, são convidados a participar de incontáveis eventos organizados para conhecer cada um dos que se lançaram na corrida ao Planalto. Não sei qual o nível de interesse na eleição que alguém demonstra a essa altura. Se tiver disposição para ver e ouvir os candidatos falando de tudo (ou quase tudo), isso você encontra fácil e até demais. E esse também dever ser um fator hoje mais forte que na eleição de 2014. A oferta cresceu.

 

Estou falando, reitero, de oferta de informação. Mas a gente pode se perguntar o seguinte: quanto, do eleitorado que já desenvolveu paixonite por qualquer um dos presidenciáveis, terá disposição para escutar outros concorrentes? O índice, vamos ser realistas, deve estar perto de 0%. Porque, e isso é um dado científico, queremos cada vez mais tudo o que reafirma nosso pensamento e preferências.

 

O que ressalto é o grande número de opções disponíveis para conhecermos melhor os candidatos a presidente. Todos eles. Aliás, devido a essa proliferação de espaços para os políticos falarem o que quiserem, se explicarem sobre qualquer coisa e criticarem adversários, ninguém pode alegar ignorância acerca de nenhum deles. Mas a audiência a esse show de palavras parece baixa.

 

Qual o peso particular de tamanha exposição prévia nos meios de imprensa? Não sei. Pode até não ajudar os candidatos. Mas têm potencial de repercussão a depender de uma ou outra resposta que escape do controle prévio de marqueteiros. Seja como for, os presidenciáveis falam sem parar.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Bolsonaro se vende como novo, mas prova que sua política é caquética

Vigarice, hipocrisia, demagogia e mais o que o leitor quiser. Nem era preciso isso para demonstrar a retidão de princípios de Jair Bolsonaro, o herói de certa "direita esclarecida". Mas a Folha de S. Paulo publica reportagem bastante reveladora sobre o elemento. Reproduzo abaixo o texto da Folha.  

Autor de uma mensagem nas redes sociais prometendo revogar qualquer multa aplicada a caminhoneiros pelo governo de Michel Temer, Jair Bolsonaro (PSL) é autor de projeto que, em sentido contrário, pune com até quatro anos de cadeia aqueles que impedirem ou dificultarem o trânsito de veículos e pedestres nas vias públicas. O projeto foi apresentado em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados.

A proposição é pautada na necessária preservação dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos, vítimas de ações irresponsáveis daqueles que desprezam as liberdades do outro quando da busca de suas demandas sociais, escreveu Bolsonaro na justificativa do projeto.

O texto estabelece que “impedir ou dificultar o trânsito de veículos e pedestres, sem autorização prévia da autoridade competente” resulta em “reclusão, de um a três anos”, pena agravada em um terço caso o ato prejudique o funcionamento de serviços de emergência.

Pré-candidato à Presidência, o deputado se apressou em ir às redes sociais apoiar a atual greve dos caminhoneiros, mas nas manifestações iniciais criticou a obstrução de vias. 

“Caminhoneiros, parabéns, vocês estão fazendo algo muito mais importante até do que uma eleição. Só peço uma coisa, não bloqueiem a estrada. Com toda a certeza, onde por ventura esteja havendo bloqueio tem algum infiltrado do PT, do MST, da CUT”, afirmou em vídeo divulgado na sexta (25).

Bolsonaro é crítico recorrente de manifestações em vias públicas promovidas por grupos de esquerda. Neste domingo, porém, o presidenciável publicou em sua conta no Twitter: “Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer/Jungmann será revogada por um futuro presidente honesto/patriota”.

A Folha encaminhou perguntas para sua assessoria de imprensa e para o presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, mas ainda não houve resposta.

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Um botijão de gás por 80 reais!

Para ajudar minha cabeça na reflexão sobre a situação do país, e quem sabe achar alguma pauta para o blog, fui ali na esquina tomar um caldo de cana na Lanchonete da Zezé. É sempre bom dar um tempo no consumo de coisas mais pesadas – como o noticiário. Quando parei na calçada com o carrinho e o maquinário que espreme a cana, Seu Antônio, outro comerciante, estava chateado.

 

Ele narrava, entre o vai e vem de clientes que frequenta seu mercadinho, que o gás de cozinha de sua casa acabou. E, para piorar a situação, Dona Vânia, que comercializa o produto bem na outra esquina, estava com o estoque zerado. Não demorou para que um vizinho informasse a ele o número de telefone de um ponto de venda que, segundo soube, ainda está bem abastecido.

 

Seu Antônio sacou o celular decidido a pedir um botijão e garantir o preparo do café. Mas não esperava ouvir a proposta absurda do outro lado. O diálogo foi tenso. Ele ainda tentou argumentar com o atendente, mas não teve jeito. A cada resposta que ouvia, ficava mais irritado com a conversa. Vou reproduzir, de memória, a cena protagonizada por meu vizinho, na vã tentativa de obter o gás.

 

Alô! Tem gás aí pra vender? Rapaz, que bom. Eu vou querer um botijão, aqui no conjunto. Tá quanto o botijão? Quanto?! 80 reais! Que é isso meu amigo? Esse que acabou eu comprei a 60. Baixa isso aí, meu amigo, assim é exploração. Não, não, 80 reais é demais. Deixe pra lá. Vou querer não.

 

Encerrada a frustrante negociação, alguém apresentou mais um número de telefone. Mais uma alternativa. Seu Antônio repetiu a dose, mas recebeu a mesma pancada, com um agravante. Pela distância (esse endereço era mais longe), o produto não seria entregue por menos de 85 reais.

 

Meu vizinho explicou às testemunhas que jamais se submeteria ao repentino e absurdo índice inflacionário do gás de cozinha. Perguntei como ia fazer no jantar. Esquento água no micro-ondas e uso Nescafé. Pra comer, faço tapioca na grelha elétrica. E amanhã vejo como é que resolvo.

 

A vida real num bairro qualquer de Maceió. Os caras reajustaram o gás em pelo menos 20 reais. Isso se você encontrar o produto para comprar. A gasolina já voltou aos postos, mas o combustível para o fogão ainda não. (Tomei o caldo de cana e voltei pra casa. Terminei achando uma pauta).

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.

Os alagoanos que pregam golpe militar

Precisamos lembrar dos erros do passado, pois somente assim evitaremos que se repitam no presente. Você já ouviu isso incontáveis vezes. É uma dessas ideias feitas que os mais apressados sacam de primeira ao analisar, por exemplo, qualquer crise que se abate sobre o país. Se tal formulação tem algum fundo de verdade, parece que muita gente não entendeu nada de história.

 

Digo isso diante do protesto que fechou parte da avenida Fernandes Lima, em Maceió, durante a manhã desta segunda-feira. Os manifestantes se concentraram em frente ao quartel do Exército em Alagoas. A escolha do local não se deu por acaso. Pegando carona na paralisação de caminhoneiros, os indignados que foram às ruas exibiam faixas pregando “intervenção militar já”. Que remédio!

 

Ao falar com a imprensa, os que engrossavam a manifestação deram uma explicação singela para a medida radical que defendem. Segundo eles, ninguém ali pretende uma ditadura fardada. “Queremos só uma intervenção para resolver a crise”. Ah, bom. Então podemos ficar tranquilos. A lógica é a seguinte: os militares tomam o poder, eliminam a bagunça e, depois, voltam para casa.

 

Isso é apenas ingenuidade, desinformação ou o DNA autoritário na alma do cidadão de bem? Provavelmente uma combinação explosiva dos três fatores e mais alguma coisa. Alguém precisa avisar aos patriotas alagoanos que foi exatamente assim que as coisas se deram em 1964. A porrada militarista era só um remédio a curto prazo. Logo depois o poder voltaria para a sociedade civil.

 

Como se sabe, o golpe “cirúrgico” instalou uma tenebrosa ditadura que durou nada menos que 21 anos. Para debelar a ameaça comunista, os heróis de farda torturaram e assassinaram centenas de brasileiros, sendo que muitas famílias procuram seus parentes desaparecidos até hoje. É patético, mas é fácil hoje em dia ver gente negando esses fatos, por mais escandalosos que sejam.

 

O mais grave é que a ideia insana de intervenção dos quartéis não é exclusividade das camadas populares, de pessoas sem instrução. Nos tais movimentos de direita que proliferam por aí, há uma ostensiva exaltação da força bruta para supostamente enfrentar os problemas da sociedade. Somente assim, na visão torta dos ideólogos do prendo e arrebento, o Brasil tem jeito.

 

Os integrantes dessa presepada cultivam um bizarro fanatismo pela bandeira do país, pelo verde e amarelo, por símbolos do mundo militar e, claro, por uma potente arma na mão. Atuam e escrevem nas redes sociais como seguidores de uma seita, histericamente engajada na difusão de suas ideias. Vomitam ódio para eventuais contestadores e repetem platitudes para os convertidos.

 

Insisto num ponto. Não é um pensamento restrito a gente sem formação. É uma desgraça que empresários, professores, “artistas” e também jornalistas engrossem esse coro de dementes. Eles estão por aí, até bem perto de você. Apesar de tudo, até agora – e isso dá um certo alívio –, creio que as instituições se mantêm imunes aos apelos do obscurantismo. É assim na velha e boa democracia.  

Deixe seu comentário Os comentários são de inteira responsabilidade dos autores, não representando em qualquer instância a opinião do Cada Minuto ou de seus colaboradores. Para maiores informações, leia nossa política de privacidade.
Comercial (82) 3313.6040 (82) 99812.2189 comercial@cadaminuto.com.br
Redação (82) 3313.2162 (82) 99664.2221 cadaminutoalagoas@hotmail.com