Guerra política vê palavra como inimiga

Não importa o número de imagens, vivemos num mundo de palavras. Eu poderia citar várias situações do cotidiano, e especular sobre essas situações, para defender a afirmação que abre o texto que escrevo agora, no meio de uma madrugada. Mas a motivação para o assunto nada tem de esotérica. Vamos falar do que está – e sempre esteve – na ordem do dia.

 

Na bizarrice da discórdia política brasileira, como em tudo na vida, a palavra é quase sempre fatal. Por isso, seja qual for a encrenca, fala-se tanto em “guerra de versões”, “narrativas contraditórias” e “verdades relativas”. Nunca recebemos tantos alertas sobre o perigo de fake news. Tão importante quanto o evento será a forma de descrevê-lo para alguém logo adiante.

     

A linguagem está no centro dos embates nacionais. Não sei se vocês perceberam, mas é comum encontrar na imprensa textos que estraçalham pessoas que costumam falar, por exemplo, em estado de direito, respeito à democracia, presunção de inocência e direito à plena defesa. Se você sacar uma dessas expressões em nome de seus argumentos, periga ser espancado. 

 

Segundo os críticos mais ferozes, ou seja, quase todos, quem usa esse palavreado só pode ser um cretino golpista, que agora cita a Constituição – outro pecado mortal – para proteger seus bandidos favoritos de estimação. Para esses revoltados em tempo integral, quem diz que o Brasil é uma democracia deve ser um idiota – ou, nos piores casos, um execrável fascista.

 

Não deixa de ser curioso, e um tanto inesperado, que na guerrilha geral, do xingamento a cusparadas, guerrilheiros apontem armas para o significado das palavras, de uma frase. Igualmente estranho é que os alvos sejam princípios e conceitos consagrados, ao longo da História, em todos os lugares onde trinfou não a utopia, mas uma ideia de civilização. Negar isso é uma postura amalucada.

 

O problema é que não estamos dispostos a pensar sob certos parâmetros gerais. Aliado a isso, nossa tradição nunca foi de zelo com o cumprimento de regras e o respeito à lei. Com rapidez fulminante, chutamos qualquer mandamento sagrado como se fosse um mero formalismo – ainda que seja uma garantia aos direitos de todos.

 

A julgar pelo ambiente tomado de fúria, a lista de termos e palavras na mira de tiro tende a crescer sem limite. É uma frente de embates cada vez mais ocupada desde a conexão de todos com todo mundo. Além do mais, nunca haverá escassez desse especial tipo de munição. Basta pular da cama de manhã, e o gatilho já está armado.

 

Para completar o drama, só falta os filiados à estratégia Black Bloc voltarem a atacar. Poderemos vê-los quebrando ao meio um substantivo, um verbo ou um predicado. Já imagino frases e orações inteiras despedaçadas a golpes de pernadas voadoras. Afinal, para conversa reacionária, o único remédio é a porrada.

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Por que o povo desistiu das ruas

Quando a coisa se complica pra valer e se descobre que o bicho tá pegando, parece que todo mundo olha ao redor e começa a gritar – entre a cobrança, a raiva e a indignação: cadê o povo na rua?! Essa ideia está em textos a granel que tentam analisar o quadro político no país. Pelo que se nota, também nesse caso, esquerda e direita estão juntas no clamor pela insurgência popular.

 

Existem os que reclamam porque os panelaços sumiram logo depois da queda de Dilma Rousseff. Para esses, quem enchia as avenidas contra a corrupção, ainda no governo do PT, era um bando de alienados a serviço das elites que decidiram derrubar uma presidente legítima. Com Michel Temer no poder, a horda manipulada pela direita fascista voltou para casa.

 

Mas é preciso reconhecer que no universo de vozes que lamentam o sumiço das manifestações de rua há de tudo, até mesmo direita e extrema direita. Claro. Afinal, os fenômenos do dia a dia – e a vida em geral – são por demais complexos para se deixarem encaixar por explicações simplórias. Isso só ocorre quando queremos dobrar a realidade às nossas ideias e causas de estimação.

 

E é exatamente isso o que se vê na troca de sopapos entre supostos esquerdistas e aparentes reacionários de direita. Cada qual vê a paisagem de acordo com suas inclinações irresistíveis. Por isso o bloco dos que condenam a omissão do povo é diversificado – e tenta explicar de qualquer jeito o que não é fácil de entender. Enquanto isso, as pessoas tocam o barco.

 

Foi sempre assim. Protestos, levantes, golpes e revoluções jamais existiriam sem as massas. Ocorre que os movimentos de mobilização gigante um dia terão de acabar. E o que acontece após o desfecho das revoltas será, necessariamente, o reordenamento das diferentes forças em jogo. Como não existe briga que dure para sempre, as ruas também serenam. 

 

O caso agora é outro, é verdade, e não tenho a menor ideia sobre as razões que empurram as famílias para o barulho das ruas ou para o silêncio recatado do lar. A militância estridente, de qualquer lado, também não sabe, mas seu compromisso não é com os fatos, e sim com suas paixões incontestáveis. Tenhamos calma. Qualquer dia desses, a rebeldia à deriva bate o ponto.

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Candidatos que não deveriam existir

A eleição legislativa de domingo (22 de outubro) é vista como crucial para a sobrevivência de lideranças e mesmo para os rumos do país. Falo da Argentina. A pátria do maior jogador de futebol do mundo convive com atores políticos à altura de nossos melhores piores momentos, aqui no Brasil. Trato do assunto por causa de Cristina Kirchner, a ex-presidente que tenta se eleger senadora.

 

O drama é o seguinte: depois de exercer o cargo de presidente da República, é razoável que o político mantenha uma atividade partidária como qualquer outra figura pública? E, além disso, é recomendável que um ex-presidente dispute outros mandatos, para cargos naturalmente abaixo da Presidência na estrutura de poder? Não vejo argumentos convincentes para isso.

 

Vamos pensar nos casos nacionais. Depois da redemocratização, José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco foram três presidentes que, encerrados os mandatos, voltaram às disputas miúdas, percorrendo periferias e povoados, negociando tudo o que se negocia, para garantir um novo cargo. Os fatos mostram que a volta à política diminuiu a biografia dos três.

 

Parece uma questão também de lógica acachapante. Quem já esteve no topo do poder político, com as prerrogativas plenas que o cargo de presidente confere, o que fará de novidade como deputado, senador ou governador? A experiência brasileira revela que o saldo não vai além da irrelevância. Nesse jogo menor, a Presidência da República também sai diminuída.

 

Mas o próprio Brasil tem o exemplo do que parece ser o melhor caminho. Fernando Henrique Cardoso prova que lugar de ex-presidente não é correndo atrás de voto. Distante das carnificinas eleitorais, FHC não conheceu o desgaste biográfico que atingiu seus antecessores na cadeira presidencial. Nessa condição, preserva a própria imagem e se mantém num protagonismo especial.

 

É a tradição sul-americana. Assim como nos demais países do continente, em diferentes épocas, lá está a senhora Kirchner berrando pra todo lado, trocando acusações e achincalhes com adversários, em busca de uma cadeira de senadora. Até um dia desses, era a magistrada número um da nação, a presidente da Argentina. É claro que isso é ruim para o país e para ela também.

 

O ideal parece estar na realidade americana. Um ex-presidente retornar às batalhas eleitorais é uma hipótese inimaginável. Retrato mais bem-acabado de uma democracia moderna, os Estados Unidos não têm dúvida sobre o papel de um ex-chefe da nação. São tratados como estadistas, na plenitude do termo. E estes se comportam com a devida sobriedade que tal condição impõe. 

 

Estamos bem longe disso. Em 2018, haja o que houver até lá, ex-presidentes devem aparecer com o nome na urna. E esse é um dado que, reitero, acaba por banalizar a instituição da Presidência da República. A sede pelo poder explica, em boa parte, a resistência de uma tradição nefasta.

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Givaldo Carimbão, um filho de Maria

Além do recurso à baixaria verbal, o que mais chama atenção no vídeo com o deputado federal Givaldo Carimbão é uma única frase, que ele repete umas dez vezes e aos berros: “Maria é minha mãe! Maria é minha mãe!”). A manifestação histriônica, completamente fora do tom, ocorreu durante uma audiência conjunta nas comissões de Segurança e de Cultura, na Câmara dos Deputados.

 

O vídeo pode ser visto aqui no CADAMINUTO. Carimbão resolve pegar carona na última onda de histeria moralista – depois das presepadas com exposições em museus – e abusa do proselitismo politiqueiro. Seu alvo é o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, convidado na audiência. Num raciocínio tosco, o deputado fala da mãe do ministro “com as pernas abertas”.

 

São dois graves problemas, pelo menos. O primeiro é o baião de dois que mistura religião e política. Não existe, mundo afora, nenhum exemplo de casamento saudável entre essas damas. O que existe de sobra são regimes em pandemônio social decorrente das disputas movidas a fanatismo. Não importa a crença, o outro será sempre um bárbaro – a ser convertido ou eliminado.

 

Um segundo problema é algo consagrado, um método essencial na política, que por certo deve nos irritar eternamente: a caudalosa demagogia na busca por dividendos eleitorais. É o que explica o teatro do parlamentar alagoano, com sua indignação ensaiada para a ocasião e para as câmeras. Nada que desabone o deputado, visto no contexto geral do Congresso.

 

No país da Lava Jato, a ira santa de Carimbão não chega nem perto do grande mal a ser combatido, que é a corrupção. Sendo assim, ele e outros tantos têm carta branca para pregar por Nossa Senhora, Jesus e todos os santos do céu. O bom de episódios assim é que podem ser vistos como emblemáticos, o tipo ideal de uma conduta ampla no parlamento brasileiro. O nível é esse aí.

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A descabida homenagem a João Doria

Digamos que um título de Cidadão Honorário tenha alguma importância no mundo em que vivemos. Digamos também que a concessão do referido título a uma personalidade será um acontecimento de impacto na vida de um aglomerado urbano. Se você considera que esse tipo de ação é do jogo político natural, que pode até render justas homenagens, então vamos falar de João Doria Jr.

 

Como se sabe, o prefeito de São Paulo será agraciado com o título de Cidadão Honorário de Maceió. (Os jornalistas Vanessa Alencar e Luiz Vilar já escreveram sobre o assunto). Se tudo correr como esperam as partes envolvidas, o evento será no próximo dia 27. A iniciativa naturalmente partiu da estranhíssima Câmara Municipal da cidade. Todos os vereadores apoiam.

 

A pergunta obrigatória é também a mais óbvia: quais as justificativas para contemplar Doria com tamanha distinção? O escolhido deve ostentar uma lista de serviços prestados à capital alagoana. Em situações de inútil normalidade, cerimônias oficiais não produzem nada além de burocracia e troca de afagos entre senhores de interesses comuns. Vez por outra, dá confusão.

 

A motivação dos vereadores é escancaradamente descabida. A única razão concreta para o título a Doria é a campanha eleitoral do homenageado rumo a 2018. Ele abriu uma guerra no PSDB ao atropelar seu padrinho político, Geraldo Alckmin, até um dia desses o nome dos tucanos na eleição para presidente no ano que vem. Agora, os dois agem como inimigos.

 

Na sua tentativa de emplacar a candidatura, o prefeito percorre o país em busca de atenção além das divisas paulistanas. É uma estratégia seguida rigorosamente. Não deu muito certo em Salvador, quando Doria também foi receber o título honorário na Câmara Municipal. Acabou sendo alvo de uma chuva de ovos. Protesto semelhante pode se repetir em Maceió. 

 

Curioso é que basta pensar naquela máscara de maquiagem para afastarmos qualquer sintonia entre Doria e o Nordeste. Aliás, quando presidiu a Embratur, na remota década de 80, ele queria transformar a seca em atração para visitantes. Era o Turismo da Miséria. Este é o homem que terá nosso reconhecimento como grande coisa na vida brasileira. Seja contra.  

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Senado acertou no caso Aécio

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O Senado fez o que prevê a Constituição. Mas a decisão favorável ao senador Aécio Neves, é claro, soma pontos na desmoralização do Congresso. O que fica para as manchetes é a proteção ao colega de parlamento por parte de uma maioria de nomes implicados em casos de corrupção. Pesou, mais uma vez, o instinto de sobrevivência; e todos protegem cada um.  

 

Em tempos de caçada geral, os congressistas são massacrados por qualquer gesto ou qualquer voto, até mesmo quando decidem de acordo com a lei e a lógica. Foi o que ocorreu na votação sobre o mandato do senador Aécio Neves. Mais uma vez, era uma decisão sobre algo mais amplo e mais relevante do que a causa específica. Estava em jogo o respeito à letra da lei.

 

Como tanta gente já lembrou, segundo a Constituição, o parlamentar não pode ser preso ou afastado do mandato, sem autorização da Câmara ou do Senado. Assim, uma decisão do STF nesse sentido terá de obrigatoriamente passar pelo crivo do Poder Legislativo. Há dois dias, portanto, senadores fizeram o que tinham de fazer. E não foi uma decisão fácil.

 

A dificuldade número um para julgar o caso Aécio foi a opinião pública. Ou seja, mesmo agindo dentro da legalidade, o Senado sofreu a pressão das ruas – ainda que virtuais – e isso poderia ter derrotado o senador mineiro. Pela imprensa, entre intelectuais e artistas, as reações foram as mais previsíveis que poderiam pintar. Ou vai pra cadeia ou nada mais funciona no país.

 

Não importa o tamanho da crise, nenhuma decisão errada poderá ser tomada como certa. E a gravidade da crise não será combatida com o erro – ainda que o errado venha a ser a escolha da maioria da população. Aécio deve ter o mandato cassado e, além disso, deve ser preso? Parece que sim. Mas, para isso ocorrer, ele terá de responder a um processo legal.

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Julgamentos imprevisíveis

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1. Dizem alguns que você não pode comentar decisões da Justiça, porque isso é para especialistas. Logo, se o Direito não está entre as áreas de sua educação formal, considere-se desautorizado para falar qualquer coisa. Discordo, é claro. Por isso tratamos aqui, de vez em quando, do que se diz nas sentenças e nos tribunais, nas palavras de juízes, desembargadores e ministros.

 

2. Quando uma sentença percorre páginas e páginas com digressões políticas e palavras de ordem, boa coisa não teremos no desfecho. Assim também são alguns votos no STF, quando os ministros estão mais preocupados com a plateia do que com a aplicação das leis. O caso Aécio é mais uma dessas oportunidades em que o Supremo, rachado, até ameaça uma bomba: fazer o certo.

   

3. Na república das delações, quem se lembra de tudo o que já foi revelado nos últimos três anos? Se o que dizem todos os delatores está valendo, tudo é possível, até mesmo a anulação do processo de impeachment que cassou o mandato de Dilma Rousseff. A tese veio a público após vídeos do delator Lúcio Funaro, autor de acusações que atingem uma multidão.

   

4. Ciro Gomes, o coronel do Ceará, continua alternando os discursos de defensor e acusador de Lula. Depende da plateia. Quando fala a estudantes, jovens e sindicalistas, denuncia a perseguição a um ex-presidente que veio do povo. Quando discursa para empresários e gente do mercado financeiro, aí Lula é tratado como alguém que traiu ideais e sujou as mãos. Ciro é um caso clássico.

 

5. Prefeitos alagoanos vão a Brasília pedir ajuda financeira. Alegam que uma crise da moléstia está acabando com os municípios. Como escrevi em texto anterior, a marcha rumo à capital do país era um movimento previsível. Prefeituras quebradas cobrando dinheiro da União é uma de nossas tradições incontornáveis. A sequência dos fatos reafirma isso tudo.

 

6. Voltemos ao STF. Com decisões recentes que vão na contramão do que já foi julgado ali mesmo, no Supremo, os ministros parecem determinados à revisão intempestiva de seus próprios votos. É nesse ambiente que prospera a ideia de rever a regra de prisão logo após sentença condenatória na segunda instância. Essa regra, aliás, mostra que a faca continua no pescoço do STF.

 

7. Judiciário. Planalto. Arte. Eleições 2018. O pensamento sobre o dia a dia anda por essas palavras e esferas da vida pública. Mas é claro que o repertório mudará com alguma rapidez. Enquanto isso, envio novas ideias soltas, direto da zoada típica do universo da informação.  

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A jovem guarda celebra Bolsonaro

Jovem é outro papo, ninguém duvida. Mas é, antes e também, um tipo de categoria sociológica. Basta verificar que nenhuma outra faixa etária é tratada com a reverência dispensada à juventude. Não exponho uma opinião particular, e sim uma constatação. Para fazer um recorte simplório, pense na eterna celebração à década de 60, que mudou o renovador século XX.

 

Há episódios antecedentes e nomes precursores, mas foi ali, nas explosões de protestos franceses, na histriônica revolução de costumes e nos panfletos da contracultura, que o jovem fincou sua bandeira no topo das prioridades nacionais. E desde então nada mais pode ser feito e nada desfeito será sem a palavra da autoridade final. Vamos seguir os rumos da sensibilidade juvenil.

 

A rebeldia, na arte e na política, está associada infalivelmente à juventude. Os beatniks eram jovens. Os caras-pintadas – a imagem da precocidade engajada – eram adolescentes. No Romantismo, os poetas que tinham tudo a dizer foram gigantes na mocidade; e morreram cedo. Para reinventar a estética ou disparar a revolução, convoque-se a garotada.

 

O corpo envelhece, mas a cabeça não. Não existe o velho. O que vale é o espírito de juventude. São frases assim que, além de atentados contra o idioma, reafirmam a supremacia de uma faixa de idade eleita como a perfeição da existência. Vem daí a desenvoltura de tantas inteligências, ainda na flor da idade, dispostas a mudar o mundo. Tudo o que precisam é de oportunidade.

 

E com todo esse passado de glória, vem do poder jovem a exaltação da novidade mais barulhenta e atrasada na política brasileira: o fenômeno Jair Bolsonaro. Estranhamente, são grupos de jovens, espalhados em diferentes regiões do país, que organizam as maiores manifestações em defesa do candidato a presidente. Um candidato que resume o pior moralismo e ideias autoritárias.   

 

Nos eventos de apoio a Bolsonaro, as mensagens de intolerância e a exaltação do radicalismo inflamam plateias ávidas por discursos e práticas violentos. É uma contradição em termos. Onde está o espírito libertário e pacífico tão decantado como marca registrada dos jovens? E o que tem Bolsonaro de tão novo que atrai tanta gente na faixa dos vinte e poucos anos de idade?

 

É uma boa questão para estudiosos e cronistas do nosso dia a dia. O cenário que aponta Bolsonaro com chances reais numa eleição presidencial diz muito sobre a crise de hoje. Mas diz muito também sobre a juventude de qualquer época. As pesquisas eleitorais estão aí como que desmentindo as maravilhas tidas como inerentes à cabeça dos mais novos. Também se muda para pior.

 

Jair Bolsonaro está tão superado quanto a expressão jovem guarda. Mais que isso, um e outro seriam termos incompatíveis quando pensamos em projetos para um país em permanente terremoto político. Seriam. Mas andam juntos por aí; e não somente no título deste texto.

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Ideias soltas depois do feriado

1. Mais uma vez, como ocorreu na sessão sobre retroatividade da Lei da Ficha Limpa, o STF votou rachado, agora sobre o afastamento de deputados e senadores do mandato. Por 6 a 5, os ministros decidiram que isso somente pode ocorrer com autorização da casa legislativa. O resultado parece bom ao chamado equilíbrio entre os poderes. O Judiciário anda incontrolável.

 

2. O casamento de uma atriz da Globo serviu para pensar sobre militância, ativismo e rebeldia entre artistas com milhares de seguidores e fãs. A ostentação da festa não combina com o discurso de preocupação com a pobreza e os excluídos. O marketing descobriu nas ações sociais uma das formas mais eficientes de promoção pessoal e venda de qualquer produto.

 

3. Nunca chegamos a uma Copa do Mundo nesse clima de total tranquilidade. Há até quem assegure, assustado com tantos acertos no mundo da bola, que precisamos arranjar algum problema sério. Precisamos quebrar a cabeça em busca de táticas. Mas, enquanto isso não acontece, temos de admitir que montamos um time fortíssimo, outra vez candidato natural ao título.

 

4. E você torceu contra ou a favor da Argentina? É um desses debates que inflamam as mesas redondas durante 24 horas, sem nenhuma conclusão que justifique tanta briga em torno do tema. O que dividiu parte da torcida brasileira sobre o destino da Argentina foi o ressentimento. Creio não caber dúvida quanto à relevância de vermos Messi e sua seleção na Copa.

 

5. A crise na Espanha, decorrente da causa separatista da Catalunha, deu novo ânimo a um movimento que habita o Sul do Brasil. A grande imprensa voltou a noticiar a existência de grupos que defendem a separação do país, criando uma república independente, formada pelos estados sulistas. Não tem nada de novo entre os separatistas. Só oportunismo.  

 

6. A Câmara dos Deputados deve rejeitar a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. É o que todos apostam, diante de tudo o que se sabe. Li as 245 páginas da peça acusatória assinada por Rodrigo Janot. É um festival de depoimentos de delatores presos que negociam qualquer coisa em troca da liberdade. Como já se sabia, um trabalho à base de populismo jurídico.

 

7. Cinquenta anos da morte de um homem que virou mito. Não adianta alegar nenhuma verdade que possa depreciar a vida de Che Guevara – não vai colar. Ele está nas camisetas, nas paredes, na pele tatuada. O eterno símbolo da rebeldia jovem parece ocupar espaços cada vez mais amplos no imaginário contemporâneo. Uma marca adorada pela utopia consumista do capitalismo.

 

8. Por falar em separatismo, também já houve uma cantoria em defesa de um Nordeste independente. Acabou em forró, sem maior repercussão política. Dessas investidas revoltosas, não teremos problemas realmente sérios. O máximo que pode acontecer é a causa ser adotada por algum bloco partidário desesperado em busca de uma moeda de troca no jogo eleitoral.

 

9. Muita surpresa na praça com a absolvição de Mirella Granconato, nesse que é um dos casos de maior repercussão dos últimos tempos na chamada crônica policial. É por desfechos assim, em vários julgamentos, que há uma vasta literatura em defesa da extinção do Tribunal do Júri. Uma solução radical que não encontra ambiente fácil para ser concretamente debatido. 

 

10. No meio de um feriado santo, problemas com a máquina de escrever, ou seja, uma pane inesperada no computador. Por isso, uma pequena demora na atualização do blog. Mas agora, resolvido o inesperado, estamos de volta à normalidade tecnológica. Ao longo do dia, vamos pensar um pouco mais sobre novos e velhos assuntos. Afinal, as notícias não param de chegar.

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A eleição 2018 – longe e perto

Parece que as lideranças políticas de Alagoas estão alucinadas rumo a 2018. (Aviso que não sei nada dos bastidores eleitorais e políticos. Escrevo baseado exclusivamente no noticiário que sai na imprensa). Pelo que vamos vendo, prefeito, governador, ministros, senadores, ex-governadores, todos estão negociando agora, enquanto escrevo apressado para atualizar o blog.  

 

A um ano da eleição, fazer apostas e previsões sobre os cenários de disputa é apenas arriscado. Porque tudo pode mudar daqui a pouco. Até a definição das convenções, que ocorrem durante o mês de junho, nada estará fechado. A única coisa certa é a candidatura de reeleição do governador Renan Filho. Ele costura alianças para fortalecer seu lado e desfalcar o campo rival.

 

E quem são os inimigos mortais na briga por voto no cenário alagoano de hoje? Não difere nada em relação a outros carnavais. Sem debater o mérito das candidaturas, teremos o confronto de sobrenomes que se alternam, com certa frequência, entre o mesmo palanque e o palanque adversário. Embora solidamente estabelecida, a tradição provoca melindres e rasteiras.

 

Suponho que a proximidade relativa e o convívio decorrente de interesses comuns criam facilidades, mas também dificuldades nas horas nervosas de fazer escolhas. Afinal, jamais teremos a aliança com cem por cento do nosso lado. Os movimentos de agora ainda estão muito no começo, com vários lances na imprensa ocupando o lugar do gesto concreto para definições.

 

A essa altura dos acontecimentos, a verdade é que quase nada aconteceu. Por mais que sejam evidentes alguns rumos, os pré-candidatos e as lideranças parecem falar por parábolas e metáforas inofensivas. Qualquer um ainda pode ser aliado. Tudo é discurso enfaticamente voltado para não magoar ninguém. Por isso, alguma surpresa pode pintar. Mas não é o provável.  

 

Comecei falando de agitação alucinada decorrente do clima eleitoral para 2018. Um exagero. Negociadores por natureza, os mais poderosos caciques alagoanos têm muito a conversar pelos próximos meses. Enquanto isso, vão nadando de uma margem para outra, e vice-versa, conhecendo a potência e a direção da águas. Os golpes mais duros virão mais adiante. A eleição tá longe.   

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