Eleição para governador de Alagoas será decidida no primeiro turno

A história das eleições nos últimos vinte anos em Alagoas me faz bancar a hipótese do título deste artigo. De 1998 para cá, foram cinco disputas pelo governo e, desse conjunto, somente uma vez, em 2010, a contenda foi ao segundo turno; nas outras quatro, o vencedor saiu ainda na primeira rodada. É uma consequência natural de toda eleição polarizada, com apenas dois nomes fortes.    

Quando dois postulantes concentram a preferência do eleitorado, aquele que se desgarrar um pouquinho tem tudo para resolver a parada sem necessidade de um segundo turno. Como os outros candidatos não decolam, é mais provável que o primeiro colocado obtenha índice superior à soma de votos de todos os demais. E aí, mesmo com boa votação para o segundo lugar, acabou a eleição.

Mas, como eu falei de História, vamos lembrar o que houve, em duas décadas, nas batalhas pelo governo estadual. Em 1998, Ronaldo Lessa se elegeu para comandar o estado ao derrotar Manoel Gomes de Barros, então titular da cadeira. Levou no primeiro turno. Quatro anos depois, Lessa renova o mandato, derrotando Fernando Collor, também no primeiro turno. Foi assim o cenário de 2002.

Chegamos a 2006 com nova briga polarizada, agora entre Teotonio Vilela Filho e João Lyra. Resultado: o tucano se consagrou nas urnas sem precisar de um segundo turno. Aí vem a exceção nesse percurso. Em 2010, tivemos um segundo turno entre Téo Vilela (que venceu) e Ronaldo Lessa. E isso só ocorreu porque Fernando Collor, também candidato, dividia os votos no primeiro turno.

Já em 2014, voltamos ao cenário que tem sido a regra. Eleição polarizada, Renan Filho derrotou Benedito de Lira, único rival que o ameaçava nas urnas. É matemática pura. Nanicos não têm voto; assim, ninguém aparece, como terceiro lugar, colado naquele que é o segundo colocado.

Sem querer ser redundante, a tradição desses vinte anos tem sido assim: ficam dois candidatos disparados lá no topo – e todos os demais espremidos lá atrás, somando quase nada de votos. Reparem que, com quatro candidatos agora em 2018, estamos vendo a reedição de uma tendência.

Com Fernando Collor e Renan Filho brigando virtualmente sozinhos pelo eleitorado alagoano, pode apostar que a eleição começa e acaba em 7 de outubro. Não teremos segundo turno. Essa é uma característica que faz da campanha uma jornada tão intensa quanto perigosa. Um vacilo, e já era.

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O capitão e o general da ditadura: o isolamento de Jair Bolsonaro

Fechadas as alianças na eleição para presidente, nota-se o esforço, de todos, para apresentar uma dupla que fale aos mais diversos segmentos. Em dias de empoderamento feminino, por exemplo, a mulher tem de ocupar lugar de destaque. Essa preocupação ficou evidente nas negociações para definição de nomes. Nem todos conseguiram construir essa diversidade nos palanques.

Se Geraldo Alckmin vai com a senadora Ana Amélia para vice na chapa presidencial, Ciro Gomes terá a também senadora Kátia Abreu. No caso do ex-governador do Ceará, ele escolheu um nome de seu próprio partido, o PDT, após ficar sozinho, sem uma aliança ampla como o adversário tucano. Alckmin tem na vice uma representante do Progressistas, um de seus muitos partidos aliados na aventura.

Isolamento mesmo bate num dos candidatos que lideram a corrida, o capitão Jair Bolsonaro. O vice do presidenciável do PSL é o general Hamilton Mourão, do nanico PRTB. Aliás, é um casamento de duas inexpressivas legendas partidárias. Além disso, mesmo de siglas diferentes, esta é uma espécie de chapa puro-sangue. Dois militares na dobradinha indicam um fracasso de Bolsonaro, está claro.

Por que é um fracasso? Essa é fácil. Porque uma parceria deve juntar tipos diversos, que sejam complementares. Um deve acrescentar qualidades ao outro. Se temos duas cabeças rigorosamente com as mesmas perturbações, a capacidade para o diálogo com outra faixa de eleitorado está definitivamente comprometida. O candidato, porém, não tinha mais opções a esta altura.

Bolsonaro até que tentou. Assim como seus rivais, convidou uma mulher para vice, mas a advogada Janaina Paschoal rejeitou. Mourão, vamos dizer, pode ser considerado um replicante da personalidade de seu presidenciável. Os dois significam uma overdose de truculência e nulidade intelectual. Para as viúvas da ditadura militar (muitos são jovens), está uma lindeza.

Quem diria que, mais de 30 anos após o fim do regime fardado, que torturou e assassinou tantos brasileiros, teríamos tamanho retrocesso. Parece inacreditável que o país cogite a Presidência da República nas mãos de gente com aquelas ideias. Não tem nada de “História que se repete como farsa”. Isso é apenas clichê para analistas preguiçosos que precisam de muleta retórica.

Andamos para trás, isto sim. Espero que a sanha de certos “cidadãos de bem” esteja no teto. A candidatura das trevas não parece ter mais espaço para crescer. Os lances das últimas semanas, que levaram ao isolamento partidário de Bolsonaro, são alguns indícios dessa hipótese. E quanto mais o candidato aparece, mais suas fragilidades ficam expostas com clareza. É gritaria e nada mais.

As entrevistas do capitão no Roda Viva (da TV Cultura) e na Globonews escancararam a inexistência de vida inteligente no sujeito. Na Internet, a zoada pra cima dos entrevistadores, dos dois programas, é uma campanha, em boa medida espontânea – manada vai no automático –, espalhada por seus fanáticos seguidores. Bolsonaro não precisa de jornalista para acusá-lo de nada.

Ele mesmo, quando exposto ao pensamento lógico, torna-se automaticamente a pior ameaça contra sua própria candidatura. Seus eleitores aderem a qualquer sandice em nome do combate à “ameaça comunista”. Para essa galera, como já notei aqui, até a Globo é “esquerdista”. Nossa Senhora!

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O duelo entre Renan Filho e Fernando Collor: a eleição que deve pegar fogo

Acabou a maré mansa para o governador Renan Filho. Candidato à reeleição pelo seu MDB, ele sabe que agora tem adversário que precisa ser levado a sério na campanha. Até hoje, todos davam a eleição como virtualmente resolvida. Renanzinho esperava contar com o mesmo cenário dos sonhos de quatro anos atrás, quando, sem concorrente pra valer, garantiu a vitória ainda no primeiro turno.

E o primeiro a acusar o golpe foi o próprio governador, como o leitor pode conferir em texto e vídeo publicados aqui pelo CADAMINUTO. Na convenção de lançamento de sua candidatura, Renan Filho disse o seguinte sobre Collor candidato: “Para ele, a vaidade pessoal suplanta o interesse do povo alagoano”. Ele não reagiria com um ataque tão direto se o novo rival fosse um irrelevante.

As palavras do atual mandatário também já sinalizam o tom que a campanha pode ter. Se for nessa toada, veremos uma disputa em níveis pouco civilizados. A preocupação de Renan Filho faz todo sentido. Se for derrotado, ao contrário de Collor, ficará sem mandato a partir de 2019 – o que significaria uma tacada quase mortal em seus planos para 2022. Por isso, ele repensa o jogo.

Deve-se lembrar ainda que o governo está numa guerra não apenas por uma candidatura, mas por uma dobradinha, com pai e filho. Um eventual fracasso do governador ameaçaria também a tentativa de reeleição do senador Renan Calheiros, que precisa de um mandato desesperadamente. É claro que ninguém espera que a dupla entre na campanha para ver um passeio de Collor.

A eleição, como se vê, promete emoções em alta voltagem. Por seu lado, Collor também não terá vida fácil. Dizem por aí que continua com um eleitorado fiel, mas essa faixa não lhe garante certeza de vitória. Precisa convencer um público bem mais amplo do que os convertidos. Basta olhar para 2002 e 2010, as duas últimas vezes em que tentou o governo de Alagoas, sem sucesso.  

Dezesseis anos atrás, Collor perdeu no primeiro turno para Ronaldo Lessa, que emplacou a reeleição. Já em 2010, tentou derrotar o então governador Téo Vilela, mas nem chegou ao segundo turno. Pelo histórico, portanto, tem uma missão que parece tão difícil quanto a de Renan Filho.

Há os que certamente enxergam no governador maiores chances de êxito, uma vez que tem a seu favor a máquina oficial. Na teoria, é assim. A campanha vai mostrar se isso vale na prática. De todo modo, como disse lá no começo, Renanzinho acusou o golpe – e sabe que não pode vacilar.

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A candidatura de Collor ao governo – e a surpresa de um vice tucano

A candidatura do senador Fernando Collor (PTC) é a mais surpreendente novidade na corrida eleitoral pelo governo de Alagoas – não tanto por seu nome, mas pela filiação partidária do candidato a vice na chapa, o vereador Kelmann Vieira, do PSDB. O presidente da Câmara Municipal de Maceió nasceu para a política pelas mãos do senador Renan Calheiros e sempre foi um aliado mais que fiel.

O primeiro movimento do vereador para se distanciar da chancela de Renan Calheiros – seu padrinho de origem – foi em 2016, quando ele deixou o PMDB para se filiar à legenda tucana. A partir dali, virou um soldado na tropa de apoio à gestão do prefeito da capital, Rui Palmeira. Não chega a ser uma traição, dado que nunca houve um rompimento que se possa ver como traumático.

Agora, pelas informações surgidas neste domingo de convenções, Kelmann para vice representa nada menos que uma aliança entre Collor e o PSDB. O bloco tem ainda o Democratas (de Thomaz Nonô) e o Progressistas (de Benedito de Lira), entre outras siglas. Está todo mundo em paz nesse balaio? Como se deu o acordo que, parece, pega o atual governo estadual um tanto no contrapé?

Há outro dado singular na candidatura Collor. A chapa majoritária terá como candidatos ao Senado o já citado Benedito e também Rodrigo Cunha, a jovem estrela do PSDB, hoje deputado estadual. Estarão todos juntos no palanque? Faço as perguntas porque, até ontem, isso era ficção.

Na mesma linha – e como não tenho respostas, somente dúvidas –, acho que muita gente deve estar se perguntando sobre Rui Palmeira, Teotonio Vilela Filho e até Geraldo Alckmin, o candidato a presidente pelos tucanos. Em tese, nada seria aprovado sem o apoio dos caciques do partido. 

Portanto, digamos que o povo quer saber se a aliança com Fernando Collor foi abençoada de forma unânime em todas as instâncias do tucanato. Rui, Téo, Cunha, todos esses aprovaram e estarão engajados na campanha do candidato? O que pensa Fernando Henrique Cardoso sobre tudo isso?

Fato é que o nome de Collor na disputa ao governo mexe, e muito, nos rumos e no ritmo de uma campanha eleitoral que seguia modorrenta. (Volto ainda hoje com mais perguntas e alguns palpites).

PS.: Ao terminar o texto, leio aqui mesmo no CADAMINUTO que pode haver racha na candidatura que lançou a chapa Collor-Kelmann. E isso tem a ver com as perguntas que fiz acima sobre os tucanos.

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A pureza de Maria é real? Há controvérsia

Parece que os padres da Igreja Católica andam trocando as orações pelas novelas na TV. Chego a essa conclusão ao ler reportagem na Veja.com sobre a revolta de católicos contra Jesus, o folhetim exibido pela Record. A indignação que veste batina decorre da versão que a história televisiva apresenta sobre Maria, a mãe do Filho de Deus. Afinal, ela se manteve virgem por toda a vida?

De acordo com a trama da novela, não. E isso foi representado, segundo a Veja, numa cena em que Maria e o carpinteiro José aparecem com três crianças – Jesus e dois irmãos. A encrenca é que essa versão é a favorita dos evangélicos. Foi o bastante para uma verdadeira declaração de guerra santa nas redes sociais. Seguidores do catolicismo defendem fogueira para os roteiristas da obra.

Um exército de padres e até um bispo – Dom Henrique Soares da Costa – denunciam o que consideram um insulto à imagem de Maria. Eles garantem que as duas crianças são na verdade primos do messias mirim, e não irmãos. Segundo esses porta-vozes do além e da História, José nunca tocou em sua mulher, que nasceu virgem e assim continuou por toda a existência. É o mito.

Sobrou para o também autodenominado bispo Macedo, inimigo mortal dos cristãos católicos. Fala Dom Henrique, o bispo noveleiro da Igreja Romana: “Aquele Jesus é o Jesus da Universal, não é o Jesus das Escrituras; é o Evangelho segundo Edir Macedo e seus espúrios interesses”. Essas palavras, também segundo a matéria da Veja, foram publicadas na página pessoal do religioso no Facebook.

Não perderei tempo com especulações sobre os interesses de nenhum dos lados. Li o suficiente para conhecer vastos capítulos acerca de ideias e ações – espúrias e nada legítimas – que enredam santidades católicas, evangélicas e esotéricas. É o mundo da fé, dominado pelo dogma e intolerante a toda e qualquer divergência. Se você discorda, já está condenado sumariamente.

Como um típico militante, em carta aberta no Facebook, também segundo a reportagem, Dom Henrique vê na história da Record as digitais do Satanás. Diz o sábio homem: “Um católico que assiste àquilo peca gravemente”. Suponho que ele deve estar agora pagando alguma penitência por dar atenção às aventuras novelescas do casal José e Maria. O pregador precisa ser o bom exemplo.

Só falta agora a direita cristã alagoana recorrer ao Ministério Público, para banir a novela da programação da TV. Do jeito que anda o Brasil, certamente haverá alguma autoridade de prontidão, rezando pelo bem da humanidade, disposta a levar adiante uma causa tão relevante para nossas vidas. E você aí preocupado com seu emprego e com seu time no Brasileirão. Acorde!

Eu falei sobre como anda o Brasil? Como diz aquela moda de viola, nem Jesus dá jeito.

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A “viagem lisérgica” das eleições! Um dia alucinado na política nacional

Um sábado muito louco na política brasileira. Virtualmente inelegível, Luiz Inácio Lula da Silva teve sua candidatura presidencial confirmada em convenção do PT. Nos discursos, as lideranças da sigla dizem que não pode haver eleição sem o ex-presidente e que haverá “luta até o fim” para manter seu nome na urna. Mas todos sabem que isso não tem chance nenhuma de ocorrer.

Durante a convenção, os presentes ouviram uma mensagem, que foi lida no palanque, enviada por Lula diretamente da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde o petista está preso desde o dia 7 de abril. Para alguns analistas, a insistência de Lula e do PT é uma tática suicida. Acabou isolando a legenda numa aposta que não tem futuro ao invés de viabilizar aliança com outro nome.

Nessa lógica, seria o caso de o PT fechar com Ciro Gomes como candidato, por exemplo, indicando o vice na chapa. Era o sonho do ex-ministro e ex-governador do Ceará. Mas deu tudo errado. Lula não apenas repudia essa alternativa como ainda trabalhou para sabotar uma quase certa aliança entre o PDT de Ciro e o PSB. Sai todo mundo perdendo e adversários em comum festejam.

Na convenção do PDT, também hoje, Ciro partiu para o ataque dizendo que “a cúpula do PT está numa viagem lisérgica”, deixando claro o tamanho do estrago entre as partes. Aquela velha história de frente de esquerda, que nunca foi lá uma possibilidade pra valer, está morta. Sem falar que Ciro, também ele um camaleão, correu atrás da direita, mas acabou sendo igualmente descartado.

Em outra praia, Janaina Paschoal, a advogada do impeachment de Dilma, anunciou que não será a vice na chapa de Jair Bolsonaro. Alegou que sua família não poderia se mudar para Brasília no caso de vitória do candidato. Usando as redes sociais, ela fez questão de reafirmar seu apoio ao nome do PSL, jurando que ele não é machista nem autoritário. A recusa provocou irritação entre bolsonaristas.

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin também foi confirmado em convenção com um balaio de partidos. Além do seu PSDB, formam a aliança outras oito legendas, entre elas o PP, de onde saiu a senadora Ana Amélia para vice. No encontro, tucanos se disseram “apaixonados” por ela, a “vice dos sonhos”. Amélia foi tratada como a “cereja do bolo” na aventura rumo ao Planalto.

O sábado também foi dia de convenção para Marina Silva (Rede), Álvaro Dias (Podemos) e João Amoêdo (Novo). No lançamento da candidatura de Dias, ele veio com uma brincadeira. Disse celebrar a República de Curitiba e anunciou que, se eleito, convidará o juiz Sérgio Moro para ministro da Justiça. Procurado pela Folha, o magistrado informou que não iria comentar a piada.

Nas convenções estaduais, o senador Romário foi confirmado como candidato a governador pelo Rio de Janeiro. Já em Belo Horizonte, acabou em pancadaria o encontro do PSB para lançar Márcio Lacerda ao governo de Minas, vetado pela própria cúpula do partido após aquele acordo com o PT.

Para fechar essa resenha da política brasileira, um detalhe sobre a convenção de Alckmin: uma das atrações foi Tiririca. Ele havia anunciado que, após dois mandatos como deputado federal, não disputaria as eleições. Mudou de ideia em nome de um país melhor. Tenha fé, que o Brasil avança.

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Jair Bolsonaro e o jornalismo brasileiro

Sem querer, o presidenciável Jair Bolsonaro provocou um certo debate sobre o jornalismo e a grande imprensa brasileira. O falatório foi consequência da entrevista que ele deu ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira. Segundo muita gente, os entrevistadores foram parciais e levaram a conversa para temas batidos. Digamos que o candidato deu um baile.

De fato, alguns dos jornalistas foram repetitivos e insistentes em questões já respondidas. Também houve, mais de uma vez, demonstração de pura rabugice contra as opiniões de Bolsonaro. Sobretudo na primeira meia-hora de programa, assuntos ligados à ditadura militar, tortura e homofobia dominaram a sabatina além da conta. Entrevistadores pecaram pela redundância.

Ricardo Lessa, o âncora que assumiu o Roda Viva em abril passado, após a saída de Augusto Nunes, tem sido um desastre. E assim foi mais uma vez com Bolsonaro. O mediador parece o tempo todo fora do ar, tropeça nas perguntas desde o começo e não consegue dar ritmo ao andamento do programa. Não é o caso, mas passa a impressão de que estamos vendo um principiante.

Já escrevi, várias vezes, o que penso da candidatura de Bolsonaro – o que sempre me rende alguns “elogios” de seus simpatizantes. Não é este o ponto aqui, claro. Quero falar dos jornalistas. Estavam lá estrelas dos maiores veículos: Folha, Estadão, O Globo, Veja e Valor Econômico. Em alguns textos sobre o programa, houve quem considerasse o desempenho do time até “pavoroso”.   

Foi tanta pancadaria, que fui rever o programa antes de escrever o que você está lendo agora. (É para isso que serve o YouTube). Estou certo de que o resultado não foi essa desgraceira tão alardeada. Apesar de excessos e equívocos, é uma distorção dos fatos tratar a participação dos entrevistadores, incluindo o âncora, como um bloco completamente errado e sem variação de temas.

Em boa medida, parte das avaliações negativas está sob suspeita; ainda que tentem disfarçar, muitos dos que atacaram a bancada, na verdade, torcem por Bolsonaro, mas não confessam essa simpatia. Logo, as severas críticas perdem bastante em credibilidade. O que essas vozes supostamente rigorosas com a imprensa fizeram foi repetir a postura do candidato. Ele se sente “perseguido”.

Dos cinco profissionais convidados do programa, o realmente problemático foi o representante do Estadão. Sua ideia fixa eram os tais arquivos da ditadura. Acho que ele voltou umas seis ou sete vezes ao tema, sem qualquer noção de bom senso. E, insistindo nisso, fez o jogo do candidato. Esse tipo de pauta é a praia de Bolsonaro – tem posições já conhecidas e ele não esconde o que pensa.

Para a torcida do candidato, ele deu um baile, como escrevi lá no começo. É exagero. Não chegou a tanto, mas, sob sua lógica e a de seus aliados, foi esse o entendimento do público. A repercussão da entrevista expôs, sim, uma imprensa que comete falhas graves e precisa estar preparada diante de alguém que lidera a corrida eleitoral. Subestimá-lo é a via mais perigosa na hora da entrevista.

Na noite desta sexta-feira, encarei mais uma sabatina com Bolsonaro. Foram duas horas de conversa na Globonews. Para não variar, ele acabou gerando outro momento de tensão com a imprensa ao citar um editorial assinado por Roberto Marinho, em 1984, com elogios ao golpe de 64. A referência levou o Grupo Globo a divulgar uma nota de esclarecimento, lida no fim do programa.

No encontro com os jornalistas da Globonews, nenhuma surpresa sobre as ideias do candidato, nem sobre a forma como expressa seus pensamentos. Dizer que ele defende barbaridades é apenas – recorrendo ao velho lugar-comum – chover no molhado. A imprensa deve pegar no seu pé, como tem obrigação de fazer o mesmo com todos os demais presidenciáveis. Isso é jornalismo.

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O transporte clandestino em Maceió e a caixa-preta das empresas

As empresas de ônibus que fazem o transporte coletivo em Maceió despejaram hoje um coquetel de números e cifras, para acusar a concorrência desleal do serviço clandestino, realizado, na maioria dos casos, por taxistas devidamente credenciados pela prefeitura. É claro que o objetivo é pintar um panorama alarmista e, com isso, justificar a baixa qualidade no desempenho dessas empresas.

As informações dos empresários estão publicadas em todos os sites de Alagoas, e o leitor pode conferir tudo aqui no CADAMINUTO. Eles alegam que a cidade está tomada por veículos que operam a chamada “lotação”, o que faz com que o setor tenha prejuízo com a queda no número de passageiros. É uma forma de pressionar os gestores municipais, quase uma chantagem à luz do sol.

Afirma o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Passageiros que os condutores irregulares carregam 3 mil pessoas por dia na capital, 90 mil por mês, com faturamento de 3,6 milhões de reais por ano. Nossa, que tragédia! Não devemos esquecer que esse levantamento todo não é oficial, uma vez que foi feito por uma entidade privada, sem o crivo de qualquer esfera pública.

Já o faturamento e a tal planilha de custos dessas empresas são – e sempre foram – um mistério mais profundo que a existência do sobrenatural. Não por acaso, o impasse sobre o preço da tarifa costuma bater na justiça com uma frequência quase corriqueira. Não lembro, ao longo das últimas décadas, quando foi que esse segmento andou na linha como deve ser. O histórico não é nada bom.

Devemos lembrar também que o contrato de concessão do transporte coletivo está sob intervenção da prefeitura, depois que a medida foi recomendada pelo Ministério Público Estadual e pelo Ministério Público de Contas. A decisão decorre das falhas na prestação do serviço, o que significa descumprimento dos termos do contrato. É por isso que as empresas estão fazendo zoada.

Durante anos e anos, é fato consumado, o setor se meteu na política, com o financiamento de campanhas – o que piora muito as coisas. Pelo que sei, a atual gestão na prefeitura decidiu espanar uma relação que sempre foi pra lá de obscura. Não é fácil. É o que explica a intervenção em vigor. As peripécias pela catraca são tão antigas quanto o cadeado da caixa-preta nas contas das empresas.

Pelo conjunto da obra, a gritaria dos donos das linhas de ônibus não me comove nem um pouco – nem me convence sobre suas boas intenções e o padrão do serviço que oferecem. Dito isto, vou ali no centro de Maceió, a bordo de um táxi-lotação. Sou velho conhecido dos camaradas do volante.

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Papa Capim, eleições em Alagoas e a renovação da política

Leio na imprensa que Carlinhos Maia, o youtuber alagoano que faz sucesso na Internet, ficou em segundo lugar na categoria não sei o quê do Instagram. Ele é um “influenciador digital”. O talento do rapaz já o transformou em amigo de infância de celebridades nacionais. Depois de aparecer em programa da Globo, ninguém mais duvida de seu potencial para contar piadas.

Outra personalidade que balança as redes sociais por aqui atende pelo nome de Papa Capim. A repercussão de seus vídeos também o levou a um programa da Record TV. Agora, ele acaba de se lançar candidato a deputado estadual. É apadrinhado por pesos pesados da política de Alagoas – o que dá a exata medida de nossas principais lideranças na vida pública.

Tomei conhecimento desses dois fenômenos porque, como disse, eles estão em destaque no noticiário; são pautas obrigatórias em todos os veículos. A figura do influenciador mobiliza a imprensa mundial. Se alguém arrasta uma multidão de seguidores e “curtidas”, imediatamente chama atenção de jornalistas. Não importa o que ele faz, será tratado como uma arrebatadora maravilha.

Desesperada com a perda de audiência em todos os horários, e entre todos os segmentos de público, a TV rasteja por qualquer coisa que, supostamente, garanta alguns pontinhos no Ibope. Reafirmando sua vocação de origem, vale tudo para tentar conquistar o telespectador. Não importa que seja a mais desvairada aberração, vamos levar ao palco e espremer até o bagaço.

Nessa busca alucinada por gente popular na Internet, a televisão vem recorrendo cada vez mais a Felipe Neto, que já pode ser considerado um verdadeiro clássico de bizarrice no YouTube. Campeão de seguidores, sem nada na cabeça, ele é convidado de tudo o que é programa, em todas as redes abertas e emissoras por assinatura, para falar de qualquer coisa. Vale um estudo de caso.

Não adianta brigar com a realidade. Esse tipo de novo comunicador, por assim dizer, surgido diretamente da Internet, vai dominar o mundo. Se não tanto, estará cada vez mais presente nas páginas da imprensa e nos programas de auditório das televisões. Se você preferir, pode chamá-los de os novos formadores de opinião. Não pensam, mas são craques na milenar arte do grotesco.

E sendo assim, nada mais natural que os políticos, muito preocupados com a renovação na vida partidária, decidam abraçar esse fenômeno, para elevar o nível de nossos representantes. Papa Capim está à altura de nossos maiores caciques na esfera pública. Vejam: ele tem o apoio de nada menos que dois ex-ministros de Estado. Sejamos otimistas. O mundo fica cada vez melhor.

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TV, redes sociais e eleições: o que é mais decisivo na guerra pelo voto?

O tucano Geraldo Alckmin fechou aliança com o tal do Centrão e, com isso, garantiu o maior tempo de TV na propaganda eleitoral. Ciro Gomes, ao contrário, está isolado com o seu PDT e, sendo assim, terá míseros segundos para vender seu peixe também na televisão. Situação semelhante é a de Marina Silva e Jair Bolsonaro. Isso será mesmo decisivo na guerra pelo voto do eleitorado?

Nas eleições do passado, a pergunta acima não teria cabimento nenhum. Afinal, o brasileiro, rezam a lenda e os fatos, sempre decidiu o voto a partir do que pintava no chamado Guia Eleitoral na TV e também no rádio. Dizem os marqueteiros que o horário televisivo, principalmente, tinha força o bastante para consagrar um candidato – ou, pela mesma força, destroçar uma candidatura.

Para não ir muito longe, dois exemplos rápidos: Lula em 2002 e Marina em 2014. No primeiro caso, Duda Mendonça reinventou o sapo barbudo, segundo consta em tudo o que se escreveu sobre aquela eleição. E no segundo caso, João Santana, marqueteiro de Dilma, transformou Marina num monstro perverso que mataria o brasileiro de fome. Doze anos separam os dois episódios citados.

Nesse intervalo de tempo, as redes sociais explodiram na Internet. Aí virou clichê sustentar que essa nova realidade mudou tudo no jeito de fazer propaganda eleitoral. Sai a TV, entra o avassalador poder da comunicação virtual – ainda mais com a conexão via telefone celular. Se já era assim quatro anos atrás, agora em 2018 será bem mais relevante a atuação por todas as redes.

Abro um parêntesis. A paralisação dos caminhoneiros, em maio passado, deu mostras do que a potência das redes é capaz de fazer. Como se viu naqueles dias, a troca de mensagens pelo WhatsApp atropelou não apenas o governo, mas também a imprensa tradicional. Ficou claro que a greve ganhou uma dimensão inesperada pela mobilização a partir de mensagens instantâneas.

De volta às urnas. O que teremos então na briga pelo voto, num ambiente tomado pela tecnologia que está ao alcance de quase todos? A lógica aponta para uma transformação no jogo da propaganda que os candidatos precisam jogar. Difícil é encontrar quem esclareça, para além de generalidades, como fazer para que a Internet seja tão crucial como tem sido até hoje a velha TV.

Quando a gente observa – agora – os partidos mergulhados no mesmo leilão de alianças, para obter mais tempo no Guia Eleitoral televisivo, parece que estamos na era anterior às redes sociais. Poque se a eleição pode ser decidida pela forma de se comunicar com o eleitor, isso se dará pela Internet ou pelos modorrentos programas do rádio e da TV? Uma coisa não bate com a outra.

Não é razoável pensar que o eleitor ficará sentado diante da televisão, à espera da fala dos candidatos, para somente aí fazer sua escolha. Não tenho respostas para nada disso, apenas palpites. Já os presidenciáveis, tudo indica, ainda jogam suas fichas na propaganda do passado. Comemoram aqueles que garantiram mais tempo na TV; lamentam os que não terão quase nada.

Por tudo isso, ninguém pode cravar o que será mesmo definitivo para o eleitor formar sua convicção. Nunca houve tanto suspense acerca do resultado que as urnas vão produzir logo adiante.

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