O prefeito-Botox merece ovo na testa

O homem que elevou a toxina botulínica ao patamar de categoria existencial será homenageado em Maceió nesta sexta-feira. Refiro-me, é claro, a João Doria Junior e ao império do Botox, do qual o prefeito de São Paulo é um dos maiores adoradores do planeta. Essa bizarra figura da degradada vida pública nacional desembarca na capital alagoana para um teatro, uma encenação, uma presepada cuja finalidade única é campanha eleitoral antecipada. Doria – valha-me Nossa Senhora! – é pré-candidato a presidente em 2018.  

 

O prefeito que os paulistanos escolheram será agraciado com o título de Cidadão Honorário de Maceió pela Câmara Municipal. A iniciativa não é original. O mesmo tem ocorrido em outras partes do país, numa tentativa de Doria de ficar conhecido nacionalmente. Embora não esteja em boa hora dentro do PSDB, seu partido, ele só pensa na eleição presidencial. É sua ideia fixa desde que assumiu o comando da maior capital do país. Para sair candidato, já brigou com meio mundo de tucanos e deu uma rasteira no governador Geraldo Alckmin, seu padrinho político.

 

Os planos desse elemento – que um dia já quis transformar em atração turística a seca do Nordeste – podem esbarrar em seus próprios erros na prefeitura paulistana. Desde que tomou posse, tropeça todos os dias em alguma invencionice puramente publicitária, que logo é desmoralizada porque nada tem de sério e consistente. A última dessas piadas é a tal “farinata”, uma espécie de complemento alimentar para escolas da rede pública. A iniciativa é duramente criticada por especialistas, profissionais de saúde e da educação. Nesse caso, Doria é acusado de querer dar ração aos estudantes pobres.

 

Em suas andanças eleitoreiras, o prefeito-Botox não guarda boas lembranças de todas as visitas. Na verdade, diante da fachada de puro marketing, as reações são de protesto por onde ele passa. Como sou contra qualquer tipo de violência, torço por alguma manifestação civilizada contra essa estupidez armada por vereadores e empresários locais. Se tivermos sorte, pode ocorrer o que houve em Salvador: algum ovo podre na testa de Joao Doria Junior. Seria, esta sim, uma homenagem mais que merecida. Fico aqui na torcida.

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O ataque a jornalistas da TV Gazeta

Exercer o jornalismo às vezes pode ser perigoso. Vejam o que aconteceu com uma equipe da TV Gazeta na noite desta quarta-feira. Três assessores (ou seguranças) da deputada estadual Thaíse Guedes partiram pra cima do repórter-cinematográfico Josualdo Moura dispostos a agredi-lo. E foi isso o que fizeram. Os valentes pretendiam evitar imagens da parlamentar no momento em que deixava a sede da Polícia Federal. Segundo a PF, ela foi indiciada por um esquema envolvendo servidores fantasmas. Outros deputados são suspeitos no mesmo caso.

 

Só temos as imagens da agressão porque a repórter Estela Nascimento gravou o ato dos covardes com seu próprio telefone celular. Aliás, ela está de parabéns pela postura. Foi corajosa, manteve a calma, enfrentou os truculentos e registrou o ataque. Não é fácil agir como ela numa situação tensa, diante de uma ameaça que poderia descambar em algo ainda mais grave. Na gravação dá pra ouvir um dos elementos perguntando como é que a TV sabia do depoimento, “antes mesmo do advogado” da deputada. Como se isso fosse algum pecado e justificasse a violência contra os jornalistas.

 

O episódio não foi o primeiro nem será o último. Em algum momento, o bom jornalismo, que sempre incomoda, acaba atraindo a fúria dos que se acham intocáveis. E casos assim não podem ser vistos, jamais, com naturalidade. Devem ser repudiados como atentados ao direito de a imprensa livremente informar à sociedade. Minha solidariedade aos profissionais da TV Gazeta, que exerciam seu trabalho como tem de ser – em cima do fato, sem medo.

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Quando um juiz rasga a Constituição

Toda vez que alguém ousa apontar excessos e abusos na Operação Lava Jato, a reação é a mais previsível do mundo – e a mais superficial também: aquele que critica está movido por intenções malignas e tem como objetivo único proteger os corruptos. Acrescente-se a isso o fato de a operação não ter apenas simpatizantes, mas, em boa medida, uma torcida fanática.

 

A coisa é tão pesada que não são poucos os que evitam criticar o juiz Sergio Moro e sua turma curitibana, pelo temor do revide virulento. Se você reclama desses heróis de toga, corre o risco de ser carimbado como um corrupto igual aos que estão sendo presos todos os dias. Daí que até ministros do STF cedem ao medo da turba que defende um regime no estilo pega pra capar.

 

É uma pena que assim seja. Quando a gente dá carta branca para autoridades rasgarem a Constituição e as leis, estamos perdidos. Será que é tão difícil entender que o atropelo da legalidade não afeta apenas um acusado, mas toda a sociedade? Se um juiz ou um promotor pode avançar sobre a vida de alguém chutando princípios legais, a próxima vítima pode ser você.

 

Os senhores da Lava Jato sabem desse clima e, por isso mesmo, manipulam tal sentimento na defesa de ações indefensáveis. Quantas vezes não vimos Moro e integrantes do Ministério Público anunciando que há uma conspiração contra as investigações? Diante dos flagrantes de ilegalidades, a resposta é espalhar a versão de que a Lava Jato é vítima de antipatriotas.

 

Dane-se a lei, pensam os que defendem qualquer loucura por parte de investigadores. Estou fora dessa. Juiz deve obediência à Constituição. Para julgar qualquer pessoa, ele deve ler e aplicar o que prevê o ordenamento jurídico. Magistrado que se acha acima do bem e do mal deve aplicar as idiossincrasias de sua cabecinha em sua vida particular. No Direito, não.

 

Bater na república de Curitiba é tarefa ingrata. A imprensa está cheia de jornalistas metidos a valentões que não perdem a chance de acusar qualquer um que discorde dos métodos espúrios da Lava Jato. Há nisso também porções cavalares de populismo e hipocrisia. Está tudo tão dominado que dá até uma certa canseira ouvir a mesma coisa todo santo dia.

 

Mais uma vez, insisto: não se combate um crime sujando as mãos com outro crime. A velha história dos fins que justificam os meios é uma tragédia que não pode jamais prosperar, muito menos ser aceita como se fosse natural. Isso é coisa de regimes totalitários. E de gente no mínimo equivocada. O cumprimento da lei é o oxigênio das democracias. Gostem ou não Sergio Moro e sua patota.

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Procura-se uma polêmica de verdade

1. O dublê de ator Alexandre Frota está no centro de um debate que incendeia a opinião pública. É sério isso? É sim. E olhe que ele tem como adversários nada menos que Caetano Veloso e estrelas do Congresso Nacional, como a senadora Gleisi Hoffmann. Caetano já teve oponentes mais perigosos, como Paulo Francis e José Guilherme Merquior. A polêmica entrou em decadência.

 

2. O Ministério Público de São Paulo abriu investigação sobre peças de divulgação do filme Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, que tem Danilo Gentili como protagonista. É isso o que acontece a uma cabeça desocupada, cheia de ideias para tornar o mundo melhor e proteger as nossas vidas. Como todos sabemos, o MP também quer salvar o Brasil.

 

3. Uma novidade no cenário nacional, sem dúvida, é esse debate tresloucado envolvendo religião. Nunca vi tanta gritaria arrastando católicos, evangélicos, espíritas, budistas, crentes, descrentes, agnósticos e ateus. Daqui a pouco, alguém propõe a volta da fogueira para hereges e o enclausuramento de pecadores em mosteiros. Texto sagrado pra mim é literatura – como o Livro de Jó ou o Eclesiastes.

 

4. Os artistas estão na rua de novo. Dessa vez, exigem a derrubada de Michel Temer, a prisão de Aécio Neves e a volta de Dilma Rousseff. Assim como queriam o banimento da guitarra décadas atrás, baluartes da categoria caminham de braços dados, com a convicção de que falam em nome do povo. É uma ideia fixa. Depois, todos voltam para casa realizados. Até a próxima balada de rebeldia.

 

5. Quando não estão batalhando pela causa dos oprimidos, Caetano e amigos importantes vão a casamentos cheios de estrelas internacionais. Coisa de gente preocupada com a miséria brasileira. É o que ocorre exatamente agora. Um casório no Rio de Janeiro reuniu até Madona e os dublês de roqueiros do U2. Para completar, a festa foi no muquifo do casal Luciano Huck e Angélica. Antológico.

 

6. Parece que a atriz Marina Ruy Barbosa ficou triste com o evento relatado acima. É que ela não contava ver suplantado tão rapidamente o seu próprio casamento, que havia batido todos os recordes de ostentação e celebridades. Para se vingar, a ruiva cheia de talentos resolveu entrar numa confusão infernal: está sendo triturada por causa de uma publicidade com papel higiênico preto.

 

7. Esses publicitários geniais... Nem uma reunião multidisciplinar dos maiores talentos chegaria a uma ideia tão extraordinária como essa. Amigo, papel higiênico preto – com um slogan consagrado no combate ao racismo – não é para qualquer um. Sacadas desconcertantes assim você só encontra na cabeça privilegiada de um publicitário. Merece uma tese sobre a semiótica de usos e costumes.

 

8. Enquanto isso, escravidão e armamentismo mobilizam outras frentes de revoltados. Com o clima de guerra generalizado no país, parece que a fábrica de tumultos descartáveis despeja uma nova besteira a cada segundo. Por isso, ao dar uma olhada pelo noticiário, convém não levar a sério tanta zoada. Grande parte das notícias parece mais um balaio de piadas. Falta polêmica de verdade.

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A força jovem da jurássica UNE

Você já ouviu falar, é claro, nas gloriosas lutas do Movimento Estudantil. Já ouviu falar porque essa é uma das mais festejadas lendas brasileiras. É bonito imaginar jovens corajosos, brigando em frente dupla – pela educação e por um país melhor.

 

Pensei nessas questões folclóricas assistindo ao programa político do PC do B na televisão. Foram dez minutos de ideias inovadoras na propaganda obrigatória exibida na noite desta terça-feira (24). E o que tudo isso tem a ver com estudantes?

 

Respondo logo a seguir. Antes, vamos falar um pouco mais sobre a propaganda na TV. Como sempre, viu-se uma lista de filiados reproduzindo as ideias do partido. São quase todos políticos com algum mandato no legislativo ou no executivo.

 

Mas o PC do B também apresentou entre suas estrelas do programa uma estudante. E não foi uma aluna qualquer de uma escola pública do meio do Brasil. Foi Marianna Dias, a presidente da União Nacional dos Estudantes – a jurássica UNE.

 

Nada que se considere estranho. Ao contrário, a presença da jovem de 25 anos está cem por cento de acordo com o espírito do negócio. A UNE sempre foi um braço partidário da esquerda, cumprindo ordens e reproduzindo a militância sob encomenda.

 

Como todo jovem está a um passo do engajamento revolucionário, e como tem algo de romantismo acreditar nesse tipo de lenda, vai-se repetindo eternamente a informação de que a UNE tem muita importância no Brasil. É assim desde os primórdios.

 

Os congressos estudantis, como o que elegeu este ano a baiana Marianna para o comando da UNE, são na verdade encontros para dar palanque a velhos políticos. E eles pertencem a legendas que sempre mandaram na entidade. Não há pluralismo.

 

Ouvir o discurso da direção da UNE é voltar algumas décadas no tempo. Paradoxalmente, falando em nome da renovação, as jovens lideranças ressuscitam o palavreado mais retrógrado possível. Para essa patota, o muro de Berlim continua de pé.

 

Nos meus tempos de universitário, vi de perto a atuação dos destemidos que pretendiam mudar o mundo. Algumas décadas depois, vejo que o discurso já não parece o mesmo – parece ainda mais reacionário e oportunista. Isso não tem cura.

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As mãos sujas da Lava Jato

Em mais um desses convescotes cheios de lero-lero com doutores do Direito, lá estão Sergio Moro e Deltan Dallagnol expelindo suas digressões de alarmismo e pílulas de demagogia para uma plateia preocupada com os rumos do país. Trata-se de um fórum organizado pelo jornal O Estado de S.Paulo, cujo tema é Mãos Limpas & Lava Jato.

 

O procurador da República que tem as bochechinhas rosadas repete seu falatório de dono da verdade, com ataques cretinos ao STF e a todos aqueles que contestam suas estripulias acima da lei. Claro que o homem não perde a oportunidade de atacar também a política, apontando como solução a renovação do Congresso a partir das eleições de 2018. Como se sabe, ele quer ser senador.

 

Na mesma linha, vai o fanático juiz Moro, também com ironias idiotas contra ministros do Supremo e vozes da imprensa que criticam seus métodos abusivos de atuação. Para essa duplinha do barulho, o Brasil não tem saída fora das sirenes da Polícia Federal e das carnavalescas operações chefiadas pelo Ministério Público Federal. Assim, metem suas mãos em tudo, mesmo que estejam sujas.  

 

Esses senhores se acham salvadores da pátria e, não bastasse o messianismo policialesco, ambos têm a pretensão de seres iluminados, com ideias supostamente originais, mas que não passam de uma mistura de demagogia com indigência intelectual. Exemplo disso são as falas sobre o combate à corrupção como “esperança infinita”.

 

O encontro promovido pelo Estadão confirma uma das marcas centrais da Lava Jato, segundo seus próprios mentores. Ou seja, para que os objetivos sejam alcançados – sem contestação – tudo tem de passar por uma forte campanha via imprensa. Foi precisamente esse um dos pontos sagrados da Operação Mãos Limpas na Itália.

 

A república de Curitiba, que tem Moro e Dallagnol como os principais pistoleiros na linha de tiro, berra a cada minuto que o país só tem salvação com o fim dos privilégios para a elite. É verdade. Mas falta incluir entre os alvos dessa guerra a turma de nababos do Ministério Público e do Judiciário. Quando essa rapaziada agir nessa direção, a gente conversa sobre a coragem dos doutores togados.

 

O problema da Lava Jato não é o combate à corrupção. É o festival de ilegalidades no rastro desse trabalho que ignora os mais elementares preceitos da Constituição. Basta ler o que já foi publicado sobre tudo o que essa galera já aprontou. Prisões preventivas sem prazo e vazamentos de informações sob sigilo são os exemplos mais evidentes.

 

Mas aí estão eles, numa palestra atrás da outra, apresentando-se como as almas mais puras do mundo. No fórum de hoje, nada de novo está sendo dito. É a mesma cartilha, embalada em miseráveis frases de efeito e ideias superficiais. Pensando bem, a linguagem aí não fica longe do pior da política. Muita espuma, arroubos e populismo de última categoria.

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Cícero Almeida e Temer na rede social

Ex-prefeito de Maceió por dois mandatos e hoje deputado federal, Cícero Almeida teve uma ideia inusitada. Como conta aqui no CADAMINUTO a jornalista Vanessa Alencar, o parlamentar lançou uma enquete por uma rede social sobre a denúncia contra o presidente Michel Temer, que será votada pela Câmara nesta quarta-feira (25). O resultado da enquete será o voto de Almeida.

 

Os deputados vão decidir se o presidente deve ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção e formação de quadrilha. Como você sabe, será a segunda vez que o destino de Temer estará nas mãos do parlamento. Da primeira ocasião, os deputados decidiram não haver provas para afastar o presidente. Ao que parece, o resultado será o mesmo.

 

Não se pode negar: a iniciativa de Almeida de fato é original e provocou rebuliço no eleitorado. Agora, isso faz algum sentido? Temos aí um gesto de respeito e transparência no exercício do mandato? Vamos ver. Os congressistas decidirão sobre um processo, uma peça acusatória produzida pela Procuradoria Geral da República, ainda na gestão do aloprado procurador Rodrigo Janot.

 

Para dar seu voto contra ou a favor de Temer, o que é necessário para os deputados? Podemos especular várias coisas a respeito, mas um dado é obrigatório: eles precisam conhecer a denúncia que será votada. As acusações de Janot ao presidente formam um conjunto de 245 páginas, com depoimentos, transcrição de conversas gravadas, reprodução de documentos e fotografias.

 

Suponho que a maioria dos brasileiros não leu o que está na peça da PGR. Considero um tanto sem lógica transferir ao eleitor uma decisão como esta – que até pode ser política, mas, essencialmente, tem de ser técnica. Vamos imaginar que Almeida, cioso do mandato e consciente da decisão a ser tomada, já leu atentamente a denúncia. Se fez isso, acha que Temer é culpado ou inocente?

 

E há outra pergunta – pertinente – que os leitores fazem sobre o gesto do ex-prefeito: por que ele não fez o mesmo no afastamento de Dilma Rousseff e na primeira denúncia contra Temer? Para ser coerente, o parlamentar teria de ter aplicado nos casos anteriores os mesmos argumentos que apresenta agora no vídeo em que convoca os eleitores para sua enquete.

 

Lamento, mas o gesto de Cícero Almeida nada tem de democrático, como ele tenta nos convencer. É apenas uma jogada excêntrica cujo objetivo é tão-somente a tentativa de agrado para a arquibancada. Sem contar que a iniciativa revela uma boa dose de irresponsabilidade diante de algo tão grave para o país. Não será com essa gota de populismo virtual que teremos algum avanço.

 

Os políticos estão cada vez mais ensandecidos pelas redes sociais. Prefeitos e governadores tomam decisões pela internet assim como parlamentares legislam mais pelo teclado do que pelos trâmites do Congresso. É um festival de maluquices, um circo de demagogia cada vez mais amplo, com resultados absolutamente ridículos. Mas isso é outro assunto. Fica para depois.

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Deus é um cabo eleitoral decisivo

Nova pesquisa Datafolha confirma que Deus continua sendo um cabo eleitoral de peso entre a população brasileira. Por isso, candidatos devem ficar atentos a esse fator esotérico na hora de partir para a campanha. Se a crença no pai de Jesus não é garantia automática de voto, rejeitá-lo certamente vai reduzir as chances de êxito na boca da urna. A pesquisa saiu nesta segunda-feira.

 

O levantamento avalia especificamente a força dos evangélicos na eleição. Ironicamente, dois candidatos de perfis opostos – Jair Bolsonaro e Marina Silva – são os favoritos entre esse eleitorado particular. O dado paradoxal parece revelar o grau de irracionalidade numa escolha que se baseia em supostos valores religiosos. Definitivamente, não me parece algo saudável.

 

O índice mais eloquente na pesquisa, no entanto, é acerca da influência do Altíssimo sobre os eleitores. Nada menos que 52% da população afirmam que rejeitam qualquer candidato que se apresente como ateu. Um número nesse patamar sinaliza que o homem de pouca ou nenhuma fé, portanto, estará condenado ao fracasso se o eleitor desconfiar de sua descrença.       

 

A realidade confirmada pela pesquisa nos lembra de um caso antigo. Em 1985, bem antes de sonhar com a Presidência da República, Fernando Henrique Cardoso tentou se eleger prefeito de São Paulo, mas tropeçou na falta de fé. Em debate mediado pelo jornalista Boris Casoy, FHC caiu na armadilha ao falar sobre crença religiosa. Ateu, ele acabou se enrolando na resposta e se deu mal.

 

Não se pode garantir que o episódio tenha sido o fator determinante na derrota de FHC. Mas a verdade é que a repercussão provocou um estrago e tanto na campanha, ajudando o candidato adversário a disparar na reta final e levar a prefeitura paulistana. Hoje, parece até loucura, mas o vitorioso naquela ocasião foi o inclassificável ex-presidente Jânio Quadros.

 

Se mais da metade da população informa que sua escolha está atrelada ao dilema de ser ou não ser seguidor do Divino, é claro que cem por cento dos candidatos se apresentam como devotos desde criancinha. Todo mundo anda com um terço, vai a procissões ou vigílias e gasta boas horas do dia em compungidas orações. Se preciso for, em nome do voto todos pagam qualquer penitência.

 

Não bastasse o massivo apoio do eleitorado, como se sabe, Deus é brasileiro desde o princípio e não será boa coisa desafiar tamanho poder. Dizem que a cabeça do eleitor é imprevisível – e os fatos mostram que ele é capaz de tomar as decisões mais insanas. Mas quando o assunto é a reverência ao Senhor, não convém contar com a flexibilidade dos fiéis. Ateu é candidato ficha suja.

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A revolução russa, ontem e hoje

Pegando carona no centenário da revolução russa, editoras lançam um pacote de títulos, com variadas interpretações e diferentes enfoques sobre o movimento que mudou o mundo depois de 1917. É história que não acaba mais. E não poderia ser diferente. Para além de nossas opiniões sobre comunismo, marxismo e ideologias em geral, os acontecimentos de cem anos atrás ainda repercutem nos dias de hoje.

 

Desde os primeiros tempos da revolução, a literatura produziu incontáveis ensaios, biografias e romances para entender o impacto das transformações inéditas que varreram o planeta.  Nenhum outro levante político capturou tantos escritores e intelectuais para uma causa. Afinal, aqueles eventos cruciais seriam a materialização de uma fascinante ideia: inaugurava-se a utopia.

 

O triunfo dos ideais comunistas, que em última instância se traduziria no governo do proletariado, pareceu uma perspectiva arrebatadora aos olhos de artistas e pensadores, dentro e fora do território russo. Mestres incontestáveis da arte literária no século 20 dedicaram talento, atenção e engajamento em defesa do regime que enterrou a tradição da era czarista.

 

Impossível anotar uma lista completa de escritores que apoiaram ostensivamente os rumos políticos da Rússia marxista. Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Pablo Neruda e Graciliano Ramos são apenas quatro exemplos de autores que defenderam o novo regime como modelo de sociedade. Naturalmente cada um firmou posição com estilo particular e níveis variados de adesão.  

   

Dos nomes citados acima, Sartre talvez tenha sido o aliado mais fanático – e festivo – das ideias russas. Nosso Graciliano, bem a seu modo, foi um convertido de olhos abertos e senso crítico diante do que considerava equívocos nos desdobramentos do regime. Prova disso é seu extraordinário Viagem, livro que escreveu após um périplo pelos países comunistas em 1952.

 

Falei, no começo, do lançamento de obras neste ano do centenário da revolução. Mas um título grandioso sobre tudo isso que escrevo saiu no Brasil em 2016. No cardápio à disposição dos leitores, não há nada – nada mesmo – parecido com o livro O Fim do Homem Soviético, da escritora Svetlana Aleksiévitch, prêmio Nobel de Literatura em 2015.

 

As páginas da autora apresentam um painel desconcertante da Rússia de ontem e de hoje, a partir das memórias de diferentes gerações. Vai em busca não de heróis, mas de “um ser humano”, pois “é lá que tudo acontece”. Svetlana põe a velha literatura de não-ficção em novo patamar, colhendo entrevistas que nos trazem um monumental conjunto de personagens e relatos surpreendentes.  

 

Ouvimos histórias dramáticas, desesperadoras, na voz direta de homens, mulheres, jovens e velhos. Entre uma e outra fala, conhecemos seres que, diante da história de seu próprio país, se mostram contraditórios, revoltados, entediados, niilistas ou simplesmente resignados. Há quem despreze o legado leninista, há os que celebram os feitos do sanguinário Stalin. 

 

O Fim do Homem Soviético espana para longe a poeira de mistificações, rótulos e ideias feitas, para nos apresentar um verdadeiro mundo novo, a Rússia de agora, ainda tão visceralmente traumatizada por um fenômeno que explodiu há um século. “O comunismo tinha um plano insano: refazer o velho homem, o antigo Adão”, escreve a autora em sua obra.

 

A extinção do homo sovieticus – a expressão é da escritora – começou a partir do governo Gorbatchóv, mas seu fantasma parece assombrar a vida russa por todos os lados. Svetlana Aleksiévitch nasceu na Ucrânia, em 1948. A refinada qualidade de sua produção honra as tradições da literatura essencial que nos chegou daquele lado do mundo. 

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Subindo no telhado pra tocar guitarra

Tudo começou no dia 30 de janeiro de 1969, num endereço de Londres. Quatro elementos tiveram a ideia de tocar umas musiquinhas num lugar inusitado. Para arranhar suas guitarras, escolheram o terraço de um prédio – um feito jamais visto até ali na trajetória do rock. Eram os Beatles em fim de carreira. Aquela performance seria a última vez que o grupo se apresentaria ao vivo.   

 

Não houve aviso prévio da apresentação. Moradores e transeuntes perceberam, aos poucos, a cena inesperada. A plateia ia se formando entre um acorde desafinado e outro. Por trás da ideia aparentemente despretensiosa estava a gravação de um documentário que imortalizaria o evento. O show inesperado durou 42 minutos e acabou com a chegada da polícia.

 

Como toda iniciativa original, aquela também daria frutos estranhos ao longo do tempo. Por isso, nas últimas quase cinco décadas, toda semana uma bandinha qualquer, em qualquer parte do mundo, macaqueia o gesto do quarteto de Liverpool. Os mais exagerados garantem que, naquele dia frio para os londrinos, os Beatles inauguraram um gênero pop: música no terraço.

  

Não há escapatória. A exaustiva repetição de qualquer coisa – uma frase, um verso, uma música – fulmina o que antes havia de criatividade no ato inaugural. A diluição é o destino incontornável daquilo que veio primeiro. É assim na história das ideias e da arte. Após o impacto de algo radicalmente novo, seu autor tem um encontro marcado com a legião de imitadores.

 

Volto aos roqueiros. Sob a rentável inspiração dos Beatles, a banda irlandesa U2 também subiu no telhado para tocar. E o grupo não se satisfez com uma única experiência. A primeira vez foi no fim da década de 80, em Los Angeles, quase vinte anos após o quarteto de franjas. Em 2007, os liderados de Bono Vox voltaram a escalar um edifício, agora na mesma Londres.

 

Os irlandeses provam que música no terraço virou mesmo um gênero. É assim ao menos para a indústria do entretenimento, sempre ligadíssima em novas fontes de lucro – em sociedade com os artistas, é claro. O cenário no alto de um prédio, que um dia foi surpreendente, banalizou-se, virou item obrigatório em clips de medalhões do pop e de aspirantes ao estrelato.

 

De tão melancolicamente imitado, resta evidente que realizar um show no alto de um prédio deveria ser proibido por lei. Como prevê o Código Penal, trata-se de um crime continuado. Mas nada disso interessa à feitiçaria do marketing para turbinar as vendas do produto em questão. É por isso que neste domingo, aqui no Brasil, podemos ver uma banda no telhado. De novo, é o U2.

 

Para confirmar sua veia eternamente rebelde, o rock da banda irlandesa toca nos telhados da Rede Globo. Mais que isso, o show é exclusivo para o Fantástico. Como se vê, já perto de 50 anos, aquela invenção dos Beatles continua rendendo a única coisa que poderia render nos dias de hoje: uma sinfonia de oportunismo, cretinice e mediocridade. Pode cortar o som, que a arte está morta.

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