Nossas lideranças e a renovação política

É bastante revelador que justamente num governo como o de Michel Temer alagoanos ocupem tantos espaços. A última vez que isso ocorreu deve ter sido no curto mandato de Fernando Collor, pouco mais de dois anos e meio no cargo, entre 1990 e 1992. Temer, talvez o mais odiado presidente na história do país, identificado com a mais escrachada corrupção, abriu os braços para o notório talento – político e administrativo – de nossas lideranças estaduais. Pensando bem, faz todo sentido.

 

E o que andam fazendo essas respeitáveis lideranças nos cargos federais? Claro que estão trabalhando como nunca para que o país volte a crescer e, nesse embalo, ostente os melhores índices da economia global. Por isso, nossos ministros vivem passeando por Alagoas, com inaugurações e assinaturas de ordem de serviço para obras grandiosas. O melhor é que os nossos ministérios têm os maiores orçamentos na esplanada. Dinheiro não é problema.

 

Ao mesmo tempo em que se dedicam aos interesses do país, e de Alagoas em particular, nossos craques ministeriais aproveitam os cargos para se apresentarem como candidatos nas eleições gerais deste ano. Por isso, nos últimos meses, os ministros falam mais de alianças e parcerias partidárias do que em trabalho. Também isso é tão natural quanto a lisura e a transparência com que todos eles trabalham pelo Brasil. Só falta o seu voto para fechar a equação eleitoreira.

 

O que surpreende um pouco, frente a esse estado de coisas, são as análises apressadas que apontam para o “esgotamento” da classe política tradicional e o surgimento de algo radicalmente novo. Os fatos da vida real indicam que teremos o contrário, ou seja, a reafirmação da velha guarda – com ou sem um focinho repaginado na urna. E isso vale tanto para nossos candidatos paroquiais quanto para as opções na eleição presidencial. Mudança de estilo? Só se for no gel e no botox.

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O pacto entre Rede Globo e Judiciário

A edição do Jornal Nacional desta quinta-feira foi uma verdadeira homenagem ao STF, em particular, e ao Poder Judiciário em toda a sua extensão. Na reportagem sobre o fim do recesso na Justiça, assistimos a longos e sonolentos trechos do discurso da presidente do Supremo, Carmen Lúcia. Uma exaltação às qualidades de magistrados e tribunais, mas nenhuma palavra de autocrítica diante das mazelas que tornam nosso sistema judiciário algo vergonhoso. Tudo previsível.

 

E por que a TV Globo se empenha tanto, 25 horas por dia, em bajular a cúpula da Justiça, seja lá qual for a causa em debate? Nada de teoria da conspiração. Até porque, na Globo, ninguém perde tempo com coisas esotéricas. O jornalismo global se engaja em proteger a república das togas porque sabe que, em contrapartida, a emissora da família Marinho não será incomodada em mais de um caso de suspeita de corrupção e propina na empresa. O escândalo Fifa é a maior das encrencas.

 

Se Ministério Público Federal e Judiciário fizessem seu trabalho direito, executivos da Globo já poderiam estar presos. Mas o esquema corrupto na compra de direitos de transmissão de jogos, incluindo a Copa do Mundo, tem suas investigações engavetadas no Brasil. Quem investiga pra valer e prende marginais da cartolagem é a Justiça dos Estados Unidos. Por isso, Del Nero, o gângster que preside a CBF, não pode viajar ao estrangeiro; se o fizer, sabe que seu destino será a cadeia.

 

Não haverá mudança, mínima que seja, no tipo de cobertura que a Globo faz da crise política brasileira, tendo como protagonistas incontroláveis mentes do sistema judiciário. É uma relação de interesses mútuos, numa troca de favores em que os dois lados firmaram um pacto de não agressão, digamos assim. Será sob os termos desse acordão que teremos um processo eleitoral para escolha do novo presidente do país. Para ficar tudo cem por cento, vamos eleger Huck, o Lata Velha.

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Poder Judiciário volta ao batente com discurso falacioso

Depois do merecido período de férias, que aliás tem duração única entre todas as categorias profissionais do mundo, o Poder Judiciário volta ao batente a partir desta quinta-feira, primeiro de fevereiro, o mês do carnaval. Para marcar a data, houve aquela sessão solene no Supremo Tribunal Federal, com a presença dos chefes dos três poderes da República. Acontece o mesmo ritual a cada início de ano. E toda vez temos de engolir a mesma piada dos recados oficiais.

 

Em tempos de desenfreada interferência onde não deveria se meter, o Judiciário atropela a própria harmonia entre as esferas públicas, quando seu papel é garantir o equilíbrio no ambiente institucional. O que tivemos na sessão de hoje no STF, mais uma vez, foi um evidente sinal de que as coisas não têm chance de mudar de patamar. No discurso da presidente Carmen Lúcia, predominou o ataque a todo mundo – e nenhuma palavra sobre as próprias mazelas no planeta das togas.

 

A presidente Carminha poderia ter falado da pilantragem de coisas como auxílio-moradia para quem não precisa de auxílio nenhum, uma vez que já se beneficia dos salários mais altos na máquina pública. Diante da postura na cúpula do poder, o juiz Marcelo Bretas e outras centenas pelo país podem ficar tranquilos, montados em suas benesses em tudo indecentes. Pela disposição vista no retorno ao trabalho, pós-descanso, fiquemos tranquilos: a velha Justiça volta com tudo.

 

Não por acaso, o dado mais revelador no discurso da ministra Carmen Lúcia é uma jogada recorrente: a tentativa de se fazer de vítima. E lá vem aquele tom de suposta valentia para resistir às forças do mal que conspiram contra os patriotas alojados nos palácios que servem de tribunais. É um faz de conta, uma falácia para manter seus privilégios que afrontam um país marcado pela miséria. Nada mais enganoso. Como já escrevi aqui, perseguição ao Judiciário não passa de lenda urbana.

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Lula, favorito e à beira da prisão

A condenação em segunda instância, com o agravante de aumento da pena de nove para doze anos, não mudou nada. Ao menos é assim na cabeça do eleitorado que declara voto para Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o mais novo Datafolha, o ex-presidente segue em primeiro lugar, com até 37% das intenções. Sem ele na disputa, virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, Jair Bolsonaro lidera no primeiro turno. Mas o deputado perde no segundo turno em todos os cenários da pesquisa. Poucas novidades. Ainda assim, dados relevantes, que sinalizam para o mistério.

 

E o mistério mortal é saber quem será o candidato do PT após o mais que provável banimento de Lula pela Justiça Eleitoral. A prisão também parece algo iminente. Fora da urna, a pergunta em debate é se o ex-presidente tem o poder de transferência automática de votos. Futurologia. Qualquer prognóstico anda sobre uma instabilidade política hoje imprevisível. A atuação do Judiciário, da primeira instância aos tribunais superiores, atropela a Constituição com uma frequente e desdenhosa naturalidade. É quando o árbitro vira jogador, sem deixar de apitar.

 

Fora o panorama completamente incerto, no mais a pesquisa reapresenta praticamente o mesmo cenário do levantamento anterior, em novembro do ano passado. O que fica, com o atual quadro desenhado pelo Datafolha, é que nenhuma liderança parece surgir com fôlego para ocupar a ausência do petista Lula da Silva. E ainda ficamos diante de alternativas cem por cento erradas – como Luciano Huck e Bolsonaro. São duas tranqueiras que miseravelmente seduzem supostas vozes de uma suposta direita esclarecida. Por aí se atesta a decadência no debate político.

 

Para os tucanos, a situação também é dramática. Geraldo Alckmim e João Doria patinam lá atrás, sem perspectiva de algum avanço, principalmente no caso do prefeito da capital paulista. Lá do Norte, Arthur Virgílio vive atacando a candidatura do governador de São Paulo e defende prévias no PSDB para escolha do candidato a presidente. Virgílio se diz pronto para a briga. Ou seja, primeiro o tucanato terá de pacificar a própria casa. No geral, esperemos até a próxima pesquisa.  

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Campanha da Globo vira piada e expõe monopólio da informação

E aí, já gravou seu vídeo e enviou para a Rede Globo dizendo que Brasil você quer para o futuro? Não esqueça de gravar com o celular deitado, na horizontal, ok? Eu não sei o que é mais tedioso na campanha da emissora – se a repetição incessante da mensagem ou o didatismo de apresentadores e repórteres, que parecem se dirigir a um público de desmiolados. A iniciativa da Globo está sendo bombardeada nas redes sociais e em sites de notícias de grande audiência.

 

A essa altura, a coisa já é alvo de todo tipo de crítica e também – o que é muito melhor – de um festival de piadas. Segundo li, é imensa a quantidade de vídeos enviados à TV nos quais a própria Globo é esculhambada de todas as maneiras. A mensagem mais recorrente, com poucas variações na fala dos telespectadores, diz mais ou menos o seguinte: “Quero um Brasil no futuro sem as notícias mentirosas da Globo”. E olhe que essa é a versão mais leve no teor das gravações.

 

Santa inocência: a emissora parece que não contava com essa espécie de inversão de fatores, o que é, por razões óbvias, quase inexplicável. Boa parte do público atende à convocação, mas não do jeito obediente e passivo, que era o esperado pelos mentores da ideia. Muitos dos vídeos que disparam contra a Globo – e que não serão exibidos, é claro – estão no Youtube. O conteúdo oscila entre a revolta mais barulhenta e ótimas sacadas de ironia. Recomendo para quem ainda não viu.

 

A reação furiosa pelo país inteiro causou profundo incômodo na cúpula da televisão da família Marinho. Consta que a direção se arrepende de ter lançado a campanha, mas agora não há mais o que fazer. O jeito é fingir que está tudo lindo e usar os vídeos que se encaixam na proposta original. Mas pelo menos em um ponto a emissora recuou. O pedido para você gravar em local turístico mudou; pode mostrar problemas também – como as pessoas já fazem, sem pedir permissão.

 

Há um aspecto nisso tudo sobre o qual ainda não se falou até agora. E eu considero o dado mais grave. Mais uma vez, a Globo inventa suas marmotas e empurra goela abaixo de suas afiliadas. A Globo não é proprietária da TV Gazeta de Alagoas ou da TV Sergipe. Também não é dona da TV Verdes Mares ou da TV Bahia. Mas na prática a relação entre rede e afiliadas é exatamente a de proprietário e subordinados. A ordem chega de cima e, sem piscar, todos obedecem.

 

Veja se isso não é um monstrengo. Esse mesmo texto idiota, que manda você “gravar com o telefone deitado”, é dito por um César Tralli, em São Paulo, e repetido por um Amorim Neto, em Maceió, e centenas de jornalistas, em todas as afiliadas, do Paraná ao Acre, atravessando sertões e pantanal. Ou seja, o monopólio dos meios de comunicação – que é proibido por lei – é escancarado no controle de conteúdo exercido pela Globo. É assim há cinco décadas.

 

Ao tramar uma idiotice como esta campanha, a Globo simplesmente determina o que fazer aos diretores das afiliadas. Se algum desses diretores regionais ao menos questionar a ideia, já era: ou será enquadrado rapidamente ou perde o cargo. Eu vi isso de perto durante dez anos de trabalho no departamento de jornalismo da TV Gazeta. Sei do que estou falando. A autonomia do jornalismo das TVs ligadas à Globo é zero. Liberdade mesmo só existe para produzir baboseiras.

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Associação defende mamata para juiz

Nada mais previsível. A Associação dos Juízes Federais do Rio de Janeiro e Espírito Santo saiu em defesa do coleguinha Marcelo Bretas, depois que a Folha de S. Paulo revelou que ele recebe auxílio-moradia em dobro. Tratei do assunto no texto anterior. Bretas usufrui da mamata em dose dupla porque sua mulher recebe o mesmo benefício, embora habitem o mesmíssimo lar. A aberração é chocante, mas a categoria defende a safadeza com desassombro. São os heróis da ética.

 

E qual a linha de defesa adotada pela corporação dos magistrados? Ora, é claro que os senhores da moralidade alheia denunciam uma “constante campanha para tentar desmoralizar os juízes federais brasileiros”. Em nota, a associação afirma ainda que estão tentando “subtrair um direito” dos togados e “denegrir a honra” dos indefesos inimigos da corrupção no país. Ou seja, é a mais rasteira demagogia para justificar um privilégio inaceitável e indecente. Como disse, tudo previsível.

 

A esbórnia com esse penduricalho que aumenta o salário dos juízes federais será alvo de julgamento pelo STF. Por isso, a categoria anda tão nervosinha com o assunto. A turma está mobilizada para assediar o Supremo e impedir o cancelamento da benesse. O lamentável é ver esses senhores usarem o combate à corrupção para desviar o foco do que está em debate neste caso. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a não ser a manipulação grosseira dos fatos por parte dos privilegiados.

 

Estamos diante de um velho comportamento. Todos os dias algum juiz (ou promotor) acusa algum político de receber benefícios que, embora legais, são moralmente escandalosos. Mas, quando são eles, os togados, os premiados, aí não há o que contestar porque, afinal, está tudo dentro da lei. O rigor implacável da ética e da moralidade, portanto, vale para os outros. Eis aí uma das razões que fazem o Brasil ser o Brasil. Não vejo o menor sinal de avanço nessa tragédia nacional.

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Auxílio-moradia: legal e indecente

O bronzeado juiz Marcelo Bretas é a versão carioca de Sérgio Moro. No Rio de Janeiro, o valentão atua nos casos da Lava Jato. Bisonhamente, também dedica bastante tempo de sua rotina em postagens de autopromoção nas redes sociais. Numa dessas manifestações, fez pose com um fuzil, como se fosse o comandante de uma tropa de elite, pronta para disparar rajadas de bala contra bandidos em geral. Para inocentes, Bretas é um dos heróis no combate à corrupção no país.

 

Como sabemos, hoje em dia magistrados e membros do Ministério Público se apresentam como os moralistas de plantão, donos da consciência nacional, com autoridade para enquadrar todo aquele que andar fora da linha. Em duas palavras, essas categorias são a representação máxima de decência e honestidade. O problema é que, vez por outra, a realidade resolve atropelar a fantasia das excelências e, por baixo da austeridade togada, o que se vê é lixo.

 

Foi o que ocorreu agora com Bretas. A Folha de S. Paulo revelou em sua edição desta segunda-feira que a vestal recebe auxílio-moradia, mesmo com imóvel próprio e casado com uma senhora também juíza que, vejam a surpresa, também ela recebe o benefício. Resolução do CNJ veta esse pagamento em dose dupla ao casal de magistrados, uma vez que marido e mulher dividem a mesma moradia. É o óbvio ululante. Mas Bretas recorreu à Justiça e garantiu a mamata.

 

Diante do flagrante, questionado por algo indefensável, o juiz argumenta entre o cinismo e a hipocrisia: ganhou o direito ao privilégio abusivo por decisão judicial. É claro. Afinal, foi julgado por seus pares, também eles beneficiários dessa imoralidade que afronta os brasileiros. São os requintes de um sistema ajeitado para garantir o máximo a uma casta e nada para quem trabalha duro e honestamente. Criticar tal aberração pode ser uma ousadia perigosa.

 

E, mesmo com tudo isso, Bretas e colegas se arvoram em dar lições de moralidade a meio mundo, quando suas práticas são a tradução perfeita de uma escandalosa indecência. Isto sim deve ser combatido, mas, emparedados pelo ativismo judicial, demais poderes e instituições se calam, numa demonstração de evidente covardia.

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Campanha eleitoral na internet e a guerra pelo seu voto

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Pelo que se fala nos quatro cantos da imprensa brasileira, o maior cabo eleitoral em 2018 serão as redes sociais. E no campo de batalha virtual, de fato, a caça ao voto já começou faz tempo. Com os meios de comunicação tradicionais embasbacados com a gritaria na internet, a influência desse fenômeno definitivo será cada vez mais relevante. É mais ou menos por aí.

 

Uma novidade: a eleição deste ano é a primeira no país em que será permitida a propaganda paga na internet. Na prática, o candidato pode patrocinar o chamado impulsionamento de conteúdo, ou seja, pagar para que suas postagens em redes sociais se espalhem por um público muito mais amplo. É o que fazem empresas que hoje usam as redes para alcançar potenciais consumidores.

 

Isso aí é o mecanismo dentro da lei, permitido pela legislação após a minirreforma aprovada pelo Congresso Nacional no ano passado. Em tese, a Justiça Eleitoral terá os meios para acompanhar a aplicação da nova regra por candidatos e partidos. Pelo menos é o que garantem as autoridades. Políticos em geral já atuam nas redes com bastante desenvoltura. O que não quer dizer que isso seja necessariamente coisa boa. Na campanha, estarão ainda mais atuantes e abusados.

 

Agora, o que ninguém consegue controlar é a guerra suja nesse ambiente em que internautas podem tudo, xingam todo mundo e divulgam qualquer barbaridade, qualquer tipo de infâmia, como se fosse a mais inocente das verdades. Como impedir o trabalho delinquente em favor de candidatos? Aí as respostas são mais complicadas. Nesse caso, a lei está muito longe da realidade.

 

A cada semana surgem sites e perfis nas redes sociais cuja pureza se resume exclusivamente à aparência. Estão na verdade a serviço de grupos políticos que financiam tudo na moita. Os mais sofisticados na traquinagem, digamos assim, têm registro fora do país; é uma esperteza para dificultar a identificação dos responsáveis e escapar de eventuais processos na Justiça.

 

Seja como for, é a nova realidade para todos, e isso quer dizer que não adianta rejeitar o que é irreversível no avanço das tecnologias da informação. Como sempre, veremos o resultado dessa novidade na prática, quando a campanha começar oficialmente. Desconfio que, se o vale-tudo sempre imperou na briga pelo voto, agora é que a bagaceira tem tudo para ser avassaladora.

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A bagunça do vestibular da Uncisal

Defendi em texto anterior que o vestibular da Uncisal fosse anulado, após lambança patrocinada pela empresa contratada para organizar o concurso e aplicar as provas. Ainda não foi isso o que ocorreu, mas em pleno domingo, no plantão da Justiça, o juiz Antonio Emanoel Dória suspendeu as matrículas dos aprovados na segunda lista, depois que a primeira foi anulada pelo AOCP, o tal instituto paranaense responsável por toda essa bagunça. A decisão é em caráter liminar.

 

Parece óbvio que há uma montanha de dúvidas e suspeitas sobre esse processo de avaliação dos vestibulandos. Uma universidade não pode apresentar uma lista de aprovados num dia e, 72 horas depois, aparecer com uma nova relação, afirmando que, por “erro técnico”, estava tudo errado na primeira divulgação. Não há seriedade numa atitude como esta.

 

A liminar do magistrado atende a uma ação do advogado Pedro Accyoli, que representa um grupo de vinte candidatos aprovados na lista inicial, mas que não tiveram seus nomes confirmados na segunda listagem. Entendo que o advogado deve ter apresentado argumentos de peso para convencer o juiz a tomar sua decisão. Até agora temos de tudo nessa confusão, menos transparência – nem do lado da empresa e nem da parte da universidade alagoana.

 

Caso prevaleça o que pretendem a AOCP e a Uncisal – ou seja, ficando tudo como está –, o resultado do vestibular terá a mancha da suspeição como sua marca definitiva. Por isso, creio que o mais saudável, em todos os sentidos, seria um novo processo de seleção. E isso deveria ser feito, é claro, com outra empresa organizadora. Sei que os contemplados com a segunda lista se revoltam com esse ponto de vista, mas não dá para aceitar o mais ou menos correto. Ou é cem por cento ou não é.

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Ministério Público, pena de morte e forças de segurança

O procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, é simpático à pena de morte e defende que você tenha o direito de portar uma arma para enfrentar os bandidos. É o que ele diz em entrevista ao meu colega aqui do lado, o jornalista Luis Vilar. Considero as duas ideias pra lá de equivocadas, na contramão do que se entende como civilização. (Não se engane, a plataforma patriótica de Jair Bolsonaro tem seguidores também na gloriosa elite).

 

Não sou especialista em pena de morte e armamentismo, ao contrário do chefe do Ministério Público, um craque nos dois assuntos. Darei palpites. Primeiro, trato de outra declaração do procurador na mesma entrevista. Ele reclama da imagem que a população tem das “forças de segurança”. Vê uma campanha contra as polícias, algo decorrente, segundo ele, dos vinte anos de ditadura militar. Ou seja, há uma rejeição ao policial por culpa dos abusos nos governos fardados.

 

Faz todo sentido. Aliás, o diagnóstico de Alfredo Gaspar é algo batido na literatura a respeito do tema. Não há novidade nesse entendimento. Ocorre que o diagnóstico do procurador ficou pela metade. Faltou dizer que a filosofia dos trogloditas da polícia, com ou sem farda, mudou pouco, mesmo depois de mais de trinta anos do fim da ditadura. Nos quartéis, a coisa é mais grave.

 

No regime ditatorial, a jagunçada do Exército que agia acima da lei recrutou parceiros nas polícias estaduais (civis e militares), espalhando a rede de jagunços em todos os quadros dessas instituições. Isso fincou raízes que parecem intocáveis até hoje. O país mudou, mas a formação das tais forças de segurança continua ditando a mesma metodologia daquele tempo de trevas: “prende e arrebenta”.

   

Há exemplos pelo país inteiro, mas vamos ficar com o caso Alagoas. Pense em quantas vezes você leu, nos últimos anos, a seguinte manchete em nossa imprensa: Bandidos morrem em troca de tiros com a polícia. A recorrência desse tipo de notícia daria uma enciclopédia. O danado é que os mortos estão sempre na periferia, são miseráveis e pretos. Números oficiais provam o que digo.

 

Não sei por que essas operações nunca ocorrem nos bairros dos endinheirados, dos filhinhos de nossa elite, das coberturas à beira mar, nos arredores dos poderosos. Não. A bandidagem está na beira da lagoa e nos confins do Benedito Bentes. Lamento, mas a pena de morte existe sim no Brasil. E suas vítimas estão nessas populações que acabo de citar. Por isso, o povo tem medo da polícia.

 

O chefe do MP estadual diz que seria favorável à pena de morte “se os grandes corruptos fossem os primeiros a serem executados”. A afirmação revela apenas uma ideia populista, mas vamos levar a sério: e depois dos primeiros, doutor Alfredo, quem o senhor condenaria a partir da segunda lista de fuzilamento? (A propósito, o procurador é mais candidato do que nunca na eleição que vem aí).

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