Maceió estremeceu – e outros abalos

Terremoto e insanidade. Não sei se entendi direito. Autoridades querem uma investigação da moléstia para botar em cana eventuais responsáveis pelo tremor de terra registrado em Maceió no último sábado, dia 3. Até o governador se pronunciou nesse sentido. Morrendo de medo, os suspeitos devem estar escondidos em lugar inexpugnável – tipo as camadas de placas tectônicas!

 

Assalto e eleição. Desde que inventaram o sistema bancário e a escolha direta de políticos para representar a sociedade, a cada dois anos uma velha pauta retorna aos bastidores ideológicos: ataque a carro forte e a bancos, como se vê agora, é fonte de financiamento de candidatos. Que eu me lembre, isso nunca foi provado até hoje. Mas quem resiste a uma instigante suspeita?

 

Faroeste sertanejo. Numa mostra de incrível resistência cultural, duas famílias que tratam o município de Batalha como propriedade privada revivem, numa só tacada, a gloriosa tradição que amalgama coronelismo e pistolagem. Todos os envolvidos são organicamente íntimos da elite política alagoana – e não adianta disfarçar o indisfarçável. Diplomatas apuram os crimes.

   

Privatize já! Parece que houve a maior zoada em audiência sobre a privatização da Eletrobras, realizada nesta terça-feira em Maceió. Por coincidência, um dia antes, um apagão atormentou moradores de bairros como Trapiche, Vergel, Prado e Ponta Grossa. Durou das nove da manhã às quatro da tarde. Não vi nenhuma explicação da empresa. Tirem isso das mãos do Estado. Logo!

 

Celeiro alagoano. Informa meu colega aqui ao lado, o jornalista Luis Vilar, que o presidente do Partido Novo, João Amoêdo, visita Alagoas nos próximos dias. Costura apoios para sua candidatura a presidente. Com o discurso de “renovação”, ele nos deixa ansiosos para ver as “novidades” alagoanas que serão descobertas pela legenda. O resultado da peneira tem tudo para dar ao país um timaço.

 

Tudo pelo voto. O governador Renan Filho e o prefeito Rui Palmeira examinam – com lupa – o que de fato é prioridade a essa altura na gestão de cada um. O cuidado é compreensível, afinal os dois avaliam tudo segundo as demandas do calendário eleitoral. Com esse foco exclusivo, de nomeações a ordem de serviço, passando por aquisição de remédio, todo esforço é um aceno ao eleitor.

 

Agente duplo. Ainda que o sujeito seja adepto da filosofia antropofágica – que pregava a geleia geral em tudo –, há coisas que não se misturam. Um promotor de justiça, por exemplo, não pode ser advogado nas horas vagas. O mesmo vale para o exercício do jornalismo. Por isso, é nada menos que grotesco que alguém se apresente como “jornalista e publicitário”. O nome disso é pilantragem.

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Lula vai chegando à cadeia

Em mais um julgamento com resultado conhecido antecipadamente, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça negou habeas corpus preventivo em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para evitar sua prisão, a defesa entrou com o recurso após a condenação em segunda instância – no caso do apartamento que ele teria recebido de um suposto esquema de corrupção.

 

No julgamento desta terça-feira, de fato ninguém apostava nada numa decisão favorável do STJ. A essa altura dos acontecimentos, não há juiz, desembargador ou ministro que ouse contestar o arrastão da Lava Jato. Com a confirmação oficial do previsível veredito, Lula dá mais alguns passos na direção de uma cela. Há quem garanta que em até um mês ele será trancafiado.

 

Na edição desta semana da Veja, uma reportagem chega a detalhar como estão os preparativos na Polícia Federal para a operação que levará o ex-presidente à prisão. É bem verdade que a revista, assim como outros veículos, já cravou, mais de um ano atrás, que Lula seria preso naquela época – antes mesmo da condenação de primeira instância. A torcida era tanta que virou até piada.

 

Mas agora isso parece inevitável. A última investida da defesa do ex-presidente aposta tudo no Supremo Tribunal Federal. São muitas as pressões para que o STF reavalie a decisão do próprio colegiado que autorizou o cumprimento imediato de sentença após a segunda instância. Lembrando que tal decisão dá um tremendo drible no que diz a Constituição – algo que está na moda no país.

 

No jogo tresloucado das diferenças políticas, o fanatismo militante contra Lula e o PT gostaria mesmo que o velho sapo barbudo fosse levado à forca. Mas como o Brasil ainda não adotou pena de morte – como defendem bolsonaristas de todos os matizes –, a tropa tem de se contentar “apenas” com a cadeia. E tudo isso em pleno ano de eleição. O próximo capitulo do novelão será no STF.

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“A ousadia dos bandidos”

Uma igreja é alvo de ladrões durante a madrugada. Grupo de assaltantes ataca as vítimas no meio da tarde, em pleno centro da cidade. Agência bancária invadida por um bando fica a menos de cem metros de um quartel da Polícia Militar. Estudantes são assaltados dentro da sala de aula. Integrantes da quadrilha circulam livremente pelas ruas com armas pesadas, ameaçando moradores do lugar.

 

Todos os dias você lê ou escuta frases como essas que acabo de listar. Com alguma variação, o que vai no parágrafo acima são manchetes, títulos ou “chamadas” de reportagens que a imprensa publica com uma frequência infernal. Estamos no Brasil. E tão previsível quanto a recorrência do crime é a forma como o fato é divulgado pelos meios de comunicação. Parece até haver um manual.

 

A cada episódio de violência como esses, não há repórter ou editor que resista a um dos clichês mais repetidos na história da imprensa brasileira – e isso não é exagero. Refiro-me à sentença que diz assim: “A ousadia dos bandidos não tem limites”. Ou, numa versão ligeiramente modificada, diz o apresentador de TV e escreve o redator do jornal: “Bandidos estão cada vez mais ousados”.

 

Quando escrevemos, um dos problemas na rendição a fórmulas consagradas é a eliminação de parâmetros. Se o assalto a um templo religioso é uma ousadia do meliante, um roubo de cinco milhões de dólares – nas dependências de um aeroporto – seria o quê? Ousadia também? Sendo assim, os dois ataques se equivalem? Quais os critérios para classificação tão elástica?

 

A linguagem nos diferencia e nos define. Para cada situação, uma descrição específica, precisa e contextualizada. Um acontecimento não é igual a outro. Se embalamos tudo com a mesma ênfase desmedida, apagamos as particularidades de cada situação – e damos repercussão idêntica a realidades distintas. Embaralhando categorias e conceitos, confundimos o tudo com o nada.

 

Um dos desafios permanentes do jornalismo é vencer a tentação da facilidade. Aquela expressão chamativa, que parece se impor de maneira tão avassaladora sobre nosso pensamento, é a velha e diabólica armadilha do lugar-comum. Capturada pelo demônio do atalho facilitador, a reportagem estará inapelavelmente contaminada por esse mal de origem – e tanto faz como tanto fez.

 

Em níveis estratosféricos, é assim que se comporta a imprensa diante de qualquer assunto que, por alguma razão, vira notícia. Pode ser por preguiça ou por deficiência na formação. Pode ser a pressa para sair na frente ou a aversão à leitura. As causas da tragédia são diversas, mas certamente as que acabo de citar estão entre as mais comuns. E não se vê sinal de mudança no panorama.

 

Já escrevi aqui sobre esse gosto depravado pelo chavão que domina o texto da imprensa. Volto ao tema porque é algo a ser combatido diariamente. E também porque essa encrenca é uma obsessão antiga do blogueiro. Se a ousadia da bandidagem “é cada vez maior”, suspeito que nós, jornalistas, somos qualquer coisa, menos ousados. E olhe que nem falei do bandido “fortemente armado”.

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Quando a publicidade oficial não passa de puro estelionato

A lei proíbe a propaganda antecipada de quem deseja ser candidato em eleições no Brasil. Em caso de violação dessa regra, a candidatura pode ser cassada. É justo. E, que eu saiba, ninguém contesta que assim seja. Pensando nisso, acho que uma lei semelhante deveria impedir que gestores públicos – presidente, prefeitos e governadores – praticassem essa farra de publicidade sobre obras que, muitas vezes, não passam de esboço em maquetes virtuais. Daria uma boa economia de gastos.

 

Entre incontáveis exemplos dessa tradição bizarra, vejam o caso da duplicação da BR-101. O projeto foi lançado há mais de uma década – e ainda não está completo, como se pode ver no percurso alagoano da rodovia. Mas, se a obra está inacabada há dez anos, dinheiro para publicidade nunca faltou durante todo esse período. Quanto terá sido torrado para fazer carnaval em cima de algo que simplesmente ainda não existe? Não vejo explicação lógica e aceitável para isso.

 

Outros casos. Como ocorre no país inteiro, governo de Alagoas e prefeitura de Maceió são pródigos em vender incríveis realizações – projetadas, mas não concretizadas. Hospitais, viadutos, revitalização de orla lagunar e até um marco para o turismo na capital, todo esse pacote aparece, ou já apareceu, em farta divulgação. E, como em outras situações, nenhum desses projetos que acabo de citar tem previsão de entrega. Enquanto isso, o marketing vai queimando barcas de dinheiro.

 

Portanto, com a mesma lógica da regra eleitoral, que seja vetada a propaganda antecipada de maravilhas que, na vida real, ainda não são visíveis. Feito o anúncio ou a promessa de uma obra, a publicidade somente deveria ser autorizada quando o prometido fosse entregue à população. Além do mais, apresentar ficção como verdade, de olho em dividendos políticos, é praticamente um estelionato. A corriqueira prática também indica pleno desprezo pela ética nesse mundo oficial.

 

Parece uma ideia radical, mas não é. É racional e factível, sem qualquer dificuldade ou prejuízo para a administração do serviço público. Claro que, se depender dos gestores no cargo, isso jamais será adotado. Eles levam ao extremo aquela máxima cretina segundo a qual a enganação – ou seja, a publicidade – é mesmo a alma do negócio. Enquanto isso vigorar, andamos para trás.

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O candidato a presidente favorito entre artistas e modernosos

Perguntei a um professor do Instituto Federal de Alagoas, pessoa de quem sou próximo, o que ele pensa da candidatura de Guilherme Boulos a presidente da República. Sua resposta: “Tem esse também? Nunca ouvir falar. Quem é?”. Suspeito que a desinformação de meu interlocutor sobre a figura em questão está longe de ser um caso isolado. O brasileiro desconhece o candidato.

 

Boulos é o presidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. O MTST nasceu em São Paulo e hoje promove ocupações generalizadas de prédios na capital paulista. Também é dado a bloquear rodovias. Mas a entidade é muito mais que isso. Em pouco tempo, se transformou numa frente de militância cuja meta principal é a conquista do poder político.

 

O pessoal mostra ousadia e disposição para a guerra. Na página do movimento na internet, o MTST informa que seu grande objetivo é combater “o capital e o Estado que representa os interesses capitalistas”. Para o grupo, somente o socialismo serve ao país. Lá estão descritos também os métodos de atuação em defesa da causa. Sem exagero, parece uma cartilha stalinista.

 

Mas, num seleto eleitorado, formado por artistas e celebridades, o ibope de Boulos é de cem por cento. O lançamento da candidatura contou, entre outros, com Caetano Veloso, Wagner Moura, Sônia Braga, Mônica Iozzi e Paula Lavigne. Essa patota, aliás, costuma promover reuniões políticas no apartamento de Caetano, para traçar os rumos do que se pretende uma ação revolucionária.

 

Se aquele meu interlocutor não conhece Boulos, menos ainda sua parceira escalada para ser candidata a vice na chapa. Trata-se de Sônia Guajajara, a líder indígena que dividiu o palco com alguma inutilidade pop durante o Rock in Rio do ano passado. A ideia é vender a imagem de um bloco antenado às demandas dos “povos excluídos e marginalizados na sociedade”.

 

O presidente do MTST não veio da periferia, muito menos da pobreza. O homem nasceu em família rica, nunca trabalhou na vida e sempre usufruiu da mesada dos pais – certamente dois miseráveis capitalistas. Seduzido pelos ideais de rebeldia e contestação – princípios que pululam na modernosa balada paulistana – Boulos aderiu à guerrilha aventureira. Pensou em Esquerda Caviar? É por aí.

 

O pré-candidato e sua vice ainda vão se filiar a um partido para poder concorrer. A legenda escolhida é o glorioso PSOL. A partir daí, é contar com o exército de intelectuais e de astros de cinema, música e TV para deslanchar a campanha. Quanto ao povo – que desconhece tudo isso –, naturalmente será convencido pelo poder de persuasão dos artistas. É o que pensa a trupe.

    

Como nada existe por acaso, os delírios políticos dessa rapaziada têm história. Ao longo do século 20, no Brasil e mundo afora, sobram exemplos de períodos nos quais estrelas do ambiente artístico se autoproclamaram representantes dos trabalhadores. Só esqueceram de combinar justamente com esses mesmos trabalhadores. É o que temos com a dupla Boulos-Guajajara.

 

Por que é assim? Porque a esquerda puro-sangue jamais abandonou a ideia de que o povão precisa de iluminados para guiá-lo. É essencial doutrinar as massas para tirá-las da alienação e reinventá-las como “agentes da transformação”. Ora, na base desse pensamento está um completo desprezo pela “classe” que esses revolucionários dizem representar. Não há novidade nesse cacoete.

 

Caetano Veloso é um monstro como cantor e compositor. Wagner Moura é um ator mais ou menos. Mônica Iozzi é dublê de atriz, de humorista e de apresentadora de televisão. Cada um no seu quadrado tem uma obra que vale quanto pesa. Como pensadores políticos, valem um trocado. 

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A compra de deputados e senadores

Vai começar oficialmente o leilão para a troca de partido de olho nas eleições de outubro. Entre 7 de março e 7 de abril temos a “janela de transferência”, período de 30 dias para os detentores de mandato mudarem de legenda, se assim desejarem, dentro das normas do processo eleitoral. E exatamente como se dá na janela do futebol europeu, as cifras são milionárias.

 

Às vésperas do início do prazo para a migração partidária, os corredores do Congresso Nacional vivem dias de agitação e nervosismo. Os lances pelo passe de deputados e senadores são vultosos. É o que já mostraram, por exemplo, reportagens na Folha e no Estadão. Em meio a escândalos de corrupção, o dinheiro segue decidindo a parada.

 

Os parlamentares são assediados por representantes de várias siglas com a oferta tentadora para a mudança de filiação. A verba está garantida pela fortuna a que as agremiações têm direito como fundo partidário. Segundo os relatos, a abordagem é escancarada. Os alvos são praticamente caçados a laço pelos mercadores da política brasileira. Os negócios correm soltos.

 

Partidos buscam principalmente os potenciais puxadores de voto. Com as novas regras, ninguém quer correr o risco de não alcançar a votação necessária para garantir a sobrevivência e o acesso ao tal fundo. É o que prevê a chamada minirreforma aprovada no ano passado. A agressiva tática para pescar novos filiados com mandato já provoca briga entre os gigantes do jogo eleitoral.

 

Os fanáticos pelo arrastão da Lava Jato venderam a profecia de que as operações policialescas mudariam tudo na atividade política. Ainda segundo esse mesmo raciocínio, os efeitos das denúncias e as prisões em série fariam o eleitor banir da vida pública os corruptos do Congresso. Sendo assim, haverá então uma renovação radical do parlamento quando as urnas forem abertas.

 

Nem uma coisa nem outra. Os métodos de cooptação continuam os mesmos, com a explícita compra de deputados e senadores; e pesquisas já indicam que a tendência mais provável é de que a maioria na Câmara e no Senado seja reeleita. Parece, portanto, que a força bruta policial, em parceria com o Ministério Público, pode ser capaz de tudo, menos de melhorar a política.

 

Confesso que não sei se há, neste momento, parlamentares alagoanos em negociações para trocar de partido. O que sei é que estamos nas cabeças entre os líderes de bancadas que trabalham para fortalecer suas tropas. Vamos torcer para que nossas lideranças estejam trabalhando sem fazer propostas, digamos, antirrepublicanas. Seja como for, a casa de leilão já abriu o expediente.

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Para manter privilégios imorais, juízes anunciam greve no Brasil da saúva

Juízes federais estão à beira de uma greve, na defesa de mamatas como o auxílio-moradia e outros penduricalhos que elevam os rendimentos da patota às raias da pornografia. A postura simplesmente ignora o que está na Constituição, que estabelece o teto salarial no serviço público. É escandaloso, mas a rapaziada não está nem aí para o mínimo de decência que se espera de magistrados. O absurdo é o retrato de uma cultura da boçalidade no coração de uma elite desprezível.

 

Se os interesses imorais de uma categoria prevalecerem sobre a letra da lei, estaremos diante de uma prova cabal, exposta à lua do sol, de que o “Brasil passado a limpo”, como apregoam os arautos da Lava Jato, não passa mesmo de uma piada. É inacreditável que, após a revelação de incontáveis casos de abuso na concessão dos tais auxílios, associações de juízes venham a público defender o indefensável. E os togados ainda querem posar de vítimas do jornalismo.

       

Desde que os pagamentos imorais começaram a ser publicados pela imprensa, proliferam textos de dirigentes dessas associações – não para dar explicações aos brasileiros, como deveria ser feito, mas para exigir a manutenção dos privilégios e atacar a divulgação dos fatos. É o de sempre: para esse tipo de gente, imprensa que serve é aquela que silencia diante das causas ilegítimas de suas excelências. Acostumados a agir sem dar satisfações a ninguém, juízes decidiram ganhar no grito.

 

A infame iniciativa da greve pretende emparedar nada menos que o Supremo Tribunal Federal. O corporativismo atávico quer impedir que o STF elimine a farra da liberação sem controle desses benefícios. Será um ótimo teste para a presidente do tribunal, Carmen Lúcia, e demais membros da Corte. Um teste difícil, afinal entre os beneficiados que driblam a lei estão Sergio Moro, Marcelo Bretas, Deltan Dallagnol e meio mundo de heróis da Lava Jato. É muita presepada.

 

Recorro àquela mistura de lugar-comum e folclore nacional que dizia o seguinte: ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Que o Supremo faça o que tem de ser feito para nos livrar da saúva que veste capa preta e se acha acima de todos. Caso contrário, sugiro até que suspendam as eleições e se proclame logo a República das Togas. Que os abnegados membros do Judiciário continuem fazendo fortuna num país de miseráveis. Afinal, temos uma Justiça impecável.

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A volta do mitológico Jornal do Brasil

Nada menos que na contramão da realidade, o Jornal do Brasil voltou a circular. Está nas bancas do Rio de Janeiro, sua casa desde o nascimento, há 127 anos. Circula também em Brasília e São Paulo. A versão impressa saiu de cena em 2010, quando já não era nem a sombra do mitológico JB.

 

É difícil imaginar o que pretendem os novos donos do jornal, num cenário completamente hostil àquilo que a maioria considera um hábito ultrapassado, coisa de velho, de gente careta: a leitura no papel.  Se os profetas preveem até a morte do livro, o que dirá de notícia impressa!

 

Revistas e jornais resistiram ao rádio e à TV, mas entraram em colapso com o advento da internet. As grandes marcas, no Brasil e no mundo, enfrentam uma guerra de sobrevivência há vinte anos – coisa que se tornou dramática nas primeiras décadas do século 21. E o drama só aumenta.

 

Jornais impressos morrem todo dia. Sem anunciantes, e com a debandada de leitores, a decisão mais comum é a migração para o ambiente virtual. Aliás, é o caminho natural, dos pequenos grupos aos gigantes da imprensa. Todos investem para garantir vida nova na rede mundial.

 

Monstros sagrados da imprensa e da cultura brasileira fizeram a história do velho JB. Alberto Dines, Jânio de Freitas, Elio Gaspari, Carlos Castelo Branco, Bárbara Heliodora, Millôr Fernandes, Clarice Lispector e Ferreira Gullar estão entre os textos que honram a trajetória do jornal.

 

No campo cultural, há um consenso quanto ao pioneirismo e à excelência do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Foi o caderno que se tornou referência obrigatória para quem buscava informação de qualidade sobre o que havia de mais relevante no mundo das artes.

 

Foi a partir do SDJB que se firmou a ideia de um espaço exclusivo para reportagem, resenha e crítica sobre literatura, cinema, música e teatro. Vem daí a proliferação dos chamados Caderno B, Segundo Caderno ou Caderno 2. Estão aí até hoje nas publicações que resistem ao tsunami.    

  

Pode ter certeza: boa parte do que há de mais moderno em nosso jornalismo surgiu primeiro nas páginas do JB. Em 1959, o veículo mudou tudo na apresentação de notícias, com uma verdadeira revolução editorial e gráfica. Suas sacadas foram adotadas por toda a concorrência.

 

As guerras políticas envenenam interpretações sobre o significado da imprensa e do jornal em particular. Em defesa de cartilhas ideológicas, joga-se tudo no mesmo balaio, numa visão simplista, e muitas vezes burra, sobre jornalismo. É o que fazem professores nas universidades.

  

A retomada da circulação do JB, claro, não representa a volta daquele jornalismo praticado em suas páginas no passado. Impossível. Pela internet, vê-se que a edição é magrinha, longe do catatau de cadernos de antes. Além disso – tremenda ironia –, o projeto gráfico é ultrapassado.

 

Nada de saudosismo, essa praga que arrasta até mocinhas e rapazes com menos de 30 anos de vida. Falo aqui de leitura, texto, cultura e história. Por isso, digamos que exalto essa irrelevância – como a maioria deve pensar –, que é a volta do JB no papel. É como se fosse uma resistência à barbárie. Ou seja, uma causa irremediavelmente perdida.

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Lula à porta da cadeia, tucanos e PT

Todos os dias, um número incalculável de jornalistas, analistas políticos e palpiteiros em geral escreve na imprensa sobre os rumos do PT e, principalmente, sobre o destino eleitoral de Lula. É chute pra todo lado, mas a maioria tende a concordar num ponto: o ex-presidente está fora da eleição. Sobre a prisão, aí parece haver ainda alguma dúvida na cabeça de uns poucos. Seja como for, do jeito que as coisas correram até agora, o futuro próximo é sombrio para Lula.

 

As perguntas sem resposta abrem uma avenida para especulações de toda ordem. Sem Lula, quem será o candidato petista? O PT pode apoiar um nome de outra legenda? Sendo preso, Lula é um cabo eleitoral mais fraco ou mais forte? Eventual mobilização nas ruas é algo provável ou não? Impedido de se candidatar, pela Lei da Ficha Limpa, Lula apoiará um petista do núcleo duro do partido ou pode sacar um novo “poste” – como Dilma Rousseff nas eleições de 2010?

 

Ao falar sobre tudo isso em entrevista exclusiva à Folha de S. Paulo, o ex-presidente se recusa a contemplar qualquer hipótese que não seja sua própria candidatura. Diz ter certeza de que o STF mudará a decisão de Sergio Moro e da segunda instância e, assim, ele estará livre para brigar nas urnas. É claro que essa é a postura de quem não quer jogar a toalha. E é por essa razão, bastante óbvia e previsível, que ele trata os fatos como se estivesse flutuando, acima da realidade.

 

Enquanto o cenário definitivo sobre Lula não estiver legalmente desenhado, os dilemas e as incertezas tornam o ambiente no PT, e na esquerda em geral, cada vez mais tenso. Por isso, a três por quatro as lideranças nesse campo – algumas com intenção de se candidatar – trocam bordoadas entre si. PDT, PC do B, PSB, Rede e PSOL, por exemplo, atiram contra todos, mordem e sopram o lulismo e se mostram tão perdidos quanto o próprio PT.

 

Na entrevista à Folha, Lula está eloquente, fala com uma tranquilidade que não combina com a situação de um homem acossado, na iminência de ser preso. Entre uma ironia e outra, ele diz algo que, embora não seja uma grande descoberta, chama atenção para um dado que não vi entre aqueles incontáveis analistas: “Pela direita, ninguém será presidente sem o apoio dos tucanos. Pela esquerda, ninguém será presidente sem o PT”. Segundo o que aí está, a observação faz todo sentido.

 

Na pergunta seguinte, o entrevistado resume de maneira ainda mais simples e direta o que acha que teremos em outubro nas urnas. “Eu, se entendo um pouco de política, vou dizer uma coisa: a disputa deverá ser outra vez entre tucanos e PT”. De política, Lula de fato entende bastante, e isso não dá para negar. Então, pode-se até dizer que estaremos entre três opções na hora do voto: um tucano, um petista e um bolsonarista. Se você queria novidade, o panorama é esse.

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Nossas universidades públicas e uma disciplina sobre o “golpe” de 2016

Será que a Universidade Federal de Alagoas vai criar, nos cursos de ciências humanas, a disciplina que acaba de ser criada pela Universidade de Brasília? Como o leitor deve saber, estou falando da decisão tomada pela UnB, e já seguida por outras universidades, de instituir uma nova matéria para seus estudantes, cujo título entrega o que será ensinado: O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil. A iniciativa prova que, na academia, a militância de esquerda não tem limites.

 

Eu disse “esquerda”, mas talvez o mais correto seja falar em militância partidária. E praticar doutrinação em nome de preferências por partidos políticos, nas bancas universitárias, é um equívoco mortal. É preciso entender, porém, que a invencionice da UnB está longe de representar uma grande surpresa. Justamente pelo perfil que sempre tiveram as universidades públicas, é cem por cento natural que tenhamos agora uma disciplina para aplicar lições sobre as ideias do PT.

 

Tenho certeza de que neste momento alguns professores da Ufal já discutem os caminhos para seguir a trilha da UnB. É bem provável que o mesmo ocorra em nossa universidade alagoana, a Uneal. Aliás, nesta última, suspeito que até a Reitoria esteja engajada na causa. Como disse, tal postura é natural, está na alma “progressista” dos intelectuais que dominam o ambiente universitário. Primeiro, as ideias da minha turma; depois, também.

 

Na Ufal, além das ciências sociais, aposto que o Departamento de Comunicação – onde fica o curso de Jornalismo – deve estar animadíssimo com a ideia da disciplina sobre o “golpe”. Por lá, sempre houve a maior concentração de petistas por metro quadrado de Maceió. E para ministrar a matéria, não haverá problema, afinal professores já fazem na prática o que a ementa prevê: propaganda das ideias alinhadas ao PT e companhia. Sem dúvida, vamos formar militantes aguerridos.

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