40 anos no PC do B e 8 meses no PSB: Aldo Rebelo surpreende

Foi uma das passagens mais rápidas de um filiado por um partido político que já se viu na história do país. O alagoano Aldo Rebelo, que foi ministro nos governos Lula e Dilma, e que já presidiu a Câmara dos Deputados, trocou o PSB pelo Solidariedade. Rebelo entrou no Partido Socialista Brasileiro em agosto do ano passado, e acaba de anunciar sua nova legenda a partir de agora. Com a troca, portanto, ele deixa a sigla anterior após oito meses na casa. Valeu-se da janela de infidelidade.

 

O movimento de Aldo Rebelo chama atenção por outro detalhe também nada trivial. O PSB foi apenas seu segundo partido em toda a trajetória de atividade partidária. Sim, porque no PC do B, sua estreia como comunista de carteirinha, ele ficou durante 40 anos. Filiou-se no fim dos anos 1970, como tantos jovens saídos direto do movimento estudantil para a política profissional.

 

É ou não é uma coisa no mínimo curiosa? Após nada menos de quatro décadas no primeiro partido da vida, ele vai para nova agremiação antes de completar sequer um ano entre os novos companheiros. O Solidariedade é comandado pelo deputado federal Paulinho da Força, que surgiu no sindicalismo de São Paulo e fez carreira como dissidente da CUT e do petismo em geral.   

  

Rebelo deixou o PC do B e, agora, deixa o PSB pelo mesmo motivo. É que ele acalenta o sonho de ser candidato a presidente da República. Os comunistas, como se sabe, escolheram a admirável Manoel d’Ávila para essa missão. E os socialistas acabam de receber como filiado Joaquim Barbosa, o impaciente e instável ex-presidente do STF, que também é presidenciável. Rebelo foi preterido.

 

O próprio ex-ministro dos governos petistas informou, pelo Twitter, sua motivação para a troca de legenda: Impossibilitado de acompanhar a manifesta inclinação da direção partidária pela candidatura do ilustre ministro Joaquim Barbosa, comunico meu afastamento do PSB. Foi claro e direto. De todo modo, ele ainda não sabe se o Solidariedade vai mesmo lançá-lo candidato.

 

Sobre tudo isso, a Folha de S. Paulo traz outra informação bem estranha – se você ainda acha que isso é possível quando se trata de política: Rebelo pode acabar sendo vice numa chapa com o deputado Rodrigo Maia (DEM) como candidato ao Planalto. Seria o casamento do comunista com o conservador – também se você acredita mesmo nessas feitiçarias ideológicas. É do jogo, dizem.

 

O alagoano, ainda segundo a Folha, pretende percorrer o Brasil para testar seu potencial como concorrente à Presidência. Somente após o passeio nacional, o partido e o novo filiado decidirão o melhor caminho a seguir. No resumo do caso, o que mais chama atenção mesmo é a temporada meteórica de Rebelo no PSB. Com isso, ele ficou um pouco mais parecido com os iguais da política.

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As prefeituras alagoanas e o “quintal” dos donos do poder

É algo inconcebível para os dias de hoje. Era uma organização criminosa que meteu a mão com força no dinheiro do povo. Uma organização com a participação de familiares do prefeito, que transformou a prefeitura no quintal da casa dele. São palavras do procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, ao explicar a operação que prendeu seis acusados de corrupção em Mata Grande, município sertanejo de Alagoas. A especialidade do bando era a fraude em licitação.

 

Segundo o chefe do MP, apenas com o negócio fraudulento na licitação de veículos foram desviados 12 milhões de reais. As investigações do Ministério Público apontam o ex-prefeito Jacob Brandão como líder do trambique. Com prisão decretada, ele está foragido, assim como seu irmão Júlio Brandão, ex-presidente da Câmara de Vereadores. Tudo em harmonia familiar.

 

E esse é o ponto que vale algumas palavras a mais. O procurador-geral recorre a uma expressão que de fato traduz bem o caso. O grupo Brandão & Cia. Ltda., com os métodos consagrados ao longo da história alagoana, parece ter transformado a prefeitura no quintal da rapaziada. Agora, se isso é algo inconcebível, como diz Alfredo Mendonça, sabemos que continua em vigor nos dias de hoje, do mesmo modo que foi no passado. Aliás, a prática é inaceitável e criminosa em qualquer época.      

 

Um rápido passeio pelos sobrenomes nas prefeituras do interior do estado, e o desalento cai sobre o dublê de pesquisador. É tudo dominado pelas mesmas famílias, desde que o mundo é mundo. E não apenas na distante paisagem do Sertão. As capitanias hereditárias estão bem pertinho da capital também, ao longo do litoral e se espraiando pelo verde da Zona da Mata.

 

De pai para filho, a linha sucessória contempla irmãos, tios, sobrinhos, netos e todo aquele que ostenta a credencial indispensável ao poder: os laços de sangue. E não vamos esquecer que os mesmos critérios estão ainda no Legislativo e no Judiciário. Princípios civilizatórios como impessoalidade, entre os poderosos de Alagoas, são tão desconhecidos quanto vida extraterrestre.

 

Na quase totalidade das 102 prefeituras, um bom número dos titulares no secretariado tem o mesmo sobrenome do prefeito. E olhe que a prática de nepotismo está barrada por lei. Mas secretário é cargo de confiança, de caráter político. Por essa brecha, meu amigo, entra a cambada inteira. Tragicamente, o horizonte sempre será de miséria enquanto vigorar esse resistente descalabro.

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Rebeldia na tropa da Polícia Militar tem motivação político-eleitoral

Natália Cerqueira/CM 973fb17d 2426 44cc 8e01 520990fe6f00

Ao ler as notícias sobre ameaça de aquartelamento na Polícia Militar, quase fico assustado com o número de associações que dizem representar a categoria, em todas as suas patentes. Pelas minhas contas, estão entre sete e oito os grupos que falam em nome das reivindicações de soldados, cabos, sargentos, subtenentes, oficiais e coronéis – na PM e no Corpo de Bombeiros. Esse universo contempla a massa da ativa e os militares da reserva. Em termos de “representantes”, a tropa vai bem.

 

Vejo as imagens das manifestações dos líderes. Observo as fotos e os vídeos em que eles falam sobre as ações para forçar o governo a dar o reajuste que estão cobrando. Aí a coisa fica um tanto esquisita. Lá estão figuras carimbadas da velha guerra política, com histórico nada saudável ao longo dos sucessivos governos. Tais associações são controladas, lamento, por gente mais afeita à politicagem do que à defesa real dos trabalhadores de farda. O interesse político é o que prevalece.

 

A ofensiva raivosa deflagrada agora está diretamente ligada ao período eleitoral, e isso também é de se lamentar. Vários dos líderes dos “sindicatos” dos militares tentam, a cada dois anos, um mandato de vereador ou de deputado. Fracassam com uma recorrência que diz muito da confiança que desfrutam no meio daqueles que realmente encaram o duro trabalho nas ruas. Sim, porque muitos dos presidentes das associações nem farda vestem mais; são apenas burocratas.

 

Todo movimento grevista tem uma dimensão política, é claro. Mas, nesse caso, há uma deliberada articulação para agir em ano de eleição, no qual o governador Renan Filho tenta renovar o mandato. Por isso os cabeças da agitação vociferam palavras de ordem que beiram o estímulo a atos mais graves. Num dos vídeos, um coronel da reserva que comanda uma associação diz que vão partir para o radicalismo, “dê o que der”. O que isso significa? Estão dispostos ao motim?

 

As reivindicações estão dentro do razoável? O índice de reajuste é merecido? Parece que ninguém duvida disso. O problema é a instrumentalização das demandas, realmente legítimas da tropa, por uma turma mais preocupada em ganhar uma guerra política, e derrotar o governador. Pelo tom dos líderes do movimento, é isso o que temos. Cabe ao governo ter habilidade para negociar, com seriedade e transparência. Não pode jogar no mesmo nível das provocações que recebe.

 

Para fechar, o balaio de associações que partiu para o ataque não age de maneira unida além dessas ocasiões. Muito pelo contrário, os grupos vivem brigando entre si para ser o “verdadeiro” representante da tropa em seus variados graus de hierarquia. Agora mesmo, o lançamento de uma candidatura a deputado provocou a maior confusão, gerando acusações entre uma associação e outra. Reitero: interesses políticos de poucos estão no centro da rebeldia na Polícia Militar.

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Quem quer ser “Lula” ou “Bolsonaro”?

Nossos representantes em todas as esferas da política não conhecem limites para a comédia e a cretinice. A última presepada de políticos é essa história de alterar o nome de registro nas casas legislativas, para incluir a palavra “Lula”, “Bolsonaro” e até a expressão “Lava Jato”. Por exemplo, o senador Lindbergh Farias solicitou que no painel do Senado seu nome apareça, a partir de agora, assim: Lindbergh Lula Farias. Seria ao mesmo tempo um protesto e uma homenagem.

 

A coisa toda começou com os petistas, não apenas em Brasília, mas em Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais pelo país afora. A ideia é marcar posição em defesa do ex-presidente Lula, preso em Curitiba desde o sábado passado, dia 7. Bastou alguém aparecer com tal iniciativa, e vereadores e deputados estaduais começaram a formalizar o mesmo pedido em seus redutos e paróquias eleitorais. A princípio, não há impedimento legal para a demanda.

 

Depois que parlamentares do PT lançaram essa estratégia de nomenclatura, digamos assim, adversários da esquerda e inimigos mortais de Lula reagiram com a mesma arma piadista. Aí vem o patético de querer adotar o verbete Bolsonaro no sobrenome. E que tal se chamar Zezinho Pereira da Lava Jato Gomes? Pois há esses também, loucamente apaixonados pela seita beligerante nascida no Paraná. Aliás, é claro que não faltaria quem deseje encaixar “Moro” no meio do sobrenome.

 

Não procurei saber quantos de nossos valorosos representantes, aqui de Alagoas, já se manifestaram pela mesma ideia. Como a causa do fenômeno é a guerra em torno do ex-presidente Lula, imagino que a essa altura muita gente deve querer alterar seu registro nominal nas Câmaras e no parlamento do Estado. Uma sacada de tal dimensão ganha adeptos rapidamente. Tenho certeza que logo saberemos de conterrâneos rebatizados nos legislativos.

 

O que pensar diante de um circo como esse? Dá para levar a sério um vereador ou deputado que defende algo assim? E o que dizer do nosso Congresso Nacional? Não há explicação nem de longe razoável para iniciativa tão tresloucada. Depois, nossas lideranças reclamam do achincalhamento geral da atividade política. Ninguém precisa esculhambar a categoria – os políticos se encarregam de fazê-lo com afinco. E não há como superá-los nessa empreitada.

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Militares chantageiam o governo com ameaças à segurança da população

Chantagem. É o que fazem as associações de policiais militares que, em campanha por reajuste salarial, prometem uma série de medidas cujo objetivo é emparedar o governo estadual. Caso cumpram suas ameaças, a grande vítima, é claro, será a população alagoana. Mais uma vez, segundo os manifestantes fardados, estamos na iminência de um aquartelamento – a PM no quartel.

 

Segundo informa toda a imprensa, a categoria distribuiu nota com a relação dos atos de protesto que devem começar a partir desta quinta-feira. Além de ficarem nos quartéis, os PMs pretendem parar o serviço de ronda nos bairros da capital; também dizem que vão retirar do aeroporto a Brigada de Incêndio do Corpo de Bombeiros; e ainda haverá bloqueio no porto de Maceió.

 

Não bastassem todos esses absurdos, a tropa rebelde anuncia que não fará o policiamento no jogo entre CSA e Goiás, pelo Campeonato Brasileiro da Série B, marcado para o próximo sábado, dia 14. Eu não sei se isso está mais para o crime ou para a piada. Ou as duas coisas juntas. Como se sabe, a lei proíbe que policiais façam greve. Mas isso não é barreira para as estripulias ameaçadoras.

 

Parece que os líderes do movimento se inspiram naquela bagaceira generalizada que ocorreu no Espírito Santo há cerca de um ano. Todos sabem do resultado: saques no comércio, assaltos a residências, aumento do número de homicídios e os mais variados delitos. As consequências do caos atingiram cidades inteiras – mas não os segmentos que podem bancar segurança privada.  

 

Os policiais querem reajuste. Certamente merecem o melhor salário possível. Dizem que negociam há muito tempo, sem resposta adequada do governo. Sim, deve-se cobrar do gestor público a devida capacidade para resolver a crise. Mas a ofensiva das associações militares não bate com a realidade dos fatos. Está claro que há uma estratégia na base da pressão com fortes tintas políticas.

 

O tom do protesto desta quarta-feira aposta no confronto. E isso não se dá – é a minha hipótese –por um acidente do destino. Tem gente querendo muita zoada. Voltarei ao tema no próximo post.

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A Assembleia Legislativa à luz do dia, mas ainda nas sombras

A Assembleia Legislativa do Estado é alvo de nova investida da Polícia Federal. Investigação em andamento parece ter chegado a indícios de que naquela casa haveria fantasmas disfarçados de servidores públicos. Se confirmado o esquema, estaríamos diante de velha feitiçaria com a folha salarial do parlamento alagoano. Todos devem se lembrar da histórica Operação Taturana, de 2005, que escancarou um assalto de proporções inéditas praticado por deputados. Pegou quase todos.

 

Mas a tradição de delinquências por ali remonta a décadas. Folha paralela na Assembleia é como contrato de gaveta, com a assinatura de “laranjas” e testas de ferro. Brota como capim. A cada temporada, quando menos se espera, escapam alguns raminhos da floresta submersa. Até hoje, nenhum parlamentar foi punido na esfera judicial pelas traquinagens com o dinheiro público. Nem antes nem depois da Taturana. O novo caso, portanto, reafirma a força do antigo hábito.

 

As suspeitas de agora fizeram o atual presidente da ALE, Luiz Dantas, vir a público para se pronunciar – o que por si só é quase um milagre. Ainda assim, não falou com a imprensa, soltou uma nota. Ele nunca dá entrevista e, sempre que abordado por jornalistas, faz questão de ser claramente antipático. Sua postura é típica dos que agem como se não devessem prestar contas a ninguém. Não raramente, reage a perguntas com rispidez e menosprezo pelo desavisado interlocutor.

 

Em sua nota, o trecho que mais me chama atenção diz o seguinte: “Trabalho à luz do dia, irmanado com a legalidade e os princípios que devem nortear a administração pública. Curiosa essa imagem da luminosidade solar, do brilho do sol, como se o apelo ao clarão da natureza afirmasse com mais ênfase a lisura de suas ações. Como sabemos, a retórica indignada é quase sempre cúmplice dos fatos que tenta esconder. Se este é o caso nos dias de hoje, somente o trabalho da PF pode clarear.

 

Localizado no Centro de Maceió, de frente para uma praça, entre a biblioteca pública e a catedral católica, sobre o prédio da Assembleia o sol incide durante muitas horas, a cada dia que amanhece. Serei óbvio ao dizer, porém, que tamanha claridade bate no lado de fora, na fachada. Lá dentro, suas excelências trabalham em ambiente arejado, na sombra aconchegante. O mal é o recorrente mergulho nas trevas da corrupção. Quando isso ocorre, nem as luzes do céu barram o crime.

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Mentiras que contaram pra você

A seguir, uma relação de 23 fenômenos que são tão verdadeiros quanto uma cédula de três reais. Naturalmente, o conjunto poderia ficar mais extenso que a lista telefônica. Para não cansar o leitor, apresento uma breve antologia de coisas que, embora sejam parte de nossa realidade, deveriam ser catalogadas como manifestações sobrenaturais. Ou pura ficção científica. Confira.

 

Indignação de cartolas do futebol.

 

Auditoria na Assembleia Legislativa de Alagoas.

 

Liberal na oligarquia canavieira.

 

Democracia na cabeça de um bolsonarista.

 

Serviço de Inteligência na polícia estadual.

 

Político preocupado com fake news.

 

Intelectuais independentes a serviço de partidos.

 

Vida inteligente na Câmara Municipal de Maceió.

 

Bom gosto e elegância na elite alagoana.

 

Renovação política com filhotes de coronéis.

 

Investigação com lisura pelo Tribunal de Contas.

 

Ética e notório saber jurídico no Tribunal de Justiça.

 

Poesia nos textos de Pedro Bial.

 

Professor de Jornalismo na Ufal.

 

Literatura na Academia Alagoana de Letras.

 

Convicção ideológica no troca-troca partidário.

 

A Globo preocupada com um Brasil melhor.

 

Fanáticos religiosos pregando a paz e a tolerância.

 

Revitalização do Centro de Maceió.

 

Publicitário fazendo campanha em defesa da ética e da cidadania.

 

Alternância de poder em sindicatos.

 

Filantropia na Santa Casa de Misericórdia.

 

Cinema alagoano.

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Washington Francelino, um cidadão alagoano que dá uma aula ao Brasil

Um morador da Massagueira é o protagonista de um episódio que ilustra de modo acachapante a miséria da política. Por tabela, ele também expõe à perfeição o nível de nossos gestores no comando da máquina pública. Sem querer, Washington Francelino, que trabalha como vendedor em um supermercado, dá uma aula desconcertante ao Brasil. Parece exagero, mas é precisamente isso o que ocorre ali, no povoado que pertence ao município de Marechal Deodoro.       

 

Descobri a história pela TV Pajuçara, numa reportagem do jornalista Lucas Malafaia. Resumindo o que o repórter conta, na Massagueira não existem placas com os nomes das ruas; em alguns locais, as placas que existem estão apagadas; e em outras situações, ainda mais absurdas, as ruas não têm nome oficialmente registrado. Resultado: a população sofre até para pedir um remédio à farmácia, porque entregadores têm dificuldade para localizar o endereço. Alagoas no século 21.

 

Ainda segundo a reportagem, Washington tenta resolver o problema faz muito tempo – porque as consequências são realmente pesadas. As correspondências também não chegam às casas, assim como os recibos de água e energia. Outro morador conta que precisa ir buscar sua conta de energia na Eletrobras. Ou seja, a negligência escandalosa da prefeitura de Marechal provoca um gravíssimo transtorno para famílias que são tratadas como se ali não residisse ninguém.

 

Aí vem a iniciativa surpreendente do funcionário do supermercado. Incomodado com a aberração oficial, Washington tentou, primeiro, uma resposta pelas vias formais. Bateu na porta da prefeitura para reivindicar uma solução para o caso. Fez isso várias vezes, e nada. Até que desistiu de esperar pelas autoridades competentes – que provaram, neste caso, que temos de tudo aí, menos competência. Então ele teve uma ideia para acabar com a dor de cabeça de 12 mil habitantes.

 

O morador mapeou todo o povoado. Segundo seu levantamento, são 60 ruas. Em seguida, com dinheiro do próprio bolso, produziu as placas. Para afixar cada uma, em muros e imóveis, ele mesmo sai de bicicleta, carregando uma escada e o equipamento necessário na realização de sua inusitada tarefa. Nos casos de locais sem registro de nome, Washington reúne os moradores que, numa espécie de assembleia, democraticamente escolhem qual será a identificação.

 

E a prefeitura? A reportagem foi ouvir as explicações. De cara, não entendi por que o escalado para falar foi o secretário de Articulação Política. De todo modo, Luciano Vasconcelos botou tanta dificuldade para resolver a encrenca, deu tantas desculpas, que pelos meus cálculos a prefeitura planeja levar uns dez anos de estudos para cumprir sua obrigação. O homem falou até em satélite. Se o ritmo for o mesmo para todas as demandas de Marechal, a coisa tá feia por lá.

 

Massagueira é um lugar extraordinário, com uma paisagem descrita por todos, com justiça, como das mais bonitas em Alagoas. Também por isso, é o destino de ricaços nos fins de semana, que vão desfrutar de suas águas e da culinária. Imagino que o prefeito, que nem sei quem é, deve curtir isso tudo, com amigos e parentes, na hora do lazer. Sugiro que preste atenção nas ruas.

 

E quanto a Washington Francelino, deveria ser convidado a dar palestras para aspirantes a gestor e candidatos a executivo. Tem muito a ensinar sobre ação política, potência do indivíduo na sociedade e exercício direto de cidadania. Sua mensagem principal, me parece, tem a ver com o alcance de uma iniciativa que, isolada, vai muito além da vontade de um homem só. Parabéns pra ele.

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Mais um belo exemplo dos togados

Desembargadores do Tribunal de Justiça do Amazonas não precisam pagar plano de saúde, nem para eles nem para seus parentes. É que o governo estadual garante todo e qualquer tratamento, nos hospitais mais caros do país. Foi o que revelou reportagem do Fantástico, na Globo, na edição deste último domingo. Os gastos superam a casa dos milhões de reais durante alguns anos.  

 

Os amigos da corte também não se preocupavam com a manutenção da saúde em dia. Qualquer espirro ou dorzinha de barriga, eles tinham à disposição os melhores centros médicos e os medicamentos necessários, não importava o preço. Afinal, a conta vai para os cofres públicos. Enquanto isso, como se vê em todo o país, a população dorme nas filas para uma consulta no SUS.

 

Um dos beneficiados da ação criminosa era o próprio presidente do TJ-AM. Tem de tudo na investigação do caso. O plano de saúde clandestino bancou tratamento para um colunista social, incluindo internação no Sírio Libanês, endereço dos enfermos da elite nacional. A conta foi de aproximadamente 800 mil reais. Isso mesmo. Todo esse valor para um único paciente.

 

Para a reportagem, a Secretaria de Saúde do Amazonas informou que cumpria ordens dos senhores do tribunal. Na verdade, era uma sociedade entre os poderes Executivo e Judiciário. Era um lavando a mão do outro, e a safadeza garantia a mamata para as duas quadrilhas. Aquilo ali mostra um método, uma centenária tradição brasileira. Com a grife luxuosa da toga.

 

Enquanto isso Roberto Barroso e Luiz Fux, duas vozes equilibradas do STF, passeiam pelo mundo denunciando a corrupção da política e das empresas privadas no Brasil. Sobre o Judiciário, nada a declarar. É tudo gente honesta. A imprensa estrangeira fala até no Governo de Juízes que toma conta de nossas vidas. Está ótimo. Basta ver o excepcional padrão amazônico.

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Tempo de “calar os críticos”

O domingo que passou foi de decisão nos campeonatos de futebol pelo Brasil afora. Aqui em Alagoas, a glória de levar o título ficou com o CSA, após vencer o CRB por 2 a 0. Mas não estou aqui para debater a técnica dos jogadores nem a tática dos professores à beira do gramado. Meu interesse radical são as palavras e as ideias que agitam as cabeças e movem os corações. Por aí.

 

Ao fim de cada partida, vêm as entrevistas coletivas de atletas, treinadores e cartolas. Precisa ter estômago e paciência infinita para suportar alguns minutos de um palavreado que, espremido, não sobra nada. É um festival de redundância, mau-caratismo, pieguice e boçalidade – e tudo o mais nessa linha que você possa imaginar. Mas o melhor, digo, o pior de tudo está nos “desabafos”.

 

Vou me deter no discurso dos campeões. Neste fim de semana, salvo engano, 17 regionais chegaram ao fim. Em todos eles, tenho certeza, os vencedores tiveram, na entrevista, seu momento de “calar os críticos”. O que é isso? É a hora em que a ideia mais repetida tem como objetivo único dar àquele êxito as cores de uma odisseia de superação. E não importa que isso seja nada além de um delírio.

 

Ninguém acreditava em nosso time. Fomos criticados o tempo todo. Disseram que nosso time ia fracassar. Tiraram onda do nosso futebol. Teve um pessoal fazendo piada. A imprensa falou que o time deles era o favorito. Foi sofrido. Lutamos contra tudo. Vocês não sabem o que tivemos de superar. A família sofreu junto. Mas a gente sempre acreditou. E taí o resultado. É nós! Chupa!

 

Quais são os autores dessas reflexões que acabo de reproduzir? Aí é que está. A resposta é: todo mundo e ninguém. São frases que, de tão repetidas, ganharam vida própria. “Vida” é força de expressão; são ideias-zumbis; estão soltas no ar, sopradas ao vento, prontas a invadir nossa mente, sedenta por teses que afaguem e reafirmem nossa tola convicção de que somos únicos.

 

Somos escravos da vaidade. Não basta a vitória incontestável, reconhecida por unanimidade. Todo aplauso ainda será insuficiente para homenagear proezas que somente um ser especial é capaz de realizar. Precisamos elevar a conquista ao patamar dos feitos mitológicos. Precisamos ornamentar o enredo com os lances típicos do herói. Frases feitas para traduzir a ilusão de uma saga inexistente.

 

O exemplo do futebol vale para tudo. O mesmo tipo de discurso está na boca do ator premiado, do cantor consagrado pelas multidões, do magnata no topo dos milionários, do estudante aprovado em primeiro lugar no vestibular, do medalhista olímpico e até do político que vence a eleição. Todos, sem exceção, tiveram de atravessar barreiras infernais para chegar lá.

 

Para encerrar minhas divagações de pensador de botequim, lembro do filme 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras, obra-prima do diretor Marcelo Masagão, lançado em 2003. Espécie de ensaio sobre a futilidade, o ilusório e a morte dos valores, o filme – para além da ficção e do documentário – aponta para o triunfo do autoengano. E ainda pagamos por isso.

 

Somos assim, tão originais e exclusivos como a banalidade de cada um e de todos. Quanto a mim, sem querer me gabar, devo acrescentar o seguinte: como sou o cão chupando manga, agora vou até ali, exaltar minhas incomparáveis façanhas e calar os críticos.

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