Desembargador acha “muito pouco” o valor da mamata auxílio-moradia

A diversidade de assuntos é um dos princípios obrigatórios na imprensa, a não ser nos casos de publicações especializadas em determinados segmentos. Mais ou menos com essa ideia na cabeça, tento não abusar da paciência do leitor – e da minha também – com a repetição de temas. Mas, em alguns períodos, os acontecimentos nos empurram para uma mesma pauta. Não precisamos ceder, é verdade, mas chega uma hora em que retornar ao ponto é também obrigatório.

 

A posse do novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Manoel de Queiroz Pereira Calças, é o fato que me faz voltar ao fenômeno indecente conhecido como auxílio-moradia. Sua Excelência foi questionada por jornalistas sobre o assunto. A reação do sujeito é inacreditável. Ele faz piada sobre o privilégio, numa demonstração de cinismo nunca visto até agora. Pereira Calças informa que também recebe a mamata, e ressalta: “Eu acho muito pouco”.

 

Moralmente, o desembargador conseguiu rastejar ainda mais ao afirmar o seguinte: “Tenho vários imóveis, não só um”. Vejam se isso não é um resumo perfeito do que é o Poder Judiciário no Brasil. Tem mais. O homem teve a coragem de criticar a imprensa pelas reportagens sobre os vários casos da farra com o auxílio-moradia. Disse ele: “Tanto o jornalista quanto o juiz tem que ter ética”. Leio tais declarações na imprensa nacional, que cobriu a posse nesta segunda-feira.

 

Pereira Calças é um senhor acima dos 60 anos, de cabelos brancos e uma expressão de soberba. Em sua posse estavam ministros do STF e políticos como o governador Geraldo Alckmin. O novo dono do TJ-SP foi bajulado por todos e tratado como figura exemplar da vida pública; alguém a ser tomado como parâmetro de caráter e probidade. Suas palavras sobre a pilantragem do salário disfarçado provam mesmo que ele é um exemplo seguido à risca por sua patota.  

 

Por que você acha que o desembargador fala tamanhas barbaridades com esse descaramento? Porque ele sabe, ora essa, o poder que tem a turma da qual faz parte. Ele sabe, como eu já escrevi aqui, que o Judiciário habita um planeta paralelo, sem conexão com a vida real dos brasileiros, sem obrigação de prestar contas a ninguém sobre seus atos abusivos e comportamento desprezível. E demonstra também ter certeza de que nada mudará nesse vergonhoso panorama.

 

São os novos heróis do combate à corrupção na política do país. Guarde o nome da peça. Manoel de Queiroz Pereira Calças é o tipo ideal de uma categoria. É também uma evidência eloquente do que há de mais deletério na tal elite brasileira. De uma coisa não podemos ter nenhuma dúvida: na presidência do tribunal paulista, ele está à altura do cargo; e está, portanto, à altura do Judiciário. Aliás, talvez o mais preciso seja dizer que ele está à baixeza de sua casta.

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Deltan Dallagnol, o moralista da mamata

Vai ficando cada vez melhor. A novidade agora é a notícia sobre o procurador da República Deltan Dallagnol. O especialista em Direito Power Point, com aquela carinha de bochechas rosadas, também recebe o auxílio-moradia, mesmo com imóvel próprio em Curitiba, a sede da seita conhecida como Força Tarefa da Lava Jato. Mas não fica por aí. O rapaz, tão zeloso com a moralidade pública, embolsa também uma grana como ajuda para alimentação e mais o auxílio-pré-escola.

 

No total, o valentão mete no bolso quase 7 mil reais por mês, afora o salário na casa dos 30 mil. Um trocadinho. Ele acha que está tudo certo, que está tudo de acordo com seu heroísmo em defesa de um novo Brasil. Onde estão os caçadores da imoralidade alheia diante dessa pilantragem? Devem estar ocupados na caça à corrupção que inferniza a vida dos brasileiros. Suponho que, como eles combatem os corruptos, têm licença para usufruir de todas as mamatas na praça.

 

Agora está explicado por que Dallagnol se acha dono das credenciais perfeitas para ser candidato a senador, como torcem seus simpatizantes paranaenses. Diante do quadro, quem sabe não seja ele o candidato ideal até para presidente? Como juízes e promotores querem depurar o nível da política, o padrão ético de Dallagnol e sua patota certamente nos brindará com práticas muito mais saudáveis do que a desses políticos tradicionais que fazem tanto mal ao país.

 

Nada como a realidade sem retoques. Mas não vamos falar mal dos arautos da honestidade e da decência. Afinal, o país deve prestar reverência quando encontra gente assim como esses senhores do Judiciário e do Ministério Público Federal. Para eles, tudo. Para a ralé, a obediência e o salário mínimo. Parece que não fomos avisados, mas a República das Togas já foi proclamada.

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Desconfiem de tudo o que escrevo

Jornalismo não é exatamente uma atividade praticada por santos, heróis ou altruístas. Fosse possível uma pesquisa definitiva sobre o padrão dominante em nossa profissão, suspeito que o retrato revelaria qualidades opostas à santidade, ao heroísmo e ao espírito solidário. Notícia e ética, muitas vezes, não compartilham do mesmo espaço nas páginas, telas e ondas sonoras. Não se engane com aparências. Em outras palavras, desconfie do que falamos, pensamos e escrevemos.

 

Aqui, pratico o mais puro jornalismo de opinião. Com a plena liberdade a mim dispensada pelo CADAMINUTO, faço o que mais gosto: atiro em todas as direções e sobre qualquer assunto, sem a preocupação de agradar a quem quer que seja, da autoridade ao magnata. Aliás, mirar nos poderosos é imperativo existencial. Nesta condição, não pretendo convencer ninguém sobre meus pontos de vista. Jornalista não deve escrever para conquistar fãs e ganhar curtidas.

 

Escrever com a premissa do bom-mocismo geralmente resulta em deplorável demagogia. Dizer aquilo que as plateias querem ouvir é um exercício de hipocrisia, algo tão deletério quanto a falsa notícia ou a opinião motivada por objetivos não revelados. E quanto ao estilo, esse tipo de texto é sempre uma bomba de platitudes, pródigo em receitas simplistas para problemas gravíssimos. Catequese e autoajuda são o negócio de carolas e mercadores de ilusão – o oposto de jornalismo.

 

Pensei nessas inutilidades da vida ao ler comentários que chegam ao blog. Pelas reações, parece que estou longe de virar uma referência, muito menos um guru, para quem me lê. Ainda bem. O papel de representante de algum sentimento coletivo jamais estará entre minhas prioridades. Fosse aqui celebrado como alguém que alivia os dilemas da alma alheia, ficaria bastante constrangido. Pode parecer estranho, mas é assim – também – porque trato o leitor com respeito.

 

Segundo comentaristas que acessam o portal, estou classificado nas seguintes categorias, entre outras: “reacionário”, “palhaço”, “vendido”, “petralha”, “alienado,” “cretino”, “merda” e “jornalistazinho”. É uma antologia e tanto. Com esse conjunto de qualidades no currículo, estou perdido. Os mais revoltados não se contentam com os elogios; ameaçam boicote ao site e pedem a cabeça do blogueiro. Vejo tudo isso com a mais tranquila naturalidade. Incomodar é necessário.

 

A imprensa apanha hoje mais do que nunca. Para os desavisados, jamais houve um jornalismo tão manipulador e mentiroso. Nada mais ilusório. Leiam obras como Cobras Criadas (a história da revista O Cruzeiro e do jornalista David Nasser) ou Minha Razão de Viver (as memórias de Samuel Wainer); ou ainda Insultos Impressos, de Isabel Lustosa (sobre jornalistas no fim do século 19). O que se conta nesses livros deixa as armações atuais parecendo estripulias em parques de diversão.

 

A crença de que o presente é sempre mais degenerado, e que o passado é a dimensão de uma inocência perdida, é uma sedução permanente, que atravessa os tempos. Nunca foi assim, e isso vale para tudo. Mas essa é outra divagação. Quanto ao jornalismo, desconfiar sempre, sim, mas fiquemos longe daquela máxima própria do autoritarismo: fuzilar o portador dos fatos e opiniões que me desagradam não mudará a realidade. E, cá entre nós, agir assim não é nada inteligente.

 

Dito isto, como a minha cabeça ainda está aqui, e as patas também, até a próxima.

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Os blocos do governador Renan Filho e do prefeito Rui Palmeira

O governador Renan Filho e o prefeito Rui Palmeira foram ao mesmo evento neste fim de semana. Ambos prestigiaram a folia do patrimônio imaterial da cultura alagoana, o fenômeno carnavalesco Pinto da Madrugada. Não sei se chegaram a se encontrar, ou se não há mais clima para isso em ano eleitoral em que os dois podem se enfrentar nas urnas. Com duzentas mil pessoas na avenida, segundo informação da TV Gazeta, o evento atrai políticos ávidos para testar a popularidade.

 

Também não sei nada sobre a reação dos foliões diante dos gestores da capital e do estado. Não dá para dizer se saíram do frevo mais confiantes, ou não, quanto às chances de voto. Convenhamos que a ocasião não é a mais adequada para tirar esse tipo de conclusão; afinal de contas, para resistir ao calor e ao cansaço na folia, muita gente recorre a estimulantes recreativos, como a boa e velha cervejinha gelada. Na empolgação, por óbvio, a sobriedade geralmente desaparece.   

 

Renan e Rui vivem situações opostas e, por isso mesmo, cada qual lida com variáveis distintas, contra e a favor de suas pretensões. O primeiro é candidato natural, uma vez que busca a reeleição ao governo; já o segundo, enfrenta o maior dilema de sua carreira política, ao ter de decidir se vai mesmo deixar a prefeitura para tentar a eleição. A dúvida ganha ares dramáticos com a pressão ostensiva dos aliados, dentro e fora da administração municipal.

 

Assim, no carnaval do Pinto, o bloco do governador era só harmonia; porque não existe, para ele, esse drama de ser ou não ser. Sua candidatura está sacramentada desde sempre, o que deixa sua tropa alinhada para o ataque, ou seja, para a campanha. O prefeito, ao contrário, navega num barco dividido, num bloco em que alguns passistas preferem a concentração enquanto outros já carregam o estandarte na comissão de frente. Em abril, o mais cruel dos meses, sai a decisão.

 

Foi o próprio prefeito quem afirmou, mais de uma vez, que só anuncia seu destino eleitoral lá adiante, daqui a ainda dois meses. Ocorre que muitos em seu bloco não se conformam com o que consideram uma perigosa demora. Cobram uma posição imediata para que possam agir logo na direção de uma estratégia de disputa. Reafirmo o que já escrevi aqui: a eleição para Rui é uma aventura complicadíssima e arriscada. A opção mais inteligente é cumprir o mandato até o fim.

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O fracasso na política de segurança – e por que a taxa de homicídios não recua

O Rio de Janeiro, dizem por aí, continua lindo e descolado. O Ceará, onde mais se conta piada, produz um novo humorista a cada semana. E Alagoas, terra em que o Pinto da Madrugada é patrimônio imaterial, embala turistas nas jangadas da Pajuçara. O que os três estados têm em comum? Se você pensou em violência e chacina, lamentavelmente acertou. Seja no âmbito regional, seja na esfera da União, o país não consegue emplacar uma política de segurança digna do nome.

 

Por aqui, o governo acaba de confirmar que o número de homicídios cresceu nos três últimos anos – 2015, 2016 e 2017. A cada doze meses, são quase dois mil assassinatos, uma aberração tomada como natural em decorrência da fixação da estatística no topo dos levantamentos periódicos. Sai governo, entra governo, e o desafio segue humilhando cada gestor e suas brilhantes ideias. O que se passa, afinal, que nenhuma gestão consegue derrubar o índice da morte? E qual a saída?

 

Não sei. Mas tenho certeza de uma coisa: na cabecinha de nossos secretários de segurança, a filosofia de combate ao crime é toscamente errada. Nos governos que passaram, e também no atual, aposta-se tudo na força bruta, na porrada em cima dos “marginais”, nas ocupações dos bairros pobres da periferia, na caçada humana pelas bibocas em grotas e favelas. E acaba por aí. Polícia Científica e Serviço de Inteligência nessa área não existem, a não ser em peça publicitária.

 

Para chefiar as polícias estaduais, governadores apostam alternadamente em delegados (civis ou federais), coronéis e promotores do Ministério Público. Mudam as credenciais e as estrelas na farda, mas a mentalidade nunca foge à regra de ouro do prende e arrebenta. Em Alagoas, nos últimos anos, a moda é invadir bairros, por terra e ar, no meio da madrugada, para promover limpeza ampla, geral e irrestrita. Numa dessas investidas, o helicóptero caiu, matando quatro policiais.

 

Há muito tempo, a crise é geral. Do Rio a Alagoas, passando por Ceará e outros exemplos, portanto, a política de combate à violência não vai além do fuzil na cara do povo. E disso, a gente sabe, promotores, delegados e coronéis entendem bastante. No curto prazo, a metodologia da truculência pode até enganar os tolos e servir aos parceiros de governos, mas logo a realidade se impõe, implacável. É o que vemos por essas bandas, infelizmente, ontem e hoje. Periga ser para sempre.

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Carnaval, política, mamata e cultura

1. Numa prova de que as coisas avançam, o novo conservadorismo no Brasil já encontrou suas apostas de alto nível para a eleição presidencial de 2018. Estou falando de Jair Bolsonaro e Luciano Huck. O mito pistoleiro e o Lata Velha representam o melhor da direita esclarecida. Que coisa!

 

2. A Folha de S. Paulo deste domingo revela mais um caminhão de casos de juízes que, mesmo com residência própria, recebem o auxílio-moradia. Um deles tem nada menos que 60 imóveis e, ainda assim, embolsa a mamata desavergonhadamente.

 

3. Acostumados à bajulação de todos os lados, de repente magistrados estão tomados de ódio com a onda de denúncias sobre a farra do auxílio-moradia. Se pudesse – e parece faltar pouco para isso –, a república das togas mandava prender todo mundo que ousa apontar a safadeza.

 

4. Internautas que se manifestam neste espaço recorrem ao mesmo argumento dos juizinhos marajás para justificar os privilégios no Judiciário. É tudo legal, dizem essas vozes em defesa da casta. Eu sei, rapaziada, que está na lei. Há só um probleminha: é escandalosamente imoral e indecente.

 

5. Pelo tom dos que se manifestam, há uma defesa da mamata apenas porque Sergio Moro e patota são inimigos do sapo barbudo Lula. É um raciocínio torto, segundo o qual vale tudo contra meus inimigos. E é um ponto de vista de acordo com a histeria geral das redes sociais.

 

6. Vamos ao que interessa. O Corinthians acaba de eleger seu novo presidente para um mandato de três anos. O escolhido é Andrés Sanches, deputado federal enrolado em suspeitas no trato com dinheiro público. Por isso, o futebol brasileiro é o que é. Torcedor gosta de cartola bandido.  

 

7. “Não é não”, tá sabendo disso? A negativa duplicada é o novo slogan do politicamente correto que invadiu até os blocos de carnaval. O engraçado é ver as figuras televisivas mais cretinas do pedaço posando de consciência moral coletiva.

 

8. O discurso de respeito ao “não” da mulherada é a nova palavra de ordem em um novo mundo. É o que garantem filósofos, cientistas, jornalistas e, claro, a publicidade. Quando uma suposta causa humanitária, digamos assim, vira slogan de anúncio de carro, celular e sabonete, a sombra da pilantragem me parece resumir o fenômeno.

 

9. Não acredito em onda conservadora, muito menos em infiltração comunista. Agora uma coisa parece evidente: vivemos um tsunami da fé religiosa, especialmente a católica. Nunca vi tanta militância política em defesa do Espírito Santo. Dublês de intelectuais arrastam Jesus à guerra santa.

 

10. Prévias de carnaval. Sou obrigado a engolir imprensa e políticos a alardearam o Pinto da Madrugada como patrimônio imaterial da cultura alagoana. Nossa Senhora! Mas faz sentido. Na terra em que nada se leva a sério, qualquer presepada se impõe como verdade.

 

11. Animado para a folia? Também estou na pilha. Sem abadá customizado, faz algumas décadas que me engajei no famigerado Bloco do Eu Sozinho.

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Direita e esquerda endoidecidas

Numa das bandas do que vou chamar de esquerda, a palavra de ordem é: os fascistas tomaram conta de tudo. Estamos cercados por uma ameaça que, mais cedo do que logo, vai nos arrastar para o fim do mundo. Para essa turma, termos como liberalismo, mercado, família e valores conservadores escondem intenções reacionárias e até mesmo malignas. E não adianta argumentar.

 

Numa das bandas do que vou chamar de direita, a palavra de ordem é: os comunistas dominaram a universidade, a pré-escola, as igrejas, a imprensa, o mundo da arte e da cultura. Prova disso, para essa turma, é o absurdo da exaltação gay e a glorificação de artistas adeptos até de pedofilia. A meta do discurso progressista e revolucionário é nada menos que nossa extinção. E não tente argumentar.

 

A era da conexão total e globalizante alterou para sempre a forma pela qual essas duas bandas agitam suas bandeiras. Ironicamente, na linguagem beligerante e irracional, as turmas reproduzem a mesma postura alarmista, sectária e falaciosa. Os dois lados se acusam pelo mesmo comportamento paranoico, que trata o outro como um inseto repugnante, um inimigo a ser abatido.

  

Esta é uma guerra tão espalhada no país, um circo de tanta histeria, que nem dá para eleger o que é mais representativo, por assim dizer, nas manifestações das patrulhas em conflito. Agora mesmo, enquanto escrevo no meio da madrugada, certamente surgem novos vídeos e “textões” na internet, assinados por incontáveis gurus que alimentam a voracidade ideológica de todos.

 

No campo da criação estética e da produção de conhecimento, temos uma arena à parte. De Chico Buarque a Pablo Vittar, da valsa ao funk, da tradição à vanguarda, nada escapa à sanha condenatória de ativistas donos da verdade absoluta. E é claro que eles estão igualmente nos dois extremos, prontos a sacar teóricos e teorias que repetem precisamente a música que cada um quer ouvir.

 

Por falar em ideias e pensadores, as bandas de esquerda e de direita patrocinam uma banalização geral de autores que nada têm a ver com a truculência verborrágica de ativistas em geral. Na verdade, há uma bizarra distorção de tudo, até de textos fundamentais ao longo da história. De Marx a Olavo de Carvalho, de Platão a Gilberto Freyre, ninguém escapa às milícias endoidecidas.

 

Dispostos a enfrentar o inimigo, militantes das duas tribos atacam numa frente que também é uma novidade nos dias atuais: são os encontros regionais dos grupos organizados para defender o Brasil do tenebroso avanço da influência comunista – ou do tenebroso avanço do neoliberalismo fascistoide. É o paraíso: plateias amestradas, sedentas pela mensagem que afaga suas convicções.

 

O perigo nos dois extremos é que o pessoal se leva bem a sério. Mais que isso, nossos militantes estão certos de que têm um papel a cumprir na grande missão de transformar o Brasil e o mundo. É o lado cômico dos fatos. Como nenhum tipo de messianismo até hoje conseguiu me comover, não tenho nenhuma paciência para coletivos, manifestos e mobilizações.

 

Direita. Esquerda. Política. Ideologia. Partidos. Guerra cultural. Engajamento. Causas sociais. Estado. Religião. Não contem comigo para surfar em nenhum esoterismo como estes que acabo de listar. Não se pode perder tempo com irrelevâncias na vida que é tão breve. Como dizem os versos do grande Paulo Leminski: eu quero viver de verdade/ eu fico com o cinema americano.

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Sergio Moro, o herói da mamata

Em homenagem a Sergio Moro, o herói de tantos brasileiros, volto a escrever sobre auxílio-moradia. Sim, porque ele também, o morcego negro da moralidade alheia, numa prova de que a safadeza é generalizada, abocanha todo mês mais de 4 mil reais para ajudá-lo em suas despesas com habitação. Agora, vejam o detalhe: Moro, o cavaleiro das trevas justiceiras de Curitiba, tem imóvel próprio; portanto, não deveria meter a mão no benefício, que na verdade é uma mamata.

 

Atenção para a explicação do juiz que prega a decência e aponta os pecados de todos os políticos do mundo: o auxílio-moradia é uma “compensação pela falta de reajuste no salário dos juízes federais”. Foi o que ele disse ao responder a uma reportagem da Folha de S. Paulo. Se Moro julgasse suas palavras com o mesmo rigor que julga a conduta de terceiros, daria voz de prisão a ele próprio. A reação do magistrado é cínica, mentirosa e imoral. Nada que deva nos surpreender.

 

Como você sabe, o salário de Moro e coleguinhas da Justiça Federal passa dos 30 mil reais por mês. A categoria está no topo remuneratório do serviço público. O teto é pouco mais de 33 mil reais. Com diversos penduricalhos, além do esquema da moradia, quase todos os juízes ultrapassam o limite legal do contracheque. Nesse ambiente degradado, Moro nada tem de especial, nada tem de heroico; ele é apenas mais um, rigorosamente igual a todos que formam seu bando.

 

No ano passado, o juizinho do Paraná se achou ainda mais importante depois que sua saga virou filme. “A lei é para todos”, informa o título da peça que exalta a república de togas e os menudos do Ministério Público Federal. Como haverá uma sequência do filme, os roteiristas certamente vão acrescentar a novidade sobre Moro. Aí ele poderá aparecer justificando por que, em seu caso, a lei do teto salarial pode ser desprezada. Entre ficções e trambiques, brilha nosso herói.

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Nossas lideranças e a renovação política

É bastante revelador que justamente num governo como o de Michel Temer alagoanos ocupem tantos espaços. A última vez que isso ocorreu deve ter sido no curto mandato de Fernando Collor, pouco mais de dois anos e meio no cargo, entre 1990 e 1992. Temer, talvez o mais odiado presidente na história do país, identificado com a mais escrachada corrupção, abriu os braços para o notório talento – político e administrativo – de nossas lideranças estaduais. Pensando bem, faz todo sentido.

 

E o que andam fazendo essas respeitáveis lideranças nos cargos federais? Claro que estão trabalhando como nunca para que o país volte a crescer e, nesse embalo, ostente os melhores índices da economia global. Por isso, nossos ministros vivem passeando por Alagoas, com inaugurações e assinaturas de ordem de serviço para obras grandiosas. O melhor é que os nossos ministérios têm os maiores orçamentos na esplanada. Dinheiro não é problema.

 

Ao mesmo tempo em que se dedicam aos interesses do país, e de Alagoas em particular, nossos craques ministeriais aproveitam os cargos para se apresentarem como candidatos nas eleições gerais deste ano. Por isso, nos últimos meses, os ministros falam mais de alianças e parcerias partidárias do que em trabalho. Também isso é tão natural quanto a lisura e a transparência com que todos eles trabalham pelo Brasil. Só falta o seu voto para fechar a equação eleitoreira.

 

O que surpreende um pouco, frente a esse estado de coisas, são as análises apressadas que apontam para o “esgotamento” da classe política tradicional e o surgimento de algo radicalmente novo. Os fatos da vida real indicam que teremos o contrário, ou seja, a reafirmação da velha guarda – com ou sem um focinho repaginado na urna. E isso vale tanto para nossos candidatos paroquiais quanto para as opções na eleição presidencial. Mudança de estilo? Só se for no gel e no botox.

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O pacto entre Rede Globo e Judiciário

A edição do Jornal Nacional desta quinta-feira foi uma verdadeira homenagem ao STF, em particular, e ao Poder Judiciário em toda a sua extensão. Na reportagem sobre o fim do recesso na Justiça, assistimos a longos e sonolentos trechos do discurso da presidente do Supremo, Carmen Lúcia. Uma exaltação às qualidades de magistrados e tribunais, mas nenhuma palavra de autocrítica diante das mazelas que tornam nosso sistema judiciário algo vergonhoso. Tudo previsível.

 

E por que a TV Globo se empenha tanto, 25 horas por dia, em bajular a cúpula da Justiça, seja lá qual for a causa em debate? Nada de teoria da conspiração. Até porque, na Globo, ninguém perde tempo com coisas esotéricas. O jornalismo global se engaja em proteger a república das togas porque sabe que, em contrapartida, a emissora da família Marinho não será incomodada em mais de um caso de suspeita de corrupção e propina na empresa. O escândalo Fifa é a maior das encrencas.

 

Se Ministério Público Federal e Judiciário fizessem seu trabalho direito, executivos da Globo já poderiam estar presos. Mas o esquema corrupto na compra de direitos de transmissão de jogos, incluindo a Copa do Mundo, tem suas investigações engavetadas no Brasil. Quem investiga pra valer e prende marginais da cartolagem é a Justiça dos Estados Unidos. Por isso, Del Nero, o gângster que preside a CBF, não pode viajar ao estrangeiro; se o fizer, sabe que seu destino será a cadeia.

 

Não haverá mudança, mínima que seja, no tipo de cobertura que a Globo faz da crise política brasileira, tendo como protagonistas incontroláveis mentes do sistema judiciário. É uma relação de interesses mútuos, numa troca de favores em que os dois lados firmaram um pacto de não agressão, digamos assim. Será sob os termos desse acordão que teremos um processo eleitoral para escolha do novo presidente do país. Para ficar tudo cem por cento, vamos eleger Huck, o Lata Velha.

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