Presidenciáveis no mundo da ficção

Todos os dias, em alguma capital do país, algum evento reúne candidatos a presidente para falar sobre temas que supostamente interessam à sociedade brasileira. Quase sempre, são encontros organizados por meios de comunicação, com patrocínio de grandes empresas. Pode ser um banco, uma rede de supermercados ou uma dessas consultorias que trabalham para especuladores no mercado financeiro. O formato varia, mas em geral o ponto forte é a palestra dos convidados.

 

Nem vou aqui levantar suspeitas sobre os interesses dos patrocinadores. Digamos que é do jogo. Os empresários querem conhecer com mais clareza as ideias daqueles que pretendem chegar ao comando do país. Amanhã, um dos palestrantes de ocasião pode ser o novo presidente da República. E, nesta condição, tomará decisões que inevitavelmente influenciarão nos negócios de toda a economia, seja lá qual for o ramo de cada empresa. Melhor estar bem-informado sobre o futuro.

 

O que é particularmente nebuloso nesses convescotes são os discursos dos políticos candidatos. Já devidamente orientados pelo talento congênito de marqueteiros, e de olho no voto e no apoio dos donos do dinheiro, os convidados falam de tudo como se fossem cordeirinhos, quase santos. A receita, seguida à risca, é não assustar o mercado. Para isso, nada de radicalismo no campo dos costumes, muito menos visões heterodoxas sobre finanças. Equilíbrio é a palavra mágica.

 

É aí que mergulhamos no mundo das contradições e das ambiguidades. Marina Silva harmoniza as demandas dos povos da floresta e os lucros do Itaú. Ciro Gomes, que já ameaçou dar tiro em Sergio Moro, professa o Estado moderno e civilizado. A latrina mental de Jair Bolsonaro, que despreza negros e mulheres, venera os direitos universais do cidadão. Geraldo Alckmin, que acusa o petismo de inventar o bolsa-esmola, ampliará todos os programas sociais – e mais o que houver.

 

É o planeta dos romances de aventura e da ficção científica – com enredos de péssima qualidade. Ninguém é da direita ou da esquerda, muito menos dos extremos dessas ideologias. Para toda e qualquer pergunta, os concorrentes respondem com a mesma convicção, ou seja, sem convicção nenhuma. Não me comprometam, poderiam dizer todos eles. Não deixa de ser elucidativo.

 

Você pode pensar mais ou menos o seguinte: palanque é uma coisa, mesa redonda com os poderosos é outra. Ou a construção pode ser assim: rezar na cartilha dos donos da vida e da morte é uma coisa, contar lorotas na campanha para a gentalha é outra bem diferente. É do jogo?

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Suprema covardia

Com as exceções de Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes, nunca se viu o Supremo Tribunal Federal tão refém da grande imprensa como nos dias de hoje. E olhe que nos tempos do mensalão, Ricardo Lewandowski disse a um interlocutor – sem saber que havia jornalista por perto – que os ministros votavam com “a faca no pescoço”. As pressões vão sempre existir. O problema é como os ministros da Suprema Corte do país reagem diante de cada situação. Hoje, a maioria baixa a cabeça.

 

A ironia é que a ministra Carmen Lúcia, numa das tantas entrevistas para a Globo, disse que o STF não poderia “se apequenar”. Ela se referia ao caso das ações que contestam a prisão após julgamento em segunda instância. Não se apequenar, para ela, é não levar as ações à pauta do tribunal – ainda que haja o pedido de um ministro para que isso ocorra. É justamente a posição da ministra que mostra o Supremo apequenado. Ela impede a votação em obediência canina a interesses medonhos.

 

Diante do que se vê a cada votação, as palavras da presidente parecem ainda mais patéticas. Sentada na cadeira do comando da casa, ela age deliberadamente para garantir os resultados que terão o aplauso do Jornal Nacional. E não importa que isso signifique ignorar farta legislação e a própria Constituição do país. O chamado populismo judicial domina os julgamentos. A coragem de decidir com a letra da lei sumiu. O interesse número um é reproduzir o alarido justiceiro da rua.

 

Como já escrevi aqui, Roberto Barroso e Luiz Fux representam a degradação escancarada na corte. Nas sessões, a dupla é a garantia incontornável do espetáculo de demagogia. O que eles adoram mesmo é dar entrevista para Pedro Bial, Roberto D’ávila e Heraldo Pereira. São pródigos em chiliques e teatrinhos à base de indignação de fachada. Precisa ter estômago forte para aguentar.

 

Falei de Marco Aurélio e Mendes. Nessa temporada de acovardamento do STF, reconheça-se que Lewandowski também é uma exceção, com votos de acordo com os códigos da legislação, e não para atender ao suposto clamor popular. Na verdade, como já disse, essa pauta é a ordem que prevalece nos grandes meios de comunicação, a Globo à frente. Ministros fazem politicagem no STF.

 

Como apontam incontáveis pensadores, no Brasil e no exterior, a decadência da política, especialmente no Legislativo, dá ao Judiciário a avenida para correr na direção do poder absoluto. Juízes querem investigar, denunciar e condenar. Para isso, eles também usurpam o lugar do legislador – e anulam as leis em vigor a partir de suas cabecinhas tresloucadamente autoritárias.

 

Se essa patota conseguir tudo o que almeja, estamos perdidos. Suprema papagaiada, Batman!

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Mistificações e besteiras na mobilização dos policiais militares

Uma poderosa categoria do serviço público parte para a ofensiva nas negociações por reajuste salarial. Digamos que sejam professores e demais funcionários da educação. As ameaças para pressionar o gestor serão: fechamento de escolas, colapso do ano letivo e sérios transtornos para milhares de estudantes e suas famílias. Alguém já viu isso alguma vez? Se você não é um turista de outro planeta passeando por aqui, deve ter uma coleção de episódios assim para contar.

 

Agora digamos que os funcionários em pé de guerra com uma prefeitura ou um governo estadual são médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Para obter o que pretendem, eles podem apelar para as seguintes ações: negar atendimento em maternidades, fechar postos de saúde, cancelar procedimentos em unidade de emergência. De novo, é claro, a população terá sofrimento. Abusando da repetição de raciocínio, suponho que você viu isso inúmeras vezes.

 

Paro com as conjecturas. O comportamento de grevistas obedece a um padrão. Logo, não há novidade coisa nenhuma na forma como associações de militares – são nada menos que oito em Alagoas – estão agindo neste momento. Seus porta-vozes, que vivem brigando entre si, adotaram os velhos métodos para mobilizar a tropa. Lembrando: já ameaçaram fechar o porto de Maceió, parar as rondas nos bairros, não trabalhar em jogos de futebol e se aquartelar.

 

Também não se pode esquecer que entre as táticas de confronto está o blefe. O atual movimento dos militares, aliás, já provou que blefar é uma de suas artimanhas. As ameaças que citei acima tiveram até data marcada para ocorrer, mas, como se sabe, as rondas continuam, a entrada no porto está liberada e o policiamento garantiu a segurança no Rei Pelé. Por enquanto, o aquartelamento é apenas palavra de ordem no discurso dos presidentes de associações. Sim, há barulho e passeata.

 

Não estou discutindo dez ou cem por cento de aumento para os militares. Merecem o melhor salário possível. O ponto aqui é outro. Especulo sobre ideias. E por isso reitero que não há nada de excepcional no atual embate entre uma categoria de servidores e o governo. De lado a lado, vê-se a repetição do que sempre ocorre nessas horas. Tratar os policiais como heróis irretocáveis, donos de uma espécie de pureza essencial, é somente mistificação e besteira – além de piorar as coisas.

 

Quanto aos negociadores do atual governo, nem mais nem menos que seus antecessores. Com variações, seguem o manual que todos seguiram. Há certo exagero nas tais narrativas. A realidade não muda porque eu digo que mudou a realidade. Mas, pelo que ando vendo por aí, daqui a pouco alguém vai invocar o espírito de julho de 1997. Não duvido. Afinal, uma besteira puxa outra.   

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O inesperado terremoto eleitoral chamado Joaquim Barbosa

Até parece que Joaquim Barbosa é o cara. Aliás, mesmo que não seja, nenhum outro nome provocou tanta zoada no cenário político-eleitoral nos últimos dias. Tudo porque na pesquisa Datafolha, divulgada no domingo (15/04), ele aparece na casa dos 10% das intenções de voto. O inesperado desempenho gerou uma série de especulações e movimentos entre os partidos.

 

O curioso é que o ex-presidente do STF, que virou celebridade no processo do mensalão, nem foi lançado oficialmente pelo PSB. Isso vai ocorrer, mas ainda sem data marcada pela legenda. A força do pré-candidato surpreendeu principalmente porque ele estava sumido havia pelo menos dois anos. Ao contrário de pretendentes manjados, estava no quase absoluto silêncio, longe do noticiário.

 

Não por acaso, ele próprio estaria surpreso com o potencial verificado na pesquisa. Em termos de comparação, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin se apresentam como candidatos há um século, com presença constante na imprensa. Mesmo assim, o ex-ministro do Supremo aparece à frente dos dois em alguns cenários. Daí porque, como era previsível, já é alvo desses adversários.

 

Alckmin e Ciro acusaram o golpe. Imediatamente, partiram para cima do que consideram uma ameaça, com farpas e insinuações. Sabem que Barbosa tira votos exatamente na faixa que os dois sonham ocupar. Ou seja, nem um suposto herdeiro do petismo nem a renovação da voz tucana – o eleitor pode ver no recém-filiado ao PSB aquilo que se chama por aí de terceira via.

 

A candidatura de Barbosa também teria os ingredientes para convencer os segmentos identificados como de centro – nem esquerda nem direita. Seria uma alternativa aos males da tão debatida polarização. Não deixa de ser engraçado porque, afinal, não foram poucas as vezes em que o virtual candidato se mostrou bem raivoso. Mas isso seria um traço de personalidade a ser trabalhado.

 

É o que dizem quase dez entre dez dos analistas que tentam explicar o aparente fenômeno Joaquim Barbosa. Na verdade, ninguém sabe o que pensa o homem sobre grandes temas da economia. Estado forte ou o contrário. Programas sociais. Financiamento com bancos públicos. Meta fiscal. Carga tributária. Agronegócio. O peso do mercado... Tudo é mistério na cabeça do pré-candidato.

 

Pessoalmente, não gosto do jeitão autoritário, com cacoetes de xerife, que ele apresentou em várias ocasiões desde que chegou ao STF e virou uma personalidade pública. Também desprezo a conversa mole que vê no Judiciário, de onde ele vem, alguma qualidade especial. Chega de togados com retórica de salvador da pátria. Isso é balela de fanáticos por Sergio Moro e patota.

 

Seja como for, o ambiente está agitado como nunca esteve de uns tempos para cá. Patinando na obviedade, digo que é cedo para cravar qualquer prognóstico. Uma série de eventuais fatores, de dentro e de fora da política, tem tudo para mexer as peças e alterar o quadro nas próximas semanas. As convenções ainda vêm aí. A campanha está longe das ruas. Sim, o jogo está aberto.

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“Holocausto” nas prefeituras foi adiado

No dia 6 de outubro do ano passado, a Associação dos Municípios Alagoanos realizou uma reunião de emergência. O tema do encontro era a situação “dramática” dos cofres nas prefeituras do estado. Reafirmando a tradição do chororô, os senhores prefeitos denunciaram a iminente falência generalizada, segundo eles, em decorrência do arrocho promovido pelo governo federal. Em diversos municípios, houve demissões de servidores em cargos comissionados.

 

Na época, o presidente da AMA e prefeito de Cacimbinhas, Hugo Wanderley, lançou uma previsão assustadora. Segundo o abastado filho das elites alagoanas, ou a União aumentava os repasses aos gestores das cidades, ou as populações mergulhariam no “holocausto”. Suas declarações foram gravadas e reproduzidas por toda a imprensa. Nunca houve tanto drama.

 

Segundo o prefeito, o quadro se agravaria até o fim de 2017. Depois do corte de pessoal, tudo poderia acontecer. Vamos lembrar o que ele disse: A situação é preocupante. Todos os municípios estão sofrendo. Temos obras paradas em todos os cantos. Estamos bancando todos os serviços básicos dos municípios. As demissões são inevitáveis. A ordem era pressionar Brasília a abrir a torneira de socorro.

 

Se o panorama era desesperador nos últimos meses de 2017, para o ano seguinte, as trevas cobririam nosso futuro. Relembre mais um pouco das previsões do presidente da AMA para 2018: Para piorar mais ainda pro próximo ano, nós recebemos uma análise do orçamento enviado pelo governo federal em que se aponta o cenário de um verdadeiro holocausto aqui no Brasil. Seis meses depois, estamos vivos. Ufa!

 

Agora, Hugo Wanderley, o profeta do caos e do fim do mundo, está de volta. Sua dilacerante preocupação é o projeto do governo federal que eleva o salário mínimo dos atuais 954 reais para 1.002 reais no ano que vem. Um reajuste de 48 reais. De novo, o presidente da AMA cobra aumento nos repasses da União. Dessa vez, segundo publica a Gazeta, o homem foi mais comedido: Por menos que seja, o reajuste sempre causa um grande impacto, porque a base salarial dos municípios é o salário mínimo.

 

Embora mais discreto, vejam que ele já prevê a dureza nas contas lá no futuro, mais ou menos daqui a oito ou nove meses. É um gestor com visão de longo alcance. De todo modo, já estou preocupado com a sucessão dos fatos. Afinal, como 2017 passou, e 2018 vai chegando perto da metade, é possível que 2019 seja o ano do apocalipse – o tempo do holocausto. Bora ajudar as prefeituras?

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Três mistérios que atormentam famílias e desafiam o Estado

Foto: Reprodução/Internet A079734a 195a 4c06 9e1d 8290eb4cafef Allan Teófilo Bandeira, 29 anos

No dia 30 de março, em Maceió, três jovens amigos saíram de casa, por volta de cinco da manhã, e até hoje não voltaram mais. Segundo as famílias, Maxsuelto Fernandes Tenório, Brunildo Matias Vitor Silva e Elton Carlos Nascimento Lino deixaram o Conjunto Selma Bandeira rumo ao bairro da Serraria. Lá, pretendiam pegar cocos em um sítio. A polícia fez buscas na área que o trio teria percorrido, mas não encontrou nada. Apenas vestígios. Vinte dias depois, o mistério continua a atormentar os parentes.

 

Dois meses antes do caso relatado acima, em primeiro de fevereiro, Humberto Thiago de Araújo Neto, 23 anos, sumiu após uma suposta abordagem de policiais militares, no bairro do Prado, também em Maceió. Um amigo que estava com ele conta que os dois foram levados para uma área no Pontal. Lá, esse amigo foi liberado, mas os militares continuaram com Humberto. Uma investigação na Corregedoria da PM, ao que parece, até agora não esclareceu praticamente nada. Em profunda tristeza, a família do jovem espera.

 

Em 23 de novembro do ano passado, Allan Teófilo Bandeira, 28 anos, pegou seu carro, no bairro da Forene, na capital, e rumou na direção do município de Satuba, não muito longe de sua residência. Segundo a família, ele disse que iria participar de um jogo de futebol com amigos. Não retornou mais para casa. Até hoje, quase cinco meses depois, não se sabe o que ocorreu com o rapaz. O carro que ele dirigia também não foi localizado. Parentes e colegas fazem campanha pela internet em busca de informações.

 

São situações diferentes, mas, pelo que a imprensa publicou, parece haver um ponto em comum nos três episódios: há informações concretas sobre os passos das vítimas, o rumo que tomaram e o suposto ponto final de suas trajetórias. Por alguma razão um tanto nebulosa, porém, as pistas evaporam a partir daí. As investigações emperram de modo desconcertante. O que falta à polícia para esclarecer esses casos? As respostas das autoridades têm sido lamentáveis. Parece que estão perdidas na escuridão.

 

Uma investigação desse tipo é sempre complexa. Se estamos diante de crimes, os criminosos obviamente tratam de dificultar a missão daqueles que tentam desvendar os fatos. Ocorre que isso não é novidade para os investigadores. A polícia deve ter mecanismos para enfrentar as dificuldades previsíveis em casos assim. Ou não temos no aparato da segurança pública os meios eficazes para o necessário trabalho de apuração? Como anda a Polícia Civil? Temos um serviço de inteligência pra valer? São dúvidas mais que pertinentes. 

 

Sei que há delegados e policiais seriamente engajados nas investigações desses três mistérios. A falta de resultados, no entanto, denuncia uma anormalidade. Enquanto isso, uma mãe, um pai, famílias inteiras têm suas vidas arrastadas pela angústia da incerteza, pelo drama da espera, pelo desespero. O Estado, que falha até agora, está em débito com todas essas pessoas, está em débito com a sociedade. Até quando?

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Torcendo contra o Brasil de Neymar Jr.

O mundo é uma bola. E pensei mais algumas coisas sobre o jogo, as jogadas e o velho jornalismo.  

 

Futebol é entretenimento. Futebol não é assunto para o jornalismo, muito menos para jornalismo investigativo. A imprensa não tem que perder tempo com denúncias envolvendo a bandidagem de cartolas. Também não deve criticar as fartas demonstrações de boçalidade por parte de treinadores medíocres e cabeças de bagre que maltratam a bola. Futebol, amigo, é emoção!

 

No parágrafo acima, está uma síntese do que a Rede Globo entende como ideal na cobertura dos eventos esportivos. Não estou especulando. São fatos. Embora sempre tenha misturado as coisas, nos últimos anos a emissora oficializou a blindagem do futebol, retirando o segmento do alcance do jornalismo. Por que isso? É lógico: o que interessa são contratos bilionários e audiência.

 

Por onde se olha, essa postura é uma desgraceira. E ressalte-se logo que a filosofia da Globo está espraiada por todas as demais emissoras de TV. O mal jornalismo, é claro, não é exclusivo dos meios televisivos, mas é aí que o descaramento enfia o pé na jaca. Nessa toada, ninguém quer encrenca com essa besteira de jornalismo – isso dá trabalho e não rende os dividendos que todos esperam.

 

Um dos sinais mais antigos – e consistentes – da degradação geral é a figura do repórter engraçadinho. Poderia lembrar vários nomes, mas Tadeu Schmidt e Tiago Leifert representam a categoria de modo perfeito. Um palhacinho foi para a novela do Fantástico; o outro se lambuza na porcalhada do BBB. Nos dois casos, trata-se do Padrão Globo de Qualidade. Faz escola.

 

É por isso que, para a Globo, Ronaldo Nazário e Neymar Júnior têm salvo-conduto para suas peraltices. Vejam que, diante de qualquer assunto mais delicado para os dois, lá estão eles dando “entrevistas exclusivas” às celebridades da emissora. No ano passado, descobriu-se que Neymar mantinha contrato secreto com a Globo. É, para dizer o mínimo, uma pilantragem.

 

Uma mostra da safadeza generalizada pode ser vista nas famosas mesas redondas que infestam a programação dos canais especializados em esporte. Chega a ser constrangedor ver comentaristas que atuam como agentes de cartolas, empresários e atletas. Falam como se estivessem fazendo jornalismo, mas estão a serviço da bandalheira. E ainda querem vender a imagem de corajosos.

 

Aliás, a gritaria nos debates é a marca desses programas na TV. Quando vejo um comentarista à beira do enfarte, de tanto berrar em defesa de um personagem ou pedindo a cabeça de outro, não tenho dúvida: é negócio. Outra estratégia manjada é cobrar a convocação de um “extraordinário” talento para a seleção brasileira. Quando você vai conferir o talentoso em questão, é pura fraude.

 

Eis o panorama devastador da tal imprensa esportiva, praticamente sem exceção. Aliás, o termo imprensa deveria ser excluído dessa atividade. Não há jornalismo no meio desse gramado. É só esquema, embromação, mau-caratismo. Em homenagem a tudo isso, ainda avalio para qual seleção vou torcer na Copa. A última alternativa, quase descartada, é o Brasil do bosta do Neymar.

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“Parabéns, Gustavo Feijó”! A bola fora da imprensa alagoana

Não pretendia perder mais tempo falando da “eleição” na Confederação Brasileira de Futebol. Mas depois de assistir ao Globo Esporte, no bloco alagoano de notícias e na parte nacional, preciso falar. Escrevo “eleição” entre aspas porque não houve disputa. A tradição nessa gangue é a candidatura única. O presidente eleito é Rogério Caboclo, que no discurso da aclamação homenageou Marco Polo Del Nero, o gangster número 1 da CBF. Ao fazê-lo, os iguais da plateia aplaudiram. Foi um sinal claro de que estamos perdidos. Uma zombaria e um acinte.

 

Meu primeiro espanto foi ver o jornalismo da TV Gazeta parabenizar Gustavo Feijó, que, nas palavras do apresentador, “é o homem forte de Alagoas no futebol brasileiro”. Santa Misericórdia! Feijó foi reconduzido ao cargo de vice-presidente da CBF para a região Nordeste. Nem a Globo ousou tamanha bajulação aos seus sócios históricos. Sem escolha, mesmo contrariada, a emissora da família Marinho teve de lembrar do caso de corrupção que desmoraliza a porcaria da CBF.

 

Também nas imagens da reportagem nacional, lá estavam os dois comandantes dos maiores clubes de Alagoas. Estavam lá como integrantes fiéis do esquema que afunda o futebol brasileiro há décadas. Marcos Barbosa, presidente do CRB, e Rafael Tenório, presidente do CSA, seguem direitinho a cartilha dos chefões das grandes jogadas. A dupla é parte de um sistema que um dia terá de ser eliminado da vida brasileira. Ou será assim ou o futebol jogado no Brasil acabará de vez.

 

Lembrando: Del Nero, o elemento que ainda preside a CBF, está afastado do cargo por decisão da Fifa. Corre o sério risco de ser banido do esporte para sempre. Ele também não sai do país porque, se o fizer, pode ser preso, como aconteceu com José Maria Marin, o quadrilheiro que o antecedeu na cadeira. Mas tudo isso recebe o aplauso dos cartolas alagoanos. E tudo isso merece as congratulações do jornalismo da TV Gazeta. “Parabéns ao nosso Gustavo Feijó”. Fala sério!

 

Bom, se por razões políticas e comerciais, os maiores e mais poderosos meios de comunicação de Alagoas precisam bajular a máfia da CBF e seus satélites, aqui, com este blogueiro de meia pataca, o leitor terá sempre o contrário. O futebol brasileiro foi sequestrado por uma corja que deveria estar na cadeia. Por tudo isso, eu não parabenizo Feijó, Barbosa, Tenório, Del Nero e assemelhados.

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“Bolsomito” – a piada e a irrelevância

Os mais ricos e os mais jovens adoram Jair Bolsonaro. Isso não é minha opinião. É o que apontam todas as pesquisas que sondam as preferências do eleitorado. E foi o que atestou, mais uma vez, o último levantamento do Datafolha, publicado no domingo (15/04). Agora é minha opinião: há alguma coisa muito errada nessa turminha de ricaços e na patota da juventude brasileira. Desculpem, mas uma mente um pouco saudável não combina com essa degradação.

 

Os dados da pesquisa revelam algo que merece uma tese. Numa tacada só, derrubam duas lendas urbanas que são repetidas desde sempre. A primeira garante que quanto maior poder aquisitivo, mais capacidade para se informar e, portanto, construir uma visão de mundo mais aberta e arejada. A segunda lenda aponta o jovem como o eterno agente da renovação, da vanguarda, da rebeldia. A paixonite aguda por Bolsonaro fulmina as duas crenças ilusionistas.

 

Não chegarei nem perto de uma tese por aqui, mas avanço um pouco nas divagações. Sobre os de renda mais alta, não há muito a acrescentar; está claro que o dinheiro não compra inteligência e muito menos princípios democráticos. Quanto aos jovens, ao contrário do que se costuma pensar, estão sempre prontos para abraçar os pensamentos mais reacionários, toscos e autoritários. Ou não é isso tudo o que resume o perfil político de Bolsonaro? A rapaziada gosta mesmo é de ganhar no grito.

 

Bastou aparecer um brucutu, com fuzil na mão e um coquetel de preconceitos no berro, para os meninos caírem de quatro. Deve ser a necessidade de liberar a energia vital que dizem existir nessa fase da vida. Para convencer os rebeldes sem rebeldia, é suficiente a demonstração de fanfarronice. Bolsonaro trata negros como gado, e dispensa a mulheres os piores xingamentos típicos de sua visão de mundo atrofiada. O que digo está eternizado na Internet. É só pesquisar.

 

Exatamente por essas razões, o elemento foi denunciado pela Procuradoria Geral da República. Seus crimes de racismo e pregação da violência contra a mulher foram gravados por ele mesmo. Ninguém precisa provar nada, ele próprio veiculou as aberrações, em entrevistas, palestras e manifestações pelas redes sociais. Tudo com sua indelével e cretina assinatura. Bolsonaro se orgulha de ser o que é, tem certeza de que as coisas funcionam com essa lógica da bestialidade.

 

Uma elite financeira burrinha e uma garotada acintosamente servil ao que há de mais atrasado. É uma tabelinha infernal. E as duas esferas acreditam que Bolsonaro representa algum avanço para o Brasil! Tudo bem que o mundo não faz sentido, mas como eu não preciso ajudar a piorar as coisas, escrevo para combater delinquências e insanidades. Espero que o tal “Bolsomito” continue a ser o que sempre foi, no lugar que lhe é mais adequado: uma piada sem graça, no circo da irrelevância.

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Uma gangue escolhe novo presidente

A quadrilha que administra o esporte mais popular do país escolhe seu novo presidente nesta terça-feira (17/04). Também conhecida como Confederação Brasileira de Futebol, a organização comprovadamente criminosa será presidida por um tal Rogério Caboclo. É homem escolado na tradição da casa. Ele não disputa a eleição com ninguém. Será aclamado. É o nome dos atuais comandantes da gangue. Tudo acertado para que nada ameace o esquema tático dos mafiosos.

 

O arremedo de eleição também renova os mandatos de toda a diretoria, incluindo os oito vice-presidentes da CBF. Entre os valorosos que ocupam esses postos cativos está o alagoano Gustavo Feijó, titular de uma Vice-Presidência para a região Nordeste. Estamos bem na foto? Feijó é prefeito de Boca da Mata, cargo do qual se licenciou em dezembro do ano passado. Ele responde na Justiça pela acusação de caixa dois na campanha. Recebeu, na moita, 600 mil reais da própria CBF.

 

O atual presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, não pode sair do Brasil. Teme ser preso em decorrência do escândalo de fraudes e corrupção na venda de direitos para transmissão de jogos da seleção. Seu antecessor, José Maria Marin, está encarcerado nos Estados Unidos exatamente pelos mesmos motivos. A TV Globo está nessa até o pescoço dos irmãos Marinho – mas finge que não tem nada a ver com a história. Tite, o professor, prefere “não misturar as coisas”. Bola pra frente!  

 

Palco de delinquências a rodo, é claro que uma eleição na CBF tem todos os ingredientes que somente ali encontramos. No colégio eleitoral, o voto das federações estaduais tem peso 3. O voto dos clubes da Série A tem peso 2, e para os times da Série B, o peso é 1. É a fórmula perfeita para garantir a perpetuação do mesmo grupo. O eleitorado decisivo são as federações, sucursais da quadrilha-mãe. Para mantê-las no cabresto, o comando mantém a mesada em dia.

 

Para completar a comedia, o eleito de hoje não toma posse imediatamente, mas apenas daqui a um ano. Ninguém sabe explicar a razão dessa regra. Quando você lembra de tudo isso, fica mais fácil entender a mediocridade absoluta do futebol jogado no Brasil. Arbitragem delirante, cartolas corruptos e pernas de pau dando vexame a cada partida – eis um resumo do esporte que temos, dentro e fora dos gramados. Não será uma turnê pela Rússia que vai mudar esse descalabro.

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