O cartola candidato a senador

Vejam esta relação: João Lyra, Augusto Farias, Euclydes Mello, Arnon de Mello Neto, Marcos Barbosa, Raimundo Tavares, Gustavo Feijó. O que eles têm em comum? São políticos que, em dado momento da carreira, entraram no mundo do futebol como cartolas de clubes alagoanos. Na condição de presidente dos maiores times do estado, alguns exerceram mandato eletivo, ou ainda exercem, como é o caso de Barbosa, do CRB. E este ano, mais um nome sonha em se dar bem com a tabelinha entre bola no gramado e voto nas urnas.

 

Estou falando, claro, do empresário Rafael Tenório, o atual presidente do CSA. Depois do acesso do Azulão à Série B do Campeonato Brasileiro, o que já era um forte desejo, acalentado em particular, virou obsessão anunciada publicamente: o cartola estreante não pensa em outra coisa a não ser numa cadeira de senador. Ou seja, é mais um para esquentar a disputa já inflacionada por uma lista de nomes considerados potencialmente barulhentos.

 

Nas entrevistas em que falou sobre sua virtual candidatura, Tenório se apressou em surfar na onda do desgaste dos políticos tradicionais. Ou seja, é outro que chega com o discurso da falência do atual modelo, com a pretensão de “mudar tudo o que está aí”. Tenório também se vale da retórica que exalta o empreendedor, o homem que arregaçou as mangas e construiu uma trajetória de empresário de sucesso. É mais ou menos o palavrório de um João Dória e similares da praça.

 

É uma contradição e tanto alguém defender a renovação da política e, ao mesmo tempo, valer-se do pré-histórico atalho da cartolagem no futebol para garantir um mandato. Ou uma coisa ou outra. Tenório conta com a massa de torcedores do CSA para chegar lá. Também aqui o raciocínio aposta na confusão mental que iguala jogo de bola e demandas de uma população. Seja como for, o homem é mais candidato que nunca. Sua atuação nas redes sociais é pura campanha.

 

Lembrando que nesta terça-feira, dia 16, como você sabe, sai a pesquisa eleitoral do instituto TDL, que será divulgada aqui no CADAMINUTO. Será um primeiro termômetro pra valer sobre as chances de tantos pré-candidatos, incluindo o empresário-cartola Rafael Tenório. A depender dos índices na largada do ano, os postulantes devem reforçar ou rever estratégias em andamento. Vamos ver.

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Senadores e deputados no lamaçal

Rodrigo Maia, o deputado que preside a Câmara em decorrência de grande conchavo criminoso, acredita que tem tudo para virar presidente do país. Intelectualmente medíocre, no jogo político ele sempre foi, e continua sendo, um ator irrelevante. Mas, diante do samba do crioulo doido em que se transformou a vida pública brasileira, qualquer bagaceira se acha alguma coisa.

 

Com a Presidência da República desmoralizada, e com um Judiciário de costas para a Constituição, é claro que o Parlamento não poderia ficar para trás no campeonato da malandragem. Por isso mesmo, somente um milagre poderia gerar uma candidatura presidencial a partir do Congresso Nacional. Como não existe milagre (nem nunca existirá), deputados e senadores não têm chance.

 

Ocorre que os políticos – que vivem em outro planeta – acreditam no que querem acreditar, por mais tresloucadas que sejam suas apostas. Só isso explica a ousadia de Maia e assemelhados em jogadas eleitorais para 2018. A maioria deles, na verdade, está morrendo de medo de não renovar o mandato na Câmara e no Senado. A rejeição generalizada ameaça quase todos.

 

Porque habitam um mundo paralelo, parlamentares agem como se nada tivesse ocorrido nos últimos anos. Enquanto a polícia bate na porta de um e de outro toda semana, as excelências não mudam uma vírgula em seus métodos e ideias. Reforma trabalhista? Previdência? Que nada. Essa turma mata e morre mesmo é pelo dinheiro do fundo partidário e pela ocupação de cargos.

 

A cara de pateta de Rodrigo Maia é o retrato à altura de um Congresso que há muito ninguém respeita. A outra face da patetice são as tacadas obscuras que miram tão somente as vantagens pessoais e partidárias. Daí porque os projetos de qualquer reforma, tidos como urgentes e necessários, mudarem a cada minuto, segundo as conveniências eleitoreiras.

 

Na crise permanente, uma das maiores encrencas é justamente esperar por reformas legítimas a partir de um Parlamento destituído de qualquer pingo de credibilidade. Quem pode levar a sério senadores e deputados que colecionam inquéritos na Polícia Federal e processos no STF? Por causa do lamaçal de Brasília, a impressão nas ruas é de que não sobrou ninguém digno de confiança.

 

Diante da tragédia, fala-se que somente as urnas podem produzir uma faxina no Legislativo. Periga ser tal sentimento a reedição de uma velha ilusão que se repete a cada quatro anos. Atribui-se a Ulysses Guimarães o seguinte pensamento: “Você acha que o atual Congresso é uma desgraça? Espere até ver a qualidade do próximo”. E é por aí mesmo. Difícil encarar o panorama com otimismo.

 

Ainda assim, bom ou péssimo, que o atual Parlamento continue trabalhando, no pleno exercício de suas prerrogativas; e que venham as novidades a partir do nosso voto, mesmo que velharias sejam eleitas. Porque, mesmo em fase bizarra, são as regras do jogo numa democracia. E, sim, ao contrário do que dizem lunáticos por aí afora, vivemos num regime democrático.

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Tempo de insanidade e papagaiada

1. Quanto mais insana, a ideia parece atrair mais gente. Suspeita-se que esse seja um dos fatores determinantes para o sucesso de Bolsonaro entre os eleitores. Eu só não entendo o que isso tem a ver com esquerda ou direita. Ideologia, para aquele jumento, é resolver as coisas na ponta do fuzil.

 

2. Não bastassem tantos pedidos para atender, a cada segundo e por toda a eternidade, Deus agora não tem um instante de paz diante dos fiéis no Brasil. É que arrastaram o Todo Poderoso para a guerra suja da política no mundo virtual. Jesus e Nossa Senhora também andam estressadíssimos.

 

3. Como você sabe, diante da falência da política e da crise de representatividade, todo mundo, incluindo as redes sociais e a imprensa tradicional, está em busca da novidade absoluta. Se é assim, que tal Valéria Monteiro? Suas evidentes qualidades parecem incontestáveis. Ganhou meu voto.

 

4. A esquerda e a direita cansaram de brigar em torno de Chico Buarque. O motivo da discórdia agora são Anitta e, principalmente, Pablo Vittar. As duas garotas enlouquecem os “críticos”. Aliás, nunca vi tantos liberais & conservadores preocupados com os rumos da cultura musical brasileira.

 

5. Luciano Huck, o sujeito que pratica asqueroso assistencialismo via televisão, voltou a pintar como candidato a salvador da pátria. Se é para entregar o país à TV Globo, por que intermediários? Vamos eleger nas urnas João Roberto Marinho para presidente do Brasil!

 

6. Zapeando pelos canais de notícia, esbarramos em peças de autopromoção sobre o jornalismo das emissoras. Em todas as propagandas, um ponto em comum: jovens repórteres exaltam o telefone celular como fator primordial no trabalho que realizam. A vida real, lá fora, não conta.

 

7. Quando a gente vê juízes fazendo papagaiada, todo santo dia, nas irresistíveis redes sociais, fica a dúvida: afundou o nível na formação dessas categorias ou sempre foi assim e ninguém sabia? Nesse caso, é o que parece, a internet revelou que a suposta seriedade era só fantasia.

 

8. A antologia de insanidades e papagaiadas, é claro, daria uma lista interminável. Fico por aqui, até porque, enquanto escrevo, o noticiário segue atirando pra todos os lados – e a fábrica de inutilidades não para de ampliar a produção. Mas não acho que seja o fim do mundo. É apenas a vida como ela é: cheia de piadas, de variados estilos e para todos os gostos.

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A pesquisa eleitoral que vem aí

As pesquisas eleitorais provocam agitação natural entre candidatos e partidos. Se já é assim em qualquer período, mais ainda quando estamos em ano de eleição. E o CADAMINUTO anuncia para a próxima terça-feira, dia 16, o primeiro levantamento na corrida por votos em 2018. Teremos um panorama sobre as preferências para o Senado e o governo estadual.  

 

O trabalho é de responsabilidade do instituto TDL Pesquisa & Marketing, com experiência reconhecida há duas décadas em Alagoas, Pernambuco e Bahia. Além dos candidatos tradicionais, o TDL medirá as chances de algumas novidades, como Alfredo Gaspar de Mendonça, que hoje exerce o posto de procurador-geral de Justiça. Aliás, o chefe do Ministério Público não pensa em outra coisa.

 

Para o Senado, como você sabe, são duas vagas. Assim, Renan Calheiros e Benedito de Lira têm o desafio de renovar o mandato. Não será fácil. Uma das razões para isso, claro, é o avassalador desgaste na imagem da política em geral e de todos os políticos. Além do mais, nunca houve tantos candidatos a senador – e com aparente estrutura para brigar pra valer pelos votos.

 

Diante do tanto que se fala há pelo menos um ano, a relação de pretendentes ao Senado inclui Marx Beltrão, Maurício Quintela, Rodrigo Cunha, Teotonio Vilela Filho, Thomaz Nonô e o já citado Alfredo Gaspar. Só aí são seis nomes, afora os dois atuais senadores que tentam a reeleição. É muita gente para duas cadeiras apenas. Veremos como aparecem na pesquisa que vem aí.

 

Quanto ao embate pelo governo do estado, a expectativa maior é sobre os índices de Renan Filho, em busca da reeleição, e do prefeito de Maceió, Rui Palmeira, o adversário com mais chance de ameaçar o projeto do governador. O prefeito respira 24 horas por dia o ar carregado de uma pressão para sair candidato. Por interesses diversos, aliados exigem Rui na eleição.

 

Especulo que, nestes dias de janeiro, Rui é menos candidato do que já foi em algum momento do ano passado. Por diferentes fatores, ele já esteve mais inclinado ao caminho das urnas. Mas hoje esse ímpeto teria diminuído bastante. O problema é que seu grupo – ainda estou especulando – não se conforma com a alternativa de uma não-candidatura. Daí o impasse no meio da sala.

 

Os números da pesquisa que este site trará na terça certamente vão chacoalhar o cenário que temos agora. A depender do resultado, pressões, avanços e recuos podem deslocar tendências atuais. Pelo que sei, estão todos ansiosamente à espera dos dados que vão mostrar as intenções de voto do sempre imprevisível eleitorado. Por enquanto, o quadro ainda é nebuloso.

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Por que Rui Palmeira declarou guerra ao Tribunal de Contas do Estado

Secom Maceió 1276879a 4bb2 41a8 967c f8c7dc114e34 Prefeito Rui Palmeira

Como vocês sabem, nos últimos dias do ano que passou, o prefeito de Maceió, Rui Palmeira, declarou guerra à presidência do Tribunal de Contas do Estado. O motivo é a espera por uma certidão para que a prefeitura receba empréstimos a serem empregados em grandes projetos, como a promessa de revitalização da orla lagunar. O TC segura o documento há mais de três meses.

 

Segundo o prefeito, a demora na liberação da papelada é uma atitude deliberada da presidente do TC, Rosa Albuquerque. Ela é irmã do deputado estadual Antonio Albuquerque – e seria ele, na verdade, a mão invisível a segurar a certidão que a prefeitura aguarda. A conselheira reagiu afirmando que as palavras de Rui Palmeira foram “irresponsáveis” e “levianas”.

 

Após acusar o tribunal de agir politicamente para prejudicar sua gestão, o prefeito recorreu à Justiça para obter a certidão o mais rápido possível. E é bom que o impasse acabe logo porque, afinal, a população da cidade não pode ser prejudicada por esse tipo de encrenca. A continuar assim, enquanto o andar de cima troca sopapos verbais, obras necessárias ao povo ficam ameaçadas.

 

Na confusão instalada, não sabemos quem está certo, é verdade, mas o histórico do Tribunal de Contas joga a favor do prefeito. Não tenho dúvidas quanto a isso. No colegiado, quase todos os conselheiros são políticos aposentados – que vestem a toga, mas não param de agir como caciques partidários. É assim no país inteiro, incluindo o Tribunal de Contas da União.

 

Usar o cargo para beneficiar seu grupo político é a especialidade da maioria dos conselheiros. O mal de origem está na forma como são escolhidos os integrantes do TC. Notório saber jurídico e reputação ilibada seriam os critérios obrigatórios para a escolha. Seriam. Na prática, prevalecem os piores conchavos entre Assembleias Legislativas e governos estaduais. É claro que não funciona.

 

Não sei quando, mas chegará o dia em que o país terá de enterrar essa mazela que atende pelo nome de Tribunal de Contas. Ou se muda a maneira de eleger os conselheiros ou então fecha de vez esses palácios que representam nossas piores tradições na vida pública. Não dá para engolir que políticos tomem de assalto o que deveria ser um órgão fiscalizador dos cofres oficiais.

 

A denúncia do prefeito, portanto, revela algo muito além do caso específico. O TC sempre agiu na sombra, bem longe de qualquer coisa parecida com transparência. Repito: é uma excrescência brasileira, democraticamente distribuída por todo o território nacional. Rui Palmeira sabe que é assim. Por isso, deixou de lado a cordialidade e partiu para o confronto aberto.

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Ativismo judicial atrasa o Brasil

Um juiz do Rio de Janeiro decide que a escolhida pelo presidente Michel Temer não pode tomar posse no cargo de ministra do Trabalho. Outro magistrado, agora de Pernambuco, suspende o processo de privatização da Eletrobrás. São decisões que se inserem numa tradição que, nos últimos anos, ficou conhecida como ativismo judicial. Se bobear, como já disse aqui, integrantes do Judiciário implantam a República dos Togados. Consideram-se acima do bem e do mal.

 

Eu falei em tradição. Então vamos voltar trinta anos no tempo. Em 1988 o Congresso Nacional que saíra das urnas dois anos antes teve como missão principal escrever a nova Constituição do país. Deu-se então que, ao longo do percurso, mais de uma vez, o trabalho esteve ameaçado porque algum juiz, direto de sua comarca, em qualquer biboca, mandava parar tudo.

 

Naqueles dias agitados, de transição e mudanças, era uma confusão atrás da outra, tudo decorrente das idiossincrasias cultivadas nas cabeças douradas do Judiciário. Não havia razão para as liminares que pretendiam simplesmente fulminar – vejam a loucura – a nova Constituição do Brasil. A saliência da magistratura atrapalhou, criou problemas, mas o país andou para a frente e a Carta está aí.

 

Mais adiante, em 1994, o governo Itamar Franco implantou o Plano Real, na maior engenharia econômica já vista no país – uma conquista definitiva que matou a superinflação. Mas, também aqui, houve tentativas de barrar as medidas anunciadas pelo governo. E de novo, claro, era a voz iluminada de algum togado a nos dizer o que o país pode ou não pode fazer.

 

O mesmo tipo de atuação da Justiça pode ser visto, em diferentes períodos, nos casos de privatização. Como sempre, os argumentos estão mais para cartilhas ideológicas da Idade da Pedra: é uma elite cheia de privilégios mostrando-se preocupada com a soberania nacional e, por isso, tem o dever de impedir a venda do patrimônio brasileiro. (Aquela do papagaio é mais engraçada).

 

Nos anos recentes a coisa só piorou. O ativismo está espalhado nos tribunais de canto a canto do país. A tragédia é que essa postura abusiva ganhou aval na instância máxima do Judiciário. São incontáveis as iniciativas de ministros do STF que tentam impedir ações da Presidência e do Congresso. Um dos casos mais bizarros se deu quando o ministro Luiz Fux mandou o Senado devolver à Câmara o projeto anticorrupção. Uma interferência escandalosa no Legislativo.

 

E este é o ponto. O essencial princípio de independência entre os poderes da República tem sido sabotado justamente por quem deveria zelar pelo respeito à Constituição. Hoje em dia, cada ministro parece ter seu próprio código de leis – e assim atropelam o ordenamento jurídico movidos por suas convicções particulares. O pior é que no horizonte não se vê sinais de mudança nessa frenética militância que assola o Judiciário.

 

Ao contrário, vem mais presepada por aí. Se continuarmos nessa toada, magistrados podem se orgulhar do belo trabalho que fazem: ensinam que a lei deve ser aplicada por conveniência e empurram o país para trás. Sem dúvida, é um legado e tanto para a democracia, segundo os parâmetros enviesados que predominam nos luxuosos palácios da Justiça.

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A imprensa e Jair Bolsonaro

Reportagem na Folha de S. Paulo sobre Jair Bolsonaro deflagrou uma nova guerra entre apoiadores e adversários do parlamentar. Nas redes sociais e na imprensa em geral, entre anônimos e celebridades, são muitas as vozes em defesa do pré-candidato a presidente. Um ponto em comum em todas as manifestações favoráveis ao político é o ataque à imprensa.

 

Em resumo, a Folha apresenta fatos que revelam como a família Bolsonaro (pai e três filhos) prosperou na vida política, multiplicando o patrimônio sem praticamente qualquer outra fonte de renda. A matéria faz o que o jornalismo tem obrigação de fazer: revirar a biografia de figuras que pretendem nada menos que governar o país. Não há nada de errado com a reportagem.

 

O episódio mostra como a expressão fake news já se banalizou. Todos acusam todo mundo de produzir notícias falsas. Virou a reação automática, ainda mais valiosa quando não se tem mesmo o que dizer. E esse é o argumento principal da diversificada tropa bolsonarista. Sim, digo diversificada porque, ao contrário do folclore, o culto ao elemento mistura classes e perfis.

 

O próprio Bolsonaro se defendeu com a estratégia de atacar o jornal, sem contestar os números e informações apresentadas. A investida da Folha certamente assusta o deputado. Além de desdobramentos do episódio, outras notícias devem aporrinhar o paladino de fuzil na mão. Quanto mais influente no jogo, mais vigiado ele estará pelo jornalismo. Como tem de ser.

 

Ainda consigo me espantar quando vejo autoproclamados liberais e conservadores fazendo malabarismos retóricos para justificar adesão a essa tosca figura da política. Tentam enfeitar o monstrengo com teorias que servem para tudo. Por isso, Bolsonaro vai do operário ao magnata, passando pelo intelectual.

 

Não se deve subestimar nenhum esboço de tiranete, é claro; mas Bolsonaro me parece mais patético do que perigoso. Não digo isso para minimizar o erro de suas ideias pré-históricas, mas para ressaltar a patetice no conjunto da obra. Agora, por mais que a quadra seja de terra arrasada, há sempre espaço para piorar as coisas. A eleição será mesmo das mais agitadas.

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Cadê o dinheiro que tava aqui?

Na eleição de 2018, será difícil saber quantos candidatos em Alagoas (e no país) não respondem por acusações de corrupção. Na noite deste domingo 7, mais um político alagoano entrou na lista dos que têm muito a explicar sobre atos suspeitos na gestão dos cofres públicos. Trata-se do ministro do Turismo, Marx Beltrão, ex-prefeito de Coruripe, no litoral sul do estado.

 

Após investigações, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal acusam Marx Beltrão de, no comando da prefeitura, ter desviado mais de 40 milhões de reais destinados à educação. Uma rede de laranjas, com dezenas de pessoas e empresas fictícias, foi montada para fraudar licitações. O esquema tem detalhes inusitados, como um mesmo contador para diferentes empresas.

 

O caso foi revelado no Fantástico, da Rede Globo, numa reportagem de quase oito minutos, uma enormidade quando se trata de TV. Por configurar uma situação típica de desvio de verbas, a história foi encaixada no quadro permanente que tem aquele sugestivo nome. “E agora, senhor ministro, cadê o dinheiro que tava aqui”, pergunta Tadeu Schmidt durante a narração da reportagem.

 

O Fantástico exibiu entrevistas com Marcelo Lobo, procurador da República em Alagoas, e Daniel Granjeiro, delegado da PF. A dupla detalha a estratégia armada pelo grupo para fraudar as licitações e sumir com o dinheiro do transporte escolar, da merenda e de ações diversas na educação. Delegado e procurador são contundentes em acusar a “organização criminosa”.

 

Os envolvidos negam tudo. O ministro Marx Beltrão se pronunciou por meio de nota oficial. Disse não ser alvo da investigação e negou qualquer ilegalidade com os recursos da prefeitura. Agora é esperar pelos desdobramentos da denúncia no âmbito judicial. Quanto aos estragos políticos e eleitorais, o ministro, candidato a senador, vê seu projeto estremecer.

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A união das esquerdas

Disfarçada de novidade, a repetição é a regra no velho debate político. Por isso, toda vez que leio mais uma notícia nas manchetes, com destaque para declarações impactantes e personagens desenvoltos, comento junto ao nada: acho que já vi isso outras vezes. Sobram exemplos do que falo, mas penso agora nas recentes entrevistas de Marcelo Freixo e Guilherme Boulos. Que dupla!

 

Freixo é deputado estadual no Rio de Janeiro. Perdeu a disputa pela prefeitura carioca nas duas últimas eleições, em 2012 e 2016. Sua figura foi retratada em Tropa de Elite, o filme de José Padilha que mostra polícia, política e bandidagem trabalhando em conjunto pela mesma causa. Filiado ao PSOL, o parlamentar reivindica para si o lugar do radicalmente novo.

 

Boulos, o outro personagem, é o líder do MTST, a organização que atua com ocupações permanentes de prédios abandonados em São Paulo. De família endinheirada, o comandante dos sem-teto na capital paulista veste o figurino do revolucionário que rejeita sua origem e troca de classe social. Parece fantasia? É o que dizem do ativista que, também ele, veio para renovar.

 

Os dois trouxeram ao noticiário dos últimos dias um desses dilemas que vão e voltam eternamente no debate público. Afinal, o que falta para a esquerda superar as divergências de tantas correntes e trabalhar em união? O drama atravessa praticamente toda a história da República. Numa entrevista, Freixo esnobou a alternativa de união das esquerdas. Contrariado, Boulos reagiu.

 

Um sinal de que estamos diante de uma pauta requentada e de um pensamento defasado está no palavreado que toma o ambiente de assalto. De repente, voltamos ao drama que a política encenou tantas outras vezes: “as esquerdas só se unem na cadeia”. É uma falsa polêmica, igual a tantas que desaparecem horas depois de incendiar a chamada opinião pública.       

  

Freixo e Boulos deliram com a possibilidade até de disputarem a eleição presidencial. Os dois, portanto, brigam em tese pela mesma faixa de atuação partidária, com suas diferenças mais de aparência do que de princípios. Se os candidatos da velha direita para presidente assustam em quase tudo, os nomes da nova esquerda já entram em campo olhando para trás.     

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Um retrocesso de duas décadas

O salário atrasado, às vezes mais de um mês, já provocou até tragédias entre servidores públicos. Uma realidade que parecia esquecida no passado. Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e agora Rio Grande do Norte – cito os casos de grande repercussão – apresentam ao país um espetáculo de incrível retrocesso na gestão pública. Uma situação que Alagoas conheceu bem.

 

Durante quase toda a década de 1990, as contas do estado estiveram em colapso. No momento mais agudo daqueles dias, algumas categorias chegaram a acumular um ano de salários atrasados. Vários casos de suicídio foram noticiados. Diante do caos, o simples anúncio do pagamento de um mês era a manchete de toda a imprensa. Algo que deveria ser corriqueiro, ou seja, o cumprimento de uma obrigação legal, era tratado como um acontecimento extraordinário.

 

O governo do estado precisou do socorro federal para escapar daquela crise devastadora. No meio do caminho, como se sabe, houve até a renúncia de um governador. No fim dos anos 90, as coisas estavam ajustadas – pelo menos acabou a calamidade do calote nos servidores. De lá até hoje, não me lembro de qualquer período de incertezas quanto ao pagamento da folha.

 

E não pode ser diferente. O avanço da legislação, representado sobretudo pela Lei de Responsabilidade Fiscal, criou mecanismos para impedir aventuras com receitas e despesas. O prefeito e o governador que não pagam a folha – uma obrigação básica – cometem uma barbaridade indefensável. Porque a verba existe. Se deixou de existir, tem algo estupidamente errado.

 

Quando vemos governo e prefeitura da capital antecipando a liberação do salário – e isso não é de agora –, a crise do passado até ganha ares de realismo fantástico. Imagine que nas campanhas eleitorais os candidatos “prometiam” pagar o funcionalismo em dia. Mas como não existe fórmula perfeita, aí estão governadores pelo país afora enrolados com uma demanda elementar.

 

Choramingar a crise e passar o chapéu em Brasília são as únicas medidas concretas anunciadas pelos estados quebrados. Além de demagógica, é uma posição confortável, que tenta afastar do gestor a responsabilidade maior pela pane nos cofres públicos. Talvez a lei tivesse de ser mais dura com gestores que pisam na bola nesse quesito. Afastamento do cargo seria um bom começo.

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