Janot de óculos escuros

O caráter de Rodrigo Janot vai sendo exposto como nunca em seus derradeiros dias no cargo de procurador-geral da República. A última peça de sua atuação circense foi uma foto divulgada – primeiro pelo site O Antagonista e depois reproduzida por toda a imprensa – que mostra o homem à mesa de um bar, na companhia de um advogado de Joesley Batista.

Não houvesse o registro da imagem, ninguém acreditaria que o tal encontro ocorrera. A descrença não seria em decorrência da integridade moral de Janot, é claro, mas pelo descaramento do episódio. Visto com a devida atenção a certos detalhes, estamos diante de algo que até parece doentio.

O aspecto mais revelador é o dado temporal. Janot e o advogado Pierpaolo Bottini se encontraram no último sábado (09/09), num bar de Brasília. Um dia antes, acossado por suas próprias armações, Janot havia solicitado ao STF a prisão de Joesley. A dupla explicou que tudo não passou de um encontro casual, sem que assuntos jurídicos estivessem no cardápio. E quem duvida? Devem ter falado sobre nudes e alguma nova tendência gourmet.  

Vocês viram a foto. O requinte do evento está nos óculos escuros do transparente procurador. Que imagem emblemática! Longe dos ambientes soturnos e cheios de etiquetas que se veem nos tribunais, operadores do Direito e agentes da lei expõem suas afinidades nos fundos de um singelo (e tão brasileiro) boteco. Sim, as esferas públicas e pessoais se ajeitam na sociologia do homem cordial.

Repito: não se combate delinquentes com delinquência. Ministério Público e Judiciário devem agir com zelo absoluto, sem alianças de ocasião com vigaristas interessados em acobertar seus próprios delitos. Métodos inescrupulosos arruínam qualquer investigação. Juízes e promotores estão impedidos por lei de fabricar provas fraudando os parâmetros legais.

Admitir esse tipo de conduta conspira não apenas contra o acusado da vez, mas contra todos os cidadãos. Quem age assim, ou está a serviço de causas exóticas, ou está apenas exercendo seu inofensivo direito à ignorância.

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Uma grotesca renovação da política

Todos os dias eles aparecem na TV. No cumprimento da lei, as emissoras são obrigadas a exibir as inserções da propaganda política, num medonho festival de figuras em quase tudo bizarras. É um panorama de inapelável desalento – até para o mais otimista dos espíritos.

Quando vejo o desfile de caras e frases feitas, não sei o que é mais fantasmagórico; se a velharia que nunca larga o osso, se seus filhotes a ostentar os sobrenomes que nos atormentam desde os tempos das capitanias, dos engenhos e das carruagens.

Nos programas televisivos, os descendentes do mandonismo se repetem na ladainha da “mudança”, da “renovação” e da “nova política”. O enfadonho discurso soa tão verdadeiro quanto as fábulas de Chicó no mundo de Ariano Suassuna. É um desafio infernal procurar alguma dose de consistência e credibilidade em falatório absolutamente oco e inverossímil.

Como se suas famílias não estivessem aí há décadas, produzindo todos os tipos de mazelas, por sucessivas gerações, os herdeiros dos coronéis se apresentam como se fossem a redenção de um povo. É como se tivessem direito natural à posse de nossos destinos. Chega a ser agressivo.

A certeza de que herdarão o poder e o botim, sem fazer força, parece até liberar a linha sucessória de alguma formação mais elaborada. É patente a mediocridade intelectual, assim como o viés populista e reacionário. O vazio de ideias é tão visível quanto as feições da linhagem paterna.

É duro, mas aí estão as novidades de nossa política. Isso tem história. Do coronelismo à pistolagem, do nepotismo à taxa de propina, do assalto aos cofres públicos à deslavada demagogia – tudo nos alerta para o pior. Nessa toada fatalista, por essas bandas, ao que parece, o futuro ainda vai durar muito tempo.

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Quando um delator conta mentiras

Foi parar na cadeia o delator que, até um dia desses, pretendia simplesmente derrubar o presidente do país. E ele quase conseguiu. Jornalistas consagrados e os maiores veículos de comunicação cobraram, em contundentes artigos e editoriais, a renúncia de Michel Temer. Joesley Batista se apresentava então como a consciência exemplar da nação, uma cápsula de coragem, honradez e honestidade.

Era isso o que se pensava no carnaval de fanáticos da Lava Lato. Na vida real, não resta dúvida, tudo não passava da mais cretina encenação. Ao contrário do que disse em espalhafatosas entrevistas, a única preocupação do açougueiro da JBS era com seus próprios interesses.

Desde o começo, apesar da zoada e da cacofonia de justiceiros, as denúncias em série de Joesley foram deixando rastros duvidosos, indícios de práticas sempre suspeitas. Quatro horas de gravação, agora reveladas, mostram que o homem entende mesmo é de bandidagem. Em suas palavras, há de tudo: de propina e ameaça a chantagem sexual.

Joesley e seu ex-diretor Ricardo Saud, também preso, são delatores na Lava Jato. Distorceram fatos, manipularam dados e informações, acusaram levianamente, mentiram com a serenidade dos psicopatas. Num estado de coisas em que a palavra de um delator é tomada como definitiva para se condenar qualquer um, o que temos no horizonte?

No clima de linchamento generalizado, e a qualquer custo, autoridades deixam de investigar e de buscar as provas. Tudo se resolve no palavrório de confiáveis delatores, criminosos arrependidos que, de repente, decidem contribuir para um país melhor, livre da corrupção. É o paraíso de promotores juvenis do Ministério Público Federal.

Como não existem soluções fáceis para coisas complicadas, seria recomendável que a garotada do MPF começasse a agir com um pouco mais de sobriedade e menos deslumbramento. Viciados em delações, os promotores precisam se livrar dessa dependência, em nome de investigações sérias.

Na condição de delatores, o ex-senador Delcídio do Amaral e o doleiro Alberto Youssef já foram flagrados contando mentiras em seus depoimentos. Além deles, quantos mais não contaram fantasias em criativas peças de acusação?

O combate à corrupção não pode se valer da prática de crimes para forjar provas e obter condenações. Agindo assim, representantes da lei se igualam aos delinquentes. O escândalo JBS-PGR é resultado dessa terrível anomalia.

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Afiliadas da Rede Globo censuram Lula

O ex-presidente Lula visitou o Nordeste, a bordo de uma caravana que mobilizou muita gente por onde passou. Em Alagoas, esteve em Penedo, Arapiraca e Maceió. Fez discurso e recebeu homenagens. Pelas imagens dos eventos, falou para multidões. Produziu um fato político de peso. Tratando-se de quem se trata, impossível não receber cobertura da imprensa.

É claro que não vou explicar por que Lula é notícia. Ninguém precisa explicar uma coisa dessas. Mas isso não valeu para o jornalismo praticado nas emissoras de TV afiliadas da Rede Globo. Lula – na pauta da imprensa mundial – não despertou o interesse dos telejornais em Alagoas e nas demais afiliadas da rede, em outros estados.

Repare no contraste. Em Julho passado, houve uma passeata em Maceió, uma dessas iniciativas algo meio patéticas, em defesa do juiz Sérgio Moro e pela prisão de Lula. Aí, sim, foi notícia nas emissoras globais, com direito a entradas na programação, fora do horário dos telejornais.

Quando a Globo toma uma decisão editorial, a regra é imposta também aos departamentos de jornalismo das afiliadas, sem que estas tenham sido sequer ouvidas a respeito. São apenas comunicadas. Sei disso por experiência própria.

Não estou defendendo uma cobertura favorável a Lula. O problema é a omissão diante de um fato que é notícia sob qualquer critério que se use. Goste-se ou não, o presidente mais popular da história brasileira é personagem central no presente e no futuro que nos espera logo adiante. Candidato em 2018 ou ameaçado de prisão, o caso Lula se impõe às manchetes. Se uma grande empresa de imprensa despreza tamanha evidência, de uma coisa sabemos: o jornalismo sucumbiu a outros interesses.

Falei de experiência própria, e explico. Durante seis anos, entre 1995 e 2001, exerci cargos de direção no jornalismo da TV Gazeta. Na relação com a Globo, conheço os métodos e a filosofia. A pauta e a abordagem de muitos assuntos são definidos bem longe da afiliada, no Rio ou em São Paulo, onde estão as mentes do comando global.

Por isso, temos o que temos. Lula veio ao Nordeste e, mesmo arrastando milhares de pessoas em muitos eventos – num país em permanente terremoto social –, nada de notícia nas afiliadas da TV Globo. Como diria um personagem de Nelson Rodrigues, muito além do Fantástico: caso sério, caso sério!

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Lava Jato vai disputar eleição 2018

Informações na imprensa confirmam as negociações entre partidos políticos e promotores da Lava Jato de olho nas eleições de 2018. Como já se especula há vários meses, Deltan Dallagnol e Carlos Fernando Lima, as duas figurinhas mais estridentes da República de Curitiba, estão a ponto de assinar uma filiação partidária. A dupla deve ingressar no Podemos, o novo nome do nanico e velho PTN.

É o caminho natural. Desde que a Lava Jato ganhou manchetes e holofotes, a dupla de colegas do Ministério Público Federal não faz outra coisa a não ser política. Não importa o assunto em debate, os dois correm às redes sociais para mais uma sessão de disparates e chiliques.

Os dois agentes públicos – que julgam e condenam sem provas, mas com muita convicção –, devem mesmo abandonar a carreira – para o bem do MP. Se a política vai melhorar com a contribuição de ambos, aí já não se pode garantir com a mesma certeza.

Ainda não é oficial, mas o sonho dos promotores seria ocupar uma cadeira no Senado. Se as alianças para isso não forem suficientes, um deles sairá para deputado federal. Tudo isso vai depender dos arranjos que as duas respeitáveis personalidades discutem com notórios caciques da politicalha nacional.

Diante do clima de fanatismo justiceiro, outros membros do MP, e também do Judiciário, estão empolgados com a alternativa de ter um mandato político. Um deles é o próprio procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Consta que sua meta seria o governo de Minas Gerais. Mas agora, no olho do furacão, nocauteado pelos fatos conhecidos, o parceiro de Joesley Batista tem muitas dúvidas.

Outro que também recebe convites de algumas legendas é o controverso (e um tanto messiânico) juiz Sérgio Moro. Assim como os parceiros de Curitiba e da Lava Jato, ele já provou que adora expelir vereditos fora dos autos. Não resiste a um click em busca de curtidas. Mais por conveniência do que por princípios, Moro deve ficar onde está.

Nesse quadro desalentador, não haveria problema nenhum em eventual debandada de promotores e juízes rumo a partidos e a eleições. Trágico mesmo é que eles continuem vestindo a toga e, ao mesmo tempo, em escancarada militância, fazendo política 24 horas por dia.

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Grandiosos projetos! Mas só no papel

Vem aí a redenção econômica de Alagoas, em forma de estaleiro. Vamos construir e vender navios. Também estão garantidos aeroportos em Penedo, Arapiraca e Maragogi. Outra novidade é o Marco Zero do Turismo de Maceió, um grandioso investimento à beira-mar de Ponta Verde.

Ao longo dos últimos anos, esses e outros projetos tramados por sucessivos governos estaduais e municipais ficaram no meio do caminho. Em todas essas fraudes, houve uma perversidade em comum: muito dinheiro foi jogado fora na publicidade de algo que jamais virou realidade.

Se você pesquisar, a lista desse tipo de obscenidade vai muito longe. Agora mesmo, algum agente da máquina burocrática está em alguma biboca ou avenida jurando mais uma fantasia puramente eleitoreira. Prometer tudo e entregar espuma, eis um hábito compulsivo e indestrutível de nossa política cotidiana.

Até hoje esperamos pela riqueza advinda da exploração mineral do Agreste, outra frente de desenvolvimento para nossa economia. Assim como no caso do estaleiro, a parceria entre Estado e capital privado prometia um novo mundo a partir da mineração do solo de Craíbas.

Em outra ponta, para desafogar o trânsito da capital, a solução também reaparece, a cada temporada, nos anúncios de propaganda do governo. Não sai do papel há quase uma década – mas o marketing não falha nunca. Otimista, não vejo a hora de descer e subir toda a Avenida Fernandes Lima, flutuando sobre carros e palmeiras, nos trilhos de um VLT. Será que vai demorar?

(Como jornalista, em diferentes postos e empresas, e em outras épocas, escrevi sobre os projetos citados neste texto. Por dizer o que pensava sobre esse tipo de estelionato, mais de uma vez fui acusado por patriotas locais de ser um “alagoano do mal”).

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Um agente duplo no coração da República

Marcelo Miller, o ínclito operador do Direito que era agente duplo no circo de delações premiadas, prestou depoimento durante dez horas e saiu revoltado com um pedido de prisão contra ele. Como se sabe, a medida foi requisitada pelo desmoralizado chefe do Ministério Público Federal, Rodrigo Janot.

Miller exercia o cargo de procurador da República e era o braço direito de Janot nas negociações com o açougueiro Joesley Batista. Valendo-se dessa condição privilegiada, o versátil procurador empenhava todo o seu talento na tarefa de resolver as encrencas dos bilionários donos da JBS. Ao que tudo indica, trabalhava para o grande capital, custeado pelos cofres públicos.

É caso único? Jamais saberemos, a não ser por algum acidente de percurso, como ocorre agora. As notícias sobre o comércio de sentenças aparecem até com certa frequência, mas costumam ficar restritas aos círculos íntimos do poder. A prática acaba naturalmente protegida por pressões descomunais e códigos de sobrevivência entre os envolvidos.

É para isso, aliás, que servem as entidades e associações que representam as categorias. Com pontualidade infalível, vivem a publicar notas e notas em defesa de seus associados, de sua turma. Ao primeiro sinal de investigação sobre seus membros, lá vem uma peça de retórica e boçalidade a esgrimir lições de moral e patriotismo para todos nós.

Falta muito para que tenhamos um ordenamento jurídico que respeite princípios universais, e não apenas demandas provincianas, corporativistas e pessoais. É precisamente por isso que o terreno segue fértil ao cultivo de gente como Marcelo Miller e assemelhados.

Remédio mágico para essa aberração não existe. As armas que temos são amplamente conhecidas: a fiscalização das instituições pela imprensa e a coragem de informar. É assim porque assim é do jogo.

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Censura e liberdade na democracia

Este é o Brasil das delações, dos telefones grampeados e das palestras com contratantes sigilosos. Nesse ambiente degradado, os interesses de categorias profissionais do mundo jurídico acabam prevalecendo. Em duas frentes, temos a guerra para manter e ampliar benesses e, ao mesmo tempo, vemos as artimanhas na defesa de condutas individuais pra lá de suspeitas.

Procuradores falam demais. Juízes falam demais. E, nos últimos tempos, gostam de se exibir em poltronas de cinema, com sacos de pipoca, em sessão de narcisismo descontrolado. Como escrevi em texto anterior, querem “consertar” o país segundo seus valores e prioridades específicas.  

Enquanto exercem suas prerrogativas de alcance irrefreável, muitos desses representantes da república das togas têm compulsão irresistível pela censura. É avassalador o índice de ações judiciais para calar veículos e jornalistas que ousam criticar suas excelências – magistrados e demais autoridades do Poder Judiciário.

Nas tentativas de impedir a liberdade de expressão e de imprensa, há de tudo, de norte a sul do país. Os donos da opinião alheia, eles mesmos frenéticos comentadores em redes sociais, não aceitam a dissidência. Basta uma vírgula fora do lugar, e partem pra cima dispostos a amordaçar opiniões em desacordo com seus métodos de atuação.

De Sérgio Mouro a algum jovem principiante na carreira, todos adoram exaltar o valor da democracia, desde que suas estripulias não sejam questionadas. Para impor seus pontos de vista e eliminar versões em contrário, metodologia e linguagem obedecem a um padrão. No discurso recorrente, arrogância, casuísmo e vitimização se harmonizam em nome de privilégios descabidos.   

Mas, ao contrário do que muitos repetem por aí, vivemos uma democracia plena. Como não poderia ser diferente, um regime cheio de presepadas, mas ainda assim uma democracia consolidada. Prova disso é estar aqui, escrevendo o que quero sobre um tipo de casta que, em outros tempos, teria poder de vida e morte sobre o meu (e o seu) direito de expressão. Hoje, os donos do sistema podem até se arrepiar de raiva diante da crítica. Mas são obrigados a tolerar.

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A Globo proclama a Independência

Quarenta e cinco anos depois de Tarcísio Meira puxar a espada à beira do riacho, chegou a vez de Caio Castro. Refiro-me, no primeiro caso, ao filme Independência ou Morte, dirigido por Carlos Coimbra, em 1972. A segunda referência é à novela Novo Mundo, exibida diariamente, no começo da noite, pela TV Globo.

O ator Tarcísio Meira – o D. Pedro do passado – é o impecável canastrão que, no fim daquela década, será protagonista de outro filme, mas agora do inclassificável A Idade da Terra, testamento de um alucinado Glauber Rocha. Entre uma peça de propaganda e uma visão caótica e delirante do país, ali, já estávamos num Brasil que se encaminhava para a chamada reabertura.

Após exibição nos cinemas, o filme de Carlos Coimbra, típica obra ufanista dos anos de terror da ditadura militar, foi massificado mesmo porque virou atração anual na TV Globo. Todo Sete de Setembro, a emissora apresentava a obra, na ainda hoje persistente Sessão da Tarde. Era, portanto, uma tabelinha ideologicamente perfeita, vamos dizer assim, entre o veículo chapa-branca e o regime do arbítrio, da tortura e da morte.

Os tempos mudam. E os galãs também. Mas as coisas se conectam e produzem sentido. Enquanto agora a canastrice aparece repaginada em um Caio Castro, no papel que já foi de Tarcísio Meira, a TV Globo reedita a história, em linguagem de folhetim de época, e mais uma vez proclama a independência do Brasil.

Não é uma grande ironia que esse reencontro da ficção se dê numa conjuntura explosiva, e tão particular, como esta que estamos vivendo? No noticiário, a História a quente na fogueira dos acontecimentos. No departamento de dramaturgia, na releitura do passado, uma interpretação própria, um recorte dos fatos, segundo valores em tudo discutíveis.

Em resumo, no jornalismo, muito drama com a notícia. Já na volta à crise do passado, tem muita comédia. Em toda a sua programação, o ostensivo engajamento da Globo é o aspecto mais engraçado. Ou o mais dramático, a depender do seu ponto de vista.

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Troca-troca partidário é drible na lei

Não importa o terremoto de ocasião, a eleição mais próxima dita todos os rumos do agora. A pouco mais de um ano do reencontro dos brasileiros com as urnas, intensifica-se o troca-troca de partido político. A agitação se verifica em todos os estados do país e – se a gente acredita nisso – em todos os campos ideológicos.

Ministros do governo, prefeitos, governadores ou parlamentares: nomes em número cada vez mais alto anunciam que estão saindo da legenda e pulando em nova aventura. São acertos e alianças que acabam impondo um redesenho dos partidos, grandes e nanicos. Como no passado, princípios e critérios de escolha indicam o puro oportunismo em nome do sonhado voto a qualquer preço.

Pode ser o João Dória ou o Bolsonaro. Pode ser o Cícero Almeida ou o Álvaro Dias. É o vereador lá no interior do Acre e o vereador aqui de alguma cidade alagoana. A mesma farra que sempre ocorreu continua do mesmo jeito, em ritmo frenético e agressivo.

Não deveria ser mais assim desde, pelo menos, o ano de 2007. Faz uma década que o STF e o TSE restringiram a orgia entre os partidos, pondo fim à bagunça generalizada. Em tese, as normas em vigor a partir daquela época deveriam estancar a esbórnia. Ficou na teoria.

Uma das regras eleitorais em vigor prevê a perda do mandato em caso de troca de partido sem justa causa. Ocorre que as firulas do Direito e os atalhos para driblar o escrito são tantos, que a lei virou piada. A legislação é atropelada com natural regularidade, como se freio nenhum existisse para disciplinar o ambiente das disputas em 2018.

O que temos nesses dias, no exercício da política partidária, é um fenômeno semelhante ao que existe no futebol. De olho na rigidez do calendário, nada como a garantia de uma amplamente flexível “janela de transferência”. Um intervalo de tempo suficiente para garimpar bons e sadios negócios.

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