Desembargador do TJ-AL dará aula em curso sobre o “golpe de 2016”

3ffd2ee5 d1c2 427f 9483 e000c4dbb8a4 Desembargador Tutmés Airan

A Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) anuncia quatro nomes já confirmados como professores no curso de extensão sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Com o título de O Golpe de 2016 e o futuro da democracia do Brasil, o curso começa na quinta-feira (05), com aulas no campus de Arapiraca, e terá duração de dois meses. Para todos aqueles que tiverem interesse na doutrinação petista, as inscrições ainda podem ser feitas pelo site da instituição. A aula inaugural terá como professor Tutmés Airan, um dos desembargadores do Tribunal de Justiça do estado.

 

Até onde sei, os outros três professores confirmados são: Luciana Caetano, economista e professora da Universidade Federal de Alagoas; Ricardo Coelho, jornalista, ex-delegado regional do Trabalho e também professor da Ufal; e Othoniel Pinheiro, defensor público do Estado. Cada um deles abordará um aspecto do que consideram ter sido uma trama subterrânea para derrubar a primeira mulher no comando do país. Pelo que entendi, esses mestres farão uma espécie de aula especial – não estarão ao longo de todo o curso. As aulas ocorrem à noite, entre 19h e 22h.

 

Ricardo Coelho é petista de carteirinha há umas três décadas. Exerceu a chefia do Ministério do Trabalho em Alagoas no primeiro mandato do então presidente Lula. Ele é um caso típico de militante partidário, a serviço das causas do PT em tempo integral, que faz da universidade um bico. Quando o trabalho no partido dá uma folga, ele reaparece para suas brilhantes aulas no curso de Comunicação Social da gloriosa Ufal. Naturalmente, não é o único a fazer da universidade passatempo remunerado. Por isso, o nível de nossos acadêmicos é referência nacional.

 

O nome que mais parece surpreendente nessa lista de pensadores é o de Tutmés Airan. Não por suas ideias políticas. Porque, para quem não sabe, também se trata de um petista histórico, embora tenha abandonado a militância ao ingressar no Poder Judiciário. Pelo menos é o que imagino. Mas é como no futebol: uma vez Flamengo... Um caso de amor não acaba assim tão fácil. Aliás, a participação do desembargador nesse barco está de acordo com sua trajetória, digamos, de rebeldia e vanguarda. Como advogado, sempre atuou pelas demandas de todas as minorias.

 

Ao escancarar sua simpatia política, Tutmés Airan mostra que nem todo o Judiciário pode ser considerado “golpista”, como acusam os próprios petistas. O desembargador deixa claro também que não está preocupado com a opinião de seus colegas no TJ, muito menos com a turma de togados nos tribunais superiores. Digo isso porque o impeachment cumpriu todas as formalidades de um devido processo legal, sendo assim reconhecido pela corte máxima da Justiça, o STF.

 

Mas o desembargador não concorda com esse entendimento que acabo de escrever. Vejam lá no material produzido pela Uneal (foto) o tema da aula que ele vai ministrar para os estudantes e discípulos do petismo: O papel do Poder Judiciário no golpe e o futuro da democracia no Brasil.

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A impunidade no crime de homicídio e o erro da imprensa no caso Marielle

Foto: Revista Fórum 6b78b9f2 0085 4106 b605 1e6b1340464b Marielle Franco

Na letra da lei, o prazo para a conclusão do inquérito policial varia. O tipo e as circunstâncias do crime – se eventual acusado está preso ou não, por exemplo – determinam a duração máxima das investigações. Mas tudo isso é a teoria no Código de Processo Penal. Como se sabe, o mais comum é a prorrogação do período de tempo incialmente estabelecido para a devida apuração dos fatos.

 

É uma raridade que um homicídio seja elucidado no intervalo de 30 dias, como prevê a legislação – ainda mais quando se trata de episódios com ingredientes que elevam a complexidade da situação. Um exemplo bem claro são os assassinatos por encomenda, cujo grau de planejamento torna mais difícil o trabalho da polícia. A realidade atropela os códigos.

 

É por isso que soa até como insanidade a cobrança da imprensa pela suposta demora na solução no caso Marielle Franco. De repente, vejo meio mundo de repórteres na TV repetindo a mesma lorota, mais ou menos assim: “Olha, após tantos dias da morte da vereadora, a investigação não avança, e não sabemos quem mandou e quem executou o atentado”. Só pode ser piada.

 

Não sei se esse tipo de abordagem se deve mais à ignorância ou ao sensacionalismo quase inerente em certas coberturas. O crime que abalou o Brasil, a partir do Rio de Janeiro, ocorreu há menos de três semanas. Nada, portanto, autoriza ninguém a acusar a polícia de incompetência, muito menos a esbravejar que estamos diante de mais um caso no mapa da impunidade. Ainda não.

 

Aliás, a imprensa pode, sim, cobrar o esclarecimento rápido desse ou de qualquer outro crime. Meu espanto é que isso está sendo feito agora como se a regra no Brasil fosse a celeridade das investigações. A verdade é que na maioria dos casos de homicídio no país, os inquéritos são arquivados sem apresentar indícios de autoria. E aí sim os criminosos estão livres e impunes.

 

O quadro brasileiro nesse campo é tão caótico que praticamente todos os estados não sabem quantos homicídios, a cada ano, são investigados e solucionados. Foi o que revelou estudo do Instituto Sou da Paz, divulgado no fim do ano passado. A pesquisa se valeu de dados oficiais fornecidos pelos governos estaduais e pelo Ministério Público, em todas as unidades da federação.

 

Somente seis estados deram informações completas para se verificar o índice de esclarecimento de homicídios dolosos: São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Segundo o instituto, Alagoas ficou entre os estados que, em vez de números concretos, relataram um vasto conjunto de dificuldades técnicas para produzir tal levantamento.

 

Dos seis estados que forneceram dados precisos, São Paulo conseguiu denunciar autores de homicídio em 38,6% dos casos – bem menos que a metade das investigações. Já no Rio de Janeiro, palco da emboscada que vitimou a vereadora Marielle, somente 11,8% dos assassinatos foram esclarecidos no período de um ano. O panorama é mesmo de calamidade insofismável.

 

O fracasso da apuração de crimes contra a vida, resumindo, é o previsível desfecho dos inquéritos por todo o Brasil. Por enquanto, porém, a morte de Marielle ainda não pode ser encaixada nessa estatística. Quanto ao silêncio das autoridades sobre o andamento da investigação, nada de errado com isso. Pelo contrário. Delegado falastrão não está entre os requisitos de bom trabalho.

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Deus é de direita, Jesus é de esquerda

Se não me engano, escrevi outro dia neste espaço que, diante de algumas manifestações na guerra política atual, ficamos com a impressão de que Deus é de direita. Digo isso porque, de uns tempos pra cá, grupos organizados na militância ideológica recorrem com frequência aos mandamentos do Senhor para defender seus pontos de vista. Até aqueles que rezam e fazem promessas – para ter o direito de andar armados – dizem falar em nome do Altíssimo. Pode isso, camarada Coelho?

 

Antes que continue, lembrarei o óbvio. Sim, estamos vivendo o período da Páscoa, acabamos de fechar a Semana Santa. Ocorre que todo esse labafero diz respeito ao Cristianismo – ou seja, estamos falando de uma seita específica, com algumas correntes dominantes, como o Catolicismo. Uma multidão de seres humanos mundo afora, porém, tem outras preferências no campo da mitologia e do sobrenatural. Nem todos celebram suas divindades em volta da mesa, com sururu e chocolate.

 

Feito o registro da obviedade histórica, retorno ao ponto. Se o Todo-Poderoso tem sido assediado para se filiar às correntes direitistas, Jesus Cristo é alvo do mesmo tipo de assédio – mas para se juntar aos fiéis da esquerda. Prova disso é que, durante esses dias de procissões e retiros, vi um bocado de textos associando o filho de Maria ao delírio utópico de uma revolução nos moldes russos ou cubanos. Nesse caso, deve-se reconhecer que os argumentos capricham no quesito bom humor.

 

Li algo mais ou menos assim: Jesus veio ao mundo na mais absoluta pobreza, como um representante legítimo das minorias, e se tornou um inimigo dos poderosos, ao defender os despossuídos. O cara foi um subversivo, na plenitude do conceito de subversão. Decidido a derrubar o sistema controlado pelas classes da elite, montou uma guerrilha no campesinato e tramou um ataque à “burguesia” daquele tempo. Foi traído por um fascista infiltrado, e acabou como sabemos.

 

Se Deus é de direita, e Jesus partiu para a esquerda, temos um dilema infernal. Mas, pensando bem, até que há alguma lógica na situação aparentemente paradoxal. O que estaria em jogo é a eterna crise na relação entre pai e filho, quando o jovem rebelde não mais se conforma em seguir o velho – um senhor autoritário, acomodado com aquela vidinha um tanto reacionária. Na verdade, estou fazendo especulações na tentativa de entender o racha político que ameaça até o governo do Céu.

 

Como Deus é uma invenção do homem, temo que a qualquer momento o MDB seja convocado para apaziguar as diferenças entre as alas. Já prevejo coalização ampla, agregando desde os mais xiitas, passando pelos socialistas morenos, até os crentes mais moderados. O perigo são as técnicas de persuasão sempre usadas nessas horas de acirramento. Sem acordo, cada um interpreta a seu modo a Constituição do Além, ou seja, a Bíblia. Enquanto isso, na moita, o Capeta corre por fora.

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Passeando às custas do povo

Em dezembro de 2013, o senador Renan Calheiros viajou de Brasília até o Recife para uma importante missão como presidente do Congresso Nacional: foi dar uma turbinada em sua cabeleira. Depois do bem-sucedido implante capilar, descobriu-se que a viagem entre a capital do país e a terra do Mangue Beat tinha sido feita num avião da FAB. Ou seja, eu e você pagamos pela cirurgia republicana do pai do governador Renanzinho. Após a revelação dos fatos, Renan ressarciu os cofres da União.

 

Um dia desses, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes partiu para Fortaleza, onde era convidado especial no casamento de uma enteada. Para viabilizar o deslocamento, ele usou a cota de passagens aéreas a que tem direito como integrante do STF. Naturalmente, os togados devem recorrer à cota para missões oficiais. Casamentos, batizados e confraternizações em geral não estão entre eventos previstos como ação de trabalho.

 

O mesmo Gilmar Mendes acaba de se meter em outra presepada envolvendo viagens às custas do contribuinte. Ele foi a Portugal para falar num seminário do Instituto Brasileiro de Direito Público, que tem entre seus donos o próprio ministro. Um repórter da Folha perguntou quem pagou as passagens. A esclarecedora resposta do togado foi esta: Devolva essa pergunta a seu editor, manda ele enfiar isso na bunda. Isso é molecagem, esse tipo de pergunta é desrespeito.

 

No dia 22 de março, o julgamento do habeas corpus em favor de Lula foi suspenso em função de um compromisso particular do ministro Marco Aurélio Mello. Ele informou que não poderia perder o voo para o Rio de Janeiro, onde daria uma palestra para uma patota do mundo jurídico. Não bastasse o insulto de priorizar uma agenda pessoal em detrimento de suas obrigações oficiais, o ministro faz piada com a suspeita de que o passeio também saiu às custas do tribunal supremo.

 

Em outubro do ano passado, o tosco presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, foi vagabundear por três países, acompanhado pela mulher e outros nove comparsas do Congresso. A farra em Portugal, Itália e Israel teve todos os custos bancados pela Câmara. Para ganhar os ares, claro que o grupo também teve uma aeronave da FAB à disposição. A explicação de fachada para a esbórnia internacional foi que a viagem serviu de intercâmbio e “troca de experiências”.

 

É uma de nossas mais arraigadas tradições. O mundo se transforma, a terra já é plana, mas esse tipo de bandalheira atravessa os tempos – sem perigo de um dia acabar. E veja: o mal percorre todas as instâncias e esferas da vida pública, sem distinção de posto, nos três poderes da República. Eu diria que é praticamente uma guerra perdida tentar varrer para o lixo essa prática deletéria. Se eu fosse um revolucionário, simpático a radicalismos, defenderia o paredão ou a guilhotina. Mas sou da paz.

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É jornalismo ou descarada publicidade? O dia em que Otto venceu o Louro José

Você procura notícia. Abre um jornal ou uma revista – parece que não, mas jornal e revista ainda existem –, e lá está uma reportagem sobre o lançamento de um novo produto, de um show ou de um projeto inovador. Tudo nos leva a acreditar que é informação factual, um assunto que se tornou pauta da imprensa pela intrínseca relevância daquilo que está sendo veiculado. Nem sempre.

 

Um dos pecados mortais no jornalismo é a reportagem que é tudo, menos reportagem. Aquilo que é vendido ao leitor, com toda a maquiagem de notícia, pode ser tão somente o resultado de uma transação comercial entre a empresa de comunicação e um anunciante disfarçado. Durante minhas temporadas na direção de redações, foram muitas as brigas para repelir esse tipo de fraude.

 

Contarei aqui três episódios. O primeiro é bem antigo, lá dos anos 1990, quando dirigi o departamento de jornalismo da TV Gazeta. Concurso público e vestibular sempre rendem cobertura da imprensa. Numa dessas ocasiões, uma pauta corriqueira mandava o repórter percorrer alguns cursinhos para ouvir, claro, professores e candidatos. Assim foi feito.

 

A matéria foi exibida na edição noturna do ALTV. Antes mesmo do encerramento do telejornal, o próprio diretor comercial da emissora praticamente invade minha sala, ensaiando um chilique, esbravejando a seguinte pergunta: “Porra, Célio, que sacanagem é essa?”. Ele estava indignado porque um cursinho que era forte anunciante da casa não fora contemplado na reportagem.

 

Antes de mandá-lo pastar, expliquei ao sujeito que minha equipe não era formada por contatos comerciais, e sim por jornalistas. Acrescentei que se ele contava com o departamento de jornalismo para estelionato e extorsão, e com isso apresentar lucros à empresa, suas contas iam ficar no vermelho. A ironia é que se tratava de um diretor trazido de fora, recomendado pela Globo.

 

Em outro caso, nos anos 2000, já como editor-chefe da Gazeta de Alagoas, deu-se a maior confusão quando criamos o caderno Maré – que existe até hoje. Logo na estreia, o departamento comercial vendeu um anúncio de umas três páginas – e, eu saberia depois, garantiu ao cliente que o assunto estaria na capa, como se fosse uma informação jornalística. Derrubei a bandalheira sem hesitação.

 

Quando a edição foi para a gráfica, o então diretor comercial soube que sua criminosa armação estava morta. Foi uma sucessão de lances dramáticos, com ligações por toda a noite e apelos à cúpula da empresa, na tentativa de mudar minha decisão. Inútil. Na capa do caderno saiu a reportagem escolhida pelos editores, como tem de ser. O diretor que se virasse com seu cliente.

 

O terceiro episódio tem uma boa dose de comédia. E aqui a história mistura as duas empresas da Organização Arnon de Mello. Ainda no cargo de editor-chefe da Gazeta, recebi um pedido para registrar a ilustre visita do Louro José a Maceió. O personagem, parceiro intelectual de Ana Maria Braga, fazia uma turnê pelo Brasil. Era, naturalmente, uma demanda comercial da Globo.

 

Apesar da marmota, como a celebridade animal arrastava uma multidão de fãs por onde passava – e era de interesse “institucional” da Globo –, a direção da Gazeta contava com minha sensibilidade. Fizemos a cobertura do acontecimento, com direito a encontro do Louro com o público na praia da Pajuçara. Mas houve uma verdadeira crise após a publicação da matéria.

 

Saiu um breve registro do fato, em página interna do Caderno B, na sessão destinada ao circo da televisão. O bicho pegou. A cúpula da empresa estava certa de que o Louro José estaria nada menos que na capa do caderno, como a principal reportagem, e chamada na primeira página do jornal. Isso eu jamais faria, a não ser que estivesse a um passo do hospício, por colapso mental.

 

O terremoto – afinal era uma ordem da Globo para sua afiliada – rendeu um momento único em minha trajetória nas redações. Houve uma reunião de emergência da diretoria. Os mais exaltados me perguntavam por que eu havia preterido o Louro José em nome de uma capa do B com o cantor e compositor Otto, que na época lançava mais um de seus extraordinários trabalhos.

 

Perguntei se alguém ali sabia quem era Otto. Silêncio. Então, sapequei uma sinopse sobre coisas como circuito musical alternativo, nomes da safra pernambucana e cena independente. Mostrei que Otto foi capa dos maiores jornais do país, e que era um dos grandes renovadores da música brasileira. Finalmente, lembrei que falávamos de um caderno cultural, não de um suplemento de piadas.

 

Situações como essas que acabo de contar estão na rotina de qualquer jornalista no comando de uma redação, não importa o tamanho do veículo. As experiências que vivi me fazem crer que há sempre margem para o debate. Se a diplomacia não resolve, tem de partir pra porrada. A tragédia é quando os dois lados – jornalismo e comercial – viram sócios. Aí, camarada, estamos perdidos.

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Rolando Lero escreveu nota da Ufal

Esta é a terra de Graciliano Ramos. O autor de obras-primas absolutas – como São Bernardo e Memórias do Cárcere – construiu um monumento literário incomparável. Se na panelinha de doutores da USP, Machado e Guimarães são sempre citados como os maiores, isso se deve muito mais, penso eu, ao oba-oba provinciano que arrasta até supostos especialistas no assunto.

 

Ao contrário do carioca Machado, você não encontra um texto de Graciliano com enredo inconsistente nem vírgulas fora do lugar. Já na comparação com Guimarães, nada mais distante do alagoano do que aquela verborragia com um tanto de afetação que marca a escrita do autor mineiro. Graciliano – digo sem perigo de errar – reinventa a linguagem na literatura brasileira.

                                               

Mas isto aqui não é uma resenha sobre escritores. Fui levado a essa divagação depois de ler a nota da Universidade Federal de Alagoas sobre falta de segurança no local. Como informa este site, a Reitoria se manifestou depois de mais um caso de assalto no campus da Ufal. A nota é um atentado contra o idioma, num palavreado cheio de embromação e erros. Destaco um trecho:

 

O Conselho Universitário (Consuni) reuniu-se no último dia 19 e debateu longamente a temática no sentido de construir soluções consensuadas pela comunidade universitária. Sabe-se dos números relacionados à violência no país e no estado e a Reitoria, como qualquer gestão responsável faria, considera estes dados para subsidiar o enfrentamento da questão.

 

Suspeito que o redator da universidade psicografou o texto acima do erudito Rolando Lero, que ficou famoso na Escolinha do Professor Raimundo. Não bastasse a dança psicodélica na pontuação, o autor alcança o pós-dadaísmo ao perpetrar o que chama de “soluções consensuadas”. A palavra “consensuar” é um verbo inexistente na língua portuguesa. Não está dicionarizado entre nós. É um cacoete no jargão de certas categorias profissionais, uma vã tentativa de erudição. Nunca dá certo.

 

No todo, a qualidade da nota acaba por revelar aquilo que a instituição pretende disfarçar: a universidade não tem o que dizer sobre medidas concretas para dar segurança a professores, estudantes e funcionários. Tudo o que temos como providência é reunião depois de reunião. E vejam que o texto ainda vem com essa história de números da violência no estado e no país. É uma evidente manipulação dos fatos para fugir da responsabilidade. Uma tática consagrada.

 

A fase não é de sorte na Ufal. Outra notícia trata de obras paradas no campus. A foto que ilustra a matéria do CADAMINUTO mostra uma faixa na entrada da universidade, com a seguinte saudação: Sejam bem vindos/as à maior universidade pública, gratuita e socialmente referenciada de Alagoas! #SomosTodosUfal. Faltou o hífen para bem-vindos, como acabo de escrever. A moda de usar uma barra (os/as) para contemplar os dois gêneros é macaquice ideológica.

 

E o que seria uma universidade “socialmente referenciada”? Isso não quer dizer absolutamente bulhufas – é uma fraude intelectual. A nota sobre os casos de violência e a mensagem na faixa são produtos de um jurássico delírio esquerdista. Está tudo de acordo com o currículo da reitora Valéria Correia e, de resto, dos luminares da academia. E pensar que estamos falando da elite de nossa educação, o ensino de nível superior no país. Esse é o nosso padrão de alta cultura.

 

A universidade não é célula partidária, não é lugar para doutrinação e proselitismo de quinta categoria. Com todo respeito à reitora e a seus pares, recomendo que deixem um pouco de lado os manuais stalinistas e os “textões” nas redes sociais – e dediquem alguma leitura a Graciliano. Além de não fazer mal à saúde, pode melhorar imensamente esse estranho idioma praticado por aí.

 

                                                                            X  X  X 

 

Respondo ao leitor Wilmo Francisco. Boa, meu caro! É claro que errei. Saiu no automático. Demorei a corrigir a lambança, mas o texto já está atualizado. Não sei o que deu na minha cabeça. Além do efeito da madrugada, acho que troquei algum ingrediente no meu chá alucinógeno. Quanto a pretender o posto de intelectual, isso nunca. Não tenho o talento e a bagagem dos doutores da Ufal e da USP.

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Bombástico & Exclusivo!

A polarização e o radicalismo ameaçam a estabilidade da democracia? O panorama eleitoral indica que nosso futuro próximo está à beira do buraco mais profundo? A política de todos os lados é mais lamaçal que nunca? Jamais houve no país crise tão devastadora quanto a atual? Calma! Vamos entender um pouco do que se passa a partir de algumas manchetes que estão no ar – como destaque na imprensa. Reproduzo as chamadas. É o mais puro jornalismo investigativo. Segura aí:

 

1. Fátima Bernardes e Túlio Gadelha curtem véspera de feriado no Rio de Janeiro.

 

2. Ana Hickmann passa por batismo no Rio Jordão – e diz que foi uma “experiência única”.

 

3. Thiaguinho conta que conheceu o pai de Fernanda Souza em um hospital.

 

4. Maiara revela que ficou com mesmo homem que Marília Mendonça.

 

5. Mari Palma quase chora ao falar sobre mudança na carreira no Encontro com Fátima Bernardes.

 

6. Quem nunca? Galvão Bueno comete gafe ao chamar Sophia Abrahão de Sônia Abrão.

 

7. No BBB-18, Kaysar fica abraçado com Jéssica no sofá. E Ana Clara recebe elogios após se arrumar para Festa do Reggae.

 

8. Pabllo Vittar mostra resultado de cirurgia no nariz: “Ficou bafo”.

 

9. Estilo: aprenda com Juliana Paes a usar casaco com vestido.

 

10. Papa Francisco diz ao mundo que o inferno não existe.

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Tiros contra Lula

Enquanto eu escrevia o texto sobre as pedradas em cima de Lula, postado aos 11 minutos desta terça-feira (27), a caravana do ex-presidente era alvejada por tiros numa estrada do interior do Paraná. Dois ônibus foram atingidos. Ou seja, a coisa vai piorando a cada hora. Se as pedras arremessadas contra esse maldito petista fazem os “indignados com a corrupção” babarem de felicidade, a balas devem levá-los a prazeres indescritíveis. E um bocado de cretinos ainda faz piada com o caso.

 

As manifestações de antipetistas mostram como a rapaziada perdeu a noção da realidade. Basicamente, a reação insana se expressa em dois pontos. A primeira cretinice é acusar o próprio PT pelo atentado; a segunda é ironizar a vítima da agressão, numa inacreditável celebração pelo ato criminoso. Em bizarra tentativa de parecer imparciais, dizem alguns notórios da direita militante: “Toda violência é condenável, mas...”. Nunca uma simples ressalva foi tão repulsiva.

 

Não posso deixar também de anotar um detalhe espantoso: muitos que tratam o episódio com desprezo à integridade de Lula – o que equivale a desprezar a vida do outro –, se vendem como seguidores fiéis do cristianismo. Lamentável constatar que é uma velha combinação de fanatismo religioso com ódio pelo semelhante. Ora, a lógica é que fosse exatamente o contrário. Onde aprenderam essa estranha filosofia existencial? Pelo visto, tem fiel rezando na bíblia do capeta.

 

A adesão a princípios políticos não é sinônimo de cega militância. Mas é precisamente isso o que mais se vê entre vozes que adotaram em tempo integral o esporte de “combater” a esquerda. É claro que, em grande medida, a histeria de supostos liberais ou conservadores é apenas a expressão de ignorância ou puro oportunismo político. Quem se ajoelha a uma cartilha ideológica de modo incondicional perde a autonomia de pensamento. E acaba virando um pateta – às vezes perigoso.

 

Não é um acidente, portanto, que uma porcaria como Jair Bolsonaro exerça tamanho poder de sedução sobre dublês de pensadores e militantes de direita. Que onda é essa? Uma das coisas mais patéticas é o sujeito que se diz leitor de obras profundas e, ao mesmo tempo, defende as “ideias” bolsonaristas. E essa tara pela liberação de armas para todo mundo? Essas cabecinhas ocas não têm coisa melhor para defender? Isso não tem nada de ideologia, amigo. É só estupidez.  

 

Quem perde tempo com a leitura deste blog sabe que a esquerda não é propriamente alvo de elogios por aqui. Pelo contrário. Como já escrevi, não contem comigo para coletivos, manifestos e coisas do tipo. Ocorre que, para mim, esse princípio vale para qualquer seita, estejam seus gurus à direita ou no lado oposto. Planejados pela internet, como se viu, os tiros contra o ex-presidente Lula são a expressão da barbárie, da lei da selva. Mas, tragicamente, os bárbaros estão à solta.

 

Gostem ou não ideólogos de qualquer vertente, Luiz Inácio Lula da Silva é um dos personagens mais importantes da vida brasileira – no século 20, e até agora, talvez o maior de todos. Sua trajetória e seu legado deram ao Brasil uma perspectiva e uma dimensão jamais alcançadas em nenhuma outra fase de nossa história. A ideia fixa de destruí-lo a todo custo chega a ser algo doentio. Se é verdade que nada é tão ruim que não possa piorar, os pistoleiros devem estar aprimorando a pontaria.

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CSA, CRB e cartolas: quem suborna quem na hora do jogo?

Rafael Tenório é um empresário de sucesso, dizem jornalistas por aí afora. Não sei desde quando, o milionário homem de negócios decidiu levar seu talento ao mundo do futebol – e virou presidente do CSA. Tenório, aliás, não foi eleito, foi aclamado. Na época da escolha da nova diretoria, ele impôs seu nome com a condição de não ter adversário na “eleição”. Ganhou a disputa sem disputar. Por essa metodologia eleitoral, dá para especular sobre o DNA democrático do personagem.

 

Empolgado com a carreira na cartolagem, o hoje dono do CSA resolveu ampliar suas boas ações. Para isso, entrou em partido político e sonha com uma cadeira de senador. Desde o ano passado, não atravessa um dia sem algum lance de pré-campanha. Diante do atual quadro, não sei se ainda está com essa ideia na cabeça. A inflação de candidatos dificulta, e muito, os planos do comerciante. Infelizmente, para ele, não há como concorrer sem concorrentes, como fez no mundo da bola.

 

Falo sobre o cartola da “renovação” depois de ouvir o tal áudio em que ele trata da decisão do Campeonato Alagoano. Como você sabe, CSA e CRB fazem a grande final este ano. A parada será resolvida em dois jogos, sendo o primeiro no próximo domingo (01/04). Em conversa pelo WhatsApp, Tenório diz que o CRB ganhou os dois últimos campeonatos por meio de suborno, comprando árbitros e jogadores do próprio CSA. A acusação, é claro, inundou as redes sociais.

 

No bate-papo com seu interlocutor, o mandachuva do Azulão explica como pretende impedir que o Galo seja campeão repetindo a jogada à base de propina. Prestem atenção: Este ano vamos botar pra foder. Vou blindar todos os meus atletas. Agora quem vai subornar os jogadores do CRB sou eu. Deve ser uma estratégia de contra-ataque. O deputado Marcos Barbosa, presidente do CRB, reagiu, no mesmo tom e com os mesmos termos nobres da velha língua portuguesa.

 

Ouvido pela Gazetaweb, Tenório deu uma curiosa explicação – que nada explica sobre suas acusações. Primeiro, ele nega o conteúdo da gravação, embora sua voz esteja lá sem qualquer fio de dúvidas. Em seguida, informa que estava apenas conversando com um “amigo delegado e candidato ao Senado”.  Quem seria? Com esse nível de esquema tático, talvez seja melhor o cartola ficar em silêncio. A alternativa é revelar os nomes dos que foram comprados ou revendidos.

 

O episódio não terá maiores desdobramentos, afora o barulho no mundo virtual e entre torcedores mais engajados. Não teremos, suponho, nada parecido com alguma investigação sobre as palavras do moderno empresário. Mas a presepada serve para nos lembrar da qualidade de certa elite financeira que se pretende a receita de salvação na vida pública. Se a bandalheira na política, sozinha, já provoca estragos inomináveis, em parceria com a bandalheira na cartolagem, então... Já era!

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Rui Palmeira e Renan Calheiros – e todos os lados que um político é capaz de escolher

Crédito: Assessoria 14cab757 46cd 4989 b9ba e9c80b508319 Renan Calheiros

Pela contundência das palavras, suponho tratar-se de uma estratégia devidamente planejada, até mesmo a partir de informações obtidas em pesquisa. Refiro-me à resposta do prefeito de Maceió, Rui Palmeira, sobre eventual aliança com o senador Renan Calheiros. Aliança que jamais haverá, segundo disse Rui, com bastante ênfase, em duas entrevistas, num intervalo de 24 horas.

 

Como informa este site, ao falar sobre candidaturas ao governo estadual e ao Senado, o prefeito de Maceió afirmou o seguinte: “O PSDB tem um lado, e nós estaremos sempre do lado oposto ao do senador Renan Calheiros”. É uma declaração cujo propósito é firmar posição clara sobre a guerra nas eleições de agora. Mas o próprio Rui sabe que, para além disso, em política nunca é assim.

 

Ao contrário do que garante o prefeito, na lógica da política, tudo é possível. O seu partido, o PSDB, é parceiro histórico do velho MDB de Renan. A partir dos anos 1990, o senador de Murici e o ex-governador Teotonio Vilela Filho ganharam a fama de “irmãos siameses” – o emedebista e o tucano venceram eleições sucessivas jogando numa tabelinha cheia de entrosamento.

 

No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso na Presidência (1999-2003), Renan foi nada menos que o ministro mais forte do governo comandado pelos tucanos. Enquanto isso, na mesma época, Téo Vilela era senador e um dos caciques do PSDB. Ou seja, os dois partidos estavam mais unidos que nunca. Parece claro que as duas siglas têm mais afinidades que diferenças.

 

Nem é preciso muito esforço para lembrar de casamentos que, antes da troca de alianças, ninguém acreditava que pudessem ocorrer. Na eleição de 2002, Ronaldo Lessa e Fernando Collor trocaram “elogios” que as boas regras de etiqueta me impedem de repetir aqui. Em 2006, na eleição para o Senado, reviveram a dose. E não é que em 2010, a dupla selou parceria inesperada!

 

E o que dizer das alianças dos governos do PT com políticos como Sarney e Maluf? Haveria algo mais incompatível que Lula e os ex-coronéis do Maranhão e de São Paulo? Para ganhar eleição e, depois, para governar, as divergências ideológicas, por mais profundas que sejam, ficam na gaveta. Em nome do chamado pragmatismo, a política desconhece princípios e até dogmas. É por isso que historicamente, em Alagoas, o PC do B foi um aliado recorrente do hoje senador Collor.

 

E do mesmo modo que não existe ódio eterno entre partidos e políticos, vale a mesma lógica para as juras de fidelidade nos casos de amor roxo. Foi assim com Téo e Lessa. A aliança que parecia uma rocha entre os dois acabou nos meses iniciais de 2007, no primeiro mandato do tucano como governador. Foi quando Téo denunciou que herdara um “rombo” nas contas deixadas pelo governador que o antecedera – Ronaldo Lessa. Uma mera circunstância pode mudar o “impossível”.

 

Volto às declarações de Rui. O tucanato comanda a prefeitura da capital. A família Calheiros, com o pai e o filho, chefia a gestão estadual. É óbvio, por isso, que os dois grupos estejam com a faca nos dentes, agora em campos opostos. Mas não, PSDB e MDB podem sim estar no mesmíssimo lado – se não amanhã, quem sabe na eleição de 2020 ou na de 2022. Essa é a dialética orgânica no jogo do poder. E é nessa perspectiva que as duras palavras de Rui sobre Renan devem ser entendidas.

 

No mais, é a campanha eleitoral que já começou, em todos os lados.

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