Prisão de jornalista é jogo bruto

CadaMinuto/Arquivo Ef37df75 277c 42ff a705 6153e7b619bd Alfredo Gaspar de Mendonça

Vamos falar claramente sobre os fatos concretos? Vamos falar sem rodeios: quem é que precisa se explicar sobre esse caso espantoso? O procurador-geral de Justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça, deve explicações à sociedade sobre a prisão da jornalista Maria Aparecida de Oliveira. É ele o autor da ação que resultou no ato extremo contra uma mulher de 68 anos de idade. A prisão foi decretada pelo juiz Carlos Henrique Pita Duarte, titular da 3ª Vara Criminal de Maceió. O que fez a jornalista?

 

Aí a coisa começa a se complicar. Ela foi presa pelo que disse e escreveu em seu blog e nas redes sociais. E o que ela escreveu e falou por esses meios? Segundo as parcas informações divulgadas, ela difamou e caluniou o chefe do Ministério Público Estadual, sua excelência, o doutor Alfredo Gaspar. Então ela foi presa sumariamente pelo crime de opinião, é isso? Prisão preventiva, sem denúncia e sem julgamento? São questões graves que estão sem resposta até agora.

 

O procurador-geral se recusa a falar. Alega que o caso está sob segredo de justiça. Como assim? Por que esse caso corre sob sigilo? Quais as razões que levaram o juiz Pita Duarte a decretar o segredo? A cada pergunta, tudo fica mais nebuloso, mais esquisito. Insisto no ponto: uma jornalista está encarcerada pelo que escreveu sobre o chefe do Ministério Público! Até onde sei, é algo inédito.

 

E por que eu digo que o procurador tem de falar? Porque ele não é uma mera parte na ação. Ele comanda o MP, ele chefia a instituição que tem como prerrogativa, entre outras coisas, analisar processos e depois denunciar ou não os eventuais acusados. Ou seja, legalmente, o MP é o dono da ação contra a jornalista que responde pelas acusações. Mas o autor da ação é Alfredo Gaspar!

 

Defendo as supostas calúnias que a jornalista teria feito? Jamais. Não é disso que se trata aqui. Estamos falando de liberdade, estamos falando do respeito aos direitos fundamentais numa democracia. Eu não direi que estamos diante de um processo kafkiano porque a sofisticação nunca foi a marca de certas autoridades alagoanas. Isso é jogo bruto. Que venham os esclarecimentos, necessários e obrigatórios. A alegação de segredo de justiça é frágil, não tem cabimento.

 

Nesses tempos tenebrosos de abusos generalizados contra as liberdades, é preciso lembrar: não estamos sob um regime de exceção. Todos devem seguir o Estado de Direito. Sim, ninguém está acima da lei – nem eu, nem você, nem a jornalista. E isso também vale para os poderosos.

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Sindicato dos Jornalistas, Fenaj e OAB precisam falar sobre prisão sumária de jornalista. Estamos diante de algo extremamente grave

Um fato gravíssimo ocorreu nesta segunda-feira em Maceió. Por ordem da Justiça, que atendeu a um pedido do chefe do Ministério Público Estadual, Alfredo Gaspar de Mendonça, foi presa a jornalista Maria Aparecida de Oliveira. Ela tem 68 anos. Segundo informações divulgadas até agora, após ser detida em casa, ela foi conduzida a uma delegacia e depois ao presídio feminino.

 

As acusações à jornalista seriam por calúnia, difamação e coação de testemunha. Quem se sentiu caluniado e moveu a ação foi justamente Alfredo Mendonça. A assessoria do MPE e o advogado de Maria Aparecida informaram que o processo corre em segredo de justiça. Não há, portanto, detalhes sobre os fatos. O que há, isto sim, é uma sombra pesada sobre essa prisão pra lá de estranha.

 

Pelo que entendi, a acusada está sendo presa por falar e expressar opinião. Isso não pode ser visto como algo dentro da normalidade. É uma medida drástica, com todo o jeito de arbitrariedade. Atenção: ela é apenas investigada, não houve denúncia e muito menos julgamento – até porque seu suposto crime é coisa bem recente, de alguns meses para cá. O que é que está acontecendo?

 

O Sindicato dos Jornalistas precisa se pronunciar. A Federação Nacional dos Jornalistas precisa falar. A Ordem dos Advogados do Brasil precisa dizer o que pensa sobre o caso. Repito: esse episódio nada tem de normalidade. Não estamos diante de um evento corriqueiro. Estamos diante de um ato de força – extremo – contra uma jornalista, uma mulher de 68 anos de idade. Que perigo ela pode representar? Há umas três décadas atuando na imprensa, nunca vi isso na vida pública alagoana.  

 

As entidades que citei têm obrigação de se pronunciar – em defesa da liberdade de expressão e em defesa da transparência absoluta que deve pautar ações dos poderes oficiais. Uma mulher de 68 anos acaba de ser presa em condições nebulosas, de modo sumário, e os envolvidos dizem que tudo é “segredo de Justiça”?! O que é isso? Os fatos precisam ser esclarecidos. 

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O Sertão fantasiado da Rede Globo

Um dia desses alguém desenterrou um episódio que revela do que é capaz a cabecinha de João Dória, o ex-prefeito de São Paulo que tenta a eleição para governador. Na década de 1980, quando era presidente da estatal Embratur, o elemento propôs explorar a seca do Nordeste como atividade turística. A cretinice está devidamente documentada em publicações da época.

 

Lembrei disso ao ver a campanha publicitária da Globo sobre sua nova série, Onde Nascem os Fortes, que estreia esta semana. O marketing para promover a historinha água com açúcar invade não apenas os intervalos comerciais, mas todos os telejornais da casa, incluindo todas as suas afiliadas no país inteiro. Disfarçada de jornalismo, a propaganda se exibe como reportagem.

 

Mas o ponto aqui não é o padrão jornalístico praticado na escola global. Quero falar da paisagem que serve de cenário para a trama novelesca. A história é ambientada nos confins sertanejos da Paraíba. Basta olhar as cenas que aparecem nas chamadas para constatar a reafirmação de uma tradição complicadíssima: outra vez, o velho Sertão do Brasil vira mitologia de butique.

 

É um fenômeno com uma longa história na cultura brasileira, cheia de capítulos bastante diversos entre si. No caso Globo, sua investida sobre a aridez nordestina se filia aos piores momentos dessa atração eterna que o Sertão exerce sobre a arte e o artista. Quando vejo galãs e beldades fazendo cara de mal ou de sofreguidão, à base de maquiagem cuidadosamente fabricada... Rapaz, não é fácil.

 

No universo do audiovisual, o cinema chegou antes. Nas décadas de 1950 e 60, deu-se a primeira febre da exploração da vida nas terras brutas e selvagens. De Lima Barreto, com o seu O Cangaceiro, a Glauber Rocha, com Deus e o Diabo na Terra do Sol, passando por Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, tudo o que é artista de Copacabana e Ipanema pegou carona nessa onda.

 

De lá para cá, teve de tudo, com resultados quase sempre desastrosos. Não é o caso dos filmes que citei, embora não tenha muita simpatia pelo título de Nelson Pereira, e O Cangaceiro tenha valor exclusivamente arqueológico, digamos assim. Glauber produziu uma obra-prima absoluta – que aliás fica mais forte à medida que o tempo passa. É uma rara e extraordinária exceção no conjunto.

 

Nos últimos vinte anos, nas intermináveis “retomadas” do cinema brasileiro, o Sertão voltou às telonas pelas lentes de cineastas nascidos no Nordeste. São os tais ciclos de Pernambuco e do Ceará. Mesmo com abordagens variadas, e menos papagaiada, a média é perigosamente equivocada. Mas nada supera os globais. Eu, Tu, Eles resume o que pode haver de pior nessa cinematografia.

 

O filme é dirigido por Andrucha Waddington, que confunde arte com publicidade. Sua pretensão de retratar o Brasil profundo – fixação delirante, aliás, em nosso cinema – resulta apenas em bizarrice. A técnica sofisticada, os filtros que retocam a imagem, os cenários plastificados, tudo isso é de embrulhar o estômago. Regina Casé de sertaneja está à altura dessa pretensiosa macacada.

 

Eis o Sertão – fantasiado e folclórico – que as câmeras da Globo começam a exibir, mais uma vez e como sempre, a partir de agora. Nenhuma surpresa, é verdade; mas sempre deplorável. Talvez isso explique, em parte, a hilariante proposta de João Doria. Estamos vendo um crime continuado.

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A voz do povo é de Deus ou do capeta?

Uma democracia sem povo, suponho que você concorda, democracia nunca será. É a participação popular, a opinião da maioria, que estabelece essa verdade universal. Mas, na prática, é evidente que a coisa não é tão simples assim. Penso nas incontáveis situações e nos intermináveis debates em que o dilema é exatamente como garantir a prevalência da vontade da maioria. É conflito.

 

Nos últimos anos, temos vários exemplos em que a questão foi levada ao centro da guerra política. Ainda com Dilma Rousseff no poder, sobretudo quando explodiram as manifestações de 2013, a ideia de convocação de uma nova Constituinte foi defendida por muita gente, tanto de dentro quanto de fora do governo. Seria o caminho para, segundo essa corrente, promover reformas profundas.

 

Na falta de uma Constituinte, uma alternativa seria então a convocação de um plebiscito para decidir sobre grandes temas, vitais e urgentes para a vida do brasileiro. O tempo passou e, cinco anos depois, não houve nem uma coisa nem outra. Para os defensores da consulta à população, decisões graves exigem o aval explícito dos cidadãos. Sem isso, não haveria legitimidade nas ações oficiais.

 

Também a partir de 2013, uma das modas que surgiram foi a seguinte formulação: nenhum partido representa mais os anseios da sociedade. O modismo se desdobrou e permanece. É a tal crise de representatividade. Sendo assim, é necessário recorrer a mecanismos que permitam um protagonismo real do eleitor, não apenas uma mera formalidade. E quais seriam esses mecanismos?

 

Ninguém sabe. Na falta de uma solução mágica, porque isso não existe, proliferam versões diferentes de uma mesma tese: tudo precisa passar, antes, pelo crivo de todos. Isso inclui, por exemplo, eleição direta para ministros do STF. De volta ao plebiscito, seria o caso de recorrer à consulta sobre reformas como a da Previdência. Há ainda o projeto de candidaturas avulsas, sem filiação partidária.

 

Nada disso, porém, parece provável até agora – e assim deve continuar. No meio de toda a propalada descrença na política tradicional, estamos a caminho das urnas, rigorosamente dentro dos critérios clássicos de escolha de nossos representantes no Legislativo e no Executivo. Ou seja, ainda que o diagnóstico decrete a falência do sistema político, as regras do jogo não caíram.

 

Nesse enredo que segue – difuso, errático e imprevisível –, o sujeito oculto é a voz do povo. Essa é a essência da democracia plena, beleza, mas a pergunta inconveniente é: o povo é sábio? Amenizando: o povo é sempre sábio? Para quem acredita que as redes sociais nasceram com a vida humana, sim. Com essa ligeira pegada sociológica, o oráculo se manifesta no alarido da internet.

 

Faz sentido. O tiroteio verbal das redes derruba estrelas da TV, força reviravoltas nas tramas noveleiras e obriga o cancelamento de eventos como palestras e exposições. Uma corrente de internautas barra a contratação de um astro do esporte, fulmina campanhas publicitárias de gigantes do mercado e leva um governo a revogar medidas apresentadas como incontornáveis.

 

Nem se fale de autoridades, de todas as esferas, a invocar o absoluto respeito ao sacrossanto clamor das ruas. Se a opinião pública diz que é assim, assado não pode ser. Chegamos à velha tese, milenar, segundo a qual a voz do povo é a voz de Deus. Além de pensamento essencialmente populista, e até demagógico, isso não parece fácil demais? Há lógica numa sentença tão simplória?

 

Não pode ser. A história das civilizações aponta para a conclusão oposta. E basta ficarmos nos exemplos clássicos do século 20, o período em que as maiores tiranias se ergueram com o aval enlouquecido da sabedoria das massas. Parece incontestável que nunca as ruas erraram tanto. 

 

Resumo esse conjunto de palpites: quanto a Deus, não sei; mas o capeta adora a voz do povo.

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PJ! O Partido da Justiça vai te pegar

Esclareço de saída, para registrar o devido crédito, que o nome de batismo “Partido da Justiça” é de autoria do economista André Singer, colunista da Folha de S. Paulo. Neste sábado, ele comenta a virtual candidatura presidencial de Joaquim Barbosa, o sempre nervosinho ex-presidente do STF. Em texto anterior, falei por que a alternativa do agora filiado ao PSB não me parece nada saudável. Ele chega como que representante do mundo perfeito do Poder Judiciário. Uma lorota.

 

Acertadamente, Singer aponta o ovo da serpente lá no processo do mensalão, quando Barbosa se transformou no herói dos caçadores do petismo e da esquerda. Com seus rugidos moralistas, foi o primeiro dos togados, na história recente do país, a sentir o gostinho do bafo ensandecido das massas. No meio do caminho, não foram poucas as vezes em que Barbosão mostrou sua face autoritária. Nas mais célebres dessas ocasiões, ofendeu jornalista por não gostar da pergunta.

 

O ex-ministro é assim. É todo simpatia, até ser confrontado com questões que, embora pertinentes e obrigatórias, provocam incômodo. Não é surpresa nenhuma. Eu diria que é mesmo a regra na República das Togas. Juízes não aceitam opinião contrária, sequer a dúvida sobre seus pontos de vista. Se forem contestados, então, já ameaçam dar voz de prisão em flagrante. E quem vai desafiá-los? Acima de seus poderes, ninguém. É a força descomunal de uma infame tradição.

 

Aí veio a Operação Lava Jato. Com o braço armado da Polícia Federal e a brilhantina dos menudos do MPF, os aprendizes de tiranete perceberam que a hora é agora. Tendo Sergio Moro à frente e Marcelo Bretas no batalhão auxiliar, desde então a turma presta seu belo serviço aos patriotas que formam os dez por cento mais ricos do país. De 2014 para cá, presunção de inocência, devido processo legal, acusação baseada em provas e respeito à Constituição deixaram de existir.  

 

O pensamento de Joaquim Barbosa navega nessas águas barrentas. Parte do eleitorado mergulhou fundo, de olhos fechados, e acredita mesmo que vai capturar os tubarões da corrupção e de todas as malvadezas do Brasil. Se o homem que veio do Supremo ainda hesita em ser candidato, é porque ele sabe que não é mais um intocável, não pode mais se valer do absolutismo que somente a toga lhe garantia. Ao contrário de Moro, Bretas e patota, se entrar na campanha, terá de dar explicações.

 

Por enquanto, como a degradação na vida pública segue sem freio ladeira abaixo, com ou sem Barbosa o Partido da Justiça avança com voracidade. É perturbador. Mas, seja lá como for, e sem querer amenizar as trevas, também há nisso tudo densos capítulos de patetice.

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O fim e o começo de quase tudo

Para Fernando Coelho, Wado, Eduardo Calado, Lelo Macena e Lael Correa. Mas eu garanto que eles não têm culpa nenhuma.

 

Porque o mar não está para peixe, tudo caiu por terra. Porque nem tudo são flores, a vaca foi para o brejo. Porque o jogo só acaba quando termina, a vida é um livro aberto. Porque deu zebra na hora H, dois bicudos não se beijam. Porque venderam gato por lebre, nada como um dia após o outro. Porque tiveram a paciência de Jó, cada macaco no seu galho. Porque as aparências enganam, é hora de a onça beber água. Porque nem tudo está perdido, antes tarde do que nunca. Porque tudo é passageiro, chutaram o pau da barraca. Porque mudou da água para o vinho, é hora de virar a página. Porque o homem é aquilo que come, no carnaval ninguém é de ninguém. Porque há o tempo de plantar, o buraco é mais embaixo. Porque jabuti não sobe em árvore, o sol brilha para todos. Porque Deus é brasileiro, quanto mais quente melhor. Porque a sua hora vai chegar, felicidade não se compra. Porque a verdade é cristalina, que seja infinito enquanto dure. Porque botaram as cartas na mesa, o perigo mora ao lado. Porque o poeta é um fingidor, cada cabeça, uma sentença. Porque a vida é um sopro, o tiro saiu pela culatra. Porque a Terra é azul, os opostos se atraem. Porque a noite é uma criança, o bom cabrito não berra. Porque a caravana passa, nada é um mar de rosas. Porque dá um frio na barriga, é osso duro de roer. Porque naquele tempo era melhor, o rio corre para o mar. Porque é aqui e agora, hoje só amanhã. Porque a arte não se explica, o vento balança o coqueiro. Porque estamos no olho do furacão, a saudade mata a gente. Porque é um campo minado, gosto não se discute. Porque a casa caiu, o impossível não existe. Porque é coisa de outro mundo, cavalo dado não se olha os dentes. Porque os sonhos nunca morrem, atire a primeira pedra. Porque isso não é aquilo, o céu é o limite. Porque é fogo na roupa, as cartas não mentem jamais. Porque só sei que nada sei, o último a sair apague a luz. Porque o tempo não para, de onde venho e para onde vou. Porque isso é uma loucura, quem quiser que conte outra. Porque é fato consumado, o silêncio é cheio de som e fúria. E jogo palavras ao vento – porque um novo dia amanhece.  

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Presidenciáveis no mundo da ficção

Todos os dias, em alguma capital do país, algum evento reúne candidatos a presidente para falar sobre temas que supostamente interessam à sociedade brasileira. Quase sempre, são encontros organizados por meios de comunicação, com patrocínio de grandes empresas. Pode ser um banco, uma rede de supermercados ou uma dessas consultorias que trabalham para especuladores no mercado financeiro. O formato varia, mas em geral o ponto forte é a palestra dos convidados.

 

Nem vou aqui levantar suspeitas sobre os interesses dos patrocinadores. Digamos que é do jogo. Os empresários querem conhecer com mais clareza as ideias daqueles que pretendem chegar ao comando do país. Amanhã, um dos palestrantes de ocasião pode ser o novo presidente da República. E, nesta condição, tomará decisões que inevitavelmente influenciarão nos negócios de toda a economia, seja lá qual for o ramo de cada empresa. Melhor estar bem-informado sobre o futuro.

 

O que é particularmente nebuloso nesses convescotes são os discursos dos políticos candidatos. Já devidamente orientados pelo talento congênito de marqueteiros, e de olho no voto e no apoio dos donos do dinheiro, os convidados falam de tudo como se fossem cordeirinhos, quase santos. A receita, seguida à risca, é não assustar o mercado. Para isso, nada de radicalismo no campo dos costumes, muito menos visões heterodoxas sobre finanças. Equilíbrio é a palavra mágica.

 

É aí que mergulhamos no mundo das contradições e das ambiguidades. Marina Silva harmoniza as demandas dos povos da floresta e os lucros do Itaú. Ciro Gomes, que já ameaçou dar tiro em Sergio Moro, professa o Estado moderno e civilizado. A latrina mental de Jair Bolsonaro, que despreza negros e mulheres, venera os direitos universais do cidadão. Geraldo Alckmin, que acusa o petismo de inventar o bolsa-esmola, ampliará todos os programas sociais – e mais o que houver.

 

É o planeta dos romances de aventura e da ficção científica – com enredos de péssima qualidade. Ninguém é da direita ou da esquerda, muito menos dos extremos dessas ideologias. Para toda e qualquer pergunta, os concorrentes respondem com a mesma convicção, ou seja, sem convicção nenhuma. Não me comprometam, poderiam dizer todos eles. Não deixa de ser elucidativo.

 

Você pode pensar mais ou menos o seguinte: palanque é uma coisa, mesa redonda com os poderosos é outra. Ou a construção pode ser assim: rezar na cartilha dos donos da vida e da morte é uma coisa, contar lorotas na campanha para a gentalha é outra bem diferente. É do jogo?

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Suprema covardia

Com as exceções de Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes, nunca se viu o Supremo Tribunal Federal tão refém da grande imprensa como nos dias de hoje. E olhe que nos tempos do mensalão, Ricardo Lewandowski disse a um interlocutor – sem saber que havia jornalista por perto – que os ministros votavam com “a faca no pescoço”. As pressões vão sempre existir. O problema é como os ministros da Suprema Corte do país reagem diante de cada situação. Hoje, a maioria baixa a cabeça.

 

A ironia é que a ministra Carmen Lúcia, numa das tantas entrevistas para a Globo, disse que o STF não poderia “se apequenar”. Ela se referia ao caso das ações que contestam a prisão após julgamento em segunda instância. Não se apequenar, para ela, é não levar as ações à pauta do tribunal – ainda que haja o pedido de um ministro para que isso ocorra. É justamente a posição da ministra que mostra o Supremo apequenado. Ela impede a votação em obediência canina a interesses medonhos.

 

Diante do que se vê a cada votação, as palavras da presidente parecem ainda mais patéticas. Sentada na cadeira do comando da casa, ela age deliberadamente para garantir os resultados que terão o aplauso do Jornal Nacional. E não importa que isso signifique ignorar farta legislação e a própria Constituição do país. O chamado populismo judicial domina os julgamentos. A coragem de decidir com a letra da lei sumiu. O interesse número um é reproduzir o alarido justiceiro da rua.

 

Como já escrevi aqui, Roberto Barroso e Luiz Fux representam a degradação escancarada na corte. Nas sessões, a dupla é a garantia incontornável do espetáculo de demagogia. O que eles adoram mesmo é dar entrevista para Pedro Bial, Roberto D’ávila e Heraldo Pereira. São pródigos em chiliques e teatrinhos à base de indignação de fachada. Precisa ter estômago forte para aguentar.

 

Falei de Marco Aurélio e Mendes. Nessa temporada de acovardamento do STF, reconheça-se que Lewandowski também é uma exceção, com votos de acordo com os códigos da legislação, e não para atender ao suposto clamor popular. Na verdade, como já disse, essa pauta é a ordem que prevalece nos grandes meios de comunicação, a Globo à frente. Ministros fazem politicagem no STF.

 

Como apontam incontáveis pensadores, no Brasil e no exterior, a decadência da política, especialmente no Legislativo, dá ao Judiciário a avenida para correr na direção do poder absoluto. Juízes querem investigar, denunciar e condenar. Para isso, eles também usurpam o lugar do legislador – e anulam as leis em vigor a partir de suas cabecinhas tresloucadamente autoritárias.

 

Se essa patota conseguir tudo o que almeja, estamos perdidos. Suprema papagaiada, Batman!

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Mistificações e besteiras na mobilização dos policiais militares

Uma poderosa categoria do serviço público parte para a ofensiva nas negociações por reajuste salarial. Digamos que sejam professores e demais funcionários da educação. As ameaças para pressionar o gestor serão: fechamento de escolas, colapso do ano letivo e sérios transtornos para milhares de estudantes e suas famílias. Alguém já viu isso alguma vez? Se você não é um turista de outro planeta passeando por aqui, deve ter uma coleção de episódios assim para contar.

 

Agora digamos que os funcionários em pé de guerra com uma prefeitura ou um governo estadual são médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Para obter o que pretendem, eles podem apelar para as seguintes ações: negar atendimento em maternidades, fechar postos de saúde, cancelar procedimentos em unidade de emergência. De novo, é claro, a população terá sofrimento. Abusando da repetição de raciocínio, suponho que você viu isso inúmeras vezes.

 

Paro com as conjecturas. O comportamento de grevistas obedece a um padrão. Logo, não há novidade coisa nenhuma na forma como associações de militares – são nada menos que oito em Alagoas – estão agindo neste momento. Seus porta-vozes, que vivem brigando entre si, adotaram os velhos métodos para mobilizar a tropa. Lembrando: já ameaçaram fechar o porto de Maceió, parar as rondas nos bairros, não trabalhar em jogos de futebol e se aquartelar.

 

Também não se pode esquecer que entre as táticas de confronto está o blefe. O atual movimento dos militares, aliás, já provou que blefar é uma de suas artimanhas. As ameaças que citei acima tiveram até data marcada para ocorrer, mas, como se sabe, as rondas continuam, a entrada no porto está liberada e o policiamento garantiu a segurança no Rei Pelé. Por enquanto, o aquartelamento é apenas palavra de ordem no discurso dos presidentes de associações. Sim, há barulho e passeata.

 

Não estou discutindo dez ou cem por cento de aumento para os militares. Merecem o melhor salário possível. O ponto aqui é outro. Especulo sobre ideias. E por isso reitero que não há nada de excepcional no atual embate entre uma categoria de servidores e o governo. De lado a lado, vê-se a repetição do que sempre ocorre nessas horas. Tratar os policiais como heróis irretocáveis, donos de uma espécie de pureza essencial, é somente mistificação e besteira – além de piorar as coisas.

 

Quanto aos negociadores do atual governo, nem mais nem menos que seus antecessores. Com variações, seguem o manual que todos seguiram. Há certo exagero nas tais narrativas. A realidade não muda porque eu digo que mudou a realidade. Mas, pelo que ando vendo por aí, daqui a pouco alguém vai invocar o espírito de julho de 1997. Não duvido. Afinal, uma besteira puxa outra.   

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O inesperado terremoto eleitoral chamado Joaquim Barbosa

Até parece que Joaquim Barbosa é o cara. Aliás, mesmo que não seja, nenhum outro nome provocou tanta zoada no cenário político-eleitoral nos últimos dias. Tudo porque na pesquisa Datafolha, divulgada no domingo (15/04), ele aparece na casa dos 10% das intenções de voto. O inesperado desempenho gerou uma série de especulações e movimentos entre os partidos.

 

O curioso é que o ex-presidente do STF, que virou celebridade no processo do mensalão, nem foi lançado oficialmente pelo PSB. Isso vai ocorrer, mas ainda sem data marcada pela legenda. A força do pré-candidato surpreendeu principalmente porque ele estava sumido havia pelo menos dois anos. Ao contrário de pretendentes manjados, estava no quase absoluto silêncio, longe do noticiário.

 

Não por acaso, ele próprio estaria surpreso com o potencial verificado na pesquisa. Em termos de comparação, Ciro Gomes e Geraldo Alckmin se apresentam como candidatos há um século, com presença constante na imprensa. Mesmo assim, o ex-ministro do Supremo aparece à frente dos dois em alguns cenários. Daí porque, como era previsível, já é alvo desses adversários.

 

Alckmin e Ciro acusaram o golpe. Imediatamente, partiram para cima do que consideram uma ameaça, com farpas e insinuações. Sabem que Barbosa tira votos exatamente na faixa que os dois sonham ocupar. Ou seja, nem um suposto herdeiro do petismo nem a renovação da voz tucana – o eleitor pode ver no recém-filiado ao PSB aquilo que se chama por aí de terceira via.

 

A candidatura de Barbosa também teria os ingredientes para convencer os segmentos identificados como de centro – nem esquerda nem direita. Seria uma alternativa aos males da tão debatida polarização. Não deixa de ser engraçado porque, afinal, não foram poucas as vezes em que o virtual candidato se mostrou bem raivoso. Mas isso seria um traço de personalidade a ser trabalhado.

 

É o que dizem quase dez entre dez dos analistas que tentam explicar o aparente fenômeno Joaquim Barbosa. Na verdade, ninguém sabe o que pensa o homem sobre grandes temas da economia. Estado forte ou o contrário. Programas sociais. Financiamento com bancos públicos. Meta fiscal. Carga tributária. Agronegócio. O peso do mercado... Tudo é mistério na cabeça do pré-candidato.

 

Pessoalmente, não gosto do jeitão autoritário, com cacoetes de xerife, que ele apresentou em várias ocasiões desde que chegou ao STF e virou uma personalidade pública. Também desprezo a conversa mole que vê no Judiciário, de onde ele vem, alguma qualidade especial. Chega de togados com retórica de salvador da pátria. Isso é balela de fanáticos por Sergio Moro e patota.

 

Seja como for, o ambiente está agitado como nunca esteve de uns tempos para cá. Patinando na obviedade, digo que é cedo para cravar qualquer prognóstico. Uma série de eventuais fatores, de dentro e de fora da política, tem tudo para mexer as peças e alterar o quadro nas próximas semanas. As convenções ainda vêm aí. A campanha está longe das ruas. Sim, o jogo está aberto.

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