Um jogo de futebol e algumas ideias

Suspeito que nem todo mundo sabe, mas houve um tempo em que o centroavante de pouca habilidade era chamado de trombador. Sem aviso nem explicações, como tudo na vida, ou quase tudo, isso mudou para sempre. Hoje em dia, misteriosamente, o mesmo tipo de jogador é elogiado por uma de suas “principais qualidades”: o cara é um especialista em fazer a parede.  

 

Alguns trombadores me ocorrem agora. Dadá Maravilha, Beijoca, Serginho Chulapa, Viola, Joãozinho Paulista e Dentinho foram modelares. Com alguma licença poética, muitos poderiam citar Nunes e Roberto Dinamite, mas eu discordo. Um legítimo trombador distribui a esmo caneladas e pontapés, corre olhando para baixo, chuta pra todos os lados e reza por um cruzamento pelo alto.  

 

Mas não vou aqui cometer uma resenha, ainda que precise explicar melhor o espanto diante do fenômeno que chamarei de um deslocamento de princípios no futebol. O que temos, com a nova nomenclatura, é mais um caso em que as palavras parecem nos revelar – sem que os cronistas se deem conta – uma reelaboração de conceitos, valores e paradigmas. Renomear o trombador para pivô muda o jogo que se joga fora de campo.

 

No cenário brasileiro atual, os dois pivôs mais elogiados por comentaristas de todas as tendências são Jô (Corinthians) e Guerrero (Flamengo). Além de fazer a parede, de costas para os zagueiros adversários, dominam como ninguém a arte de flutuar na entrada da área. Quando vemos a dupla em ação, cada um por seu time e com suas particularidades, os velhos e autênticos trombadores nos dizem algo inquietante, algo que se foi e que retorna.

 

Se você não gosta de futebol, ou é indiferente a esse esporte, talvez não entenda tamanha atenção a um irrelevante jogo de bola. Naturalmente, meu assunto aqui não é a disputa de uma partida ou a rivalidade entre dois times. Também não cuido de idolatria por sujeitos afamados como craques. E, principalmente, não estou interessado se um time perde ou vence de goleada.

 

Berrar, brigar ou chorar, na vitória ou na derrota, são apenas manifestações banais e tediosas, diante de um teatro único e imprevisível. Gostar de futebol e torcer por um time são coisas diferentes. Desconheço o que chamam por aí de time do coração. Livre do fanatismo, que nunca experimentei, o jogo se expande sem parar, em significados e perplexidades.

 

Talvez por isso, e não por torcer por um clube – o que não faço –, tenha assistido, nas últimas horas, a duas partidas de futebol. Em cada lance, da mais extrema inventividade ou da mais inacreditável presepada, é o pensamento que está em jogo. Sempre. O torcedor apaixonado e o centroavante discordam, mas o gol é só um detalhe. O drama é outro, mais amplo e muito mais profundo. 

 

Mas se você considera todo esse amontado de palavras uma bola fora, está tudo certo. Pode me chamar de perna de pau.

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A Globo e os bancos querem um mundo melhor. Sim, eles podem!

Para escapar de certas armadilhas intelectuais, ou simplesmente para não cair em golpes publicitários, basta ficar um pouco mais alerta. É comum que essas duas ameaças apareçam combinadas e casadinhas em eventos apresentados como de alto nível, para capturar sua atenção – e seu dinheiro.

 

Tenho certeza que algum evento caça-níquel, como o que acabo de descrever acima, está marcado para ocorrer agora mesmo, em algum auditório perto de você. Vender baboseiras como se fossem pensamentos profundos, numa embalagem de slogans modernosos, é uma das indústrias mais lucrativas no mercadão das ideias feitas.

 

Os seminários e palestras que prometem transformar a vida e redimensionar a quadratura do círculo se espalham pelo Brasil. Dos confins da floresta amazônica à beira da praia ensolarada de Maragogi, por exemplo, um gênio que tudo sabe vai começar a falar. Plateias ávidas por fórmulas mirabolantes de sucesso estão prontas para acreditar em tudo, até em milagres.

 

Escrevo tudo isso porque vejo o anúncio da palestra mais aguardada pelo Brasil em todos os tempos. Barack Obama, o guru que foi presidente dos Estados Unidos durante oito anos, vem aí com suas lições para salvar o país e o planeta. O homem é o convidado especial de um convescote promovido pelo banco Santander em parceria com o jornal Valor Econômico.

 

Veja se isso faz algum sentido. O tema da palestra de Obama é Mudar o mundo? Sim você pode! Para aprender como concretizar a façanha do americano, o ingresso mais barato custa 5 mil reais. Isso mesmo. Se quiser ouvir a mágica de um assento mais favorável, o preço sobe para 7 mil e 500 reais. Repare que o negócio é uma tabelinha entre um banco e um jornal das Organizações Globo.

 

Aí você pensa: quem mais estaria preocupado em mudar o mundo, para melhor é claro, se não um banco e a família Marinho? É perfeito. O título da palestra repete o slogan da primeira campanha presidencial de Obama, lá de 2008. Nove anos depois, ele continua ensinando o segredo, e multidões continuam a pagar – caro – pelo manual exclusivo e infalível.

 

O slogan de Obama é um miserável lugar-comum, com toda a fachada de originalidade e nenhuma essência de verdade. (Tratei disso no texto anterior). Sua palavra de ordem para vender o que não existe resume-se a uma sem-vergonhice publicitária, típica do ideário dominante em nossos dias e, ao mesmo tempo, idêntica às pilantragens marqueteiras de todas as épocas.

  

O que explica o triunfo de tamanha fraude intelectual, exibida com desassombro em cartazes, meios eletrônicos e letreiros luminosos? No caso específico de Obama, o poder descomunal do cargo que exerceu e a fama planetária são fatores decisivos. Não importa o que ele diga, a besteira grandiloquente será recebida como peça fundamental do conhecimento nos auditórios amestrados.

 

É assim que funciona a indústria da ignorância globalizada. Não esqueça. Um banco (que representa o setor mais lucrativo da economia) e a família mais rica do país querem um mundo melhor para todos. Quem duvida? Para nos convencer de suas intenções altruístas, fazem qualquer esforço pelo povo – e recorrem a um mito contemporâneo.

 

Neste mundo ou em qualquer outro, quando tudo estiver transformado, os mercadores de ilusões estarão por aí a mercadejar. Mas não adianta. Nada, nenhuma credencial, por mais festiva e barulhenta, será capaz de pingar substância onde só há embuste e falsificações. Caia fora.

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Vida e morte em nossas palavras

Tudo está à beira do lugar-comum. Tudo mesmo, inclusive a frase que acabo de escrever na abertura do texto que você está lendo agora. E por que isso tem alguma importância em nossas vidas? Porque tudo em volta se articula, antes e inapelavelmente, na forma de discurso. E o instrumento inescapável na construção de um discurso – para a defesa de uma ideia – será, sempre, cedo ou tarde, um conjunto de lugares-comuns.

 

Sustentar um ponto de vista, com alguma originalidade e consistência, é o que poderíamos chamar de tarefa infernal. Para qualquer paisagem que se olhe, somos arrastados pelo turbilhão de frases feitas, como se aquelas frases nos dessem as soluções incontestáveis aos dramas e mistérios da vida – por mais terríveis e insondáveis que sejam aquilo que é dramático e aquilo que é misterioso.

 

Cedo ou tarde, no primeiro parágrafo, e tarefa infernal, no segundo, são os dois lugares-comuns mais visíveis que usei até aqui. Você pode identificar outros, ou nenhum, a depender de seu repertório, da sua visão de mundo e da sua paciência. É automático. É compulsivo. O que antes tantas vezes já foi dito reaparece a cada ímpeto por alguma explicação, e o velho se impõe como novo. Uma armadilha para o espírito a cada esquina, a cada opinião.

 

Destrinchar a fala recorrente que atravessa os tempos está fora do alcance de qualquer um. Da Bíblia ao manifesto das vanguardas, a redundância assombra a linguagem. Do primeiro filósofo ao homem anônimo do agora e do futuro, a solução verbal que um dia arejou a realidade estará, ao fim e ao cabo, no catálogo infinito das repetições. O índice de uso e reuso será a única diferença. No grau máximo da perversão repetitiva, significado nenhum sobrevive à morte da palavra.

  

Agora mesmo – para não ficarmos na pura divagação, longe da vida real – uma artilharia de lugares-comuns aponta para nós. O Rio de Janeiro vive uma escalada da violência; os editoriais na imprensa, claro, exigem: Basta!. A crise generalizada levou o país a um aparente beco sem saída. Vivemos um problema tão desesperador, e inédito, que não resta dúvida quanto ao diagnóstico teatral: é caso de vida ou morte.

 

Numa espiral interminável e fatalista, o pensamento modela nosso texto e nossa fala – e o que escrevemos modela o que pensamos. Quando os termos desse movimento cobrem todas as situações, leves ou pesadas, perigosas ou inofensivas, íntimas ou universais, então aqueles termos nada mais têm a nos dizer sobre a leveza e o fardo, o perigo e o destemor, a intimidade e o infinito das coisas e dos sentimentos.

 

Na vida pública, especialmente na política, está o mais deletério e degradado laboratório de lugares-comuns. Faz sentido. Para conquistar a adesão da maioria, a retórica da autoridade e da ordem se estrutura essencialmente na repetição de clichês e no apelo das frases de efeito. O resultado previsível é a consagração do consenso rasteiro e a eliminação de qualquer divergência. Temos aqui uma das regras absolutas do poder.

 

A literatura, ainda que tantas vezes contaminada por abusos e vícios da palavra, é nossa barricada para resistência ao colapso definitivo. Só não digo que cada um deve fazer a sua parte porque isso não quer dizer absolutamente nada – nem ontem, nem nunca. Nossa sobrevivência depende de algo mais radical, que pode até parecer um delírio, mas, acredite: precisamos defender a linguagem.

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Candidatos a renovadores da política

O procurador palestrante Deltan Dallagnol, que gasta mais tempo distribuindo chiliques e bravatas em redes sociais do que lendo processos, anda ocupado com propostas de partidos políticos. Como se noticia largamente, o rapaz de “perfil longilíneo e bochechas rosadas” pretende se valer do fanatismo da Lava Jato para conquistar um mandato de senador.

 

Outros nomes da República de Curitiba também são cogitados como virtuais candidatos nas eleições de 2018. Eles integram uma lista de personalidades, de variados setores, que se apresentam como renovadores da política. Estão chegando para mudar o país e nos livrar do atraso. Vamos conferir algumas dessas figuras – que sonham nada menos com a Presidência do Brasil.

 

Luciano Huck. Animador de auditório que reforma casas e carros, em seu programa semanal apresentado pela Rede Globo. Já montou seu circo várias vezes aqui mesmo em Alagoas, sempre tratado com reverência por autoridades que não perdem uma chance de se promover em presepadas de toda ordem.

 

Bernardinho. Técnico da seleção brasileira de vôlei, campeão olímpico com o time masculino. Em 2014, quase sai candidato a governador do Rio de Janeiro pelo PSDB, mas desistiu depois de pressão familiar. O sonho de transformar tudo isso que está aí, porém, continua vivo. Mais uma vez, sinaliza que pode partir para a briga nas urnas.

 

Roberto Justus. Primeiro genérico brasileiro de Donald Trump, ele ficou conhecido como especialista em “demissões” de subcelebridades em programas de televisão. É um desses casos doentios de exposição em qualquer meio de comunicação dedicado a tais bizarrices. Está no ar atualmente na Record TV.

 

Marcos Palmeira. Galã de novelas da Globo e militante do agronegócio que respeita as regras de proteção ao meio ambiente. É uma das vozes mais atuantes numa espécie de campanha permanente na defesa por um Brasil mais saudável. Também empresta sua consciência crítica a personagens de comédias desmioladas que rendem muita grana.

 

Flávio Rocha. É o dono das Lojas Riachuelo. Está para o Rio Grande do Norte, seu estado natal, assim como João Dória está para São Paulo. Vende a ideia de empresário moderno e empreendedor, em guerra contra a política profissional – embora revele muita espuma e quase nenhuma essência. Já foi denunciado pelas condições de trabalho em suas empresas.

 

Valéria Monteiro. Foi estrela como apresentadora do Jornal Nacional e do Fantástico, na TV Globo, durante a década de 90. Antes do jornalismo, foi modelo, bailarina e atriz. Hoje em dia se apresenta como ativista e vê na corrupção o maior problema do país. Anunciou que será candidata a presidente, mas ainda não escolheu um partido.

 

Lembro que a lista é formada por nomes de fora da política. E essa é exatamente uma das “qualidades” principais que todos vendem ao possível eleitorado. Se a coisa está mais feia do que nunca, o que você acha dessa renovação anunciada?

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Nosso futebol dominado pela máfia

Hoje, Alagoas pode escalar um segundo time na Série B do Campeonato Brasileiro. A missão está nos pés dos craques do CSA, no jogo da vida contra o perigosíssimo Tombense. Mas a jogada aqui será outra. Nunca houve, no Brasil, tanto debate sobre ética no futebol. A cada cobrança de lateral, a cada bola na trave, entre um escanteio e um drible da vaca, o bate-boca sobre honestidade entra em campo e sobe as arquibancadas.

 

Nada tão pertinente. O esporte mais popular no país sempre foi um laboratório de trambiques, politicagem e lances escandalosos de marmelada. A Confederação Brasileira de Futebol não passa de um aglomerado de dirigentes mafiosos, com representantes de todas as divisões, em todas as federações estaduais. A retranca dos marginais para manter o placar da goleada a favor da bandidagem é indevassável.

 

No comando da organização criminosa, ou seja, na presidência da CBF, está a figura bizarra de Marco Polo Del Nero. Acusado de lavagem de dinheiro e fraudes para receber propina, o elemento é alvo até do FBI. Por isso virou um refugiado na própria casa e não pode deixar o Brasil sem correr o risco de ser preso. Um vexame internacional, esse desmoralizado manda como quer no futebol brasileiro.

 

Herdeiro de uma tradição corrupta, Del Nero tem o pleno apoio de clubes e federações, todos domesticados à base de benesses variadas e repasse de dinheiro. As luvas compraram o voto na eleição; a mesada compra a cumplicidade permanente. Com esse esquema tático degenerado, o Brasil Futebol Clube afunda na última divisão.

 

Apesar dos escândalos mundialmente conhecidos, não temos em vista nenhuma chance de virar o jogo. Basta olhar ao nosso redor. Carreiristas da política tomaram os clubes de assalto e agem exclusivamente em nome de seus interesses pessoais. Fazem dos times de futebol currais eleitoreiros, com os piores métodos de gestão e chutes de autoritarismo.

 

Perto de tudo isso, o gol de mão, o impedimento não marcado e a simulação de pênalti não passam de truques em campeonatos juvenis. O debate sobre a ética nos gramados pode até pegar fogo e incendiar as torcidas, mas estamos bem longe do que é urgente pra valer. Nosso futebol tem de sair das garras dessa máfia.

 

No mais, bola pra frente e toda sorte ao CSA!

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A rejeição a Sergio Moro

Você percebe que o país atravessa um momento bem particular, ou mesmo sem precedentes históricos, quando lê na imprensa uma pesquisa sobre o índice de aprovação popular ao trabalho de um juiz, um integrante do Poder Judiciário. A notícia foi um dos destaques deste domingo, 24 de setembro. Alguém se lembra de outras épocas em que coisas assim aconteciam entre nós?

 

Saiu na grande imprensa. O levantamento é do Instituto Ipsos. Os dados informam como o povo avalia a atuação de onze personalidades da vida pública. Desse time, nove são políticos, com ou sem mandato. Os outros dois nomes são o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e o juiz Sergio Moro. (Ensaiando uma candidatura no próximo ano, Barbosa já é visto como um político).

 

Mas a pesquisa é notícia – com forte repercussão – por causa de Moro, o magistrado de Curitiba que está no coração da Operação Lava Jato. É sobre ele que vamos especular. A novidade é que, informa o instituto, disparou a rejeição à figura do rei da filosofia do “prendo e arrebento”. Seus métodos são aprovados por 48% dos entrevistados, mas o homem tem a rejeição de nada menos que 45% dos brasileiros. Empate técnico.

 

O resultado é péssimo para o juiz e toda a sua turma curitibana. A comparação que todos fazem é com o desempenho do ex-presidente Lula na mesma consulta popular. Os dados completos podem ser facilmente verificados em diferentes sites. Não vejo necessidade de reproduzir tudo aqui. Vou direto a alguma interpretação e a vários palpites sobre o quadro obtido.

 

O panorama é trágico para Moro porque, enquanto sua rejeição avança, a de Lula diminui. E enquanto a aprovação a Lula sobe, a do juiz desce, em relação aos meses anteriores. É bastante revelador que isso ocorra depois de o juiz condenar o ex-presidente – e após as acusações contra Lula feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci, em depoimento ao próprio Moro. O efeito previsível não seria o contrário?

 

Talvez sim, caso o juiz Moro agisse com o devido decoro e não tivesse se transformado numa festiva celebridade, a receber troféus como se fosse o último herói do nosso tempo. Sua presença no cinema, com saquinho de pipoca e tudo, para ver o filme que o trata como dono da moralidade nacional, é o exemplo definitivo de alguém dominado por uma vaidade indecente.

 

Ao que parece, o grande público tende a repudiar, cada vez mais, a boçalidade estridente de um membro da Justiça que, afinal, deve se comportar como um magistrado, e não como um inimigo do réu, seja ele quem for. Um convicto adepto da estratégia de se valer do barulho na imprensa para emplacar suas teses, Moro é vítima do veneno previsto em sua própria receita.

 

Não discuto aqui a culpa ou a inocência de Lula. Trato dos métodos de investigadores e do Judiciário. O juiz vive o mesmo drama dos procuradores juvenis da República de Curitiba. De maneira irresponsável, e com manifestações cretinas, fazem política o tempo todo, atacam as instituições com inédita desfaçatez e condenam investigados pelas redes sociais. Parece um bando de maníacos descontrolados.

 

A pesquisa, que ajuda Lula e repudia Moro, expressa a percepção desses abusos em série. Escrevo mais uma vez o que está em textos anteriores: precisamos combater o erro, a corrupção e a delinquência, é claro; mas isso não pode ocorrer por meios ilegais e atos delinquentes.

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A gritaria sobre uma exposição e o eterno mistério da arte

Aquela exposição proibida em Porto Alegre ainda é notícia – e até fora do Brasil. Uma abordagem comum na cobertura da imprensa sustenta que uma “onda conservadora” forçou o banco Santander a desistir do evento, depois que o Movimento Brasil Livre, o MBL, denunciou que algumas obras eram ofensivas a valores cristãos e exaltavam a pedofilia e a zoofilia.

 

O caso, do qual já tratei aqui, mistura um bocado de temas: política, liberdade, uso da censura, direitos individuais, religião, ideologias, vozes da direita e da esquerda. Católicos e cristãos em geral se sentiram particularmente atingidos pela suposta agressão a símbolos de fé, considerados sagrados. Para esses, qualquer argumento em defesa da exposição será inútil. Dogmas descartam o diálogo.

 

Mas o ponto que me interessa agora é outro. O bombardeio de opiniões e impropérios ressuscitou um velho debate e recolocou na praça o dilema igualmente antigo, no qual já se entranharam pensadores de todas as correntes, em todas as épocas: o que é a arte, afinal? A pergunta é praticamente um fantasma que se recusa a dormir no além e retorna quando menos esperamos.

 

Sim, porque um dos ataques mais comuns às obras expostas pelo banco garante que imagens escatológicas representam tudo, menos uma expressão artística. Não faltaram aqueles que decretaram que arte é a expressão da beleza e do sublime, algo construído com a nobre finalidade de nos dar prazer e até doses de felicidade. A tese é uma inocente e equivocada viagem no tempo.

 

É um tanto desconcertante – mas não surpreendente – que o conceito do belo ainda seja, para tantos, critério definidor na criação do artista. É uma regressão de séculos. Estivéssemos ainda sob tal paradigma, o mundo jamais teria conhecido a era da modernidade e todas as vanguardas que demoliram fronteiras, ampliaram modos de linguagem e libertaram nosso olhar para ver o infinito. Falo o óbvio, eu sei.

 

Nossa resistência à estranheza parece nascer com o DNA. Pular fora do convencional será quase uma traição, ou um pecado mortal, a convicções forjadas na matéria do idealismo. Quando essa rendição ao simplório se une a tabus e crenças religiosas, o ciclo se fecha em níveis irrecuperáveis. É o triunfo do fanatismo. Ou algo por aí. Guiados por tais valores, ainda que seja pura arte, só veremos danação.

 

De tão sedutores, o erro e a tolice dominam até aqueles que detêm instrumentos valiosos de análise. Penso na literatura e no grande poeta Ferreira Gullar. Em mais de uma entrevista, em seus últimos anos de vida, declarou que considerava um escritor como Samuel Beckett “um grande chato”. E explicava que, para ele, o irlandês produziu uma obra que deixa o leitor em depressão.

 

É uma avaliação primária, um erro indefensável, ainda que se trate de Ferreira Gullar. Procurar boniteza e conforto na música, na pintura, na instalação ou nas páginas de um romance não faz nenhum sentido. Como disse, seria andar para o passado, para bem antes de tempos medievais.

 

Mas, diante do debate sanguinolento que se espalhou, suspeito que seja uma guerra perdida. De todo modo, se no terceiro milênio ainda nos perguntamos o que é a arte, e qual a sua função em nossas vidas, não serei eu, tão perdido nesse mundo quanto você, a desvendar tamanho mistério.

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Professor aloprado e ódio ao jornalismo

Uma das coisas mais exóticas que descobri nos tempos de universitário – isso já faz trinta anos – foi que existe uma fanática e indestrutível aversão ao jornalismo por parte dos professores de jornalismo. Parece uma contradição inexplicável, mas é assim mesmo nas faculdades de Comunicação Social. Ao menos nas universidades públicas federais, eis uma tradição que se estabeleceu definitivamente.

 

Pelas informações que circulam, sei que hoje a situação é rigorosamente a mesma, ou talvez até mais grave. Nas aulas de jornalismo, aprende-se de tudo, menos como fazer uma pauta, apurar um assunto, escrever uma reportagem e outras habilidades que nossos mestres julgam inúteis e desprezíveis. Altamente qualificados, estão na academia para cumprir missões mais nobres do que essas futilidades da imprensa.

 

Um dos objetivos principais de mestres e doutores é revelar ao pobre aluno o admirável mundo novo da “consciência crítica”. Do curso de jornalismo você pode sair prontinho para ser um ativista das causas mais urgentes da humanidade. Já informações sobre texto e edição, por exemplo, aí não. Essas banalidades não interessam a tais pensadores, ainda que não façam a menor ideia do que seja uma redação de verdade.

 

Não importa a disciplina, o mantra na cabeça de professores é esculhambar os grandes veículos de imprensa do país. O problema mortal é que só sabem fazer isso – e repetem o palavrório ao longo de décadas, desde a criação do curso na universidade brasileira. Essa postura populista é bem conveniente, serve de biombo para ocultar a reincidente mediocridade na sala de aula.

 

Outra marca assustadora é a total ignorância dos doutores sobre a fascinante história da imprensa. Nunca vi um professor fazer qualquer menção a episódios, nomes ou momentos decisivos que tivessem no centro as páginas do jornalismo praticado no país ou mundo afora. Livros existem. Mas ninguém lê nada no planeta paralelo em que vivem os que deveriam ensinar algo sobre jornalismo.

 

No curso de Comunicação, as aulas versam sobre ideologia, status quo, hegemonia, cultura dominante, cultura marginal, combate à burguesia, comunicação de massa, comunicação popular, brechas para mensagens alternativas... É a cartilha perfeita de um marxismo rebaixado. Para repetir essa ladainha, ninguém precisa estudar nada. É o mundo ideal para o professor aloprado.

 

Tudo isso ganha uma fachada de modernidade quando o professor titular navega por uma pegada transdisciplinar. Para isso, basta recorrer a algum intelectual da moda, de origem francesa, que alia divagações ilegíveis a uma repaginada militância de modelo progressista. É mais uma roupa nova para o esqueleto de sempre.

 

Com a internet, abriu-se o vasto horizonte do mundo virtual e suas redes sociais. Sem dúvida um caminho valioso para pesquisas. Mas, limitados e pragmáticos até a medula, os mestres já despejam sobre esse campo os mesmos cacoetes e charlatanices com os quais sempre exerceram a arte de ensinar. Ou seja, conhecimento de jornalismo que é bom, das bancas universitárias, não sai nada.

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Um secretário por um punhado de votos

O troca-troca de nomes em prefeituras e governos estaduais segue em ritmo desenfreado por todo o país. Por aqui, todos os dias ouve-se falar em titulares de cargos ameaçados de despejo – e, para se completar a operação, também se ouve falar dos candidatos a ocupar o lugar dos despejados. Algumas mudanças já ocorreram e outras estão a caminho.

 

Desgraçadamente, o que move essa frenética “reforma de secretariado” não é qualquer planejamento estratégico para incrementar a gestão pública. Exonerações e nomeações no Diário Oficial passam longe dos critérios de desempenho e competência. É a política, sua besta, dirão a mim os nossos bem-informados especialistas em bastidores do poder. A eleição de 2018 está logo ali.

 

É isso mesmo. E é também um tanto chocante como nos acostumamos com essa prática, tratando com naturalidade, e até com alguma reverência, aquilo que não passa de um casuísmo rasteiro e escancarado. O resultado dessa miserável filosofia de governo jamais dará resultados positivos para a população. Teremos sempre um time jogando em função de metas eleitoreiras.

 

A substituição de um secretário desencadeia mudanças em cascata numa equipe que será chefiada, agora, pelo novo titular do cargo. E aí, lá se vai para o lixo um conjunto de ideias e projetos que estava em execução pelos desalojados. Claro, o novo dono do pedaço chega abarrotado de planos originalíssimos, disposto a começar tudo a partir do zero.

 

O mal atravessa toda a máquina burocrática brasileira, do governo federal aos municípios. É uma tradição intocada ao longo de nossa história. Uma reforma política pra valer teria de implodir essa aberração consagrada no país. Mas, olhando para o Congresso Nacional, não há qualquer vestígio que aponte nessa direção.

 

Pelo contrário. O cenário desolador insinua que estamos condenados a um estado de coisas que despreza o interesse do país de maneira obsessiva. Não é por outra razão que, por exemplo, prefeitos se sentem à vontade para montar suas equipes nomeando a mãe, a mulher, o genro e os filhos para ocupar os principais cargos na administração pública. Desde sempre, não há perigo de dar certo.

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Quando a TV Globo decidiu que Alagoas teria horário de verão

O que determina uma decisão de governo? No campo das formalidades e das obrigações legais, são os interesses coletivos de uma sociedade. Essa é a resposta mais óbvia e previsível que se pode encontrar. Nunca sabemos, no entanto, o quanto podem pesar demandas de outra ordem por trás de um simples decreto. Vou dar um exemplo de como uma iniciativa oficial pode ter motivação bem particular.

 

O Brasil pode abandonar o horário de verão. A decisão teria como causa a irrisória economia no consumo de energia elétrica registrada nos últimos anos. Segundo informações divulgadas pela imprensa, não há consenso entre as autoridades do setor quanto ao cancelamento da medida. O horário especial vem sendo adotado no país de maneira ininterrupta há quase três décadas. Mas a estreia foi bem lá atrás, em 1931.

 

A regra se modificou ao longo do tempo. Inicialmente adotado em grande parte do país, o fuso especial vigora hoje em dez estados e no Distrito Federal. Sul, Sudeste e Centro-Oeste são as três regiões em que os relógios são adiantados em uma hora. Se não for cancelado, o horário de verão começa em outubro e vai até fevereiro do próximo ano.

 

Nos primeiros anos da década de 90, a Bahia era o único estado nordestino no horário de verão. Mas em 1995 um decreto da Presidência da República incluiu mais dois estados no pacote: Alagoas e Sergipe. Essa decisão não era decorrência de possível economia de recursos públicos. No caso de Alagoas, o decreto foi resultado de um acordo entre o governo estadual e a TV Gazeta.

 

Naquele tempo, os estados que originalmente ficavam de fora do horário de verão poderiam adotar a medida, bastando para isso formalizar um pedido à Presidência da República. Foi o que fez o então governador Divaldo Suruagy, alegando que, excluído do horário especial, o estado viveria transtornos com um fuso diferente de Brasília.

 

A verdadeira razão, no entanto, foi uma pressão da TV Globo sobre suas afiliadas para que convencessem governadores a agir pela adoção da medida. Motivo da pressão: a diferença dos relógios atrapalhava a programação da rede. Entrosado com a direção da Organização Arnon de Mello, Suruagy concordou em ajudar o poderoso veículo de comunicação.

 

E assim foi feito. Como editor de telejornais da TV Gazeta na época, lembro da satisfação da diretoria e funcionários com a decisão do governador. Um alívio para todos da casa. Para atender exclusivamente ao desejo da Globo, a população alagoana adiantou os ponteiros do relógio e viveu sob o horário de verão, de outubro de 1995 a fevereiro de 1996.

 

O episódio combina plenamente com as tradições que marcam a relação da TV Globo com o poder. Como está comprovado, por muitos anos o ministro das comunicações era escolha direta dos donos da emissora. As ordens do doutor Roberto Marinho a presidentes, em diferentes épocas, formam um capítulo singular da vida pública brasileira.

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